Jensen fez questão de sair antes de Jared. Por mais que soubesse que, mais cedo ou mais tarde, teria que contar que estavam namorando, não queria que todos ficassem sabendo assim, de repente, sem que ele tivesse se preparado para os comentários que viriam. Como Jared não ia trabalhar de carro mesmo, não foi difícil irem separados. Assim que chegou ao prédio inteligente da G-tech para as gravações, foi cercado por cabeleireiros, maquiadores e tantos outros profissionais que se esforçavam tanto para fazê-lo parecer o que não era, que Jensen teve certeza de que era assim que uma pessoa se sentia quando era abduzida.
O ensaio correu bem. Jensen ajustou as falas que Lauren havia escrito para ficarem mais parecidas com seu jeito de falar e isso deu mais autenticidade ao que seria dito. O problema foi ficar na frente das câmeras. Jensen gaguejava, suava e esquecia as falas. Depois de três tentativas frustradas, Jared, que acabara de chegar, o chamou a um canto.
— Jen, tudo bem, amor? — Ele perguntou.
— Não. Nada bem. — Jensen queixou-se. — Eu fico nervoso na frente das câmeras. — Admitiu constrangido.
— Tudo bem, amor. Isso é normal. — Jared sorriu o tranqüilizando. — O segredo é fingir que não tem câmera nenhuma ali. Finja que está conversando com um conhecido e explicando como funciona o apartamento.
— Falar é fácil...
— Eu sei que não é, mas você tem que tentar. Afinal, foi o próprio Wisdom quem pediu para você gravar esse comercial.
— Ah... — Jensen suspirou profundamente.
— E se eu fizer algo para te acalmar? — Jared perguntou sorrindo de um jeito que deixou Jensen desconfiado.
— Algo como o quê?
— Vem comigo. — Jared o puxou para um dos quartos e fechou a porta logo que entraram. Jensen encarou Jared sem entender qual o propósito daquilo, ou melhor, sem querer entender. Mas Jared logo deixou suas intenções muito claras. Ele pressionou Jensen contra a parede e colou seu corpo contra o dele.
— Jared, o que você está fazendo? — Jensen perguntou em pânico. — E se alguém entrar?
— Como alguém entraria? — Jared balançou as chaves diante dos olhos verdes vidrados de Jensen.
— Mesmo assim, isso é meio... — Jensen não conseguiu concluir seu argumento, pois Jared o calou com um beijo molhado cheio de volúpia.
— Você saiu rapidinho hoje e nem me deu um beijo de despedida. — Jared queixou-se.
— Mas a gente tinha ficado de chamego durante o café... — Jensen justificou enquanto Jared atacava seu pescoço com beijos ávidos e lambidas lascivas. — E mais, Jared, a gente fez a noite toda, lembra?
— A noite já acabou, docinho. — Jared disse enquanto beijava seu pomo de adão. — Não consigo começar o dia feliz sem antes tirar uma casquinha de você.
— Casquinha? Parece que você quer arrancar um pedaço de mim.
— Talvez eu queira... — Jared sorriu antes de voltar a beijá-lo.
— Ok. Ok. — Jensen afastou Jared. — Tudo bem, eu entendi. Mas só cinco minutos e nada de deixar marcas.
— Cinco minutos, então. — Jared concordou.
Meia hora depois, um Jensen um pouco amarrotado, despenteado e vermelho teve que passar de novo pelos "aliens para ficar apresentável para o comercial. Durante a gravação, Jared ficou atrás das câmeras, em um ponto onde Jensen pudesse vê-lo, e isso o acalmou. Finalmente o comercial foi gravado e o modo de Jensen falar e agir na frente das câmeras foi tão autêntico que o diretor brincou dizendo que ele deveria mudar de profissão.
Com as gravações terminadas, Jensen correu para o trabalho, não sem antes fazer um esforço absurdo para fugir de Jared ou então não chegaria ao escritório antes do horário de almoço. Mal pôs os pés em seu andar e Tom e Mike correram para cercá-lo.
— Jensen, onde você se meteu ontem a noite? — Tom perguntou aflito.
— A gente te ligou, mas parece que você esqueceu o celular no apartamento da Srª Kreuk. — Mike cercou pôs a mão no ombro de Jensen. — Cara, fala a verdade. O quê aconteceu?
— Eu explico tudo na hora do almoço.
— Você explica agora. — Disse uma voz grave atrás dos três homens. Eles se viraram e depararam com Wisdom com cara de poucos amigos. — Na minha sala. — O homem disse. — Os três.
Wisdom se virou e entrou na sala. Mike, Tom e Jensen se entreolharam e, sem terem outra escolha senão obedecerem ao chefe, entraram na sala atrás dele. Algo lhes dizia que aquela seria uma longa conversa.
Dez minutos depois que Jared aparecera no prédio onde funcionava a Paradise, todos já sabiam que algo de muito bom havia acontecido com o homem. Não que Jared fosse um homem mal humorado, o que de fato era bem o contrário. Jared era sempre muito alegre, tranqüilo e brincalhão. Mas como ocupava um cargo importante dentro da empresa e tinha sobre si a confiança e expectativa de Beaver, Jared levava muito a sério seu trabalho e não dava moleza para os agentes sob sua responsabilidade. Nesse dia, porém, Jared parecia ter visto um passarinho verde ao acordar, pois sorria tanto e por tudo que até mesmo a modelo Mercedes, mestra em tirar a paciência dele com seus chiliques e exigências, não conseguiu nada além de um: "Sem problemas, Mercedes. Eu cuidarei de tudo, linda!"
— O caso foi tão extraordinário que até eu não acreditei, Jay. — Beaver dizia durante o almoço.
— Está tão na cara assim? — Jared perguntou sorrindo.
— Na cara? — Beaver arqueou as sobrancelhas — De manhã você não se olhou no espelho, não? Por que está escrito em letras garrafais na sua testa: Estou amando loucamente e sou correspondido.
— Sim, é verdade, Jim. Estou amando e finalmente sou correspondido. — Jared admitiu.
— Então,... — Beaver parecia sem jeito de fazer a pergunta. — você superou a Sandy?
— Acho que sim. — Jared ficou pensativo. Era a primeira vez que parava realmente para avaliar sua situação com Sandy após Jensen ter entrado em sua vida. — Eu doei as roupas dela e devolvi muitas das suas coisas para os pais. Ainda não tentei voltar a dirigir, mas sinto que o momento pode estar próximo.
— Jay, essa noticia é ótima! — Beaver deu um murro na mesa fazendo várias pessoas no restaurante italiano onde almoçavam olharem para eles. — Você não sabe o quanto eu torci para que esse momento chegasse logo, rapaz. E então, quem é a moça?
— A moça...? — Jared ficou sem jeito. Se pudesse escolher, deixaria para contar depois, mas era melhor resolver tudo de uma vez e deixar as colunas de fofocas ferverem com sua intimidade. — Não é uma garota, Jim. É um cara.
— Cara...? — Beaver não pareceu tão surpreso quanto Jared esperava. — Pensei que fosse. Então, é aquele loirinho?
— Quem? — Jared não se lembrava de ter sido visto por Beaver ao lado de Jensen.
— Aquele seu amiguinho chiclete que você levou para a festa... — Disse — Todo mundo anda comentando que vocês dois estão se comendo e Lauren contou que ele até foi te buscar para almoçar outro dia.
— Chad?! Ah, não! — Jared gargalhou. No fim das contas, o plano de Chad para preparar o terreno para Jensen, de fato, dera muito certo. — Chad não é meu namorado. É só meu amigo e nada mais. Acho que você não conhece meu namorado. Ele é um pouco tímido, por isso acho que vai demorar um tempo para sair do armário.
— Mas você não ver problema em...?
— Eu sou do mundo da moda. Nunca tive muitos grilos com relação à homossexualidade, embora nunca tenha esperado me tornar gay. Já o Jensen... Ele é meio griladão com tudo e, no momento, está passando por uma barra meio pesada. Aparecer nas revistas de fofoca como o meu novo caso gay não vai deixá-lo menos nervoso.
— Jensen é o nome dele? Tem certeza de que não é uma garota se passando por homem? — Beaver brincou.
— Absoluta. — Jared estava grato por Beaver levar tudo na boa assim. Não sabia o que faria se o chefe surtasse.
— Á propósito, Jay, o seu não-namorado chiclete está vindo para cá.
— Quem? — Jared virou para trás para ver de quem Beaver falava e viu Chad vindo para o seu lado todo sorridente.
— Hey, Jay! — Chad cumprimentou. — Sr. Beaver. Importam-se se eu me juntar à vocês?
— Hey, Chad! — Beaver sorriu para o rapaz. — Infelizmente, você chegou quando eu já estava de saída. Tem uma modelo histérica me esperando na minha sala. Vemos-nos depois, rapaz. — Beaver se levantou, deu um tapinha nas costas de Jared e saiu.
— Que homem gentil! — Chad exclamou enquanto se sentava no lugar que fora de Beaver e fazia sinal para o garçom lhe trazer uma bebida. — Sacou rapidinho que eu queria falar a sós com você.
— E o que você pode querer falar a sós comigo, Chad? — Jared perguntou assim que o garçom se afastou após servir vinho à Chad.
— A tal investigação, lembra? — Chad tomou um gole do vinho. — Acho que seria uma boa levar as cópias dos arquivos das mortes no metrô para aquela vidente dar uma olhada.
— Você acha que é uma boa idéia? — Jared estava inseguro. — Da última vez ela pareceu bem assustada.
— Eu sei, mas o jeito mais fácil seria perguntar alguma coisa para o Ackles, mas como você não é próximo o bastante dele para fazer isso...
— Chad, na verdade... — Jared sorriu amarelo. — Nós estamos namorando.
— O quê?! — Arregalou os olhos. — Desde quando?
— Ontem à noite, ele foi me procurar... — Jared confessou. — Nós meio que colocamos os pingos nos "is" e estamos namorando.
— E você nem me conta?! — Chad parecia revoltado.
— Eu ia contar, Chad. Só que hoje foi uma correria...
— E eu aqui bolando planos para você se aproximar da tal Jany...
— É Jensen. O nome do meu namorado é Jensen, Chad.
— Que seja... — Chad sorveu a última gota do vinho. — Tenho que ir. Tenho um encontro com um diretor de uma peça daqui a pouco. Te ligo mais tarde, cara!
— Até mais, Chad! — Depois que o outro saiu, Jared ficou ainda um tempo no restaurante pensando na conversa que tivera com Chad. Embora ele e Jensen estivessem namorando, não era como se estivessem verdadeiramente mais próximos. Afinal, Jensen deixara bem claro que queria Jared longe enquanto ele não resolvesse a situação com o tal fantasma que o atormentava.
Se estavam juntos eles não deveriam compartilhar os problemas? Jared pensava assim, mas, ao que parecia, Jensen não. Ainda que Jensen tivesse se soltado bastante na noite anterior, Jared percebera que o homem era muito fechado, do tipo que guardava tudo para si. Não queria que a relação dos dois fosse daquele jeito, por isso tomou uma decisão.
Quando Jensen acabou de contar tudo o que se passara na casa de Kristen Kreuk, observou que Wisdom, Mike, e Tom só conseguiram ficar calados olhando para ele. Jensen se sentia sem graça por estar tendo aquele tipo de conversa com os três, mas aqueles eram seus dois melhores amigos e o homem que era quase um pai para ele. Se não pudesse conversar sobre aquelas coisas com eles, com quem mais conversaria? Tentou calar a vozinha em seu íntimo que dizia: Jared.
— Então, — Wisdom abriu a boca. — para onde você foi quando saiu da casa de Kristen?
— Bem, eu... — Aquele era o momento da conversa que Jensen queria adiar mais que tudo. Mas mesmo que ele conseguisse enrolar Mike e Tom, não conseguiria enrolar Wisdom. — Eu fui para a casa de Jared Padalecki, da Paradise, lembra? — Tentou parecer o mais natural possível — Ele tem um apartamento na mesma avenida...
— Eu sei. — Wisdom disse. — Garret que joga golfe comigo me disse que viu você saindo do apartamento do Sr. Padalecki às sete da manhã outro dia.
— Pois é... — Jensen desviou o olhar. Havia esquecido do encontro com os Garret no elevador.
— Você dormiu na casa do Padalecki? — Mike perguntou abismado. — Quando? Por quê? Não sabia que eram tão íntimos...
— Bem, eu e ele...
— Foi na noite que fomos ao Paranoia? — Tom quis saber. — Eu meio que vi vocês dois na esquina.
— Você o quê?! — Jensen corou violentamente.
— Viu o quê exatamente. — Mike olhou desconfiado para Tom.
— O óbvio, Rosenbaum. — Wisdom disse. — Eles estão juntos.
— Quê?! — A boca de Mike se escancarou. — Juntos tipo... Juntos? Quer dizer que você é...? Desde quando? Por que nunca me contou?
— Mike, eu...
— Isso não vem ao caso. — Wisdom cortou. — Da próxima vez, Jen, faça o favor de nos avisar quando for dormir na casa do seu namorado. Ficamos preocupados.
— Certo. — Jensen baixou a cabeça.
— O importante agora é iniciarmos uma investigação minuciosa sobre a tal Kristen. — Wisdom entregou um bloco de notas a Jensen. — Medidas a serem tomadas... — Começou a ditar: — Descobrir todo o possível sobre o passado de Kristen, suas preferências e antecedentes...
— Antecedentes criminais? — Mike perguntou meio confuso. — Você acha que a garota já foi fichada?
— Não, Rosenbaum. Por antecedentes quero saber se ela já fez algo que prejudicasse os outros. Tipo uma discussão na escola ou uma briga por ciúme, inveja ou sei lá. O papel de vocês é investigarem e o meu é analisar os resultados.
— Para quê isso tudo? — Mike perguntou.
— Para descobrirmos qual o desejo dela, Mike. — Tom respondeu, depois se dirigiu a Wisdom — Talvez fosse bom investigarmos também a rotina dela.
— Boa idéia! — Wisdom aprovou.
— Vamos consultar algum médium ou bruxo também? — Mike perguntou com desdém.
— Quem diria... — Wisdom o olhou admirado. — Uma boa idéia! Faça isso, Rosenbaum.
— Sério?! — Ele pareceu não acreditar.
— Enquanto estamos investigando, Jensen... — Wisdom ignorou o outro secretário. — não quero que fique sozinho nem um único segundo. E mais, quero saber exatamente onde você está. Se for namorar, tem que me avisar aonde vai e a que horas chega ou se vai dormir com o Padalecki. Mesmo assim, tem que me ligar antes de dormir para eu saber que você está bem. Estamos entendidos?
— Sim, senhor. — Jensen respondeu submisso.
— E vocês, senhores, entenderam suas partes?
— Sim, senhor. — Tom e Mike responderam juntos.
— Ótimo! Então, desapareçam da minha sala.
Os três homens se levantaram rapidamente e saíram. Do lado de fora, Jensen soltou o ar que só então percebeu que estivera segurando.
— Cara, você é bicha... — Mike balançava a cabeça de um lado para o outro parecendo inconsolável.
— Mike, desculpe não ter contado antes. — Jensen estava com um enorme receio de que aquela noticia destruísse sua amizade com Mike. — Espero que as coisas não mudem entre nós.
— É claro que mudam. — Mike o olhou com cara de quem explica o óbvio para um idiota. — De agora em diante, ao invés de falar com você sobre garotas bonitas vou ter que falar de caras sarados.
— Claro que não, Mike. — Jensen tentou amenizar o problema. — Eu continuo me interessando por garotas. O que aconteceu foi que, por acaso a pessoa por quem me apaixonei é um cara. Se terminar... — Em seu íntimo, Jensen estava torcendo para que não tivesse fim. —, provavelmente eu vou continuar saindo com garotas.
— E com garotos. — Mike observou. — Só não me chame para nenhuma boate gay e continuaremos de boa.
Mike saiu deixando Tom e Jensen sozinhos e constrangidos. Jensen pensou em algo para puxar assunto, mas o que poderia dizer. Tom já sabia sobre ele e Jared antes mesmo da tal conversa com o Wisdom. E pelo visto, o próprio Wisdom ficara sabendo mais ou menos na mesma época. O que poderia dizer ao amigo?
— Jen, eu esperei que você me contasse... — Tom começou. — Como sei que você é meio fechadão, eu sabia que iria demorar. Não que isso mude alguma coisa entre nós.
— Obrigado, Tom. — Jensen disse agradecido. — Isso é muito importante para mim.
— Não esquenta com isso. — Tom deu um soquinho no ombro de Jensen. — Qualquer dia desses, vamos marcar um jantar no Paranoia. Aí você vai poder cantar uma música bem brega e apaixonada para o seu namorado.
— Jantar sim, canção brega e apaixonada... acho que não. — Jensen corou.
— Isso a gente vê depois. — Tom voltou para a sua mesa, enquanto Jensen ia enfrentar a papelada sobre a sua mesa, pensando que era muito bom ter amigos.
Estava começando a diminuir o volume sobre sua mesa quando sentiu um frio intenso comprimir seu coração. Imediatamente pensou: "Kristen, calminha, garota. Vou realizar seu desejo. Me dê só mais um tempo..." Mas Kristen estava com mais ódio que antes. Era como se Jensen tivesse cutucado uma ferida sua e ela agora quisesse se vingar mais ainda. Sentiu dedos rasgando seu peito e se fechando contra seu coração. Por um momento parou de respirar. Quando sua vista escurecia, ele a viu. Ela o olhava cheia de ódio e seus lábios se moviam formando as palavras: "ELE É MEU".
