A promessa

Capítulo 09 - Abrakadabra


Ginevra, agora.

Vamos almoçar. Te espero meio dia. E cliquei para enviar a mensagem.

Acordei faminta, e muito, muito depois das cinco e meia da manhã, horário pretendido no dia anterior. A casa já estava vazia como era o esperado, o único sinal dele sendo um bilhete deixado embaixo de meu celular no criado mudo ao lado da cama. Agora, onze e meia, tendo decidido por sim, reli mais uma vez as palavras escritas em uma letra corrida, tão diferente da pomposa que poderia imagina-lo ter.

Achei melhor te deixar dormindo. Tem leite de amêndoas na geladeira - sim, suas crises te fizeram ficar assim chata - e pão de castanhas para comer com pasta de amendoim e geleia - ou manteiga, se quiser arriscar a lactose. Posso te buscar para o almoço? Me responda por mensagem.

Aquilo riscado no final era, definitivamente, um te amo.

Explorando meu armário vi que haviam sim muitos moletons, assim como diversas saias. Peguei uma semilonga cinza que ficaria suficientemente boa com um casaco e uma meia mais grossa - meu gosto por calças pareceu ter ficado apenas na parte confortável. Ao menos a maldita dor de cabeça tinha passado, graças à Merlin - não suportaria mais um dia como o último.

Olhei mais uma vez para meu reflexo, o cabelo sendo domado em um coque. Um almoço com Draco Malfoy: ok, eu conseguiria fazer aquilo. Não poderia ser tão ruim, poderia? Por Merlin, nós temos uma filha juntos, algo com certeza deveria ser bom em nosso relacionamento - e eu tão precisava descobrir o que.

Quando desci as escadas ele já me esperava na porta.

"Virgínia?" o bruxo chamou, parecendo testar o nome, claramente aliviado quando viu a ausência de oposição. "Está pronta?"

"Estou faminta." respondi enquanto trancava a porta atrás de mim, rumando atrás de seus passos largos. A porta que Draco abriu para eu entrar foi uma surpresa, ele a fechando após eu me acomodar no banco de passageiro. A margarida posta em minhas mãos de um jeito quase tímido foi tão inesperada - igualmente agradável - quanto a porta.

Eu amava aquela flor. Será que significava algo para nós?

"Então, podemos ir para o seu favorito, ou para o favorito de seu dia pós-crise." Draco disse ao dar a partida, ele dirigindo tão bem quanto um trouxa - tão melhor que meu pai - sendo a terceira surpresa.

"Definitivamente o segundo." Me buscar em casa, abrir a porta, me dar uma flor, deixar eu escolher o restaurante: eu poderia muito me acostumar com aquilo, pensando somente naqueles detalhes. "Você é um cavalheiro." Não pensando que nosso último nome era Malfoy. Não recordando que o bruxo que escolhera para casar um dia já mostrara orgulhoso a marca negra. Não lembrando de nossa filha, ou da ausência de magia, ou do sumiço do resto de minha família. "Eu não estou acostumada."

"Estranho pensar em mim como um?" Engraçado - e aqui estava essa palavra outra vez - como ele não mais parecia incomodado com meus comentários.

"Muito." Vi um sorriso leve no canto de seus lábios, Draco sacudindo a cabeça enquanto parava num sinal vermelho. "Mas com isso eu poderia me habituar."

"Eu estou feliz que aceitou o convite. Por um momento achei que fosse hibernar depois de ontem." Por um momento achei que fosse sumir depois de ontem. Mas então, querendo sumir, para onde iria? Partir para a casa de Luna não seria o melhor dos esconderijos, e por algum motivo ainda não-lembrado, partir para a'Toca já não era uma opção. "Quer me falar sobre sua tarde?" sua pergunta me fez voltar para o carro, eu a escutando como quer me falar porque agora eu te chamo de Virgínia novamente? - e não, eu não queria falar.

Mas ao mesmo tempo que gostaria de manter o silêncio, lembrava que aquela maldita resposta ganha na noite anterior me fez querer pelo menos tentar. E se fosse para tentar, que eu não esperasse falhar antes de começar. E se fosse para reconstruir algo, que fosse algo sem mais segredos.

"Nunca te contei sobre meu relacionamento com Harry, contei?" O vi negar com a cabeça, os olhos no trânsito. Qual teria sido o motivo de eu nunca falar sobre aquilo? Doía muito? Tinha medo que o loiro me olhasse diferente? Não era mais importante? "Nós brigávamos muito."

"Nós estamos tendo alguns desentendimentos também." E realmente fui grata por aquela sinceridade.

"Mas apesar de nossas brigas, você é um bom marido." falei antes de pensar, o que me rendeu um olhar surpreso. "Ao menos é o que eu acho, pelo que me foi dito." continuei, mesmo sabendo que poderia tê-lo deixado somente com as primeiras palavras: sinceridade, afinal. "Harry não era um bom companheiro. Era bom no começo, mas em algum pedaço do caminho tudo ficou estranho. Talvez tenha sido depois da guerra, pessoas são mudadas com guerras." Não sabia se tentava arranjar desculpas para o bruxo ou para eu não parecer tão estúpida ficando com alguém assim por tanto tempo. "Ele me desencorajava em tudo. Era possessivo, ciumento, sempre tinha razão. Na noite de quinta feira que te reencontrei, eu o vi com outra mulher logo de manhã." Quando achei seus olhos cinzas não encontrei o que esperava, e o semblante quase inalterado acendeu minha desconfiança. "Isso não parece novidade para você, Draco." falhei em fazer a voz sair pacífica.

"Você nunca me disse abertamente, mas eu imaginava, Ginny." ele começou, puxando o freio de mão e voltando-se para mim, só agora eu notando que o carro havia sido estacionado. "Você se surpreendia pelas menores coisas. No começo pensei que era por eu ser," Pareceu lhe faltarem palavras. "Bem, por ser quem eu era. E você me conheceu no colégio, quando eu era um imbecil completo. Mas depois de um tempo ficou claro que você não estava acostumada com aquilo. Com as flores, e pequenas palavras, gentilezas que eram tão grandes para você. Eu também não estava acostumado, mas Virgínia Weasley me fazia querer dar uma chance para tudo aquilo." a admissão veio com um riso. "Então quase um mês depois eu descobri que você o largou e me encontrou no mesmo dia." Draco confessou, pela primeira vez parecendo desconfortável. Sinceridade, outra vez - a eu de antes sabia daquela informação? "Eu aluguei o apartamento em Londres para você." ele terminou em sincronia com seus olhos, os cinzas voltando a encontrar os meus em sua última palavra. "Ia mandar você ir sozinha porque era tão óbvio que nós daríamos errado - e não, eu nunca te contei isso. Tinha certeza de que ou voltaria para ele, ou sua diversão comigo acabaria tão como começou, de um dia para o outro." Vi a dor que passou pelo seu rosto quando ele mesmo registrou o que disse, e era incrível como o loiro conseguia mascarar algumas de suas emoções em segundos. "Zabini me convenceu ao contrário." disse com outra vez um meio sorriso, os cabelos que pela primeira vez notara mais compridos que na época de Hogwarts quase brancos contra o sol.

"Devo uma a Zabini, então." desconversei, tentando manter o clima trazido pelo sorriso. Acabei com todo ele na próxima frase, quase me envergonhando com o que pensei como resposta. "Por que eu?" Seria assim difícil me livrar daquele tipo de pensamento?

"Por favor, não pense que foi para me vingar de Potter." E era realmente assim fácil saber o que eu pensava? "Porque não foi, Virginia. Nunca foi. Eu não sei explicar porque é você. Você trouxe felicidade para mim numa época muito bosta de minha vida, e parece que eu nunca tive a opção de não me render as suas malditas sardas. Eu estava apaixonado desde o primeiro dia. Eu muitas vezes não duvido que meu amor tenha começado no primeiro dia."

Desviei de seus olhos, a margarida parecendo muito mais interessante naquele momento. Draco era realmente bom com palavras quando queria: com aquelas últimas, eu consegui entender o que me seria perguntado antes mesmo de qualquer questionamento vir. Ele quer saber o que vai acontecer agora, não quer? O que eu pretendo fazer depois de saber de tudo aquilo. Eu tinha uma resposta?

"Virgínia, eu não sou perfeito. Longe disso, sei que você não lembra, mas muitas vezes eu me perguntava - eu te perguntava - o que te fez acabar justo comigo. Eu sei que você não precisa dar uma chance para nós, quero que entenda isso, ok?" E fiz que sim quando suas mãos acharam as minhas tão, tão hesitantes. "Mas se você quiser dar essa chance, eu prometo fazer o que for preciso para nós darmos certo outra vez." E outra vez a proximidade, e outra vez o nervosismo - meu e dele. As mãos saíram das minhas e foram para os fios loiros, o bruxo denunciando sua ansiedade. "Então veja se você quer. Se você não estiver disposta, saiba que também daremos um jeito. Fique com a casa, fique com Ella-" E a surpresa veio para ambos: ficar com uma criança que eu não sabia nem como interagir? "Eu fico com Ella?" O bruxo era tão bom com palavras, até o momento em que se deixava levar pela tensão.

Até aquela hora, eu tinha uma resposta: vamos tentar. Por que era tão difícil dá-la em voz alta?

"Me deixe pensar um pouco, tudo bem?"

...

Encarava a gaveta aberta já fazia minutos.

Era como abrir a geladeira para pensar, mas com uma maldita gaveta. Ridículo, sim, mas todo o pensamento parecia ser melhor do que pegar o que pretendia desde que chegara na casa.

O almoço no restaurante vegetariano e orgânico fora melhor do que o esperado após eu ter pedido um tempo para processar tudo aquilo, e eu muito ainda agradecia por Draco não ter feito a pergunta que eu com certeza faria: quanto tempo? Quando eu conseguiria dar a resposta que já tinha? Eram apenas palavras, era vergonhoso não conseguir fala-las: vamos tentar. Vamos com calma, como agora fomos ao meio dia, conversando sobre pequenas coisas, você me contando de Ella enquanto eu comia minha sopa, ninguém forçando um relacionamento que ainda não existia - ao menos para mim.

Mas só pensar em construir um relacionamento já me deixava muito mais ansiosa que o normal. Voltei mais uma vez minha total atenção para o que via na gaveta do atelie, pegando sem mais pestanejar o caderno que repousava ao lado de minha varinha.

Foi sentada na mesa da cozinha que folheando rapidamente o que tinha nas mãos descobri que sim, o caderno era um diário. E era um diário relativamente recente, pois ao abrir agora na primeira página, a data era de fevereiro do mesmo ano que estava.

"14/02/2015

Dia dos namorados.

É tão estúpido estar começando um diário justo no dia de hoje. É tão estúpido estar começando um diário. E é tão estúpido sentir raiva dele justo nesse dia. Essas palavras vão ser meu último esforço antes de começar a gritar, e Deus sabe que puta que pariu, eu odeio gritos.

Mas hoje é dia dos namorados, e o homem que era para ser meu eterno namorado está muito, mas muito longe de casa. Não consigo não pensar que existe algo de muito errado na história contada, 'preciso resolver o problema de um contrato n Irlanda e não tem como mandar Percy dessa vez' parecia muito mais uma desculpa. O mais engraçado ainda está por vir: não é nem pelo dia de hoje e sua distância que estou fula com ele. Não, eu quero matar Draco Malfoy por algo que nem relacionado com essa data está.

Ele nem mesmo sabe que quero matá-lo - ainda.

Ella demorou para dormir outra vez, a pequena é tão apegada ao pai quanto é a mim. Ela está mais falante do que nunca, e mesmo tendo apenas seus dois anos e quase dois meses, tem um vocabulário muito mais extenso do que eu imaginava que uma criança de dois anos poderia ter. Ela ainda está impressionada - e de um jeito muito, mas muito mais positivo do que eu esperava - com o que aconteceu. Do mesmo jeito que está completamente irritada por eu ter mandado não contar nada ao pai.

Nós não esperávamos aquilo antes dos seus pelo menos cinco anos. Quando foi a primeira vez que algo mágico saíra de mim, afinal? Eu tinha seis, sete anos? Lembro que Draco contara com certo orgulho que com ele acontecera aos quatro, assim como lembro que nunca - como tantas vezes acontecia com tantas coisas - discutimos o que faríamos quando fosse a vez de nossa pequena.

Então ontem durante a noite - pouco antes de receber a merda da mensagem que dizia que meu marido ficaria fora por dois dias - entro no quarto e pego Ella levitando seu bichinho de pelúcia favorito. 'Voa, mama!', como eu iria explicar para uma criança de dois anos que não, ela não podia fazer isso para seus amigos trouxas verem?

Graças a Deus ela não fazia ideia do que fez para a raposinha levitar, e graças a Deus outra vez ela não soube reproduzir o dito feitiço. Não que isso me fez ficar menos nervosa, eu estava uma pilha fazia horas, e o que mais queria era sim, meu marido do meu lado. O que fazer? Mandar por mensagem 'amor, temos que explicar para nossa filha que ela não pode sair levitando coisas por aí'? Porque amor, nós precisamos começar a discutir sobre coisas mais produtivas do que qual seriado ver na Netflix. Nós precisamos discutir sobre a possibilidade de nossa filha - sobre o fato, porque sim, iria acontecer - receber daqui uns anos uma maldita carta daquela maldita Escola de Magia.

Nesses momentos, tento pensar no que minha mãe faria, e só acabo com mais raiva. Minha mãe fez sua escolha, ela praticamente decidiu de quem seriam os netos que cuidaria. Poderia perguntar para Luna, incomoda-la com ainda mais esse problema? Era tão injusto incomoda-la com aquilo quanto era apenas incomoda-la com aquilo, e deixar Draco fora do assunto. Ele era o pai, ele precisava estar junto naquela decisão.

Ele ia surtar.

Mas que merda."

Mas que merda.

"16/02

Não estou com a menor de vontade de trabalhar em qualquer projeto, nem de jogar conversa fora com Luna, muito menos de olhar para a cara de Draco. Sim, eu estou brava, brava a ponto de fingir ainda estar dormindo naquela manhã para não precisar interagir com meu marido, que chegara ontem quando eu e Ella já estávamos muito bem adormecidas. Acordei antes dele naquela sexta, o achando com olheiras tão maiores do que há dias atrás que por um momento pensei em relevar minha braveza.

Mas ele ficara fora por três dias, mal dera notícias, nem ao menos se despedira da filha, e eu que tive que me virar sozinha. O cacete que o sinal de seu celular não pegava direito na Irlanda para ficar quase um dia inteiro sem notícias - que diabos estava acontecendo? Porque era claro que algo estava errado. Deveria incomodar Luna com mais aquele problema? Até quando ela aguentaria minhas reclamações antes de me mandar crescer? Ou pior, antes de me mandar discutir todos eles com o loiro, como dois adultos devem fazer?

Eu deveria sentar e discutir com ele sobre o ocorrido com Ella. Mas a pequena estava tão aborrecida com o sumiço do pai que mal lembrava de seu bichinho voador - poderia esquecer e fingir que nunca aconteceu? Deveria?

Acordei antes dele, mas me mantive imóvel e de olhos fechados até escutar a porta da frente fechar."

Fechei o diário, a cabeça já pensando sobre duas coisas de modo diferente de antes de abri-lo. Primeiro não, eu não conseguiria devora-lo como imaginava que fosse acontecer: aquilo provavelmente seria lido em doses homeopáticas. E segundo, não era que nós evitávamos conversas desnecessárias: o que acontecia era que nenhum de nós dois parecia saber conversar sobre assuntos sérios. Merda.

Não era tão difícil falar aquilo, era? Que diabos acontecera que tornara a magia um tabu? Devolvi o diário para a gaveta onde o achara, tentando imaginar o que poderia ter ocorrido de tão sério comigo para eu renegar de forma tão intensa minhas origens. Eu poderia supor o caso de Draco: lembro que sua família perdeu muito de sua influência quando as coisas enfim se acalmaram pós guerra. Apesar de merecer - e lá estava afirmando que meu marido merecia algo ruim -, não deve ter sido fácil ter poder e de repente-

Mas eu não sabia. Da mesma forma que não sabia de minha história, não sabia da dele. E da mesma forma que ele não deveria conseguir falar de assuntos sérios comigo, eu também não conseguia os expor ao bruxo. Era culpa de meu antigo relacionamento, aquele medo de falar algo que gerasse uma briga maior do que poderia aguentar? Era medo de causar uma briga que enfim fosse perde-lo? Meu eu antigo tinha medo de perder Draco Malfoy?

A tarde passou de forma inesperadamente rápida, e quando dei por mim já era quase seis horas e eu ainda estava deitada no sofá, a televisão ligada mas meus pensamentos muito longe do que nela passava. Mais uma vez esquecera de cozinhar, mas o cheiro que veio com o abrir da porta me fez ver que não seria necessária nenhuma comida preparada por mim naquela noite.

Poderia esquecer tudo na vida, menos o cheiro do frango teriyaki. Levantei, sentindo um leve orgulho por estar com menos medo do que ontem de encontrar nossa filha. E maldição, cenas como aquela poderiam sim fazer meu coração amolecer.

Draco a carregava no colo, e Ella realmente parecia uma raposinha usando aquele casaco com orelhas no capuz. Os olhos azuis pararam em mim depois de poucos segundos, e as mãozinhas soltaram automaticamente o pacote que segurava no chão, espalhando biscoitos chineses por toda a entrada enquanto a pequena se contorcia para ser largada pelo pai. E aquele filho da mãe sorria um sorriso que nunca na vida o vira dando em Hogwarts - e Merlin, o bruxo realmente se transformava quando sorria daquele jeito.

"Mama!" Daquela vez estava preparada, e abri os braços para receber a pequena ruiva que se jogava contra mim. A peguei no colo pela primeira vez, a apertando contra meu peito e recebendo uma risada em troca. Teria eu acreditado todos aqueles anos não querer um filho por conta de quem estava? Porque precisava admitir que ter Ella agora em meus braços estava longe de ser indesejável.

"Oi raposinha!" A pequena me deu um beijo estalado na bochecha, as mãozinhas ainda ao redor de meu pescoço, os olhos tão mais azuis do que os de Draco brilhando de felicidade. Não tinha como nossa família ser tão ruim e criar uma criança feliz desse jeito, tinha? "Eu estava morrendo de saudade desse abraço!" Poderia estar exagerando nas palavras quando escrevi aquelas páginas, não podia? "Como foi o seu dia?"

"Bom! Um doi treis catro cinco!" Ela estava querendo me dizer que tinha aprendido a contar? Crianças com dois anos já aprendem essas coisas? Só de olhar para Draco soube que sim, o que pensei estava certo - e como eu sabia de algo só de olhar para ele? "Mama, beça?" A pequena chamou minha atenção tocando meu rosto, e meus olhos foram novamente para ela logo após ver meu marido colocar o casaco pendurado num gancho ao lado da porta. Meu marido, pensar daquela forma estava se tornando estranhamente mais fácil.

O bruxo estava do meu lado antes que pudesse responder qualquer coisa, pegando Ella de volta para ele antes de começar a falar.

"Mamãe está melhor da cabeça, raposinha. O que acha de ir colocar suas coisas na sala, recolher os biscoitos que caíram, achar o Pantera e vir jantar?" e a pequena foi para o chão, a mão grande de Draco bagunçando os fios alaranjados. "Pode fazer isso pro papai?" Não foi preciso mais uma palavra para Ella sair correndo. "Devagar!" a advertência veio logo em seguida, o bruxo balançando a cabeça com aquele mesmo sorriso quando voltou a me olhar. "Nós estamos ensinando Ella a deixar suas coisas arrumadas." E era tão estranho, mas aquele sorriso em particular estava conseguindo me derreter por completo. "Ela deixa tudo certinho na poltrona ao lado da TV, precisa ver-" Não duvidaria se ele me contasse mais para frente ter me conquistado com esse puxar de lábios.

"Draco, eu quero tentar." Foi tão fácil falar aquilo, e daquela vez foi tão fácil não fugir do abraço que ganhei. O beijo no topo de minha cabeça fez sim eu me sentir uma anã, mas também me fez sorrir igual ao bruxo. Até mesmo me atrevi a retribuir o abraço antes de nos separarmos e eu continuar. "Mas para isso dar certo, eu não quero mais segredos entre nós - e digo isso porque em menos de uma semana eu já descobri que parecem haver muitos. Eu preciso ter a liberdade de te perguntar as coisas, e saber que vamos ao menos sentar e discutir sobre o assunto como dois adultos." falei séria, o seguindo quando o bruxo rumou para a cozinha.

"Você sempre pôde fazer isso, Ginny." A resposta veio junto de três tigelas, o sorriso já não mais tão grande.

"Então porque parece haver tanta coisa das quais não falávamos?"

"Porque certas coisas nós relevávamos para evitar uma briga desnecessária." o ouvi falar enquanto eu mesma comecei a servir a comida, um pote indo da geladeira para o microondas me fazendo ver que estava certa em não colocar a comida chinesa no menor. "E porque antes de Ella, não havia motivo para discutir muita coisa." ele continuou, programando um minuto. "E porque agora com Ella, muitas vezes nós estamos cansados e sem muit-"

"Eu não vou mais fazer isso." o cortei, o olhar sério. "Nós não vamos mais fazer isso, Draco. Eu quero sinceridade, essa é a minha condição para tentarmos. Eu quero sinceridade, e prometo a mesma coisa em troca, ok?" Sua resposta só veio após o apitar do microondas.

"Ok, Ginny." A comida da pequena foi para a pequena tigela laranja, o bruxo colocando espetada no arroz uma colher com orelhas de raposa na ponta - nós realmente fazemos o apelido dela valer. "Você quer falar mais alguma coisa, não quer?" Precisava ainda me acostumar como aquele homem me conhecia bem.

"Tem uma coisa que imagino que nunca discutimos, mas eu preciso perguntar." E quase ri: tinham tantas! Por que não falo mais com minha mãe? Quem de nós dois que não quer mais usar magia? Qual o motivo de eu ter me afastado do meu antigo mundo? Mas optei pela que considerei mais importante. "O que vai acontecer quando Ella receber a carta de Hogwarts?"

E o sorriso se foi.

"Você precisa começar justo com uma das mais pesadas." ele reclamou, o olhar tão sério quanto o meu. "Virgínia, ela mal tem três anos."

"Mas um dia terá onze." insisti, por mais que estivesse nervosa ao pensar que aquelas palavras pudessem estar iniciando uma discussão que faria a noite terminar de uma forma não muito agradável. Nós não discutíamos, afinal. E parecia que quando discutíamos, as coisas não terminavam exatamente bem.

Mas o bruxo estava se mostrando tão diferente do que esperava. A voz que continuou foi uma voz calma, seu semblante já menos duro, quase preocupado.

"Nós nem sabemos se ela pode fazer mágica ainda." É, eu nunca havia falado. "E se contarmos tudo para ela, e Ella for, você sabe-" ele pausou, como se fosse um tabu falar aquela palavra.

"Um aborto?" completei para ele, um pedaço de frango indo parar na boca. "Eu duvido. E eu sei que você tem certeza que Ella não é."

"Não, eu não tenho. Eu não encho mais a boca para falar sobre minha família, quanto mais faço questão que Ella se meta em nosso antigo mundo. Só por ser minha filha talvez a vida dela seja um inferno!" Suspirei, irritada por sim, ele ter razão. Filha dele comigo, sumidos do mundo mágico, subitamente aparecendo no nosso antigo meio: não havia pensado por esse lado. "Não tem como esperar ao menos um sinal?" Oh Merlin, ele precisava saber. "Que olhar é esse?" Eu precisava contar.

"Draco-"

Mas não foi preciso qualquer palavra. Olhei para o pequeno pacote de biscoito que passava pela porta da cozinha e olhei para ele. A surpresa estampada em seu rosto me fez quase gargalhar - a risada saiu ao ver Ella entrando na cozinha com os olhos estalados, apontando para o doce que pairava no ar.

"Mama, mama!" a pequena gritava, desacreditada no que via. "Voa, Mama! Que nem a raposinha!"

Voltei a encontrar os olhos cinzas, tão grandes quanto os da filha, com um sorriso vitorioso.

"Acho que é hora de conversarmos sobre isso."


Nota da autora: Oi leitores, tudo bem? Espero que tenham gostado do capítulo! Surgiram mais perguntas? Deixem elas pra mim nas reviews, vou adorar saber! Beijo grande ;)