9 – A CAIXINHA

Havia pelo menos uma hora que eu estava a contemplar a caixinha de carvalho sobre a mesa e já tentara todos os feitiços de que eu tinha ciência. Ela, todavia, permanecia rígida e impassível, sem dar mostras de que abriria. Suspirei novamente e tentei mais uns dois feitiços já anteriormente testados. Nada. A minha curiosidade só se fazia aumentar, o que Slughorn teria para mim? E por que fechara com tanto esmero a caixinha? Eu já esgotara toda a minha capacidade mágica e estava às vias de desistir, porque Slughorn provavelmente era a única pessoa a ter conhecimento do segredo para abrir, conhecimento este que fora com ele para o túmulo. Se ao menos houvesse uma fechadura onde introduzir uma chave, eu poderia conjurar o objeto, mas realmente não havia sequer um buraco que servisse de fechadura. A caixa era impenetrável. Coloquei-a novamente diante de mim e fitei cuidadosamente os seus detalhes. Como dissera Slughorn, era de um carvalho envelhecido, orneada por rosas prateadas, em formato de baú, com aproximadamente vinte centímetros de comprimento. Fora a ausência de fechadura, nada nela parecia fora do convencional. Que segredos encerraria misteriosa caixinha? O que Slughorn teria para me entregar? A minha cabeça deu mais algumas voltas e eu finalmente decidi guardá-la, mas quando a apanhei, toquei, sem querer, a rosa ao centro da tampa. Então, talhadas na madeira da caixinha, as palavras surgiram, douradas, numa caligrafia que eu reconheceria mesmo que atravessasse vários séculos.

"O frio da morada perpétua."

Fosse por minha habilidade em desvendar enigmas ou por intervenção divina, a palavra "túmulo" formou-se em meus lábios imediatamente. Juntei as peças do quebra-cabeça: Aquela caligrafia miúda e inclinada, tão característica, e o fato de que talvez não fosse Slughorn quem quisesse me entregar algo, mas você. Fazia muito mais sentido. A terceira peça era a frase, que podia tratar-se unicamente de seu jazigo. Meu coração ribombou desconfortavelmente após a conclusão, porque durante todos aqueles anos eu evitara pensar que o seu corpo estaria encerrado em algum lugar. Para mim transformara-se de matéria em luz, e só. Onde estaria? Quem poderia me responder seguramente a essa pergunta? Pensei em McGonagall enquanto guardava a caixinha, mas ela me faria perguntas constrangedoras, às quais eu não teria coragem de responder. Havia uma única pessoa que tinha conhecimento de meus sentimentos por você — ao menos que eu soubesse — e era Malfoy.

Na manhã vindoura, ao término de uma aula, eu chamei Scorpius à minha mesa, pedindo que convocasse o pai, que eu precisava ter com ele. O pequeno tornou-se lívido, provavelmente fazendo uma busca mental de algum delito que praticara e esquecera, então o tranquilizei, dizendo que ele não tinha relação alguma com o assunto. Mais calmo, Scorpius declarou que o pai certamente chegaria à Hogwarts o mais rápido possível, e, com efeito, pela manhã, Malfoy bateu à porta do meu gabinete. Saudamo-nos da forma mais cordial e eu lhe ofereci uma bebida. Sentamo-nos frente a frente, com a mesa entre nós.

— Diretora da Sonserina — ele disse com um ar grave, mas risonho — quem diria que esta é a Pansy que eu encontrei há pouco tempo encerrada em uma residência trouxa?

— Ninguém sabe o que esperar do dia de amanhã — foi a minha resposta simplória.

— Você sempre teve um espírito de liderança, Pansy, mesmo quando vivia à minha sombra.

Os meus olhos se estreitaram um pouco, e senti um meio sorriso involuntário formar-se nos meus lábios.

— Eu não vivia à sua sombra, Draco — falei pausadamente, tomando o cuidado de que as palavras ficassem bem claras — apenas fui mais uma sonserina tola a se apaixonar pelo garoto mais bonito e popular de sua casa. Entre tantas outras besteiras que nós fazemos na adolescência...

Seu sorriso foi afetado, mas ele não contra-argumentou, apenas gesticulou com a mão o que verbalmente seria um "tanto faz". Calei-me também, mas porque meus olhos se prenderam ao armário que guardava a misteriosa e impenetrável caixa.

— Algum problema com Scorpius? — ele disse finalmente, dissipando-me os pensamentos.

— Não, nenhum, seu filho é excelente, e isso não é só opinião minha, mas de todos os demais professores.

— Só me preocupa a amizade com o Potter.

—Albus Potter? Também é um bom garoto, o que tem de errado com ele?

— Ah, Pansy...

— Ora, por favor, Draco! Não queira que as suas desavenças com Harry Potter se reflitam nos seus filhos. Já passou, não é?

— Sim, é claro, mas não é esse o problema. É que, bem, Scorpius fala sobre esse garoto em todas as cartas, a amizade me parece muito intensa. Eles dividem o dormitório e tudo... Ah, Pansy, você sabe...

Soltei uma sonora gargalhada, mas Draco permaneceu tão sério quanto antes. Olhei cuidadosamente o rosto bonito e cansado, portando certa expectativa.

— Não seja bobo, Draco, são apenas duas crianças.

— Que estão crescendo rapidamente. E você sabe como os adolescentes às vezes fazem escolhas erradas.

— Não seja ridículo! São só dois amigos, Draco! E caso acontecesse de eles se gostarem de outro modo, qual o problema? Não são, no fundo, duas almas? Dois corações?

— Você fala isso porque não teve filhos, Pansy.

E novamente a imagem da garotinha de cabelos negros, agora trajando as vestes da Sonserina, surgiu diante de meus olhos. Lutei para me desvencilhar dela, concentrando-me no rosto perturbado de Malfoy.

— Desculpe — ele falou, ao notar que eu não respondera — eu não quis machucá-la, apenas estou preocupado com o meu filho.

— Não há que se preocupar, Draco. Esqueça os garotos, sim? Eu já andei reparando nos dois, e a mim, agem como irmãos.

— Bom, talvez eu só esteja imaginando coisas. Enfim, se não foi para me falar sobre Scorpius, para que é que você me chamou aqui?

Senti a respiração falhar por um instante, mas não hesitei.

— Draco, há uma coisa que eu preciso lhe perguntar.

— Sinta-se à vontade.

Decidi que indagar diretamente seria muito mais fácil.

— Onde Snape está sepultado?

Malfoy semicerrou os olhos e me estudou cuidadosamente por um breve segundo.

— Você sabe onde ele morava, presumo.

— Sei.

— Eu nunca fui até lá, mas a minha mãe disse que o cemitério fica a duas quadras da casa que ele habitou.

Lembrei-me imediatamente de já ter passado em frente ao lugar por pelo menos duas vezes.

— Obrigada, Draco.

— Mas o que você quer lá?

— Visitar.

— Mas não será pior? Quero dizer...

— Não sei, só obterei essa resposta ao me ver diante do túmulo. De qualquer forma, agradeço pela informação.

— Você vai sozinha?

— Naturalmente.

— Quer que eu a acompanhe?

Dei um sorriso trêmulo.

— Não será necessário, Draco. Lamento tê-lo tirado do Ministério por uma causa pessoal, e não quero lhe proporcionar mais nenhum incômodo.

— Não será incômodo, Pansy, você é uma velha amiga...

— Velha o suficiente para saber me cuidar sozinha.

E com uma piscadela me ergui da cadeira. Malfoy teve tato suficiente para perceber que deveria fazer o mesmo, e que nossa entrevista estava encerrada.

Passei muito ansiosa os três dias que me separaram do sábado, mas quando abri os olhos na manhã do almejado dia, desejei que ainda fosse sexta, porque a coragem começou a se esvair. Já era uma questão decidida, todavia, e eu não pensava em desistir.

INTERLÚDIO

Bastava que olhasse pela janela da sala para que me pusesse a reclamar do jardim malcuidado. Você já se acostumara com os meus protestos e quase sorria quando eu começava algum sermão do tipo: "O senhor pode arrumar isso facilmente com magia, se quiser." ou: "Pensa que as plantas não sentem falta de cuidados?" Fosse porque você acordou de bom humor certo domingo ou porque não suportava mais as insistentes reclamações, quando desci para o café da manhã e lancei meu costumeiro olhar pela janela da sala, o jardim estava impecável. Incrédula, corri para a cozinha e o encontrei à mesa, lendo o Profeta Diário.

— O jardim — eu disse quase sem fôlego — que aconteceu?

Você baixou lentamente o jornal e estudou com alguma demora a minha expressão de deslumbre infantil.

— Você tinha razão quando disse que não seria difícil arrumar o jardim com magia.

Experimentei a maravilhosa sensação de sorrir intensamente, sem o peso das mágoas por trás de uma provável máscara. Não encontrei palavras, mas não precisei delas porque você leu através dos meus olhos tudo o que eu gostaria de dizer.

E o jardim ficou realmente bom. Sentei-me entre as flores e folhas e me senti em paz, como se o meu espírito voasse para bem longe, tanto que demorei a me dar conta de que você estava ao meu lado, e me sobressaltei. Havia alguma coisa em suas mãos fechadas em conchas, que antes que eu pudesse indagar, foram entregues às minhas. Eram sementes, umas cinco ou seis.

— Sândalo — você respondeu à minha pergunta não verbalizada.

Você cavou a terra com magia e eu depositei as sementes de sândalo. Eu podia ter quase certeza de que sonhava com aquela situação, porque nunca imaginara algo de natureza tão sensível vindo de você. Desde que o conhecera, eu via em ti uma expressão séria, fria, até triste, totalmente impenetrável. Era impossível, para qualquer um, aproximar-se de você sem temer ser escorraçado. No entanto, aos poucos você começava a despir a máscara, mostrando-me, talvez não intencionalmente, o que sempre existiu por trás dos seus olhos frios.

Na noite daquele dia, você sentou ao meu lado frente à lareira, a princípio em silêncio, depois iniciou um assunto qualquer do qual não me recordo. Os roncos de Rabicho eram audíveis no piso superior, e você riu disso muito brevemente. Mais alguns segundos de silêncio e você falou de repente, como se esperar o fizesse se arrepender.

— Esta casa me traz péssimas recordações.

Olhei-o sem compreender. Nossas conversas quase sempre se limitavam ao essencial, e eu não esperava um avanço tão repentino como aquele, de você falando sobre a sua vida, sobre as suas lembranças.

— Que recordações?

Você meneou a cabeça negativamente, parecia arrependido de ter iniciado aquela conversa, mas eu esperava pela sua resposta.

— Infância, adolescência, essas coisas.

— Geralmente são as melhores fases de nossas vidas...

— Geralmente.

— O que o faz recordar com amargura?

Novamente você hesitou, mas seu rosto denunciava um desejo por desabafo. Eu me perguntei por que você me escolhera para contar sobre a sua vida, e novamente me dei conta de que você poderia ver através dos meus olhos que eu o amava e seria fiel mesmo que isso me custasse a própria vida.

— Um sujeito que eu tive de aprender a chamar de pai.

Calei-me. O assunto era bem mais delicado do que eu imaginava. Dessa vez não demonstrei interesse, embora o tivesse. Deixaria que você decidisse, sem pressão alguma, se me contaria ou não a sua história conturbada. Você suspirou, os olhos presos ao fogo que crepitava na lareira. Eu nunca o vira tão desconcertado.

— Crescer em meio à violência é algo que repercute na pessoa para o resto da vida. Depois uma adolescência conturbada...

— Isso eu posso dizer que sei como é.

— Não nesse aspecto, Pansy, ao menos eu acho que não.

— Que aspecto?

— Esqueçamos isso.

Pude notar que era algo de que você não gostaria de lembrar. Venci a curiosidade e decidi que o melhor era ser compreensiva. Toquei a sua mão, posicionada sobre o acento de sua poltrona, e você estremeceu levemente, como eu faria.

— O passado dita o que somos no presente, mas aquilo que fazemos agora construirá o nosso futuro.

— Quando se tem tempo...

Ergui-me da poltrona que ocupava e parei à sua frente, dotada de uma coragem que jamais tivera.

— Por que você fala tanto no tempo, como se esperasse a morte?

— Todos nós esperamos.

— Esperamos que ela apareça quando soubermos que vivemos tudo.

— Talvez eu tenha vivido tudo.

— Não! — assustei-me com meu próprio guincho e parei por alguns segundos para me assegurar de que Rabicho continuasse dormindo, o que, pelos seus roncos, era óbvio — Você tem tantos anos ainda pela frente, como pode dizer que viveu tudo? Você fala como se estivesse inválido, sobre uma cama.

Você, você! Eu nem me dera conta da forma de tratamento que passara a empregar em nossas conversas. De repente você não me parecia mais o professor sisudo e inatingível, mas quase um amigo.

— Não é tão simples, Pansy — o tom de sua voz diminuíra tanto que tive de me aproximar mais para ouvir — você sabe o quanto é arriscado esse trabalho duplo.

— Mas todos nós, que estamos deste lado, esperamos que as coisas acabem sem muitas perdas, não é? Sem muita destruição. Por que o pessimismo? Não confia na sua coragem? Pois eu confio.

Você sorriu tão brevemente que poderia ser apenas uma impressão causada pelo reflexo do fogo da lareira no seu rosto pálido.

— Talvez você esteja certa, e agradeço por confiar em mim. Só me preocupo com o que pode acontecer a você, se eu não puder protegê-la o suficiente. Você é o que existe de mais importante no momento, seus pais confiaram-na a mim.

Senti vontade de me lançar aos seus braços, mas a minha coragem recém-adquirida não me permitia tanto. Limitei-me a umas duas palavras de agradecimento e tentei esconder as lágrimas que não podia controlar jogando os cabelos sobre o rosto. Visto que isso não adiantava muito, voltei-me para a lareira e fiquei a contemplar o fogo. Mas você percebeu aquele movimento, e um segundo depois estava ao meu lado, com o braço direito passado pelos meus ombros. Você falou, e eu estremeci ao perceber que a sua voz estava tão perto.

— Você está crescendo, Pansy, tornando-se uma mulher bonita e inteligente. O seu futuro será prodigioso.

Não encontrei nenhuma palavra. O fogo à minha frente parecia a única fonte de lembrança, conhecimento e observação. Você prosseguiu.

— Vejo-a casada com Draco Malfoy.

Saí de meu transe momentâneo e olhei-o diretamente nos olhos.

— Eu não gosto de Draco Malfoy.

É claro que não! É claro que você sabia que não. Eu não estava, afinal, nem perto de ser uma oclumente razoável. E você não insistiu no assunto, apenas me desejou boa noite e se retirou. Fiquei a contemplar as chamas alaranjadas, o turbilhão de pensamentos daquela noite a invadir a minha mente em um verdadeiro desconcerto. Entrementes, eu me sentia feliz por me ver a cada dia mais próxima de você.