:: O Outro Sacrifício

:: Capítulo IX: Um Beijo

:: MiWi

:: Data: 26/04/2005 – 27/04/2005

Seria um beijo a benção dos anjos aos apaixonados, ou a armadilha dos demônios aos tolos?

Eu me pergunto...

... se eu seria capaz de me apaixonar por você.

A pergunta, as palavras ecoavam na mente de Roy Mustang, enquanto Edward pressionava seus lábios sobre os seus, clamando, não, implorando por mais espaço.

E com a mente ligeiramente letárgica, seja pelas palavras de Edward, seja pelas mãos do garoto em seus cabelos, ou pelos lábios do garoto, Roy cedeu. Abriu ligeiramente seus lábios, deixando que Edward quase brincasse dentro dela, explorando-a livremente. E ele permaneceu passivo, apenas permitindo que Edward continuasse o que desejava. Porque ele tinha tanto medo que Edward fosse se levantar e sair correndo se ele ousasse reagir que a única coisa que ele se permitiu fazer foi passar as mãos ao redor das costas de Edward, trazendo-o para mais perto de si. O murmúrio, ou o sussurro, que Edward soltou quando Roy fez isso quase o levou longe demais, fazendo Roy se contorcer, suas pernas se entrelaçando às de Edward. E Edward apenas continuou a murmurar incoerências sob sua respiração, beijando Roy com cada vez mais força.

E todo o tempo seus olhos se mantiveram fechados, porque ele não queria olhar para Roy Mustang, ele não queria olhar ao redor, ele não queria parar e pensar, porque ele sabia que se o fizesse ele pararia com tudo, porque isso só poderia estar errado, não é mesmo?

Era quase irônico que agora que era ele quem estava sobre Roy, sua língua a explorar a boca do outro, seus medos pareciam ter se dissipado, mesmo que por um breve momento. De repente ele não se importava com as ameaças de Envy, e as mãos em sua cintura não lhe traziam más lembranças, nem o assustavam.

Uma brincadeira. Era como brincar, explorar... descobrir qual era a textura da pele de Roy, o gosto de sua boca (e era a impressão de Edward, ou ela ainda tinha gosto de pasta de dente?), o cheiro de seus cabelos, a sensação de tocá-lo...

... porque, se era uma brincadeira, ele poderia parar a qualquer a qualquer momento, não é mesmo?

... porque, se era uma brincadeira, eles não poderiam se machucar, não é mesmo?

Um suspiro, um gemido, e Edward ergue o olhar, encarando o olhar enevoado pelo desejo de Roy.

De quem eram aqueles suspiros, afinal? Aqueles murmúrios incompreensíveis, que Edward mal era capaz de reconhecer sua própria voz ou a de Roy Mustang.

Seria aquilo o se chamava desejo?

Se era, como pudera Edward cair nisso com tamanha facilidade? Ele estivera prometendo tanto a si mesmo que isso não aconteceria para no momento seguinte cair no chão sobre Roy Mustang...

... era ridículo.

Como ele pudera mal olhar para o coronel por tanto tempo, e de repente ele não conseguir resistir? E de repente precisar tão desesperadamente de contato, porque ele se sentia tão terrivelmente solitário... não, nada daquilo fazia sentido...

... nada fazia sentido, senão seus lábios sobre o rosto de Roy Mustang, beijando suas bochechas, beijando seus olhos com delicadeza. Soprando seus cílios.

Porque aquele homem o amava, e tivera coragem de se declarar, tivera coragem de se entregar a seus próprios sentimentos... coisa que Edward não poderia fazer, não agora, talvez nunca, mas ele poderia fazer o possível para diminuir as dores, as suas e as de Roy Mustang, e ele o faria com beijos, sussurros e suspiros contra os cílios de Roy Mustang.

Porque talvez ele não pudesse amar Roy do fundo de seu coração, mas ele estava disposto a fingir.

Porque ele estava com medo demais, entristecido demais, para ficar sozinho por mais tempo, e era um absurdo como apenas alguns momentos com Roy haviam sido suficientes para lhe mostrar isso.

Era tudo tão absurdo, tão irreal...

Edward finalmente parou de beijar Roy Mustang, mas não saiu de cima dele. Deitou a cabeça ao lado da dele, encostando seu queixo no pescoço de Roy de maneira preguiçosa. Encolheu-se, colocando uma mão na cabeça de Roy, aproximando-o ainda mais de si, e com a outra pareceu abraçar o coronel com apenas um dos braços. Suas pernas se enrolaram nas do coronel, como se procurando conforto. Edward deu um beijo no ouvido de Roy, e fechou os olhos por um momento.

Não queria pensar no que viria a seguir, não queria ter de fazer nada a seguir... só queria ficar ali mais um pouco e fingir que tudo era simples assim, que ele era apenas um garoto descobrindo que desejava um homem mais velho, um maldito tenente coronel do exército. Que o maior problema de ambos seria a expressão de todos na casa quando os vissem aos beijos e abraços no meio da cozinha.

Mas não era, e Edward se odiava profundamente por isso.

E ele não era tolo, e por isso ele odiava Envy ainda mais do que a si próprio.

– Edward, você se lembra quando você fugiu com seu irmão do exército porque ele havia se transformado na pedra filosofal e você havia descoberto que havia Homunculus entre os militares? – Roy perguntou, colocando uma mão sobre o ombro de Edward, e havia qualquer coisa em sua voz, uma certa hesitação, que Edward não soube reconhecer.

- Sim, claro – disse Edward, sua voz pouco acima de um murmúrio no ouvido de Roy. – Por quê?

- Você se lembra do que eu disse? Quando eu o encontrei? – disse Roy, passando uma mão ao redor da cintura de Edward e puxando-o para mais perto de si.

Edward lhe deu um beijo no rosto. – Ah – grunhiu ele, e mordeu a orelha de Roy. – Entendi – e deu alguns beijos na linha da mandíbula de Roy antes de voltar a encostar seu rosto no dele. – Você não tem certeza de que eu sou eu – disse ele como se o pensamento o divertisse, e isso apenas fez com que a mão de Roy apenas se apertasse ainda mais ao redor de sua cintura. – Eu acho que o surpreendi, não é mesmo? – disse ele, a voz um pouco cansada. Como Roy não dissesse e o apertasse com ainda mais força pela cintura, Edward deu um suspiro, um pequeno suspiro que pareceu ecoar aos ouvidos de Roy. – Nós chegamos a começar a lutar e, quando eu achei que uma luta mais séria iria começar, você perguntou porque eu não confiei em você – ele fechou, brincando com seus lábios no ouvido de Roy. – Você também pediu para que eu confiasse em você quando eu fui lhe ver no hotel – e só então a mão de Roy pareceu se soltar, pegando as costas de Edward com apenas delicadeza, e não força. – Parece-me que isso é algo importante para você, não é mesmo? Que eu confie em você.

- E você não confia? – perguntou Roy, tentando olhar nos olhos de Edward e não conseguindo, já que o garoto se encontrava com os olhos escondidos sob o rosto de Roy.

E Edward resolveu que era hora de jogar limpo, ao menos uma vez. Se ele não poderia ser honesto com seus sentimentos de desejo, paixão e amor, que ele ao menos o fosse com seus sentimentos de confiança. – É claro que eu confio – disse ele, como se a pergunta o magoasse. – Eu não costumo sair beijando pessoas nas quais eu não confio.

- Hmmm... – murmurou Roy para si mesmo, olhando para o teto do banheiro. – Eu já não sei mais. Até ontem eu poderia jurar que você nunca beijaria um homem por vontade própria, quanto mais me beijaria...

Vontade própria, vontade própria...

E que raios de vontade própria havia naquele jogo do demônio?

Desesperado por mudar de assunto, Edward apenas deu de ombros, o que resultou em um movimento estranho e embaraçado sobre o peito de Roy. – Bom, talvez o mundo seja cruel para homens heterossexuais da minha altura... – disse ele, tentando forçar um humor que não sentia em si mesmo.

Mas Roy não se faria de rogado, não agora que ele parecia ter percebido algo em Edward que ele jamais havia percebido antes. Algo que o próprio Edward parecia não ter percebido, pela maneira desleixada como estava deitado sobre Roy. – Sei.

- O quê? – havia algo de estranho na voz de Roy, e mesmo Edward era capaz de notar isso.

- E você por acaso estava pensando em mulheres agora há pouco? – disse Roy, balançando a cabeça com divertimento.

O que ele queria dizer com...

Edward abaixou a cabeça depressa, levantando-se um pouco como se para se certificar de que não era apenas impressão sua. Roy ficou muito satisfeito ao ver a face de Edward se tingir de pelo menos cinco tons diferentes de vermelho ao perceber que ele estivera tão excitado quanto Roy Mustang enquanto beijava o coronel.

O loiro ficou olhando um pouco para si mesmo, e então de volta para Roy, e então saiu de cima do coronel com pressa, de forma desajeitada, e se sentou ao lado do mesmo no chão frio do banheiro, abraçando seus joelhos. Parecia ter perdido a coragem de olhar para o coronel. Já ficara excitado algumas vezes, sim, mas elas tinham sido todas ao ver alguma garota bonita, como aquela ladra naquela cidade decadente, ou até mesmo Rose, mas aquela era a primeira vez que ele ficava assim por causa de outro homem.

Claro, não era como se as coisas não estivessem suficientemente complicadas até então.

Bom, ao menos agora ele não precisaria fingir seu desejo por Roy Mustang – e a idéia alguma vez cruzara sua mente, de qualquer maneira? Mas saber que seu desejo era tão tenso e real apenas tornava a idéia de fingir sua paixão e seu amor ainda mais cruéis.

Era como um jogo de verdade ou conseqüência virado ao avesso, transformado em um jogo de mentiras ou conseqüências. Ou, na realidade, de mentiras e suas conseqüências ou de conseqüências piores se ele decidisse não jogar.

Edward se encolheu, abaixando a cabeça, escondendo-a entre seus braços. Roy o encarou durante um momento, antes de se sentar e colocar uma mão sobre a cabeça de Edward, alisando seus cabelos com a ponta de seus dedos, e outra ao redor de seus ombros, abraçando-o. – Ei, calma, não precisa reagir desse jeito só porque...

Mas Edward se virou, erguendo a cabeça e tirando a mão de Roy de cima de si com as suas com violência. – Não toque em mim – disse ele, fitando Roy com ódio. Roy esperava qualquer coisa, mas não uma reação tão violenta, especialmente quando fora o próprio Edward quem o beijara agora há pouco. Edward olhou para Roy durante um longo momento, olhos dourados repletos de angústia e raiva e frustração, e olhos negros preenchidos com confusão e incompreensão. – Céus, eu não deveria ter feito isso – e por um momento Roy não soube ao que Edward se referia, o rosto de Edward escondido em suas mãos. – Era o que você queria, não é mesmo? O pequeno Edward também fica excitado perto do coronel – dizendo isso ele se encolheu, abraçando-se e tremendo. – E agora eu não posso voltar atrás, não é mesmo? Se eu o beijei uma vez, eu devo ansiar por seu contato de novo e de novo, mais e mais, e cada novo contato não pode ser desfeito. Porque agora que eu o beijei as coisas não podem voltar a ser como eram, não é mesmo? Porque eu não posso simplesmente dizer que meus hormônios tomaram o melhor de mim e eu agi sem pensar. Porque eu não posso fingir que nada disso aconteceu. Porque...

- Você quer? – a voz de Roy veio tão seca, e cortou tão profundamente a catarse de palavras de Edward que ele teve de levantar seu olhar na direção do coronel, como se quisesse lhe perguntar o que era aquela pergunta. – Edward, você realmente quer fingir que nada disso aconteceu?

E Roy estava tentando tanto se mostrar imparcial, rígido... quando a última coisa que ele queria era ouvir a resposta que Edward inevitavelmente daria... porque o loiro, o pequeno simplesmente não estava pronto para lidar com aquilo, porque ele deveria dar um passo por vez, e não atropelar as coisas como estava fazendo.

Porque um garoto que fora estuprado há poucas horas não iria querer lidar com mais isso, não agora, certo?

- Não – murmurou Edward após um instante e, para sua própria surpresa, era verdade. – Não. Eu não quis me esquecer do que eu fiz com a minha mãe, eu não quis me esquecer do que eu fiz o meu irmão... céus, eu nunca fugi de nada que eu tivesse feito até hoje, e certamente não vou começar agora.

E mesmo Roy às vezes se esquecia que era apaixonado por Edward Elric, o garoto mais determinado que ele já havia conhecido, que ele havia se apaixonado.

- E então... por que você diz essas coisas? – murmurou Roy, sentando-se ao lado de Edward, mas sem ousar tocá-lo novamente. – Você quer que eu lhe dê um tapa por ficar dizendo besteiras desse jeito? Porque se você sente medo de que eu vá fazer qualquer coisa contra a sua vontade... céus, eu lhe prometi que eu não o faria, não é mesmo? Você realmente confia em mim? – a voz de Roy continuou rígida, e ligeiramente amargurada. – Ou isso é apenas algo de que você tenta se convencer?

Abraçando suas pernas, Edward encostou sua cabeça em seus joelhos. A luz que adentrava pela janela do banheiro indicava que já era quase meio-dia, mas Edward estava com o estômago embrulhado demais para sentir fome. – Porque eu estou com medo.

- De mim? – perguntou Roy, sua voz se suavizando um pouco ao ouvir a voz de Edward falhar quando ele falara, e ao perceber que o garoto estava tremendo.

- De mim – disse Edward, fechando os olhos com força, com medo de que Roy quisesse olhar neles e visse tudo de errado que havia neles. – Porque eu acho que eu vou fazer tudo errado.

Porque pessoas que tinham sido abusadas deveriam evitar contato humano, e não começar a ansiar desesperadamente por ele, sua mente dizia. Porque ele não deveria se sentir seguro ao lado de outra pessoa tão cedo, não é mesmo? Mas o fato era que ele só sentia inseguro e amedrontado e infeliz quando se encontrava sozinho, e talvez Roy tivesse razão, talvez ele não devesse fazer isso sozinho.

E então fora Roy quem lhe estendera a mão quando ele mais precisara, e o que Edward poderia fazer senão pegá-la?

Edward ergueu um pouco a cabeça, olhando para Roy através de seus cabelos caídos sobre seu rosto.

Isso significava que ele não estava fazendo nada senão usar Roy Mustang?

De alguma maneira, esse pensamento fez com que ele sentisse mais nojo de si mesmo do que sentira ao se lembrar do toque de Envy em seu corpo.

Não, ele não poderia, ele não era o tipo de pessoa que iria...

Interrompendo seus pensamentos, Roy tirou seus cabelos da frente de seu rosto, beijando sua testa e então seus olhos. – Se você nunca mais quiser me beijar – disse ele, uma certa melancolia impregnando cada palavra sua. – Tudo bem, porque pelo menos eu terei a lembrança desse beijo, desse beijo que você me deu porque quis, e isso é muito mais do que eu achei que um dia eu poderia ter.

E com cada palavra de Roy, a certeza dentro de Edward apenas ficava mais forte. Ele estava fazendo tudo errado. Tudo, tudo. Sentiu vontade de chorar, de gritar, de começar a lutar e a jogar coisas a parede, mas ao invés disso apenas murmurou fracamente "Não está tudo bem". E então a vontade de gritar não foi embora e ele se levantou depressa. – Não está tudo bem – falou, desta vez mais alto, mais para si mesmo do que para Roy, como se isso pudesse tirá-lo daquele inferno de pensamentos que pareciam tê-lo tomado.

Levantar-se acabou não se revelando uma boa idéia, novamente, quando sua visão voltou a se escurecer, os azulejos azuis do banheiro se tornando marinhos demais, sua cabeça se tornando tonta e terrivelmente pesada sobre seu pescoço, latejando e se tornando quente e estranhamente dormente, e seu corpo todo parecia querer voltar ao chão, porque de repente ele parecia ser fraco demais para sustentá-lo...

Ele teria de fato caído ao chão não fosse Roy ter percebido o que iria acontecer e ter sido mais rápido, levantando-se e passando uma mão ao redor da cintura de Edward, empurrando-o contra a parede do banheiro para sustentá-lo. O corpo de Edward parecia terrivelmente pesado, mas ele eventualmente passou as mãos ao redor do pescoço de Roy, encostando sua cabeça no peito do coronel. Roy percebeu que mesmo os braços de Edward pareciam moles demais, e o segurou com força, encostando sua cabeça ao lado da de Edward.

Ficaram em silêncio durante alguns instantes, e Roy chegou a pensar se Edward teria de fato desmaiado em seus braços.

Roy se amaldiçoou. Era claro que Edward ainda estava fraco, ainda mais com Envy tendo o machucado do jeito que o machucara... e passar por todo aquele nervosismo emocional possivelmente não ajudava em nada as coisas.

Fechou os olhos por um momento e se lembrou do modo como Edward havia fechado os olhos após chorar por longos minutos enquanto ele beijava suas lágrimas... pela aparência tranqüila e cansada, Roy havia deduzido que Edward provavelmente estivera cansado demais e voltara a dormir, mas talvez ele tivesse de fato desmaiado naquela hora – porque, se ele havia de fato chorado todas as lágrimas que ele vinha segurando durando tanto tempo, era apenas natural que suas poucas forças se esvaíssem, não é mesmo?

- Edward? – murmurou Roy, como se querendo saber se Edward havia de fato desmaiado ou não.

- Hmmm... ? – Edward grunhiu, mexendo a cabeça no peito de Roy como se estivesse sonolento. – Ei, por que os azulejos estão dançando?

Resolvendo que talvez Edward demorasse um pouco mais para se recuperar, Roy foi tentando se abaixar com Edward, segurando delicadamente o corpo do garoto para não batê-lo contra a parede do banheiro – não ajudaria em nada se ele apenas batesse a cabeça de Edward e o fizesse ver mais estrelas, não é mesmo?

No chão, Edward parecia um pouco melhor, e Roy percebeu que ele estava recuperando um pouco do seu tom de pele normal – não que houvesse muita diferença entre o branco puro e a pele de Edward, mas Roy era capaz de ver quando aquele branco parecia saudável ou não, e agora definitivamente ele parecia estar voltando a ser o que era. – Edward – disse Roy, limpando um pouco do suor da testa de Edward. – Eu acho que vou ter que chamar um médico.

Edward se encolheu ao ouvir isso. – Não.

- Considerando o que aconteceu, e considerando essa sua fraqueza, dê-me um bom motivo para não chamar um médico – disse Roy, arqueando as sobrancelhas. Não se lembrava de Edward ser fanático por médicos, mas também não se lembrava dele ser tão avesso a eles.

Ele hesitou durante um instante, abraçando-se e se encolhendo ainda mais, colocando um pé sobre o outro e dobrando seus joelhos para colocá-los próximos ao seu peito e apoiar sua cabeça sobre eles. Olhou na direção de Roy com um olhar perdido. – Por que eu não quero?

E Roy olhou para ele, e, Deus, ele precisava desesperadamente de ajuda, porque, ao ver Edward lhe pedir daquele jeito, com aquele olhar dourado, ele chegou a pensar que esse motivo deveria ser mais do que suficiente. – Edward...

- Eu não quero que me examinem – e, para azar de Edward, ele começou a tossir, uma tosse fraca e sem força alguma, como se nem mesmo os pulmões de Edward estivessem com vontade de se esforçar, mas foi o suficiente para que Roy olhasse para ele e balançasse a cabeça. – Por favor... ?

Não, não deveria ser ele a ter essa conversa com Edward. Talvez ele devesse ir chamar Riza, e ele talvez tivesse ido fazer isso se ela já não o tivesse avisado que tinha saído para comprar os colchões e quaisquer outras coisas que fossem necessárias. Porque ver Edward lhe pedindo daquele jeito... a dor que Roy chegou a sentir em seu peito era física. – Edward, é para o seu próprio bem – disse Roy de maneira quase mecânica, sem parar para pensar na voz de Edward lhe dizendo "por favor", ou ele iria acabar cedendo. E o inferno poderia congelar, porque Roy achou que jamais veria o dia no qual Edward lhe pediria algo naquele tom de voz. Edward, usando "por favor" com Roy Mustang? Por algum motivo, isso era quase tão surpreendente quanto Edward o beijar no chão do banheiro. Quase.

Foi aí que Edward resolveu apelar. – Você não sente ciúmes?

- Ciúmes? – grunhiu Roy, sem entender. Ótimo. Agora Edward delirando.

- Você realmente quer que um médico venha me examinar e me tocar? Porque, se ele vier me examinar pelo que aconteceu ontem – e Edward abaixou a cabeça, olhando para o outro lado. Era bom que aquilo desse certo, porque ele não queria tocar naquele assunto por nada. – Ele vai me tocar em partes... hmmm... bom, e você poderia ser incrivelmente azarado, e ele poderia ser um médico realmente bonito...

Roy balançou a cabeça com veemência, não acreditando no que estava ouvindo. – Até ontem você era heterossexual!

- Oh, é o trauma – era claro que Edward não queria pensar no assunto agora, e por isso tudo o que ele poderia fazer era não falar seriamente sobre isso.

- Eu posso chamar uma médica – disse Roy, cruzando os braços e arqueando as sobrancelhas.

- Oh, mulheres são boas, também. Tinha uma garota, a Rose... ela era bem bonita... e tinha também aquela ladra... – continuou Edward, mantendo quaisquer pensamentos sérios a milhas de distância de sua mente. Pensou em como continuar aquele diálogo às avessas. Pensou em como a expressão aturdida de Roy ao ouvi-la era incrivelmente... não, não adorável. Não, não encantadora. Engraçada. Divertida.

- Eu realmente não acredito no que eu estou ouvindo – disse Roy, a expressão de fato incrédula. – OK, você conseguiu, Edward. Eu vou lhe dar mais alguns dias.

- Ciúmes, ciúmes? – disse Edward balançando a cabeça e olhando para Roy de maneira provocativa com um sorriso aberto.

Roy segurou seu queixo, apreciando o sorriso de Edward. – Não, estúpido – disse ele, e Edward o encarou com certa confusão. – Eu só acho que, se eu chamasse um médico agora, você poderia aprontar alguma com o coitado, só de raiva.

Edward voltou a sorrir.

Roy se perguntou como ele conseguia passar por tantas emoções em tão pouco tempo.

- Oh, droga – disse Roy, passando uma mão pelo rosto. – Eu ainda não acabei de me barbear e já é quase meio-dia... – dizendo isso, ele se levantou e foi até a pia, passando de novo um pouco de espuma que ainda estava lá e começando a barbear um lado de seu rosto.

No chão no outro lado do banheiro, Edward ficou o observando com interesse, seu olhar seguindo a mão de Roy subir e descer através de seu rosto, e passar cuidadosamente ao lado do seu pomo-de-adão. Roy percebeu isso, e lançou um olhar na direção de Edward. – É tão interessante assim?

Percebendo que sua observação havia sido descoberta, Edward se apressou em olhar ao redor. – Não é isso, é só que... – seu rosto voltou a ficar vermelho, e ao menos Roy sabia que o sangue havia voltado a correr pelo rosto de Edward.

De repente, Roy entendeu. Claro, como ele não se dera conta antes? Grunhiu algo sob sua respiração. – Você nunca tinha visto, não é?

Se Edward não tinha nenhum irmão mais velho, e seu pai lhe abandonara quando ele ainda era muito novo para prestar nesse tipo de detalhe, e desde os onze anos ele viajava pelo país, sem se fixar em lugar nenhum, sem chegar a ficar próximo de ninguém...

Edward assentiu com a cabeça, vermelho de frustração. – Vai, pode rir. Eu sou um pobre perdedor que nunca viu ninguém se barbear na vida.

- Eu nunca riria de você por causa disso – disse Roy, a voz séria. Voltou a se barbear. Ele era caprichoso, e certamente não era o tipo de pessoa que iria começar a fazer machucados em sua pele justo agora. Deu um sorriso para o espelho, um sorriso que ele teve certeza de que Edward viu pelo reflexo. – Existem motivos muito melhores para eu rir de você, Edward.

Edward ficou em silêncio durante algum tempo, antes de balançar a cabeça. – Eu não tenho certeza se isso é exatamente animador.

Roy sorriu ao ouvir isso, e abriu a pia para lavar seu rosto. Guardou a navalha de volta em seu estojo e o fechou, e só então fechou a pia. Secou seu rosto, sentindo a toalha contra sua pele agora macia. Ele adorava a sensação, e tinha certeza de que muitos poucos homens de sua idade poderiam ter a igual sensação de ter a pele tão macia, o que o fazia passar a toalha lentamente sobre seu rosto após fazer a barba, sentindo-a deslizar... ele poderia até mesmo fechar os olhos...

- Céus – o grunhido de Edward o interrompeu. – Por que você está tentando abusar da toalha, Roy?

Abrindo os olhos e encarando Edward, que olhava com os olhos cheios de cinismo, Roy olhou para a toalha, grudada ao seu rosto, e de volta para Edward. Ele deveria ter adivinhado que algum dia alguém iria estranhar sua obsessão em secar seu próprio rosto. – Eu... – começou ele, ficando muito vermelho. Deu de ombros. – Eu apenas gosto de sentir como o meu rosto fica depois que eu me barbeio.

Edward arqueou as sobrancelhas – Sei – e cruzou os braços. – Ter uma pele de bebê na sua idade não é exatamente algo de que se orgulhar, especialmente se você é um militar.

Oras, como não? Roy sentiu vontade de começar a contar quantas vezes sua pele já o salvara de situações embaraçosas ali mesmo, especialmente em relação a garotas, que pareciam dar tanto valor ao rosto imaculado de Roy quanto ele próprio, mas ao ver a expressão divertida de Edward ele achou que talvez essa não fosse uma boa idéia. Ao invés disso, ele foi até Edward e estendeu uma mão para ajudá-lo a se levantar. – Eu acho que já está na hora do almoço. Você consegue se levantar?

Assentindo com a cabeça, Edward aceitou a mão de Roy e se levantou, apoiando-se no ombro do outro até ter certeza de que não ficaria tonto. Ficou ligeiramente zonzo, mas a sensação passou rápido, e ele logo soltou do ombro de Roy para arriscar seus próprios passos.

Andando um pouco atrás de Edward, como se para ter certeza de que conseguiria ver se ele de repente ficasse tonto e precisasse de ajuda, Roy também saiu do banheiro.

Na cozinha, Pinako já estava arrumando o almoço, e Winry e Alphonse estavam ajudando a colocar os pratos na mesa. Winry ergueu o olhar ao ver os dois chegando, e deu um meio-sorriso.

Foi aí que percebeu que deveria ter dado um jeito de arrumar melhor as roupas de ambos, e ter dado um jeito no cabelo de Edward, que estava totalmente revirado.

Céus, eles tinham até cara de culpados.

- A Riza ainda não chegou? – perguntou Roy, como se para evitar que Winry continuasse pensando que quer que estivesse pensando.

- Ela deve estar chegando... ela jurou que até o meio-dia estaria de volta – disse Alphonse, olhando na direção de Edward com certa preocupação. Pensou em dizer qualquer coisa, mas achou melhor não dizer nada. Se o irmão não queria que ele se intrometesse, ele não o faria, não é mesmo?

Ainda assim, havia algo que Alphonse precisava conversar com Edward... ele precisava perguntar, perguntar porque Edward parecia não...

Alphonse balançou a cabeça. Perguntaria mais tarde. Agora ele precisava acabar de arrumar a mesa.

Quando estava terminando, Riza chegou, entrando e olhando ao redor como se para verificar se o coronel e todos estavam ali. – Tenente-coronel – fez uma continência, e Roy retribuiu. – Eu já comprei os colchões, e mais alguns mantimentos que eu acredito que irão ajudar os Rockbell.

Roy assentiu. – Obrigado, Riza.

Riza fez nova continência, e então cumprimentou as pessoas da casa. Deu um leve sorriso. – Ufa. Por um momento eu achei que eu fosse me atrasar.

- Você chegou bem na hora, Riza – disse Pinako, vindo com uma travessa. – Ei, Winry, ajude-me aqui. Pegue a galinha assada e as saladas, e deixe o macarrão, o arroz e o feijão comigo – dizendo isso, continuou a levar a travessa cheia de macarrão.

- Certo – disse Winry indo até o fogão e pegando a travessa com a galinha.

Edward se sentou na mesa devagar, ajeitando-se para não sentir nenhuma dor, e logo em seguida Roy sentou à sua frente. Alphonse foi se sentar ao lado do irmão, encarando-o durante um instante sem dizer nada antes de voltar sua atenção na direção de Riza, que se sentou à sua frente, e então na direção de Winry e Pinako, que colocaram a comida na mesa.

Por um momento, começaram a comer devagar, cada um imerso em seus próprios pensamentos.

Mas os pensamentos de Winry pareciam não querer se calar. Ela sabia que provavelmente deveria ficar quieta, mas... por algum motivo, ela não conseguiu. Talvez tantos meses sem pegar no pé de Edward estivessem cobrando seu preço, afinal de contas.

E era só uma brincadeira, afinal de contas, para ver Edward ficar vermelho e negar com a cabeça e ficar nervoso, dizendo "O que você está pensando?". – Ei, Edward – disse ela, parando de cortar o pedaço do frango que estava comendo. – Agora você já pode me dizer se o beijo do coronel Roy Mustang é tão bom quanto dizem?

Mas Edward não chegou a ouvir ao certo até o final, e o suco que ele estava tomando fez o caminho de volta, atravessando a mesa e indo parar no uniforme do coronel, que ficou olhando para o uniforme por um instante, antes de se levantar, tentando limpar a mancha com as mãos, o que era uma tentativa inútil. Edward ficou olhando para a frente, o copo parado em uma de suas mãos, a cabeça pendendo para a frente, os olhos abertos de forma muito assustado. – Winry...

Mas já era tarde demais, pois Winry já tinha arqueado apenas uma de suas sobrancelhas, um de seus olhos abertos demais na direção de Edward. – Hein?! Não me diga que... – e ela olhou na direção de Roy, que estava de pé e insistentemente não olhando na direção de Edward, tendo tirado seu casaco e pensando em uma maneira de limpá-lo, e de volta para Edward. Riza já havia colocado uma mão sobre a testa, balançando a cabeça veemente.

Alphonse arqueou as sobrancelhas. – Irmão, eu pensei que você tivesse dito que...

Sim, sim, até aqueles dias não havia absolutamente nada entre Roy e Edward, mas como Edward poderia explicar isso a eles? Olhou para Winry, e de volta para Alphonse, e tentou não olhar para Roy. E decidamente ele não iria olhar na direção de Pinako ou de Riza, as mulheres mais severas que ele conhecia. Pôs as mãos na cabeça, fechando os olhos com força. – Eu sei o que eu disse, Al – e sua voz não admitia argumentação.

De repente, todos olhando para ele, e ele sentiu que ia explodir, um silêncio pesado e ensurdecedor ao seu redor.

Riza decidiu intervir. – Al, Winry, deixem-no em paz. Eu não acredito que seja uma boa idéia pressionar o Edward desse jeito, especialmente quando ele já está sob pressão suficiente pensando quando o Envy pode voltar a aparecer...

Isso pareceu ser o suficiente para Alphonse, que se levantou com violência, derrubando a cadeira no chão. – Sim, e é justamente esse o problema! – disse ele, uma rudeza e uma aspereza em sua voz que não eram comuns, o que fez com que todos se virassem em sua direção. – Edward, por quê? – perguntou Alphonse, e a sua vontade era a de pegar Edward pela gola e levantá-lo de sua gola, tal era sua frustração em ver o irmão encará-lo com a expressão assustada e confusa. – Porque você nem cogitou essa possibilidade? Se você não pode matá-lo, por alguma razão... – e sua voz se tornou mais baixa, e mais perigosa. – Então, Edward, por que você não considerou a outra possibilidade? Por que você sabe que existe um jeito de fazer com que o Envy nunca mais lhe incomode, e você parece ter descartado essa chance sem nem ao mesmo tentar!

Se Edward achara o silêncio de antes aterrador, este não era nada se comparado ao de agora. Olhou ao redor, todos tendo parado de comer para olhar para Edward, a mesma pergunta impressa em cada olhar.

- Edward – Roy havia parado de mexer em seu casaco, olhando para Edward de maneira terrivelmente séria. – O Alphonse está falando a verdade? Você realmente sabe alguma maneira de se livrar do Envy e não está nos dizendo?

Como resposta, Edward apenas o encarou de volta, o olhar terrivelmente assustado.

Eu vi a verdade cortar seu coração, eu vi a mentira rasgar sua face... eu vi a dor dilacerar sua alma... e o que restou, meu amor? O que restou?