Capitulo 9 – Thalia conhece a sua irmã mais nova
Em algum momento, Milenna me acordara e disse que era para nós descermos do avião. Não estávamos em Berlin, mas sim fazendo uma escala em Madrid. O meu relógio biológico dizia que era madrugada, mas Milenna olhava para mim dizendo que eram umas seis ou sete horas da manhã.
- Você tem que se acostumar ao fuso horário. – Ela me insistira, enquanto me via bocejando a torto.
O aeroporto de Madrid estava abarrotado de pessoas, todas puxando seus carrinhos de mala de um lado para o outro. Nenhum de nós tinha realmente uma grande mala de mão: quase todos levavam uma mochila com seus pertences mais pessoais. No nosso caso, isso significava as nossas armas (e no de Annabeth um ursinho também, mas nunca diga a ela que você sabe disso).
Passamos pelo detector de metais e nada aconteceu. Isso eu achava demais, considerando todas as armas que tínhamos – e elas eram muitas mesmo.
Tudo estava indo bem, até notarmos uma pequena confusão num portão de embarque próximo ao nosso. Era um homem, vestindo um casado estranho e grosso, como pele de algum animal que eu não pude reconhecer. Ele deveria estar vindo de algum lugar bem frio, porque mais ninguém estava vestindo coisas assim, exceto o pessoal que estava com ele.
Bem, o estranho não era esse homem, mas sim uma menina que estava grudada em suas costas, batendo-lhe com uma espécie de vara ou algo assim. Ela me pareceu estranhamente familiar, não sei se era a camiseta branca, as calças de tecido de camuflagem e as botas de combate ou o modo como seus cabelos estavam trançados. Acho que fora ela brilhando, como se tivesse tomado um banho de luar, que me fez reconhecê-la, ainda mais quando ouvi uma antiga amiga chamá-la:
- Phoebe! Pare com isso!
A garota que tentava separar os dois brigões tinha os cabelos pretos espetados e uma jaqueta de couro preta. Usava um arquinho de prata na cabeça, como a tiara de uma princesa, que não combinava com seus brincos de caveira e nem com a camiseta do Green Day.
Thalia separara Phoebe do homem, enquanto a caçadora continuava gritando:
- Você sabe como eles fizeram esse casaco? Seu mortal imundo!
Vários guardas se aproximaram delas, todos berrando coisas em espanhol, que ninguém chegou a entender.
- Vocês não viram nada, não houve nada. – Thalia disse, estalando os dedos e controlando a Névoa ao seu redor.
De imediato, os guardas pareceram confusos. Balbuciaram coisas ininteligíveis para todos nós e foram circulando. As outras pessoas ao redor do tumulto também continuaram seu caminho. Eu fiquei me perguntando como Thalia havia controlado a Névoa, se falara em inglês com aquele pessoal espanhol.
Thalia voltara para o seu grupo de trinta e poucas meninas. A mais nova tinha o que? Uns dez anos? É, algo assim. A mais velha era Thalia, com seus quinze, por pouco dezesseis anos.
Annabeth e Grover foram os primeiros a ir em direção a ela, e eu os segui, junto com Nico e todo o resto.
- Thalia! – Annabeth e Grover exclamaram ao mesmo tempo.
A filha de Zeus se virou para nós e abriu um largo sorriso.
- Wow, eu não esperava ver vocês por aqui!
Ela cumprimentou a nós quatro e olhou curiosa para os outros campistas atrás de nós. Seus olhos azuis-elétricos pararam por breves segundos em Andy e Ryan, mas ela logo os desviou.
- Missão, então? Bem que Lady Ártemis nos advertiu que poderíamos encontrar alguns campistas aqui.
- E o que vocês estão fazendo aqui sem ela? – Perguntei.
- A deusa está ocupada... As coisas têm estado meio tensas lá no Olimpo desde o incidente dos filhos dos deuses. – Thalia dissera, seus olhos caindo mais uma vez nos nossos novos campistas. – Muita gente para uma missão, não?
- Ordens do oráculo. – Annabeth dissera. – Para onde estão indo?
- Suécia. Lady Ártemis disse que há um monstro que deve ser caçado lá. Nunca fomos tão longe e sem a deusa, mas ela disse... Disse algo sobre outros deuses.
- E vocês vieram de avião? – Perguntei incrédulo.
- Queria que viéssemos como? – Thalia me perguntou, como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo. E, de fato, era.
Annabeth e Thalia se colocaram a par das missões e discutiram brevemente sobre os deuses nórdicos e todas as outras criaturas. Quando Annabeth terminou de contar nossa missão, Logan perguntou não tão baixo assim para Brian:
- Quem são elas?
Thalia se virou para os outros oito campistas e endireitou-se. Eu não sei o que o pessoal do aeroporto via, mas nós podíamos ver todos os arcos prateados e lobos de caça ao redor delas. Acho que os mortais deduziam que eram apenas cãezinhos fofinhos de companhia de trinta meninas em excursão.
- Nós somos as Caçadoras de Ártemis, e eu sou Thalia, a filha de Zeus.
Eu podia ver a admiração surgindo no rosto de alguns e o medo aparecendo no de Andy. Ela estava em frente a garota que esperava ter que conhecer só no próximo século.
Estranhamente, fora Brian quem dera uma breve explicação aos outros sete sobre o que era as Caçadoras de Ártemis. Quando ele terminou de explicar, Thalia olhou para ele curiosa. Perguntei como ele sabia de tudo aquilo.
- Minha mãe me contou.
- Filho de Ártemis. – Thalia dissera.
Um 'oh' surgiu em todas as caçadoras. Imagino que todas elas esperavam fosse uma menina, e ela seria uma tenente, muito decerto. Mas Ártemis tivera um filho, um garoto. Sempre achei isso irônico.
- Qual é o seu nome, filho de Ártemis? – Thalia perguntou.
- Brian. Brian Hutcherson
Exatamente do mesmo jeito que acontecera comigo, quando fui reclamado filho de Poseidon, todas as caçadoras se ajoelharam em frente a Brian.
- Salve Brian Hutcherson, filho da deusa da caça.
Enquanto estávamos sentados junto com Thalia e as outras caçadoras esperando por nossos respectivos aviões, Thalia pediu que cada um dos nossos novos campistas se apresentasse. Tudo fora normal até que fosse a vez de Ylanna, Lerena e Andy se apresentarem.
- Ylanna Meldezzoro.
- Filha de...? – Thalia perguntou, fazendo a menina ganhar um olhar maquiavélico ao responder.
- Indeterminada.
Thalia tomara um ar sem-graça e logo se adiantou para Lerena:
- Lerena Spanson, filha de Hera.
Thalia não pode deixar de abafar uma risadinha e eu entendi o porquê. Hera, que sempre implicara com os filhos de Zeus fora do casamento, também tivera uma filha.
- Eu acho que isso nos torna irmãs de criação ou algo assim. – Lerena dissera sem-graça.
Thalia sorrira ao confirmar. Então ela se virou para Andy:
- E você?
Segundos de silêncio constrangedor até que ela dissesse:
- Andy Johnson, filha de Zeus.
Mais momentos de silêncio constrangedor. Eu não sabia quem estava mais sem-graça, Andy ou Thalia ou qualquer um de nós ao redor delas as encarando. Acho que não faltava muito para o avião das caçadoras partir quando Thalia perguntou, finalmente:
- 'Andy' é diminutivo de que? Andrea? Andressa?
- Andromeda.
- Andromeda como a filha da rainha Cassiopeia.
- Thalia como a nona musa.
Uma voz anunciou no alto-falante que era a hora do vôo de Thalia partir. E eu tive certeza que as duas filhas de Zeus agradeceram muito por isso. Nós nos despedimos das caçadoras, com a certeza de que, em algum momento, a veríamos de novo.
Dessa vez, nossos assentos eram os do meio do avião. Isso nos obrigou a formar três grupos de quatro pessoas. Na primeira fileira se sentaram Andy, Milenna, Ryan e Raphael. Na segunda foram Brian, Lerena, Ylanna e Logan. A última e terceira era a minha, de Annabeth, Grover e Nico.
Annabeth estava sentada ao meu lado, com um livro sobre mitologia nórdica na mão. Ela o comprara no aeroporto de New York, e sabe-se lá como, conseguira encontrar um exemplar em grego – grego moderno, fato, mas bem mais fácil de ler do que o inglês com a dislexia.
Achei que aquele era o melhor momento que eu tinha para lhe contar sobre meu sonho com os lobos, o cara de verde e o outro homem de armadura brilhante. Cada vez que eu dava uma descrição ou dizia o nome de alguma coisa, Annabeth folheava o seu guia nórdico.
- Como Rachel disse. – Annabeth disse por fim. – Gungnir é a lança de Odin, o principal deus dos nórdicos. Ele deve estar procurando por sua arma. Draupnir é um anel mágico, capaz de multiplicar sua riqueza por nove a cada nove dias. Rachel disse que o anel estaria queimado, e de fato ele foi, o que causou a maldição do ouro.
- E Tyrfing, Mjölnir e Skidbladnir?
- Tyrfing é uma espada, brilhante e reluzente como o fogo, amaldiçoada de modo a matar aquele que a usa. Skidbladnir é o navio de Freyr, o deus nórdico da abundância. É um navio tão grande que é capaz de transportar todos os deuses, mas pode ser dobrado e guardado. Há inúmeras coisas que são semelhantes à nossa mitologia, mas há coisas que são completamente diferentes.
- E Mjölnir? – Perguntei. Não queria mostrar o meu repentino interesse, mas ocultei de Annabeth que o dono dessa coisa queria Andy para si, para 'satisfazer os seus desejos'. Eu entendia muito bem o que ele queria com ela.
Annabeth folheou o seu guia até parar na página que tinha a figura de um cara fortão, vestido com armaduras e segurando um martelo na mão.
- É a arma de Thor, o deus nórdico do trovão. É o seu temível martelo, capaz de aplainar montanhas. Tão pesado que apenas Thor, usando seu cinto Megingjard seria capaz de levantá-lo. – Annabeth se virou para me encarar agora. – O outro cara no seu sonho era Thor, Percy.
Ok, eu já estava começando a me acostumar com essas coisas de nórdicos. Beleza. Thor, Odin, anel mágico e barco multiuso dobrável. Tudo bem, eu acredito.
- E o outro cara? – Perguntei. – Nada aí falando de um deus que se vista de verde e amarelo?
- Percy, se você procurar por uma enciclopédia dos deuses gregos, não vai encontrar nada falando de Poseidon com roupas de pescador ou Zeus com ternos risca-giz. – Annabeth me fulminou com os olhos.
- Aaah, bem... Esse cara, vestido de verde, ele disse que eu tinha o mesmo cheiro que Njord, só que mais mortal. Me diga que Njord é alguma coisa boa ou algum objeto realmente legal.
Com a minha sorte, seria algo como estrumes de cavalos mágicos e nórdicos. Annabeth rira de mim.
- Não, não. Njord é o deus dos navegadores e dos mares. Por isso eles disseram que você tinha um cheiro igual a ele. Provavelmente, como filho de Poseidon, para os deuses você deve ser como a brisa do mar ou algo assim.
Suspirei tão aliviado, vocês não têm noção. Annabeth rira ainda mais de mim.
- Então, o correspondente de Poseidon na mitologia nórdica é Njord? E o de Athena? – Perguntei.
- Bem, não são exatamente iguais, todos os deuses. Cultuar Njord, por exemplo, também te daria boa sorte no nascimento dos filhos.
Por um momento imaginei meu pai, com suas roupas de pescador e catador de lixo em praias, numa maternidade, ao lado de um casal feliz com um bebê gorducho no colo e dizendo palavras de padre. Não foi muito legal.
- O que seria mais parecido com um correlativo de Athena é Balder, deus da justiça e da sabedoria. – Annabeth continuou. - Quem cuida de Nilflheim, o submundo dos nórdicos, é Hel, a deusa metade viva e metade morta. Ela seria a correlativa de Hades. Apesar de Odin ser o principal deus da mitologia deles, os poderes de Zeus são mais parecidos com os de Thor. Odin era deus da guerra e do conhecimento. Apesar de só se encaixar no primeiro plano, seria correspondente a Ares. O deus do fogo, Loki, seria o correspondente de Hefesto, apesar de Loki também ser deus das trapaças e travessuras. Freyja, a deusa do amor e da luxúria, corresponderia a Afrodite.
Ok, eu nunca iria decorar todos esses nomes tão rápidos. Ou estava profundamente enganado e iria, uma vez que a aeromoça nos mandou afivelar os cintos, porque pousaríamos em Berlim e, querendo ou não, eu estava prestes a entrar nos domínios desses deuses e, quem sabe, até enfrentar a eles mesmos.
