100 Poison+Ice ficlets
Chibiusa-chan
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Título : Alucinações
Tema : #48 Haunted (assombrado)
Palavras : 621
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Camus estava sentado no tapete felpudo, um copo de vodca nas mãos, a lareira acesa diante de si. Podia ouvir os dois garotos treinando na nevasca lá fora, os sons dos dois corpos se chocando, às vezes até algumas risadas.
Era quando estava assim, sozinho dentro de casa, que se sentia bem. Não que não gostasse da companhia dos rapazes, mas eles eram muito barulhentos como todo adolescente. Naquele santo silêncio, podia ouvir com clareza os próprios pensamentos, organizá-los e tomar suas decisões.
Como a que dizia respeito às cartas que vinha recebendo da Grécia – e que não eram do Grande Mestre.
Ele pensou que, com toda a distância que o Santuário – e ele mesmo, por que não ? – os impusera, toda aquela confusão dentro de si cessaria. Esqueceria o grego, trancafiaria seus sentimentos e tornaria a possuir as rédeas da sua vida. Sabia que Milo relutaria com o súbito afastamento, mas as coisas esfriariam tanto quanto a temperatura do lado de fora da casa e tudo voltaria aos devidos eixos.
Não contava, porém, com a persistência de Milo.
O que ele pensou que duraria alguns meses já se arrastava por anos. O escorpiano nunca lhe deixava em paz, mandava-lhe cartas todos os meses contando tudo o que se passava dentro do Santuário e com ele próprio. No começo, Camus não o respondeu, achando que tudo seria abafado com o tempo. Mesmo assim, volta e meia ele o encontrava em seus sonhos, ou então ouvia-o chamar por si quando o vento batia com força na janela no meio da nevasca.
A presença do outro em sua vida era tão intensa que, depois de oito meses, acabou se rendendo e respondendo ao outro, sempre em cartas curtas e secas. Achou que, se parasse de ignorar e enfrentasse o problema, tudo se resolveria. Obviamente, foi o contrário que aconteceu.
E era exatamente nestes poucos momentos de paz, quando se dava ao luxo de deixar os garotos treinando sem supervisão, que ele percebia o quanto fora tolo em achar que a distância seria suficiente para eles. O calor do fogo lhe assombrava, lembrando-lhe da Grécia e de Milo, seu jeito expansivo que irradiava pelo ambiente. Sempre se sentava com as cartas, relendo-as como se pudesse ouvir a voz do grego recitando-as ao pé do ouvido. Depois balançava a cabeça, assustado.
Estava enlouquecendo, assombrado pela lembrança que tinha do outro ?
Bebeu um gole de vodca e pegou um pedaço de papel abandonado no tapete. A última carta que recebera, naquele mesmo dia. Pensou em não respondê-la depois de tamanha ousadia, mas aquela alucinação da voz de Milo lhe dizendo as palavras exatamente como estavam escritas, com sua voz masculina e rouca, fazia os pêlos de sua nuca se arrepiarem.
Se ele estava enlouquecendo, Milo também estava. Definitivamente.
Tinha um papel em branco nas mãos e uma caneta, mas não conseguia se decidir se respondia ou não à carta. E quanto mais ele pensava nisso, mais ele via com nitidez a imagem de Milo em sua cabeça, seu jeito de andar, sua risada, a maneira como ele colocava os cabelos atrás da orelha. O que ele ia fazer ?
Engoliu o restante da vodca de uma vez e jogou tudo, a carta e o papel em branco, dentro de sua cômoda. Estava intoxicado demais com as peças que sua mente lhe pregava, e o efeito do álcool em seu sistema nervoso. Talvez depois...
"Camus,
Preferia fazer isso pessoalmente. Já não agüento mais essa distância que nos foi imposta, nem as suas evasões. Não consigo parar de pensar em você. Se você permitir, gostaria de passar um final de semana na Sibéria com você. Só nós dois, sem os rapazes. Para conversarmos, nos entendermos, e...
Milo."
Fim.
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N/A: A cena do Camus na Sibéria, na frente da lareira, estava insistentemente gravada na minha cabeça por semanas.
Por Chibiusa-chan.
16 de março de 2009, 20:26.
E abaixo a reforma ortográfica !
