OLá! Não, eu não morri!
Talvez, quase... Nunca tive tantos acidentes de carro em tão pouco tempo! Graças a Deus, a culpa não foi minha em nenhum... mas nada de grave. LOL
Peço desculpa pela demora, mas as responsabilidades aumentam cada vez mais e o tempo é cada vez menos. Exemplo disso é este capitulo que teve que ser cortado pela metade só para ser publicado mais cedo.
Uma curiosidade: Relativamente ao capitulo anterior. A situação em que a Kaoru se viu envolvida é, a meu ver, dificil. Eu sei que muitos de vocês acham que ela deveria ter acabado com o Enishi independentemente de ele ter tido o acidente e estar com amnésia. No entanto, apesar de parte de mim concordar convosco, não posso dizer que estou inteiramente de acordo.
Em primeiro lugar: Quando assumimos um compromisso com alguém, mesmo na situação em que ela assumiu, temos de levar em conta os sentimentos dos outros. É obvio que não nos vamos prejudicar só porque outros são egoístas, mas no caso em questão, a "fraqueza" da Kaoru é aquilo a que eu chamo altruísmo... E só alguém muito forte consegue ser altruísta quando os seus sentimentos estão em jogo.
Em segundo lugar: Obviamente que a Kaoru não iria ficar indefinidamente à espera. Isso não seria altruísmo seria burrice. Ela concordou apenas em aguardar algum tempo até ele estabilizar, na esperança de que a sua recuperação fosse rápida. Era estranho se ela entrasse no hospital para o visitar logo a seguir ao acidente e lhe dissesse que tinham acabado... pelo menos, eu acho... acho que não estaria a ser racional mas egoísta.
Obviamente que os limites entre eles vão ser diferentes, o homem tambem está numa cama de hospital, supõe-se que não a vai tentar seduzir! Bem mas do Enishi já se espera tudo...
É claro que isto são as minhas opiniões como autora. Eu gosto quando vocês se expressam e dizem o que pensam, e por isso quero agradecer a todos os que o fizeram.
Espero que continuem a seguir a Máquina do Tempo, apesar da demora na postagem.
O Capitulo 11 será publicado em breve pois já está delineado.
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Capitulo 10 - Doí Demais
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Eu sentia a chuva bater-me no rosto… Não sabia se era sonho ou realidade. Era desconfortável mas ao mesmo tempo era libertador… Sentia saudades da Misao e do Sano, sentia saudades da minha casa, das minhas coisas… Mas ao mesmo tempo estava a viver ao lado da pessoa que eu mais amava. Eu sabia disso.
Mas, se ao menos fosse possível levá-lo comigo, se ao menos estivesse nas minhas mãos o poder para o trazer para o meu mundo, onde tudo era menos sangrento, onde ele poderia encontrar finalmente a paz… Mas isso não era possível… E entre escolher esta vida ou a anterior, a qual eu já tinha deixado para trás, eu escolheria sempre aquela que, apesar de triste e incompleta, me permitia tê-lo comigo.
Aconcheguei-me melhor na almofada. Talvez o meu estado sonolento me estivesse a pregar partidas, mas, tinha ideia de ter ouvido a respiração de alguém próximo de mim. Abri os olhos e percebi que aquilo que a minha mente descreveu como almofada, os meus olhos vieram a confirmar ser o seu peito. Olhei para cima. Ele estava acordado a olhar-me em silêncio. Sem perceber o que se tinha passado, e um pouco embaraçada com o que quer que eu pudesse ter feito para o levar a ficar ao meu lado, eu sentei-me e perguntei-lhe: "O que se passou?"
O Kenshin, ainda sentado, esticou as pernas colocando-se numa posição mais confortável. Provavelmente tinha ficado toda a noite assim… só para não me acordar. Era ao mesmo tempo deslumbrante e assustador. Como é que alguém podia dar tanto de si por outra pessoa, sem reclamar,sem pedir nada em troca, mesmo que isso lhe custasse, neste caso, uma valente dor nas costas? Em outros casos… o resultado era o peso constante que ele carregava na sua consciência.
"Desmaias-te lá fora e eu trouxe-te para aqui." – ele respondeu.
Já não era a primeira vez que isso acontecia. Era impressionante que sempre que eu estava fraca, ele aparecia como que por milagre e cuidava de mim.
"Porque estás a sorrir?" – ele parecia estar preocupado com algo.
"Estás a tornar-te perito em salvar-me da chuva." – a minha reposta fez um sorriso aparecer no seu rosto, mas mesmo assim, eu sentia que algo o continuava a preocupar.
...
Eu tinha medo da resposta, mas eu tinha de saber, e para saber eu tinha de lho perguntar e perceber se a sua resposta era honesta."Kenshin, tu és feliz?"
Ele arregalou os olhos. O Samurai foi apanhado de surpresa pela minha pergunta: "Porquê que perguntas isso?" Ele não me deu uma resposta direta, o que por si só já era uma resposta. Eu tambem não sabia o que lhe responder… Tentei achar as palavras certas, mas, como é que eu podia tocar em algo que eu sabia estar para além de mim… Como é que eu podia questionar os seus ideais, sabendo que foi por esses mesmos ideais que ele me salvou e me trouxe para aqui?
Talvez por notar que eu não sabia o que dizer, ele encostou-se à parede e com um olhar pensativo, começou a falar:" - Os meus pais morreram de cólera quando eu ainda era pequeno, no entretanto, eu e todas as pessoas da minha aldeia fomos obrigados a sair e acabamos por ser vendidos como escravos. Enquanto viajávamos, sem aparente razão uns homens começaram a perseguir-nos e a matar cada pessoa do grupo..." - ele parou de falar. Talvez fosse doloroso demais recordar aqueles momentos Mas, mesmo assim, ele olhou-me e continuou: " - Três irmãs deram a vida por mim, Akane, Sakura e Kasumi. " - um sorriso apareceu nos lábios dele quando mencionou os seus nomes. " - Elas diziam que eu ainda era uma criança e sempre me protegeram, sempre, até morrerem."
" - Como é que sobreviveste?" Eu perguntei.
Ele suspirou: " - Apareceu um homem que me salvou, tomou conta de mim, e me ensinou o estilo HitenMitsurugi."
" - Esse homem que te salvou... ele... morreu?" - ela perguntou
" - Não... Seijuro Hiko é um homem muito duro até mesmo para a morte" - ele deu uma pequena gargalhada ... " - Eu vim-me embora da casa dele, mesmo antes de terminar o treinamento."
" - Porquê?" -
O Kenshin cruzou as pernas, suspirou e olhou-me. O seu olhar transmitia uma tristeza… uma melancolia… E eu estava prestes a saber porquê.
" - Eu dizia que estava cansado de ver as pessoas morrerem à minha frente, eu queria ajudá-las, usar a minha espada para fazer do mundo um lugar melhor." Ele continuou depois de algum tempo de introspecção." - Ele disse me que eu era um idiota e que o que eu queria fazer era impossível... "_ A espada foi feita para matar e quer queiras quer não tu vais tornar-te um assassino, igual aqueles que tanto odeias..." o Kenshin falava de uma maneira tão profunda que parecia estar a reviver cada momento. Ele fixou o olhar em mim e foi aí que percebi qual era o sentimento que parecia ter-se apoderado dele no momento que começou a falar: Arrependimento, Remorsos… Quase que podia adivinhar as palavras que se iam seguir.
" - E foi o que aconteceu. " - ele terminou olhando-me fixamente.
Eu não concordava com isso, eu não podia concordar que alguém como ele se culpasse por tudo o que acontecia… Ele tomou uma decisão errada, sofreu com isso, mas agora já chegava. O tipo de vida que ele tinha não condizia com a pessoa que ele era… Daí, fez-se luz na minha mente… Só podia ser esse o motivo de eu ter vindo ali parar.
Eu devo ter parecido louca, porque ele olhou-me estranhamente: "Porque sorris?"
" - Acho que..." - hesitei, mas algo cá dentro me motivou a dizer o que eu realmente pensava, não importava o quão louca fosse parecer: " - estou feliz, porque, agora percebi o verdadeiro motivo de ter vindo aqui parar..."
" - E qual foi?" - ele perguntou-me logo de seguida
" - Foi ter aprendido quem realmente és..." – desviei o olhar para a chuva que caía lá fora Eu tinha percebido que a alegria de ter chegado a essa conclusão era efémera, pois a minha estadia talvez ficasse sem sentido a partir desse momento, e talvez… talvez tudo tivesse de voltar ao que era antes. - " - E um dia, quando eu for embora, pelo menos levo algo bom comigo..."
" - Embora? Para onde Kaoru?" – A sua preocupação fez com que ao mesmo tempo me sentisse feliz e nostálgica. Eu era importante para ele: " - Kenshin, eu não sei como vim aqui parar... não sei quanto tempo vou ficar aqui..."
" - Mas tu queres partir?" - a pergunta dele foi imediata e a minha resposta também o teria sido, mas sentia-me egoísta por deixar os meus amigos do outro lado preocupados a pensar que eu estava entre a vida e a morte. Por isso medi as minhas palavras:" - Eu estou a viver uma segunda vida, e, eu precisava de a viver... eu precisava de estar aqui... contigo..."
Hoje, depois de tanto tempo de distância percebo que devia ter dito logo que sim. Assegurar-lhe que ele era a pessoa mais importante da minha vida. Talvez se tivesse feito isso hoje estivéssemos juntos.
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O Kenshin fechou o diário. Havia um turbilhão de sentimentos a explodir dentro do peito.
Tudo o que precisas saber acerca de ti está nesse diário… Ele recordou as palavras da Kaoru. Agora ele começava a conhecer quem tinha sido. Era estranho que isso fosse feito através das palavras dela, porque dessa forma não parecia real… Era como se estivesse a ler uma história, uma que não a sua… mas ao mesmo tempo tinha tantos fios condutores àquilo que sentia que não podia ser de mais ninguém a menos que fosse dele.
Ele tinha ficado esclarecido. Os seus sonhos/pesadelos estavam explicados perante o tipo de vida que ele tinha antes… Era difícil acreditar que alguma vez tinha manejado uma espada. Se neste momento pegasse numa não saberia o que fazer…
Um assassino.
Apesar de ela nunca usar esse adjetivo para o descrever, talvez porque a sua visão dele fosse diferente, talvez os sentimentos que nutria não a deixassem olhá-lo dessa forma, o Kenshin sabia que todo o seu arrependimento e toda a mágoa eram resultado do peso que ele carregava das pessoas a quem tinha tirado a vida. No entretanto, a forma como a Kaoru falava dele, era como se houvesse sempre algo superior a isso, era como se ela soubesse que ele era melhor do que a vida que tinha. As palavras finais da sua carta eram esclarecedoras, se tivesse de decidir com quem ficar, escolhia-o a ele.
Isso fazia-o pensar na sua situação atual. Quando a conheceu ela disfarçadamente tentou despistá-lo, mantê-lo longe… Para que ele não sofresse ao saber do seu passado. Se afinal de contas era isso que o atormentava, então para quê trazê-lo à tona? Disposta a abrir mão dele em favor dele mesmo, ela parecia determinada a não lhe contar a verdade. Quando o Enishi partiu foi ele quem aos poucos e poucos a fez reaproximar-se. E os gestos, as atitudes, as palavras… era impossível negar que eles se conheciam. Só um cego é que não via os fios invisíveis que os entrelaçavam.
Por isso é que toda esta situação era insuportável. Haviam passado dois dias desde o acidente e ela nem uma única vez tinha atendido os seus telefonemas nem respondido às suas mensagens. Ele tinha de falar com ela e não ia passar de hoje. Ela tinha de contar ao Enishi independentemente do que a Megumi dissesse ou fizesse. Quanto à medica ele mesmo ia falar com ela... Ela estava a proteger o irmão, certo, era família. Mas era egoísmo a mais ignorar os sentimentos da Kaoru. O Ruivo colocou o diário dentro do armário e saiu.
Ela tinha-o ajudado a lidar com os seus sentimentos de culpa,agora a vez dele de fazer o mesmo por ela.
Estava decidido a resolver toda aquela situação, o mais rápido possível.
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"Sinto-te estranha."- O Enishi olhou para a jovem sentada ao seu lado com um ar visivelmente cansado.
A Kaoru respirou fundo e fechou os olhos: "É só cansaço." – depois olhou-o de cima abaixo: "E tu, como te sentes?"
"Cansado de estar aqui." – ele respondeu sinceramente.
Ela assentiu. "Acredito."
Fez-se um silêncio desconfortável entre os dois que só se quebrou quando o telefone dele tocou. Assim que ele atendeu a Kaoru levantou-se e foi até à janela. Olhou para o relógio da igreja que ficava em frente ao hospital desejando que as horas passassem rápido para que fosse altura de ir trabalhar e puder sair dali.
Aquela situação era insustentável. Alguns talvez encarassem como fraqueza aquele seu gesto, outros como altruísmo… A verdade é que ela não sabia qual dos dois era. Ela aceitava trabalhar e cobrir todos os turnos que pudesse só para não ter de lidar ainda mais de perto com a situação… e isso sim talvez fosse a sua parte fraca a falar… Por outro lado, ela não queria ser egoísta e causar ainda mais danos no Enishi do que o que já tinha feito. Por isso fazia um esforço em manter aquela situação, para o conforto dele e da irmã… e essa era a sua noção de altruísmo… Distorcida, ela sabia disso, mas não deixava de ser altruísmo, pois ela planeava contar-lhe assim que ele saísse do hospital.
"Estive a falar com os meus pais." – a voz dele fê-la lembrar-se de onde estava e parar de divagar, voltando-se para trás. "Eles queriam vir aqui visitar-me, mas eu disse que não."
"Porquê?" – ela perguntou
"EU não quero que eles me vejam assim." – ele respondeu – "Mas, eles concordaram em jantar connosco assim que eu sair no final da semana."
A Kaoru assentiu sem saber porque o fazia. "É claro que eu gostava que estivesses presente. Por isso, por favor diz-me qual é o dia que te dá mais jeito."
"Enishi, é a tua família. É a primeira vez que os teus pais vão estar contigo depois de teres o acidente é mais provável que eles queiram ter algum tempo contigo sem mais ninguém a interromper." – ela tentou usar a lógica com ele, esperançosa de que ele pudesse escutar.
"Se o idiota do Kenshin lá vai estar tu tens muito mais direito." – a Kaoru suspirou e abanou a cabeça. Mais outro problema. Ela tinha tentado evitar o contacto o Kenshin apesar de ele ter tentado por várias vezes falar com ela. Era impressionante como as coisas mudavam de um momento para o outro.
"Então?" – a voz impaciente dele chamou-a à realidade. A Kaoru foi evasiva: "Não sei depois vê-se. Já é tarde para mim, tenho de ir." – aproximou-se da cama e deu-lhe um beijo na testa: "Até amanhã."
O Enishi viu-a sair e esperou algum tempo até pegar no telemóvel e fazer a ligação.
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A Kaoru correu para apanhar o metro que já estava na estação. Na sua mente as imagens adensavam-se. Jantar com ele e com a família só a ia fazer sentir-se ainda pior. Não. Ela não queria ter de olhar para a mãe do Enishi e ter de ouvi-la falar acerca das qualidades do filho, permitir que ele lhe pousasse a mão por cima do ombro como fazia sempre, ouvir recomendações sobre como cuidar dele… Não. Ela não ia fazer isso, ela não ia colaborar mais com esta situação. Hoje isto tinha um fim. Ela ia falar com a médica e explicar-lhe tudo. Ela tinha de perceber.
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Quando lhe disseram que estava uma pessoa à espera no gabinete, ela nunca pensou que fosse ele. Assim que entrou e o viu lá dentro sentado no sofá sorriu consigo mesma. Devia ter feito algo de muito bom naquele dia para ter uma visita tão boa como aquela.
"Kenshin!" – Ela sorriu e aproximou-se para o cumprimentar. O ruivo levantou-se beijou-a de leve no rosto. "Ui! Que sério! Passou-se alguma coisa?" O costumeiro sorriso tinha sido deixado em casa, aparentemente.
"Nada que tu não possas resolver." – Ele tentou sorrir mas a preocupação não lhe dava espaço para usar mais nenhuma máscara.
Ela sentou-se na cadeira por trás da secretária ficando de frente para ele."Diz-me Kenshin, já sabes que podes sempre contar comigo."
Ele sorriu, desta vez de uma forma mais verdadeira. Sorriu porque sabia que era a verdade. Ela tinha um bom coração e ajudava sempre que estava no poder das suas mãos fazê-lo. E era por isso que a situação da Kaoru era injusta… Facilmente ela perceberia isso. Pelo menos, era disso que ele se tentava convencer.
O Kenshin foi direto ao assunto: "Eu sei do acordo que fizeste com a Kaoru. E não acho certo."
A Médica reteve a respiração inconscientemente. Tinha sido apanhada de surpresa por um sentimento de vergonha e curiosidade ao mesmo tempo. Como é que ele sabia disso? Ela decidiu satisfazer em primeiro lugar a sua curiosidade. Rapidamente se Recompôs e perguntou tentando manter a normalidade: "Como soubeste disso? Foi a Kaoru que te contou?"
Ele abanou a cabeça: "Na noite em que foste lá a casa eu estava lá, esqueces-te te disso?"
Ela raciocinou por um pouco e acenou: "Sim, já me lembro… Sim, tu estavas lá." – a imagem da Kaoru a descer as escadas juntamente com ele ganharam vida na sua mente.
"Nessa noite, a Kaoru chegou a casa bem mais tarde do que o normal." – ele relembrou – "Estávamos todos preocupados, até porque ela não atendia o telemóvel. E quando ela finalmente apareceu…" – a sua memória tinha bem fresca a imagem da Misao a descer as escadas e das palavras que disse. "Bem…. A Misao é que me contou que eles tinham acabado."
A médica absorveu a informação e percebeu de imediato o motivo da sua vinda ali. O acordo que tinham feito devia incomodá-lo a ele e a todos os seus princípios e regras, sendo ele alguém capaz de se guiar por todos eles. Ela admirava-o, mas, desta vez ficou desiludida. Por momentos tinha pensado que houvesse outra razão para ele a ter vindo ver. Deu um sorriso um pouco sarcástico pensando em tudo o que tinha idealizado acerca do que poderia ter dado origem àquela visita: "Kenshin, eu percebo que te confunda, mas, é para o bem do meu irmão. O que quer que ele tenha feito para tomarem essa decisão, ele não se recorda.Já imaginas-te como é que ele se vai sentir se ela lhe contar?"
A resposta dele foi imediata: "E como achas que ela se sente ao visitá-lo, ao agir como se fossem namorados? Ainda por cima para alguém como a Kaoru."
Ela acenou: "Sim, eu percebo. Mas…" ela encostou-se para trás na cadeira – "Eu nunca vi o meu irmão tão interessado em alguém antes…. Se ela lhe contar ele vai ficar confuso, pode ter alguma atitude mais estúpida. E a Kaoru sabe disso, e por essa mesma razão aceitou aguardar até ele estar recuperado."
"A Kaoru aceitou porque se sente culpada pelo que aconteceu. E tu não imaginas o mal que isto lhe está a fazer. É egoísmo da tua parte e estupidez da parte dela alinharem neste esquema." – ele respondeu certo de que apesar de as suas palavras serem duras só assim ele ia ser capaz de a fazer pensar.
Ela abanou a cabeça. Parecia que estava a ouvir um sermão dos pais quando fazia alguma asneira em criança: "Mas o que é que se passou entre eles para terminarem? Tudo parecia estar a correr bem até ele ter ido para Lisboa."
O Kenshin manteve-se em silêncio em relação a isso. Mas a Megumi estava num dilema. E além do dilema algo a perturbava. Seria impressão sua ou o Kenshin parecia falar da Kaoru como de alguém a quem ele conhecia intimamente? "Porquê que vieste falar comigo Kenshin?" – ela perguntou-se a si mesma, mas acabou por falar em voz alta. Apesar de parecer sem sentido, porque ele já lhe tinha explicado o motivo pelo qual estava ali,a pergunta tinha outro alcance.
O ex-samurai ficou em silêncio a olhá-la.
A médica olhou para os papéis na sua secretária pensativa. Porquê que ele se importava? Porquê que ele tomou aquela atitude defensora em relação à Kaoru? O ruivo levantou-se e caminhou pela sala. Ele não queria ter de magoá-la. Ela levantou-se também e encostou-se à parte frontal da secretária a observá-lo.
"Megumi, eu…." Quando ele se voltou ela aproximou-se dele e beijou-o. O ruivo apanhado de surpresa segurou-a pelas mãos e afastou-a. Mas o que é que lhe tinha dado?
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A Kaoru tinha uma imensidão de coisas na cabeça. Mas falar com a Megumi era a principal. Não passou pela entrada porque se a vissem podiam pedir-lhe para começar o turno mais cedo. Por isso, assim que chegou ao hospital apressou-se a ir para o gabinete da médica.
Enquanto o elevador subia, ela pensava e repensava as palavras que lhe queria dizer. Tinha de lhe explicar o motivo pelo qual tinham acabado, claro que não ia contar o que se tinha passado com o Kenshin, até porque o passado dele, não era dela para contar, mas ia dizer-lhe que não podia continuar a dar esperanças ao Enishi, sendo que tinha percebido que não o amava. Era o mais justo para os dois… Para ele, que podia ficar livre para encontrar alguém que o amasse verdadeiramente, e para ela para que se pudesse concentrar na sua vida pessoal – coisa que o Enishi não lhe dava tempo para ter.
Quando o elevador abriu as portas, ela apressou o passo para chegar ao gabinete da Megumi. Havia um misto de dúvida e receio no que ia dizer, mas o sentimento de libertação que pretendia ter depois de falar com ela parecia ser mais apelativo do que tudo o resto. E isso dava-lhe a força para prosseguir. Talvez por estar envolvida nessa nuvem de pensamentos nem pensou duas vezes e abriu a porta do gabinete sem bater e sem pensar que a médica pudesse estar a atender algum paciente.
A médica estava de facto acompanhada, mas não por um paciente. No momento em que a Kaoru abriu a porta os seus olhos fixaram-se na cena que se desenrolava à sua frente. O Kenshin e a Megumi estavam a beijar-se. O ruivo agarrou a médica pelas mãos e empurrou-a um pouco para trás: "Megumi para!"
O Kenshin não se tinha apercebido que a Kaoru tinha aberto a porta, porque estava de costas, só a médica, que estava de frente é que a viu.
"Peço desculpa eu devia ter batido, antes de entrar." – a Kaoru tentou simular o melhor que podia, mas, sentia-se como se alguém lhe tivesse enfiado um punhal no peito. Doía demais. Ao ouvir a sua voz o ruivo voltou-se e o seu olhar fixou-se nela. A jovem não foi capaz de o olhar nos olhos, porque sabia que ainda ia doer mais: "Não tem mal Kaoru, diz-me, precisavas falar comigo?" – ela recompôs-se.
A Kaoru abanou a cabeça: "Nada de urgente. Falamos logo." – colocou a mão no puxador da porta para sair novamente.
"Kaoru espera." – o Kenshin chamou-a mas ela não quis ouvir e saiu do gabinete da mesma maneira como tinha entrado a correr. O tal sentimento de libertação que ela pretendia obter… tinha voado para bem longe. Depois de tudo o que viu, sentia-se ainda pior.
O ruivo correu de imediato para a porta ignorando a médica que o chamou por duas vezes.
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Uma vez sozinha no seu gabinete novamente a Megumi repensou toda aquela situação. Primeiro o Kenshin aparece a falar acerca de um assunto que nem lhe dizia respeito, depois, a Kaoru aparece no momento em que ela o beija e apesar de ter tentado disfarçar, a médica apercebeu-se de que ela reagiu de uma forma estranha, e depois o Kenshin desata a correr atrás da jovem como se soubesse o motivo que a tinha deixado assim.
Caminhou até ao sofá e sentou-se pensativa. Que tipo de ligação é que eles tinham? É verdade que nos dias em que esteve fora o Kenshin ficou na casa da Kaoru, mas… Seria esse tempo o suficiente para que eles desenvolvessem uma relação tão próxima como a que ela estava a supor que eles tinham?
A médica recordou algumas das vezes em que tinha falado com o Kenshin acerca da namorada do irmão… Talvez tivesse sido ela a aguçar o interesse do ruivo com todos os elogios que teceu à jovem…. A médica suspirou. O Kenshin era livre de se relacionar com quem quisesse, mas… ela tinha de tirar aquela história a limpo, até porque afinal de contas, ela poderia ter acabado por descobrir o verdadeiro motivo por trás do fim da relação entre o seu irmão e a Kaoru.
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Ela não podia ter descido pelo elevador porque senão ele tinha de ver os andares no marcador automático, mas, ela não estava em mais nenhum lado, porque ele tinha visto em todas as salas. Obviamente que ela não iria para casa a meio do trabalho, por isso, ela ainda estava no hospital. O Kenshin decidiu descer as escadas e falar com alguém na receção perguntando se a tinham visto. Nem que levasse o dia todo ele tinha que lhe explicar o que se tinha passado. Assim que desceu dois andares apercebeu-se de um vulto sentado nas escadas mais à frente de costas para ele. O ruivo suspirou. Era ela.
Não a chamou porque não a quis assustar. Desceu as escadas e sentou-se a seu lado. Ela não precisou de olhar para saber que era ele. "Kaoru, deixa-me explicar-te o que aconteceu."
"Eu percebi o que aconteceu."
Ele pousou a mão na dela: "Eu vim falar com a Megumi por causa do vosso acordo e dizer-lhe que não é correto o que vocês estão a fazer. E agora no fim… eu não sei o que é que aconteceu…" – ele não queria que soasse como se estivesse a dar desculpas, mas a verdade é que ele não sabia mesmo de onde tinha vindo aquele gesto da parte dela – "Eu afastei-a mas… "
A Kaoru falou como se já tivesse ouvido aquela história vezes sem conta: "Eu já te disse que sei o que aconteceu Kenshin."
"Kaoru eu…" – ele tentou continuar mas ela não o deixou.
"Kenshin, apesar de não teres que me dar nenhuma satisfação, eu vi o que se passou." – ela olhou-o fundo nos olhos: "Eu vi que foi ela que te beijou e que tu a afastas-te." – ela suspirou – "Mas não deixa de doer." – ela passou a mão no peito quando disse isso e passados alguns segundos levantou-se: "Eu tenho de ir."
"Kaoru, desculpa." – ele tentou segurar na mão dela, mas a jovem deu um passo atrás. "Eu tenho de ir trabalhar, está na minha hora."
"Deixa-me vir buscar-te para falarmos melhor." – ele levantou-se tambem.
"É melhor não." – ela respondeu de imediato.
Não deixa de doer.
As palavras dela retumbaram na mente dele. Ela estava magoada e provavelmente queria tempo para esquecer o que se tinha passado. O ruivo suspirou e desistiu de raciocinar. "Desculpa se te desiludi."
A Kaoru baixou a cabeça: "Tenho de ir."
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