Quase lá
Os dias estavam passando rápido demais, isso porque Harry andava muito ocupado. Como iria redecorar seu apartamento, e para isso teria que sair de lá, estava embalando todos os seus pertences, com exceção dos móveis, e colocando em caixas para levar para a casa de Cho. Normalmente fazia isso durante a madrugada, em seus momentos de insônia, e, durante o dia, dava um jeito de levar suas coisas para a casa da namorada, local para onde ele mesmo logo se mudaria temporariamente. Ainda iria aproveitar que estaria fora para transformar um dos quartos de hóspedes, o menor, em umquarto escuro. Aquilo havia sido idéia de Cho, e ele só iria fazer a obra para agradá-la.
Então, com o trabalho como designer gráfico e o que estava tendo para tirar seus objetos do apartamento, ficava sem tempo. Não ia ao Red Caberet desde o fim de setembro, e já estavam na última semana de outubro. Mesmo depois da visita surpresa de Gina ao seu trabalho, ele não tinha passado no clube.
Foi só quando terminou sua mudança e já estava bem instalado no apartamento de Cho que pôde voltar lá. Harry não gostava de sair da casa da namorada para ir ao Red Cabaret, mas precisava ir ao clube. Queria ver Gina.
Às três e meia da manhã, levantou da cama com cuidado para não acordar Cho, trocou de roupa e entrou no elevador. Felizmente não havia porteiro no prédio de Cho, e ele pôde sair sem grandes preocupações.
Havia estacionado o carro na rua, já que não tinha garagem ali. Era estranho, Harry pensou ao entrar em seu automóvel, estava de saco cheio do próprio apartamento, mas já estava sentindo falta dele.
Levou cerca de quinze minutos para chegar ao clube. O lugar estava vazio, já que, como era uma quarta-feira, estava quase na hora de fechar. Harry viu Gina dançando em um dos pequenos palcos que serviam como mesa e foi direto para o bar.
- Olá, Zooey – cumprimentou a bargirl de cabelos ruivos e cacheados que tantas vezes o havia atendido. Harry tinha ido ali bastante e já sabia o nome de algumas pessoas.
- Ah, oi... Hã...
- Harry.
- Isso, Harry – a mulher, vestida com a usual roupa de pin-up, abriu um sorriso. - Olá, Harry, o que vai querer beber?
- Um Kamikaze, por favor.
Zooey - e esse era seu nome verdadeiro, porque as garçonetes e bargirls do Red Cabaret não precisavam de um nome falso como as strippers – serviu-o e, em seguida, Harry passou a observar Gina, apenas com saltos altos no pequeno palco. Nossa, que corpo Deus havia lhe dado! Deixava ele louco! Queria tocá-la todinha... E pela cara dos homens que também a observavam, Harry não era o único a desejá-la.
Já havia passado das quatro horas quando os homens foram embora e Gina ficou livre. Harry já tinha sido convidado a se retirar do clube quando pôde enfim falar com ela.
- Guinevere!
Gina olhou na direção da voz e o enxergou no bar. Ela sorriu e terminou de vestir suas roupas, se é que pode chamar peças tão pequenas de roupa, para logo caminhar até ele.
- Harry! – ela abraçou-o e ele deslizou as mãos pela pele macia das costas de Gina. Tocá-la quase nua era ótimo! Sua mente já estava trabalhando nas imagens...
- Guinevere! – uma voz grossa chamou a atenção de Gina, que se soltou de Harry. Quem lhe repreendia era um dos seguranças que andavam por ali.
- Ta tudo bem, Malcolm, praticamente todo mundo já foi embora. E ele é um amigo. –Gina voltou-se novamente para Harry e abriu outro sorriso – Eu não posso agarrar os clientes.
- Claro.
- Vou trocar de roupa, preciso muito tirar esses saltos. Me espera aqui.
- Eu vou esperar lá fora, quase me expulsaram daqui e...
- Não, não, pode ficar aqui. Eu vou falar com o Terrence que você está me esperando.
Harry não fazia idéia de quem era Terrence, mas quando se acomodou novamente num dos bancos do bar, que já estava fechado, ninguém mais o incomodou para que fosse embora.
Ele viu o clube ficar vazio, a não ser por quem trabalhava ali, enquanto esperava. A amiga loira de Gina, Luna - ou Lua, como era conhecida pelos clientes -, passou por Harry saindo da área das Salas Privativas e lhe lançou um sorriso enorme sem razão alguma.
Estranha, Harry pensou sobre a garota, mas bem bonita.
Gina apareceu cerca de dez minutos depois, com os cabelos presos em um coque frouxo e sem maquiagem. Pela primeira vez, ele a viu usando calça – um jeans claro e surrado, com rasgos no joelho. Era bem a cara dela.
- Me dá um minuto – ela pediu, colocando a bolsa preta que sempre usava sobre o balcão do bar.
- Ta.
Gina deu a volta no bar e se serviu de uma dose generosa que uísque, que bebeu sem dar explicações. Depois se serviu de uma segunda dose e foi se sentar ao lado de Harry.
- Meus pés estão me matando – ela tirou as botas e esfregou os pés sem meias um no outro. Então, sem dizer nada, colocou-os sobre o colo de Harry.
Ele pegou um dos pés de Gina e começou a massageá-lo. Enquanto passava a mão por sua pele, lançou-lhe um olhar cheio de segundas intenções.
- Está melhor?
- Muito melhor.
Ela acendeu um cigarro ainda fitando-o. A mão de Harry subiu um pouco e alcançou seu tornozelo. Pela forma que ele a tocava, dava para perceber que queria tocar em muito mais do que apenas seus pés.
Gina apagou o cigarro num cinzeiro próximo, tirou os pés do colo de Harry e se inclinou para ele. Os dois ficaram encarando-se ali, um bem perto do outro, sem dizer nada.
Uma das mãos de Harry tocou o rosto de Gina. Depois, seu polegar passou pelos lábios dela. No segundo seguinte eles estavam se beijando.
As mãos de Harry em seu cabelo e nuca, as dela em seu ombro. Foi um beijo mais ardente que o primeiro que trocaram. Alguém, uma mulher, gritou em uma voz alegre para eles procurarem um quarto, e Harry sentiu Gina rir. Logo depois estavam gargalhando sem motivos um com o outro.
- Vambora! – ela chamou; esvaziou seu copo de uísque, calçou as botas e agarrou a mão de Harry, saindo dali.
Para a surpresa dele, eles não passaram pela porta da frente, mas entraram na porta que ficava ao lado do palco principal. Normalmente tinha seguranças guardando aquela passagem, mas naquele horário já não havia ninguém.
Eles estavam em um corredor e Harry viu, por algumas portas abertas, uma e outra stripper se arrumando para ir embora. Gina continuava guiando-o, e logo eles viraram em outro corredor e atingiram a saída. A rua dos fundos do Red Cabaret parecia com a rua da entrada principal, a não ser pelo fato que tinha menos comércio.
- Estacionei o carro perto da entrada, na outra rua.
- Então vamos para lá.
Eles começaram a dar a volta no quarteirão. Harry se questionava sobre o que aconteceria aquela noite. Estava ansioso, e acendeu um de seus cigarros. Já não segurava a mão de Gina, mas andava ao lado dela. Olhou-a pelo canto dos olhos. Ela estava andando no meio-fio como se si equilibrasse em uma corda bamba. Puxa, como ela era bonita! Ainda mais com alguns fios de cabelo caindo sobre o rosto – fios que ele havia soltado sem querer do coque quando a beijou.
Não demoraram a chegar até o carro. Harry abriu a porta para Gina, que entrou no veículo com um de seus sorrisos perigosos. Quando estava abrindo a porta para que ele próprio pudesse entrar, seu celular tocou.
- Merda! – reclamou, enfiando-se no carro.
- O que foi? - Gina quis saber.
Harry não respondeu. Para ligar àquela hora, ou eram seus pais, avisando de alguma tragédia, ou era Cho, querendo saber onde estava. E provavelmente era Cho. Suas suspeitas se confirmaram quando ele puxou o celular do bolso e viu o nome de quem chamava no visor.
- Não vai atender? – Gina perguntou.
Harry olhou-a. Certamente eles iam transar aquela noite. Iam. Não iriam mais. Não se ele atendesse ao telefone. Mas se não atendesse... Isso significava problemas.
- Volto em um minuto – informou a Gina, saindo do carro.
Mal bateu a porta já foi atendendo o celular:
- Alô?
- Harry, onde você está? – havia um quê de desespero na voz de Cho.
- Hã... – Pense, pense, pense! – Resolvi dar uma caminhada, não conseguia dormir.
- Caminhada a essa hora? Você podia ter ficado em casa assistindo TV!
- TV é entediante. E caminhar me cansa, o que talvez me faça dormir. – E talvez eu consiga escapar da bronca.
- As chaves do carro não estão aqui... Você não foi caminhar.
Cacete!
- Eu ia dar uma volta de carro, mas mudei de idéia na última hora.
- Ah, sei... – Cho não parecia muito convencida. – Volte para casa agora, por favor, Harry. Estou te esperando.
Droga, droga, droga!
- Ta. Em meia hora estou aí.
- Meia hora?
- Harry! – Gina gritou, o que fez Harry se virar. Ela estava debruçada sobre a porta do motorista – Está tudo bem?
Ele fez sinal pedindo um minuto, dando-lhe novamente as costas. Torceu para que Cho não tivesse ouvido nada.
- Meia hora, Cho. Estou a pé e meio longe daí.
- Não demora – ela não devia ter notado o grito de Gina, não tinha perguntado nada. – Vou ficar te esperando.
- Ta bom. Tchau.
- Tchau, Harry.
Ele guardou o celular de volta no bolso com um suspiro de alívio. Puxa, havia escapado por pouco!
Caminhou de volta ao carro e entrou. Gina estava esperando-o curiosa.
- Problemas em casa. Não posso demorar a voltar – ele se limitou a dizer.
- Ah, que pena – Gina lamentou-se, mas não muito. – Algo sério?
- Não, só... Nossa, já é tão tarde – olhou no relógio e resolveu mudar de assunto. – Daqui a pouco são cinco da manhã. Você deve estar cansada...
- Na verdade, ainda tenho bastante energia.
Havia algo implícito na voz de Gina ou era impressão de Harry?
Eles foram conversando amenidades no caminho até a casa de Gina. Harry não estava falando muito, estava mais a ouvindo do que tudo. Como sempre, ela falava pelos cotovelos e mexia nas coisas. Futucava no GPS do carro quando ele parou em frente à casa dela.
- Já chegamos! – Gina exclamou alegre - Hoje foi tão rápido.
Claro, Harry estava com pressa de chegar em casa. Não queria problemas com Cho e não sabia o que esperar quando botasse os pés no apartamento da namorada.
- É verdade.
- Quer entrar e conhecer minha casa? – o tom e a expressão de Gina não deixaram dúvidas para Harry que não era bem a casa que ela queria que ele conhecesse, mas sim a cama.
- Quero, mas eu não posso – respondeu com sinceridade, lamentando-se internamente. – Hoje não.
- Só meia hora – ela se inclinou para ele, tocando seu peito. – Por favor.
- Não posso, Gina. – Que droga! – Fica pra próxima.
Mas, contrariando-se, ele puxou-a mais para si e a beijou. Caramba, como os beijos dela eram bons!
Só que Harry sabia que não podia demorar e logo a soltou. Gina não parecia nada constrangida por eles estarem se agarrando em um carro. Harry achava que "constrangimento" ou "vergonha" não eram palavras que constavam no dicionário dela.
- Tenho uma festa de Halloween para ir nesse sábado – ela disse. – Vem comigo?
- Sábado? – era difícil ele conseguir sair de casa no fim de semana sem levantar suspeitas, ainda mais agora, morando no apartamento de Cho – Acho que não vai dar...
- Tem que dar, você precisa ir! Eu saio às 6h do trabalho. Você passa no clube nesse horário e a gente vai. Pode ser?
- Mas às seis da manhã a festa não vai estar acabando não?
- Não! Mal vai ter começado... – eles ainda estavam bem próximos, meio abraçados - Você vai comigo?
Como dizer não a uma mulher como Gina?
- Tudo bem – ele não sabia como iria fazer, mas daria um jeito de encontrá-la –, eu vou.
- Então está combinado – ela lhe deu um beijo demorado. – Sábado você não me escapa, Harry Potter.
- Gina? – ela já estava saindo do carro quando ele a chamou – Me dá seu telefone. Se eu não conseguir aparecer, te ligo.
- Eu não tenho telefone.
- Não tem?
- Não. Não tenho telefone fixo e nem celular.
Harry se lembrou do dia em que a encontrou no seu prédio, chorando na escada. Ela havia pedido a ele para usar seu telefone para pedir um táxi. Era verdade, ela não tinha celular nem nada.
- E como as pessoas fazem para entrar em contato com você?
- Elas vem aqui em casa. Ou então ligam para a Sra. Cohn, que me passa o recado.
- Quem é "Sra. Cohn"?
- É a mulher que mora no andar de cima do sobrado. Eu sou a inquilina dela. Já te falei disso, lembra?
- Lembro – ele lembrava vagamente.
- Mas eu não posso te dar o telefone dela, porque se todo mundo ficar ligando e me procurando, ela vai reclamar. Tudo bem?
- Tudo bem
- Boa noite – ela se despediu com um sorriso e saiu do carro definitivamente.
Sozinho, Harry pensou que queria mesmo era ter ido conhecer a "casa" de Gina. Mas sábado não estava longe... Ele saberia esperar.
- :: - :: - :: - :: - :: - :: - :: - :: - :: - :: - :: - :: - :: - :: - :: -
Sempre soube do perigo de sair de madrugada e deixar Cho dormindo, porém tinha resolvido correr o risco. Bem, estava preparado para o que viesse. Na pior das hipóteses eles iriam terminar.
Abriu a porta do apartamento de Cho e entrou. Era um lugar bonito, menos mobiliado e por isso mais espaçoso que sua própria casa. Não havia sinal nenhum da namorada.
Foi só no quarto que a encontrou. Ela estava sentada na cama, pensativa, abraçada às próprias pernas. Levantou os olhos assim que Harry entrou.
- Onde você estava? – foi a primeira coisa que ela perguntou.
Harry deixou as chaves, a carteira, o relógio e todo o resto sobre a estante-escrivaninha de Cho e sentou na cama, resmungando:
- Caminhando por aí.
- "Caminhando por aí"? – sua voz tinha uma pitada de histeria, mas muito pouco – Harry, você faz idéia do quanto eu fiquei preocupada?! Faz idéia do que eu achei que tinha acontecido?!
- Eu sou adulto, Cho, nada poderia ter acontecido – ele havia tirado as roupas e o sapato e deitou na cama sob o edredom macio. – Você se preocupa demais.
- Harry – ela se virou de frente para ele, que colocou as mãos atrás da cabeça para vê-la melhor -, você está diferente. Você está distante, estranho, calado. Quando eu acordei e não te vi, pensei que tinha resolvido se atirar de uma ponte ou algo assim.
- Ah, Cho...
- É verdade! Eu morri de preocupação! Eu não tinha noção de onde você estava, você não conversa mais comigo! – havia lágrimas em seus olhos.
Harry se ergueu e abraçou-a.
- Estou bem, estou aqui – confortou-a, enquanto ela chorava.
- Não posso te perder – Cho resmungou entre lágrimas -, não vou suportar.
- Você não vai me perder. Eu estou aqui, não estou?
A intenção era fazê-la parar de chorar, mas ela só soluçou mais forte.
- Ta tudo bem, meu amor, ta tudo bem – Harry garantiu. – Eu só quis andar por aí. Na próxima vez que isso acontecer, você já vai estar sabendo que só fui andar para espairecer.
- Espero que não tenha uma próxima vez!
Cho se levantou e saiu do quarto. Voltou minutos depois, com os olhos menos vermelhos e o rosto lavado.
- Vamos dormir - ela disse, aconchegando-se a Harry.
Demorou um pouco para que Cho caísse no sono. Já Harry, por causa da sua insônia, não conseguiu dormir. Sentia-se culpado por Cho, mas foi impossível não pensar em Gina e na cama que não dividiu com ela.
Recado:
Olá! Mais um capítulo. Não está grande nem nada, mas eu gostei dele. O próximo não demora também, vem logo.
Vi que algumas pessoas sumiram... Será que desistiram da fic, achando a estória muito chata? Seria uma pena se isso acontecesse, mas entendo... Enfim, enfim.
Abraços, gente!
Lanni
Respondendo as reviews:
ooo Oraculo: Oh, já que está viciada, então espero que continue lendo - e gostando! Esse capítulo foi curto, o ritmo da fic é meio lento mesmo, mas logo as coisas vão começar a acontecer. E nem demorei mt pra postar, viu? Beijo.
ooo Patty Carvalho: Bem, se o cap passado estava pequeno, esse nem se fala! Talvez o próximo seja maior, não sei... De qualquer forma, devo atualizar em breve. Beijo!
ooo Grace Black: Ouso dizer que acho que não vai demorar muito para o H e a G ficarem juntos. Quer dizer, acho que dá para ver isso nesse capítulo. Espero que vc continue lendo a fic, deixando review e, principalmente, gostando do rumo que estou dando para a estória. Beijo!
ooo Marininha Potter: Não é que o Harry ame, ame, como um dia já amou, a Cho, mas ele não ama a Gina, ele só está super atraído por ela.
"Será que ela (Gina) transou com o Bruce/Brice?" É claro que ela transou com o Bruce/Brice, ela transa com todo mundo! E é mesmo "imprevisível", como você disse. Beijo!
ooo Debora Souza: "Mesmo que a Gina não seja mulher de um homem só, isso está prestes a mudar". Será? Rs, rs... Ela está a fim do H mesmo, mas foi ele quem começou essa história toda.
"Pelo que eu entendi, ela (Gima) também se sente meio na fossa, certo?". Discordo, ela não está nada "na fossa". Ela não sabe o que é isso! Por que você tem essa opinião? Beijo!
ooo Pedro Henrique Freitas: É, eu tbm acho a Gina fantástica. Meio atirada (não sei se é exatamente isso que quero dizer, mas de qualquer forma...) demais, porém ela é ótima.
Brice não é ninguém, é só um cara qualquer com quem a Gina dormiu numa noite. Beijo!
