Capítulo Dez

A sirene tocou no fim das aulas do dia. Como sempre, os rostos dos alunos de Gina iluminaram-se de alegria.

Ela entristeceu. Se o dia estava terminado, teria de ir para casa e, conseqüentemente, pensaria. E era isso que não queria.

Com um suspiro, sentou-se e observou os alunos pegarem o material escolar. E continuou sentada depois que eles saíram, fechando os olhos.

- Senhorita?

Abrindo os olhos, viu o pequeno Jimmy Peto com suas sardas no rosto e seus cabelos lisos.

- Sim, Jimmy?

- Você não poderia trazer uma galinha para a aula de inglês algum dia, como aquele chef fez na nossa aula de tecnologia alimentar? Foi tão legal.

- Não acho que galinhas tenham muito a ver com literatura inglesa, Jimmy.

- Bem, eu tenho um porquinho-da-índia. Poderia trazer aqui se você quisesse.

Ela meneou a cabeça.

-Não, Jimmy. Ele provavelmente ficaria com medo.

O menino pareceu pensativo.

- Eu queria que Harry Potter fosse nosso professor nas aulas de tecnologia alimentar. Não a srta. Clearwater, que nos mantém em atividades com brotos de alfafa. - Ele pôs a língua para fora.

- Talvez ele volte uma hora dessas para ensiná-los. Bom dia, Jimmy.

- Obrigado. - Ele pegou a mochila e saiu da sala. Passou por Victoire, que vinha em sentido contrário e parou à mesa de Gina, entregando-lhe uma folha de papel.

Gina pegou o papel, que estava coberto de correções.

- Você escolheu canja como entrada - observou. - Com macarrão.

Victoire corou, mas assentiu.

- Estive praticando fazer uma massa. Só tenho duas semanas para praticar antes da competição. Estou na dúvida se faço uma musse ou uma torta de massa fo­lhada. O que acha?

Gina imaginou se Victoire teria tido coragem de pedir ajuda a alguém antes.

- Não sei, Victoire - murmurou ela, gentilmente. Não sou boa em culinária. Deveria ter perguntado à srta. Clearwater. Ou a Harry.

- Perguntarei a Harry, então - disse Victoire. Então acrescentou: - Você gosta dele, srta. Weasley?

A pergunta foi inesperada.

- Sim, gosto. Você também gosta muito dele, certo, Victoire?

A menina assentiu.

- Mas acho que Teddy não percebeu.

Gina ficou intrigada antes de perceber que Victoire usara a definição de uma garota de quinze anos para a palavra "gostar", no sentido amoroso, dando a entender que Teddy não detectara a atração que ambas sentiam por Harry Potter.

- Estou contente por ele me ter ensinado a fazer canja de galinha. Adeus, srta. Weasley.

- Até logo, Victoire.

Harry Potter. Qualquer lugar aonde ela ia, lembravam-na do efeito que ele tinha sobre a vida das pessoas. A transformação que efetuara em Victoire era um milagre. E a transformação que efetuara nela...

Gina meneou a cabeça com firmeza. Aquela transformação fora uma loucura temporária. Nada a ver com sua vida normal. Quando abriu a gaveta de sua mesa para pegar a bolsa, ligou o celular. Mas não havia mensagens. Ele não telefonara.

Por que deveria liga? Pensou quando saiu da escola. Ele a convidara para um fim de semana e este havia terminado. Os dois não tinham razão alguma para se ver novamente até quarta-feira, na aula de culinária. Harry estava ocupado e ela também. Tinham suas vidas e trabalhos, e algo bobo como um preser­vativo rompido não alterava nada.

O celular tocou. Ela parou no meio da calçada e vasculhou dentro da bolsa com dedos apressados. Não reconheceu o número na tela, mas não sabia o número de Harry de qualquer forma.

- Alô?

- É Gina Weasley?

Não era Harry, percebeu desapontada.

- Sim, quem está falando?

- Você não me conhece, Gina, mas meu nome é Colin Creevey, e alguém me deu o número do seu ce­lular.

Oh! O homem tinha sotaque galês. O dançarino de tango que Luna estava tentando apresentar-lhe.

A última coisa de que precisava naquele momento era um encontro com um homem. Todavia, era um amigo de Luna.

- Oh, sim. Obrigada por ligar, Colin. Como vai?

- Estou bem, obrigado. Eu estava pensando se po­díamos tomar um drinque juntos esta tarde. Já terminou seu trabalho por hoje?

- Sim, mas...

- Sei que está ocupada, mas só quero conhecer você, conversar por alguns minutos. Que tal nos encontrar­mos no Café do Benny? É perto de sua escola, acho, e você poderia parar lá no seu caminho para casa.

Ele era insistente. Conhecendo Luna, ela havia forne­cido os detalhes para Colin, pois o Café do Benny era na esquina da escola. Seria mais educado encontrar-se com ele e dizer-lhe pessoalmente que não estava inte­ressada em "encontros".

E o que mais tinha a fazer, afinal de contas?

- Está bem - concordou. - Como reconhecerei você?

- Não se preocupe - replicou ele alegremente. - Eu a conheço. Estou no Café do Benny agora, portanto, a verei em dez minutos.

Ela desligou o celular e dirigiu-se para o Café do Benny.

Estava bem iluminado, quase vazio naquela hora da tarde.

Um homem sentado a uma mesa perto da porta levantou-se tão logo ela entrou e se aproximou, com a mão estendida.

- Gina? Sou Colin. Que bom que você veio.

- Prazer em conhecê-lo, Colin. - Ele era mais bai­xo do que ela, com cabelos louros ralos. Não o seu tipo, em absoluto. Gina imaginou o que havia passado pela cabeça de Luna.

Talvez ele fosse realmente um bom dançarino.

- O que gostaria de beber?

Ela pediu água mineral e observou Colin ir até o bar. Devia ter pedido café. Quase não dormira na noi­te anterior e sentia-se muito tensa. E sua cama estivera vazia.

Era incrível o fato de, depois de somente duas noi­tes, ter se acostumado a dormir nos braços de Harry.

O melhor mesmo era ter pedido uma taça de vinho e tentar relaxar.

No entanto, não deveria beber se estivesse grávida.

Colin retornou com um copo de água e um caneco de cerveja. Quando se sentou na frente dela, Gina perguntou-se o que estava fazendo num Café com um homem quando havia a possibilidade de estar carre­gando um bebê de Harry.

- Sinto muito, Colin. Sei que disse a Luna que você deveria ligar-me para um encontro, mas não acho que tenha sido uma boa idéia. - Colin parecia surpreso. - Quero dizer, você parece um bom sujeito, mas...

- Você está saindo com outra pessoa - concluiu ele.

Não mais.

- Bem, sim.

Ele assentiu.

- É algo novo. Aceito isso. Ele apareceu antes de mim, huh?

- Mais ou menos. Sinto muito, Colin. Não pretendia enganá-lo, mas achei melhor encontrá-lo e dizer-lhe pessoalmente.

Colin tomou um gole de sua cerveja.

- Fiquei desapontado, Gina, mas satisfeito por ter sido honesta comigo. - Ele inclinou-se sobre a mesa. - Ele é realmente muito especial? Alguma chance de você trocá-lo por mim?

- Ele é muito talentoso - disse ela cautelosa, brin­cando com o copo de água mineral.

- E uma aventura ou você está pensando em casa­mento, filhos, todas essas coisas?

Casamento, depois filhos. Esta era a ordem que gostaria.

- Oh, é cedo para isso.

- Você já não tem crianças suficientes na escola?

- Não. Quero filhos meus, um dia.

Queria filhos. Ansiava por eles. Toda vez que via um bebê, pensava naquele que perdera, e agora pen­sava no que teria algum dia.

Estar grávida de um filho de Harry não era uma boa idéia. Se tivesse escolha, optaria por ser mãe sol­teira. Afinal, uma criança importava mais do que uma aliança no dedo.

- Então, como resolveu aprender a dançar tango? - perguntou ela, mudando de assunto.

Ele riu.

- Oh, não sei. Acho que aconteceu. - Que resposta estranha! E por que a pergunta o fizera rir? - De qual­quer forma, chega sobre mim. Conte-me mais sobre você.

Gina empurrou a cadeira para trás. Como Luna pensara que ela se interessaria por aquele homem, que parecia ficar mais estranho a cada segundo? Talvez Luna o tivesse conhecido num bom dia. Para ser honesta, Gina também não estava no seu melhor dia.

- Sinto muito, Colin, mas tenho de ir agora. - Ela levantou-se. Ele fez o mesmo.

- Tem certeza? Gostei de conversar com você.

- Sim, tenho certeza. Foi um prazer conhecê-lo. -Ela estendeu a mão e ele a apertou.

- Boa sorte com seu novo homem, Gina.

- Obrigada - disse ela e deixou Colin e o Café. Passaria aquela noite pensando em sua aula para o dia seguinte, disse a si mesma no caminho de casa. Faria tudo que não fizera naquele fim de semana anterior. E desligaria o telefone, de modo que não esperasse pelo seu toque. Porque ele não ligaria, com certeza.

Então olhou para a frente do seu edifício e parou.

Um Jaguar vermelho com Harry Potter en­costado nele.

Os dois se viram no mesmo momento, e Harry sorriu-lhe.

O coração de Gina disparou.

- Gina. - Ele se aproximou e tomou-a nos braços.

Ela perdeu o fôlego.

- Senti sua falta - murmurou ele.

- Não seja bobo, não faz nem um dia que nos vimos - disse ela, sabendo que estava fingindo.

Ele afastou-se um pouco para lhe acariciar o rosto.

- Sensata srta. Weasley.

- Imagino que tenha estado ocupado.

- Fiquei no Magnum o dia inteiro. Eles se saíram muito bem sem mim este fim de semana.

- Deve ser terrível descobrir que você não é tão importante quanto pensava.

Harry sorriu.

- Você está com medo de que eu a cative outra vez, não está?

- Sim.

- Não a culpo, porque isso é exatamente o que vim fazer.

E ele já estava fazendo isso. Gina queria tirar-lhe o paletó, a camisa, sentir a textura do peito largo.

- Se você espera que eu caia a seus pés por causa do seu carro cintilante, pode esquecer.

- Oh. Meu plano A foi por água abaixo - brincou ele. - Procurei-a na escola primeiramente, mas foi tarde demais. Você está vindo de lá?

- Mais ou menos.

- Já comeu?

- Nada desde o almoço.

- Perfeito. - Ele a liberou, abriu a porta do carro e pegou uma caixa de isopor.

- O que é isso?

- Abominável Plano B. Posso entrar?

- Sim.

- Ótimo. - Ele voltou ao interior do carro e tirou de lá uma garrafa de vinho.

O apartamento de Gina era bem menor do que a casa dele. Harry estava parado na sala de estar e parecia tomar muito espaço do ambiente, não somen­te pela sua altura, mas por causa de sua energia e presença. Ela o viu observar a mobília com seu sofá cheio de almofadas bordadas, as paredes repletas de livros, os vasos de planta no peitoril das janelas.

Ele colocou a caixa de isopor e a garrafa sobre a mesinha de centro e passou os dedos pelas viçosas folhas verdes das plantas.

- Você é amante da natureza e cuida bem delas.

- Não sou eu, é a poesia que leio para elas em voz alta. - Elas gostam particularmente de Keats e dos versos de Bob Dylan.

Ele largou a folha.

- O que há dentro dessa caixa? - perguntou Gina.

Ele tirou a tampa e pegou uma sucessão de caixinhas de plástico com comida de pronta entrega. Nomeou o conteúdo, com expressão feliz.

- Ravióli de lagosta escocesa e camarões à grega. Pato na laranja, nabos brancos e molho foie gras. E uma torta de limão para a sobremesa.

- Você trouxe tudo isso do Magnum?

- Meu cozinheiro não faz lagosta. Você tem alguns pratos? E alguns cálices? - Ele tirou do bolso um saca-rolhas e abriu a garrafa de vinho. Gina foi buscar duas peças de jogo americano, guardanapos, pratos, copos e talheres. Quando retornou, Harry pôs a mesa para eles. Abriu os recipientes de alumínio e um aroma delicioso preencheu a sala. Gina percebeu que estava com água na boca. Ela sentou-se no sofá.

- Vinho? - perguntou Harry, sentando-se a seu lado, e acrescentou antes de esperar a resposta: - Sei que está pensando que há uma possibilidade de você estar grávida.

- As chances são muito reduzidas. Estou certa de que tudo ficará bem. - Ela não conseguiria ser menos convincente se tentasse.

Ele tomou-lhe a mão.

- Você está preocupada e não posso culpá-la. Mas, Gina, se estiver grávida, não farei a mesma coisa que Dino fez com você.

Os olhos dela queimaram e ela piscou para conter as lágrimas.

- Isso não vai acontecer, portanto, é irrelevante.

- Pode acontecer. E precisa saber que, se acontecer, não estará sozinha. Eu ficaria com você e com o bebê. Olhe para mim, Gina.

Ela o fitou. Os olhos esverdeados eram firmes e sérios. E diferente dela, ele parecia completamente sincero,

Harry era bom em parecer sincero. Certamente uma habilidade que havia aperfeiçoado ao longo dos anos, outra arma no seu arsenal de charme.

- Isto não foi o que declarou quando me pediu para passar o fim de semana com você - murmurou ela.

- Não, não foi. E tentamos evitar. Mas, se acontecer, faremos o melhor. Certo?

Não havia um único traço de sorriso nos lábios de Harry.

Era um homem acostumado a seguir o próprio ca­minho, acostumado a ter independência e prazer. Mais importante: um homem que conduzia sua vida fazendo as pessoas o apreciarem.

Gina assentiu, e Harry abriu um sorriso. Então a puxou para o seu colo.

- Estive pensando em todos os minutos que passa­mos juntos - murmurou. - Estava louco para tocá-la, para falar com você. Quase irrompi em uma de suas aulas, mas tive medo de ser banido da escola.

- Se você levasse MacNugget outra vez, teria asse­gurado sua popularidade pela vida toda.

- Não queria fazer um show com uma galinha, e sim raptar a professora e levá-la embora para fazer amor comigo.

As palavras a excitaram, fazendo seu corpo querer fundir-se com o dele. Reconhecia, finalmente, a ver­dade sobre aquela situação.

Podia preocupar-se com o futuro, com sua possível gravidez. Mas a realidade era que Gina o queria tanto que aquelas preocupações não faziam diferença.

Entrelaçando os dedos nos cabelos dele, beijou-o com paixão. Queria prová-lo, perder-se no infinito de seu corpo e de sua alegria de viver.

Sentada no colo de Harry, sentiu a ereção contra a sua coxa, e gostou disso.

Com dedos ágeis, começou a desabotoar-lhe a ca­misa, e tocar-lhe a pele quente, enquanto Harry pas­sava as próprias mãos por baixo da blusa para segurar-lhe os seios.

- Nossa comida vai esfriar - sussurrou ela e então gemeu quando ele provocou seus mamilos com os polegares, sob o sutiã.

- Isto - disse ele, beijando-lhe o pescoço - é exa­tamente o que eu esperava que acontecesse quando trouxe a comida aqui.

- Abominável Plano C - concordou ela.

- Não me abandone, Gina. Eu não poderia suportar isso.

- E não posso resisti a você - sussurrou ela.

A ereção de Harry era visível agora. Ela se levan­tou e, em seguida, ajoelhou-se diante dele no tapete.

- Estou faminta - murmurou e abriu-lhe o cinto com ar malicioso.