Oi, oi povo! Eis mais um capítulo.
Viola: Então começaremos um bolão! \o/ E aí, qual é seu palpite?
O morcegão resiste ou não resiste a Mione?
Olha vou te dizer, tem horas que dá vontade de bater nele mesmo, teve momento que tive que parar de ler respirar fundo e para continuar, até entendo os motivos dele, mas tem horas que irrita!
Thaiana: Olha o bolão começou a Viola já vai fazer seu lance e vc? Quanto tempo acha que o morcegão vai resistir?rsrsrs
O Snape é complicado, tem um trauma muito grande, a Mione terá de ter muita paciência...
Lembre-se, comentar nunca é demais!
Bjs e boa leitura!
Nunca pensei voltar a sentir... nada. Nem sequer voltar a desejar.
Severus Snape
*.*
Ela nunca saberia o efeito que suas palavras tinham produzido nele. Terei que pagar um preço, decidiu Snape com uma careta, um preço muito alto. Mas não o pagaria Hermione, a não ser ele.
"Não posso ser um bom marido."
Tinha notado sua confusão. Tinha notado o momento exato no que se convertia em algo diferente.
Admirou sua reação. Apesar de ter sido ferida em seu orgulho, não tinha saído correndo, não tinha se escondido, não tinha se retirado. Em vez disso o enfrentou com coragem e dignidade. Não se agradou do que ele havia dito, não, não tinha gostado absolutamente! Mas o tinha enfrentado, sem afastar os olhos nem um momento enquanto pronunciava essas palavras definitivas.
Snape sabia muito bem que ela o tinha por um bastardo insensível.
Seria mais fácil assim, para os dois. Ela não podia entendê-lo agora, mas possivelmente o fizesse com os anos, quando ele não fosse mais que uma lembrança. Uma lembrança desagradável, ao menos.
Inclusive agora que tudo estava claro, não podia evitar uma espécie de profundo arrependimento. Igualmente tinha haver com sua consciência.
Mas era melhor desta maneira, decidiu exausto. Era melhor achasse que ele era um ogro. Que não esperasse nada dele.
Porque só podia ser desta maneira, disse a si mesmo. Não seria justo que ela esperasse algo que ele não podia dar.
Se o fazia, sabia que só poderia decepcioná-la.
"Bem-vinda a Rosewood", zombou uma voz em seu interior. Ah, mas não podia ser! E se estivesse equivocado? Estava condenado ao inferno. Porque o certo era que a encantadora Hermione seguia despertando nele um sentimento há muito tempo adormecido. Algo que não tinha sentido nestes cinco longos anos...
E estava seguro de não querê-lo.
*.*.*.*
Tal e como estavam as coisas, Hermione pensou que não poderia dormir toda a noite. Entretanto, dormiu como uma criança, e não despertou até que a luz da manhã penetrou timidamente pelas cortinas. Através das cortinas, pôde ver que o dia prometia, embora talvez não chegasse a ser tão ensolarado como o anterior. Ficou um momento na cama, tentada a não se mover dali. Mas não. Não. Não era nenhuma fraca e nenhuma covarde. Fosse o que fosse o que o dia a tivesse reservado, estava disposta a confrontá-lo.
Haviam-lhe trazido o baú com suas coisas a noite anterior enquanto jantavam. Depois de uma rápida lavagem no lavabo, ficou a rebuscar entre o conjunto de vestidos. Ao final se decidiu por um de musselina leve adornado sem muita ostentação. Era impossível que pudesse amarrar sozinha o espartilho, por isso se limitou a vestir as anáguas. Depois de um bom momento puxando e dando voltas ao vestido, conseguiu vesti-lo. De pé ante o espelho, arrumou o cabelo fazendo um coque solto na parte alta da cabeça e o assegurou com várias forquilhas.
Dobby estava no salão quando ela entrou.
—Bom dia, milady — saudou alegremente — Quer que eu traga alguma coisa para tomar o café da manhã?
Respondeu a ele com um sorriso.
—Obrigada. Seria maravilhoso.
O "alguma coisa para tomar o café da manhã" resultou ser comida suficiente para alimentar todo um regimento escocês, pensou a castanha ao ver os pratos que o criado trouxe.
Comeu sozinha, à exceção do mordomo, que colocava a cabeça na sala para assegurar-se de que tinha tudo o que necessitava. Uma vez mais, o cardápio era simples, mas forte. Hermione comeu com prazer as suculentas salsichas, as batatas e o pão com manteiga.
Quando o senhor voltou a aparecer, a jovem levantou a vista com um sorriso.
—Está meu marido por aqui?
—Não, milady. Saiu logo esta manhã para atender alguns assuntos.
—Que assuntos, Dobby?
—Bom, milady, tem um pouco de tudo. Terras, arrendatários, grãos — o senhor sorriu — e as ovelhas mais gordas do condado, se me permite dizê-lo.
Justo o que havia dito ele que era. Um cavalheiro de campo. Ela olhou para fora. Sentiu-se quase desiludida de ver que o dia era luminoso. Teria preferido estar fora que enclausurada em casa. Tinha esperado passar ao menos parte do dia caminhando ou cavalgando. Mas agora era uma mulher casada, recordou-se com convicção, com a responsabilidade do cuidado diário de uma casa. Não importava o papel que lhe tinha reservado na cama de Severus (ou a falta dele, para ser mais exata), era uma tarefa da que devia responsabilizar-se. E podia muito bem começá-la hoje mesmo.
Não se podia negar que havia muito que fazer ali.
A primeira coisa que fez foi apresentar-se à cozinheira, a senhora Molly. Era uma mulher de rosto corado e um coração tão grande como a comida que preparava. Hermione simpatizou com ela no primeiro momento. Os elogios da jovem eram sinceros; e a senhora resplandeceu ao escutá-los.
Passou o resto da manhã e da tarde inspecionando cada quarto, papel e lápis na mão, com o mordomo como guia. Surpreendeu-lhe bastante o estado da casa, embora evitasse dizer ao criado. À exceção da cozinha, que estava impecável, e da sala de jantar e do quarto do senhor, todo o resto estava em um estado lamentável. Não era a marca do tempo a responsável; tampouco a necessidade lacerante de reparação. Era, simplesmente, que tudo necessitava urgentemente de uma limpeza profunda.
—Dobby — perguntou enquanto caminhavam pelo último grande corredor—, houve alguma vez um pessoal de serviço completo em Rosewood?
—Ah, sim milady. Mas não... — fez uma pausa— não em muito tempo — terminou.
"Em muito tempo."
Havia tornado a dizê-lo, e outra vez Hermione teve a sensação de que o criado estava a ponto de dizer algo mais. Picava-lhe a curiosidade, mas decidiu que não seria inteligente pressionar mais. Dobby era claramente leal a Severus, e não seria justo para ele. Certamente, não queria obrigá-lo a que contasse intrigas sobre seu senhor.
Detiveram-se a meio caminho, no corredor principal da casa, frente a uma porta de carvalho. A castanha a olhou de cima abaixo.
—O que há neste quarto?
—É a biblioteca, milady.
Ela sorriu.
—Que maravilha.
O senhor, entretanto, não pareceu cômodo com a ideia.
—Não acredito que queira entrar aí, milady.
—Por que não?
—É somente que... não acredito que deva fazê-lo, milady.
Hermione rodeou o trinco da porta com os dedos.
Ele a olhou assustado.
—Milady...
—Ah, está bem! — disse com tranquilidade — me irei assear um pouco para o jantar depois disto, assim não necessito que me acompanhe mais.
—Certamente, milady. — era evidente que não estava muito contente.
—Ah, e Dobby?
— Sim, milady?
—Obrigada por sua ajuda.
O criado sorriu com franqueza.
Hermione esperou que desaparecesse pela esquina e depois entrou na biblioteca.
Enrugou o nariz. O ar estava viciado. Tudo estava tão escuro que não podia ver nada. Era evidente que ninguém tinha a utilizado fazia semanas. Meses. Possivelmente, inclusive anos, pensou irritada.
Avançou pelo aposento e ouviu o eco de seus passos no chão de mogno escuro. Dirigiu-se para as janelas, tropeçando várias vezes pelo caminho. Puxou as cortinas com a mão e descobriu que a janela estava firmemente fechada. Tateou procurando o ferrolho até que por fim o encontrou.
Maldição! Estava emperrado. Armou-se de todas suas forças e zás! De um forte puxão a janela se abriu. Com as duas mãos puxou por completo as cortinas. Um instante depois teve que puxar um lenço e tampar com ele a boca. Levantou-se tanto pó que não pôde reprimir um ataque de tosse. Mas tinha valido a pena, pensou, quando viu que a luz alagava a estadia.
Recuando-se, sacudiu as mãos de pó com satisfação e deu a volta.
A pura imensidão do aposento tirou o seu fôlego, embora de uma forma muito distinta como o fez o pó, que, é óbvio, alagava tudo. Algo muito comum nessa casa, pensou ao olhar a seu redor.
E na realidade, toda a sala parecia ajustar-se a tanta imensidão. Uma das paredes era circular. As torres das estantes se estendiam até o teto. Havia uma escada de caracol que permitia acessar às estantes superiores.
Era evidente que esta sala foi uma vez incrível. Não importava que não houvesse colunas corintianas sustentando um teto arqueado pintado à mão. De toda forma, estaria descartado, pensou. Em vez disso, as estantes de carvalho inglês chegavam até acima, firmes e contundentes, unindo-se com o teto revestido de madeira.
Em uma das esquinas havia um globo terrestre sobre uma mesa de ébano. Mais à frente da imensa escrivaninha situada no centro da sala, um par de cadeiras de biblioteca no estilo georgiano flanqueavam a lareira. Podia imaginar-se enroscada em uma destas cadeiras em um dia de chuva, o fogo crepitando calidamente na lareira e o relógio de bronze da sobremesa dando as horas.
Mas não foi a sujeira do desuso o que a impressionou. Não foi isso o que a deixou sem respiração... e paralisada.
Muitas das estantes estavam vazias. Havia literalmente dúzias de livros destroçados e atirados pelo chão, por toda parte. Não estavam empilhados de forma ordenada, à espera de serem colocados. Não, era como se tivessem sido surpreendidos por uma tormenta, uma tormenta que se cevou com eles e os tivesse feito sair disparados pela sala.
Havia um ligeiro aroma de umidade. Ela passou um dedo pelo respaldo de couro da cadeira que estava junto à escrivaninha; o couro estava gasto. Alguém tinha passado ali muitas horas. E, entretanto, o suporte de livros estava vazio. Que triste. Que trágico que algo tão maravilhoso tivesse sido abandonado dessa maneira, esquecido para sempre.
Era como se o tempo se detivesse de repente, como uma porta que se deixa fechada e que nunca mais volta a se abrir.
Quem fez isto? Por quê? E por que se manteve nesse estado? Suspeitou que soubesse a resposta à primeira pergunta; mas ainda tinha que descobrir a resposta às outras.
Ao menos tudo tinha acerto. Ah, já podia vê-lo, as prateleiras enceradas e reluzentes, a madeira ricamente lustrada. E com o sol entrando de forma oblíqua através do vidro das janelas, seria um lugar de retiro maravilhoso!
Um por um, começou a recolher os livros: poesia, clássicos, volumes de história, livros de viagens... Era uma grande biblioteca. Quando já não pôde carregar mais nos braços, empilhou os livros na longa mesa de cavalete e os agrupou por tamanhos. Voltaria a colocar mais tarde. Terminaram por causar dores nos seus braços e costas. Levantou-se, estirando-se.
Havia vários recantos escondidos nas prateleiras nos que alguém podia ler ou estudar. Seus olhos se dirigiram a um desses lugares. Em concreto, a um que tinha havido uma vez uma vitrine.
Já não ficava nada. As partes de vidro estavam todas esparramadas pelo chão. Foi então quando descobriu as páginas de um manuscrito, que tinham sofrido o mesmo destino que tantos outros livros. Supôs que tinham estado uma vez guardadas na vitrine. Algumas das páginas estavam agora debaixo dos cristais, outras em cima deles, espalhadas pelo chão como um baralho de cartas deixado a mercê do vento.
Aproximou-se para vê-las melhor, ficando de joelhos e agachando-se sobre elas. Com o maior dos cuidados segurou a que tinha mais perto. Como suspeitava, era papel pergaminho. Acariciou-a com reverência; era frágil e estava desgastada.
O texto estava em latim. No centro desta página em concreto havia um desenho com três homens montados em um burro. Percorriam um caminho que levava a igreja, enquanto anjos os sobrevoavam. Estava belamente adornada, com bordas douradas. Era fácil imaginar o tabelião, curvado sobre uma mesa iluminada com velas, trabalhando minuciosamente no manuscrito durante semanas, talvez inclusive meses.
Hermione tinha visto este tipo de manuscrito antes, mas só nos museus. Certamente teria centenas de anos, pensou sobressaltada. Uma vez mais, as perguntas a assaltaram. Por que o tinham deixado assim? Que razão podia haver para que...?
—O que faz aqui?
A voz veio diretamente de detrás dela. Assustada, ficou em pé de um pulo. Para fazê-lo se apoiou na mão. Esquecendo os vidros quebrados. Sentiu uma dor aguda na mão, como se centenas de pequenas lascas se cravassem na pele.
Ela ignorou a dor. Manteve-se erguida como pôde, virando-se para olhar seu marido.
Tinha as sobrancelhas franzidas, e o tom não era do mais tranquilizador. Olhou as páginas de papel pergaminho e depois olhou para ela, sem deixar que nada ficasse pelo caminho. Juraria ter ouvido o som de sua mandíbula ao fechar-se.
—É precisamente a pessoa que queria ver — disse alegremente — Sua biblioteca é maravilhosa, mas temo que esteja muito descuidada. O que me impulsiona a perguntar... teria sua permissão para contratar uma governanta? Perdoa que seja tão direta, mas Rosewood Manor está muito necessitada de uma, e possivelmente de várias criadas também. E acredito que deveriam começar por limpar esta biblioteca — a tosse da jovem não foi de tudo exagerada — Meu Deus, há trabalho suficiente para pôr a qualquer um em forma!
—Não — disse.
Ela piscou.
—Perdão?
—Não. — desta vez disse com uma ênfase deliberada — Não quero ninguém bisbilhotando nesta sala.
"Não quero que você esteja bisbilhotando nesta sala."
Isto era o que na realidade tinha querido dizer. Não havia nenhuma dúvida!
Mas se ele parecia não ter nenhuma inclinação por guardar as formalidades, a castanha concordou que as suas seriam mais generosas. Sua mãe se sentiria orgulhosa se a visse.
—Este é o aposento mais glorioso da casa — disse com agrado — Eu sou apenas uma aprendiz — levantou a página que tinha na mão — mas estas páginas devem ser bastante excepcionais. De fato, asseguro que são muito valiosas. Possivelmente deveria considerar trazer um perito para...
—Sei exatamente o que são. E repito, este aposento nunca será usado.
O sorriso de Hermione ficou congelado. Sua frieza a congelava.
—Se nunca for ser usada — assinalou — então talvez devesse estar fechada com chave.
—Vivo aqui sozinho — disse, cortante — Não tinha necessitado até agora.
Hermione ficou tão erguida como ele, com a palma ferida escondida depois das costas. Seu controle era uma loucura. E, maldição! Sua mão começava a doer. Supôs que tinha começado a sangrar. Colocou-a entre as dobras da saia. Maldição! Ao menos esperava que o sangue não estivesse caindo sobre essas maravilhosas páginas de papel pergaminho.
—Pode contratar uma governanta se desejar — continuou dizendo — e a todas as criadas que desejar. Faz o que quiser com o resto da casa, mas este aposento ficará como está.
—Ah — disse com sarcasmo — vamos então chegar a outro de nossos "entendimentos"?
Seus olhares se encontraram. Cada um mediu a determinação que havia nos olhos do outro.
—Chama-o como quiser — disse ele por fim.
—Acredito que me casei com um louco — apontou — O que me parece incrível é que alguma vez deixei que me beijasse.
Não gostou da frieza de suas palavras nem o torcido de seu tom. De fato, ela acreditou ouvir o rangido dos dentes.
De repente, entrecerrou os olhos.
—O que esconde aí? — perguntou, cortante.
—Eu... nada.
Tirou o pergaminho da mão e o pôs a um lado, depois segurou a outra mão e a virou.
—Pelo amor de Deus, por que não me disse que estava ferida?
—É... é só um pedaço de vidro. — cometeu o engano de olhar a mão. Tinha a metade da mão manchada de sangue, um sangue espesso e vermelho.
Deu um gemido. Os seus joelhos começaram a tremer. Estava ficando tonta. Não, pensou horrorizada. Não diante dele! Se caísse, estava segura de que morreria de humilhação. Sempre se tinha considerado uma pessoa valente, mas não quando via uma gota de sangue. Nesses casos, convertia-se em uma débil garotinha.
Apesar de seus esforços, sentiu que ia desmaiar. Balançava-se. Não podia ver Snape. Uns pontos negros giravam diante de seus olhos, uns redemoinhos nebulosos de cor cinza. Mesmo assim podia ouvi-lo. Sua voz zumbia de uma maneira que não podia entender nada do que dizia. Soava tão estranho!
Quão seguinte soube foi que ele a segurava nos braços. Segurou-a e a apertou junto ao seu corpo. Tonta, a sua cabeça dava voltas, e teria caído se não fosse por ele. Viu uma perna longa e uma bota negra ao olhar para baixo. Ele aproximou uma cadeira e a sentou nela.
—Sinto muito. — sua voz não soava tão trêmula como tinha temido. Inclusive conseguiu sorrir — É ridículo, sei. É só que...
—Cale-se. Está bem, não se preocupe. Não olhe — sua voz era quase suave — Feche os olhos, Hermione. Respire fundo, assim. Não pense nisso, só respire.
Depois de um momento, ela abriu os olhos. Severus a observava. Tinha-lhe enfaixado a ferida com seu lenço. Seus dedos seguravam a outra mão com calidez, fazendo-a sentir estranhamente segura.
—Melhor? — perguntou ele em voz baixa.
Ela assentiu.
—Bem. Vejamos se podemos levantar este emplastro. Não se levante — disse — Voltarei em um segundo.
Apertou-lhe os dedos em sinal de agradecimento. Esses lábios duros se curvaram em um breve e inesperado sorriso. Seguiu-o com os olhos. Era estúpido, mas sentiu que desejava pendurar-se ao seu pescoço. Tinha uma grande angústia no peito. Deus, pensou, o que estava se passando?
Voltou a jogar a cabeça sobre o respaldo acolchoado da cadeira e fechou os olhos.
Não passou muito tempo antes que ele voltasse a aparecer.
O lenço com o que tinha enfaixado a mão estava molhado.
Trazia um copo de uísque.
—É para você ou para mim? — perguntou ela.
Ele riu com voz rouca. Rouca, mas risada ao fim e a cabo.
—Beba — recomendou-o.
Deu um bom gole e fez uma careta.
—Tudo, por favor.
Obedeceu. O uísque queimou a garganta e o estômago.
—É horrível — se queixou.
—Algumas pessoas se acostumam — uns dedos longos tiraram o copo da sua mão, roçando-a por um instante. Uma vez mais essa risada rouca. A jovem estava certamente surpreendida.
Entrecerrou os olhos ao notar a pressão na ferida. Falava com voz baixa, dizendo que teria que esperar até que a ferida deixasse de sangrar. Ou possivelmente foi o uísque que começou a fazer efeito, pensou mais tarde.
Afastou a cabeça ao ver que segurava a garrafa de antisséptico e punha um pouco na mão. Ardeu horrores. Retorceu-se e segurou com força a mão dele.
—Tranquila — disse ele um pouco bruscamente — Temo que tenha muitos vidros cravados aí dentro. Tentarei não te machucar.
Ela olhou para outro lado. Mas pouco depois voltava a pôr os olhos no que Severus fazia. O sol fazia brilhar a navalha que ele colocou sobre a mão. Deu um gemido. Tinha vontade de vomitar.
Severus levantou uma sobrancelha escura em sinal de reprovação.
—Não — pediu autoritariamente — Não olhe.
Uma vez mais afastou a vista. Notou como seu corpo se encolhia, tentando evitar instintivamente a dor... e a maneira em que ele pressionava brandamente sobre a ferida. A navalha se introduziu um pouco mais. Respirando entrecortadamente, centrou-se no sentimento que lhe produzia ter a outra mão enlaçada a dele. Esta imagem se manteve em sua mente muito depois de afastar a vista. Ele tinha umas mãos esbeltas e maravilhosamente fortes; ao seu lado, as suas pareciam as de uma criança. Tinha a pele cálida e um pouco áspera. Ele chamava a si mesmo um homem do campo, justo como ela tinha adivinhado. Seus dedos pareciam muito escuros ao lado dos dela. Era muito consciente de sua força, algo que a teria incomodado.
Entretanto, era justamente o contrário. E dar-se conta disto aumentou sua vontade de desmaiar.
Por que diabos conseguia sempre fazer que se sentisse tão contraditória?
Ele se sentou ao seu lado, tão perto que um de seus joelhos se introduziu entre os dela. O coração da castanha começou a pulsar com força de repente. Inclinou a cabeça a um lado. Tinha uma leve ruga na testa. Apertou os lábios, concentrado no que estava fazendo.
As lembranças a invadiram, rápidas e implacáveis. A sua respiração ficou entrecortada. Começou a sentir revolta. Recordou com uma claridade quase dolorosa o calor suave de seus lábios sobre os dela. Tinha gostado. Inclusive agora, a lembrança fazia que seu coração voltasse a revivê-lo com a mesma força. Sabia ele que não se negaria se tentasse beijá-la outra vez?
Por todos os céus, estava enlouquecendo ela também? Era o uísque, pensou trêmula. O que podia ser se não?
Observou que punha a navalha a um lado e enfaixava com várias tiras de tecido limpo a ferida.
—Pronto. — seu tom foi bastante brusco— Terminou.
Hermione olhou o seu rosto. Por fora se havia recomposto, mas seu interior era uma massa de nervos.
—Eu... obrigada — não conseguiu dizer nada mais.
Olhos negros se detiveram em seu rosto. Ela tinha a incômoda impressão de que pensavam o mesmo.
—Ainda está pálida — observou — A levarei ao quarto para que possa descansar.
Ela ficou a negar com a cabeça, falando inclusive antes de dar-se conta do que estava dizendo.
—Não tem por que me acompanhar, de verdade!
Ele levantou uma sobrancelha.
Ela se ruborizou.
—Estou bem. De verdade — disse rezando para que não visse seu sobressalto. E afastou a vista.
Não ajudava o fato de que ele seguisse segurando a sua mão. Ela começou a retirá-la. Ele a segurou com mais força.
Então o olhou.
Era impossível decifrar sua expressão.
—Posso confiar em que acatará meus desejos com relação a esta sala? —perguntou ele em voz muito baixa.
Uma parte dela queria discutir. A outra estava pronta para jogar-se em seus braços. Uma parte dela queria desesperadamente sentir-se zangada. Mas por algum estranho motivo não o conseguia.
—Por favor.
O tom do marido era muito débil, quase entre dentes. Entretanto, desta vez a petição foi mais uma súplica que uma ordem, e cem vezes mais efetiva!
Ela assentiu.
Snape a acompanhou até as escadas que subiu com rapidez. Mesmo assim, seguia tendo o incômodo sentimento de que ele a seguia com os olhos até que ela entrou no corredor que conduzia ao seu quarto.
E durante todo esse tempo, sua mente dava voltas, como se estivesse montada em um carrossel.
Seu marido era um homem de segredos. Um homem de tristezas. Nunca esteve mais segura de algo em toda sua vida.
E de repente desejou com todas suas forças saber por que.
