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Fazia pouco mais de uma semana desde que Lisa Cuddy e House haviam se encontrado no parque, e eventualmente, vieram a reunirem-se alguns dias depois para resolver os detalhes do seu retorno ao PPTH e uma possível reabertura do Departamento de Diagnósticos. Eles não trocaram mais que palavras necessárias. Apesar da reaproximação, ainda sentiam-se desconfortáveis próximos um do outro.
Era uma Segunda-Feira como outra qualquer, e Lisa Cuddy conferia o horário compulsivamente. Ela estava dominada pelo nervosismo. Já havia passado das 10h e House ainda não havia comparecido ao seu 1º dia de trabalho. Ela temia que ele viesse a desistir antes mesmo de começar.
Foi pouco depois das 12h que um médico boçal, com um sorriso sarcástico e mancando mais que o costume entrou pelas portas do PPTH. Enfermeiras o encaravam de forma não muito amistosa; zeladores imaginavam o quanto lucrariam com as novas apostas que de certo voltariam a correr pelo hospital; e pacientes indiferentes olhavam-no com cara de tédio, a espera de um atendimento.
Ignorando-os, House fez o seu caminho até o escritório de Wilson, que ainda atendia o último paciente daquela manhã, uma jovem pálida com lenço floral sob os cabelos.
- Hey Jimmy Boy, advinha quem chegou para o almoço?
- House! Eu ainda estou com uma paciente, por favor... SAIA.
- Você – falou House apontando para a jovem – vai morrer em alguns meses, mas é bonitinha, então deixa seu telefone com o garoto Jimmy, que ele vai te ligar marcando um encontro com final feliz.
- E-eu, eu não... – Wilson começou a balbuciar, mas já era tarde demais. A paciente havia se levantado e ia em direção à porta, claramente ofendida.
- Não ligue Jimmy boy. Ela não fazia o seu tipo, de qualquer forma. Agora vamos lá... Você tem um almoço a pagar, garanhão.
- Seu idiota! Isso são horas, House? A Cuddy vai te matar.
- Não se eu for um bom rapaz e fizer minhas horas na clínica. – disse House fazendo uma cara ironicamente inocente.
Após o almoço, House seguiu para a clínica a fim de atender o menor número de pacientes possíveis. Tanto quanto ele queria trancar-se em uma sala e jogar pelo resto da tarde, ele sabia que no momento era melhor não dar motivos para o conselho o chutar de uma vez por todas para fora do Hospital. (além de que era um modo de impressionar Lisa Cuddy, mesmo que ele jamais viesse a assumir).
- Hey Brenda, pare de babar pela minha beleza colossal e coloque aí: Gregory House, comparecendo ao campo de tortura ás 12h.
- Não ouse fazer isso, Brenda. E House... Já são duas da tarde, por onde você andou? - perguntou Cuddy, que havia acabado de entrar na clínica, visivelmente cansada.
- Oh c'mon. Chegar no horário é para os fracos. Além do mais, a noite foi muito animada com as prostitutas... Você sabe, as meninas andam muito exigentes, Cuddles. - disse House, caminhando para a sala de exames nº2, não a dando direito à réplica.
Cuddy apenas sorria... Era bom tê-lo de volta.
A semana foi passando sem demais novidades. House a contragosto fazia as suas horas na clínica, ignorava alguns pacientes, mas não perdia a chance de ofender a todos. Chegara a almoçar algumas vezes com Lisa Cuddy, trocaram provocações, mas não passara disto.
As coisas estavam indo de vento em poupa, até que chegou a primeira reclamação oficial, originada por um paciente com coriza, que acreditava veementemente estar tuberculoso.
Ligando para a clínica, Cuddy solicitou a Brenda que House viesse a sua sala o mais breve possível.
Com passos firmes, e um sorriso vitorioso no rosto, Enfª Brenda invadiu a sala de exames em que House distraidamente assistia mais um dos seus episódios de General Hospital.
- Vamos Dr. House... A Drª Cuddy quer vê-lo 'gabinete real' agora.
- Oh yes... Acho que está na hora de uma rapidinha.
- Eu não estaria tão confiante assim. Faz tempo que não a vejo tão brava.
- Você sabe, criatura mal comida... Isso só pode significar uma coisa: sexo selvagem.
Caminhando com passos lentos e ritmados, House seguiu para a sala de Lisa Cuddy, ou o gabinete real, como era conhecido entre os funcionários. Ele sabia que coisa boa não estava por vir, mas ainda assim, enfrentaria a fera.
- Hey chefe, você ainda está vestida? Vamos mulher... Se quiser uma rapidinha, temos que ser rápidos.
- Oh shut up! O que você tem na mente, House? Aquele homem que você ofendeu é um dos maiores doadores do hospital.
- Estamos falando de quem, exatamente?
- Robert O'Neill. Custava gentil ao informar que a coriza não era tuberculose?
- Idiotas precisam ser tratados como idiotas.
- Sabe quantas reclamações indiretas recebi desde que você retornou? House, se estas pessoas estão aqui é porque elas precisam nem que seja de uma aspirina para sentirem-se melhores. Elas procuram a emergência por estarem com dor.
- Vamos lá Cuddles, eles são uns imbecis mimados. Essas pessoas não sabem o que é dor e ficam por aí reclamando.
- Ele estava sofrimento, House.
- Não seja estúpida.
- Estúpida? Você põe a verba do hospital em perigo por causa da sua síndrome de onipotência, e me vem falar de estupidez... Você não tem o direito de medir o sofrimento deles.
- Tenho. Tenho o direito e meço! Aqueles palermas dizem que é dor uma apendicite, mas não sabem o que é ser mutilado sem anestesia, não sabem o que é ter a ferida aberta por dias, ou agonizar em meio a uma poça de sangue em meio ao nada, sem esperanças.
- Hey cara, vai com calma. –
disse Saeed que havia chegado minutos atrás e decidira intervir, ao ouvir vozes alteradas vindas do escritório da sua namorada.
- Saeed, por favor... – disse Cuddy, nervosa pela presença dos dois homens no mesmo ambiente.
- Wow, olha se não é o novo brinquedinho sexual da nossa querida Dean of medicine. Você aderiu ao sistema de cotas, Cuddles?
- HOUSE! Saia da minha sala AGORA.
- Ótimo, apenas lembrem-se de fechar as persianas antes de começar o show de saliências, afinal não queremos as crianças traumatizadas. – disse House usando a ironia para esconder a mágoa.
Após a saída tipicamente teatral de House, Cuddy olhou em direção a Saeed. Ela sabia que teriam mais uma pequena discussão.
- Saeed, já te pedi várias vezes para não entrar em meu escritório sem ser anunciado.
- Não mude o foco da conversa, Less. Não acredito que você deixa esse imbecil levantar a voz em seu escritório.
- O House... Ele tem um ponto, uma razão. Você sabe, ele está machucado com toda essa situação.
- Pela milésima vez, Lisa: Eu não me importo com o House ou seus problemas, apenas exijo que você coloque outro médico para supervisioná-lo.
- Você exige? Sério? Só pode ser piada.
- Você é minha, e eu me preocupo com você, com o seu bem-estar. É errado?
- Preocupar é diferente de controlar, Saeed.
- Lisa, entenda...
- Saia... Apenas saia.
E ele saiu. Discutir com Lisa Cuddy naquele momento não iria levar a lugar algum, mas Saeed estava disposto a trocar umas duas palavras com House. Seguindo para o seu escritório, ele observou o médico taciturno, brincando com uma bola cinza.
- Bom dia Dr. House, será que podemos conversar?
- Na verdade, não. Você está atrapalhando o meu futuro sono de beleza.
- Parabéns, isto é muito maduro da sua parte. Ainda não tivemos o prazer de sermos apresentados. Meu nome é Saeed Badawi... Sou namorado da Lisa.
- Então você é o ''afortunado nômade pequenino''? - disse House, fazendo-se de chocado.
- Não sabia que você possuía conhecimento sobre a cultura Suarili. – disse Saeed confuso.
- Sou devoto do deus Google.
- Muito esperto da sua parte, mas não vim aqui para discutirmos o significado do meu nome, e sim para exigir que você mantenha toda essa sua mediocridade e infelicidade longe da Lisa.
- Oh boy... Poupe-me os elogios. Fico tímido com tamanha gentileza.
- Não me importo com o seu sarcasmo, Dr. mas exijo que deixe a Lisa em paz.
- Você é dono da LISA? Bem, eu acho que não, e fique sabendo que não estou indo para desistir dela tão fácil assim.
- Você não a ama.
- Quem falou em amor? Por favor, não me faça querer vomitar.
- Olha aqui House, seus joguinhos podem funcionar com os outros, mas não comigo. Você não ama a Lisa, apenas tem o sentimento de posse sobre ela. Você a quer de volta, porque não suporta ser infeliz sozinho.
- Saia da minha sala. – disse House, adquirindo um semblante sombrio.
- Saio... Mas pense no que acabei de te dizer.
Após Saeed bater a porta, House ficou ali, com a bola de tênis cinza nas mãos, olhar perdido no espaço e a mente a mil por hora.
O pior de toda a situação era imaginar que talvez Saeed tivesse razão. Vai ver não existia mais um ''nós'' entre ele e Cuddy.
Desde que voltara, nas noites frias em que a dor ultrapassava os limites toleráveis, era a idéia de um "nós" que o fazia resistir ao desejo de drogar-se. Ainda que não assumisse, era a esperança de um dia tê-la em seus braços novamente que tornava as noites solitárias possíveis, que o dava a confiança para seguir em frente, ignorar alguns pacientes idiotas na clínica, e ofender outros... O mesmo ''nós'' que o fez tolerar a dor, agora já parecia não mais fazer sentido.
Naquela sala escura, House permaneceu até o cair da noite. Ele queria afogar as mágoas em um copo de Bourbon, mas faltava-lhe coragem para atravessar a porta.
Passava das 21h quando House alcançou o estacionamento já deserto do PPTH. Um pequeno murmúrio de exaltação vinha da parte frontal, e aproximando-se, ele pode ver a silhueta de Lisa Cuddy em frente ao seu carro, procurando por algo. Chaves, talvez.
Dando-o um olhar rápido, Cuddy continuou a sua busca como quem procura a solução de todos os inconvenientes, enquanto House apenas a observava. De certo aquela visão nunca o cansaria.
As palavras de Saeed ainda povoavam a sua mente, mas ele precisava provar estar certo. Ele dissera não amar Lisa Cuddy, mas... Ora bolas, a quem ele estava tentando enganar? É claro que todo aquele sentimento estranho direcionado a outro ser humano não podia ser apenas posse, e ao vê-la, após de duvidarem do seu amor, só fez aumentar a necessidade de tê-la em seus braços.
Aproximando-se, ele pôde sentir o suave perfume de jasmim que emanava dos seus cabelos levemente ondulados; os traços do seu rosto envelhecido pelo tempo, mas que permanecia incrivelmente sereno; e os seus olhos baixos e cansados, que ainda assim conseguiam transmitir ternura.
Com um suspiro de alívio, Lisa ergueu um chaveiro da bolsa, finalmente podendo encarar Gregory House. A proximidade entre ambos era significativa, e de certo a tensão existente tornara-se palpável. Sem perder o contato visual, House afastou uma das mechas de cabelo que insistiam em cair sobre os olhos de Cuddy, e aproximando-se, uniu seus lábios castamente. Lisa o aceitou de bom agrado, pondo as mãos em sua nuca, aumentando o contato e abrindo espaço para a carícia entre as línguas. Era algo surreal, sentir que estava de volta à valsa dos sorrisos unidos.
Quando o ar fez-se necessário, House rompeu o beijo, mas permaneceram com as testas coladas, respiração ofegante, um tentando decifrar a imensidão do olhar do outro.
Passados alguns milenares segundos, House levou os lábios mais uma vez até os de Lisa Cuddy, afagou-lhe os cabelos e se afastou, deixando-a absorta, com um chaveiro nas mãos e os lábios marcados. Ela só conseguia pensar como um movimento ínfimo, guiado pelas emoções, pôde quebrar toda a segurança de uma certeza que parecia eterna.
