Ao chegar a sua cidade, Rogue percebeu que estava chamando mais atenção do que esperava. Da outra vez em que estivera lá, às pessoas ignoravam sua existência. Algumas a olhavam curiosas, mas nunca havia passado disso.
Agora elas a olhavam com um misto de desconfiança, medo e raiva que não fazia sentido. Por mais que a cidade fosse pequena, não era possível que eles a reconhecessem. E mesmo na hipótese improvável de que eles soubessem que era Anna Marie, não havia como o caso de sua mutação ter se tornado tão amplamente conhecida em um tempo tão curto.
Sua tia era extremamente conservadora, provavelmente ocultou a desgraça familiar e a última visita de Rogue. Mas por via das dúvidas, achou melhor prosseguir com cautela.
Rogue parou o carro a algumas quadras da casa de sua tia. Ficou observando atrás de uma árvore, perdida em pensamentos sem conseguir evitar as lembranças amargas da ultima vez que estivera lá.
Sentiu dois braços a puxarem para trás girando-a. Rogue se preparou para socar seu suposto oponente, mas parou ao se deparar com um par de olhos verdes absurdamente familiares, e uma cabeleira loira com mechas brancas. Ele sorria calorosamente para ela. O sorriso de sempre.
"CAMP!". Rogue gritou abraçando-o apertado. Ele arfou pelo aperto esmagador dela, e Rogue afrouxou o abraço murmurando um pedido de desculpas.
"Meu Deus doçura, eu tenho o dobro de seu tamanho e você quase me quebrou ao meio! Mas olhe só para você Anna! Tão linda. Nem posso acreditar que estou vendo você após tantos anos!"
"Nem eu Camp! Você está enorme. E lindo! Quem diria maninho, todos pensávamos que eu havia herdado toda a beleza da família". Ela brincou.
"Hey convencida como sempre! Eu não ganho um beijo após todos esses anos?"
Ela ficou tensa.
"Provavelmente você sabe o que acontece quando eu toco em alguém..."
"Não se preocupe com isso". Ele inclinou-se beijando a bochecha dela. E nada aconteceu.
Rogue olhou-o pasma e ele começou a rir.
"Você não é a única dotada da família sabia?"
"Você é um mutante também! O que você faz?"
"Eu anulo os poderes de outros mutantes quando os toco. Por isso posso tocar em você."
"Isso é incrível Camp!"
"É eu sei que sou incrível". Ela riu revirando os olhos.
"Eu senti tanta sua falta! Principalmente de sua modéstia."
"Eu também querida. Mais do que você pode imaginar."
Campbell abriu o guarda-chuva para proteger os dois da chuva, que começara há pouco tempo e estava piorando.
Ambos caminharam juntos até uma lanchonete perto da casa de sua tia. A lanchonete favorita dos dois quando eram crianças. Rogue olhou ao redor sorrindo, invadida pelas recordações dos momentos maravilhosos que passou naquele lugar. Campbell sorria da mesma forma, ambos estavam deliciados com a companhia um do outro.
"Como está Cody? E o meu pai?"
"Ambos estão na mesma. Nenhum dos dois deu sinal de acordar. Os pais de Cody pensaram em transferi-lo para outra clínica. Mas ainda não decidiram nada."
Ela desviou o olhar triste. Nunca poderia se perdoar pelo que fez a ele.
"E a tia Carie?"
"Amarga como sempre. Mas piorou um pouco desde que você esteve aqui e fugiu novamente."
"Como ela encara o fato da sua mutação? Você sempre foi o favorito, deve ter sido um choque."
Ele desviou o olhar.
"Ela não sabe. Ninguém sabe que sou um mutante."
"Você tem sorte por conseguir esconder."
Ele a olhou novamente.
"Não vai me julgar por isso? Dizer que sou um covarde?"
"E porque faria isso? Se eu pudesse ter escondido a minha mutação, teria feito isso também. Mas não tive muita escolha, você sabe". Ela apontou para o próprio corpo. "Não é muito fácil esconder um toque assassino. Mas não sou ninguém para julgar você docinho, eu mesma já pensei em aceitar qualquer coisa disponível que me tornasse normal e me deixasse viver uma vida tátil. Isso sim é covardia, fugir dos problemas e não escondê-los."
Ele sorriu.
"Você não sabe o quanto é bom ouvir você dizer isso. Sinto falta de conversar com alguém igual a mim, alguém diferente... sentia falta de seus conselhos e de suas brincadeirinhas implicantes, até do seu mau gênio."
Ela riu dando um tapa nele.
"Eu também senti falta do meu irmão irritante."
Campbell observou os cabelos de Rogue ricocheteando com o vento, e os olhares que as pessoas ao redor lançavam a ela.
"É melhor você subir o capuz do casaco querida, eles tem uma certa hostilidade com você... por... você sabe."
Ela assentiu, imaginando que ele estava falando do que ela havia feito ao pai e ao Cody.
"Mas como eles me reconhecem?"
Ele riu levando uma mão ao próprio cabelo, e a outra até as mechas brancas da garota.
"Não é uma característica muito comum doçura". Ele puxou o cabelo dela fazendo-a rir.
"É verdade. Havia me esquecido deste traço genético, por que só nós dois temos os cabelos assim Camp?"
"Não sei. Deve ser uma característica mutante, não esqueça que sua mãe também tinha." Ele observou dando de ombros.
"Você disse tinha no passado. Ela apenas fugiu Camp. Não é como se estivesse morta". Rogue disse sarcástica. Lançou um olhar ao relógio.
"Merda! Eu preciso ligar para o Remy."
"Quem é esse? Seu namorado?"
"Mais ou menos."
Ele atendeu ao telefone no primeiro toque.
"Hey chere!Demorou a ligar. Como você está?"
"Estou bem docinho, estive meio enrolada, desculpe. De qualquer forma, eu liguei apenas para dizer que está tudo bem e que você não precisa se preocupar."
"Estou com saudades chere! As coisas por aqui ficam chatas sem você."
"Não exagera amorzinho, nem tem tanto tempo assim que estou fora!". Ela riu.
"Mas para mim parece uma eternidade. O que você está fazendo? Parece contente."
"E estou! É que encontrei..."
Campbell não deixou que ela terminasse a frase, puxou o braço dela que estava segurando o telefone, fazendo-a rir.
"Para! Me solta estou ao telefone". Ela protestou.
"Anda logo querida, tenho que te mostrar uma coisa, antes de irmos para minha casa."
"Que voz é essa chere? Quem está aí com você?"
Campbell continuava puxando Rogue. Essa desistiu de tentar argumentar com ele.
"Tenho que ir docinho, depois nos falamos novamente. Beijo."
Ela desligou o telefone.
"Vem". Campbell jogou o dinheiro na mesa, arrastando Rogue para a estrada. Ela riu enquanto imaginava curiosa, para onde ele queria levá-la.
-XxxxX-
"Rogue! Chere?". Ela havia mesmo desligado.
Gambit ficou olhando incrédulo para o telefone. Quem era o cara que estava falando com ela? Ele não conseguiu ouvir toda a conversa, mas ouviu o tal cara chamá-la de querida e algo sobre ir a sua casa. Remy ligou para ela impaciente. O telefone tocou inúmeras vezes, mas ela não atendeu.
Ele suspirou irritado. Por que Rogue estava fazendo tanto mistério? Por que estava com tanta pressa de desligar o telefone? E por que ela deixou esse cara chamá-la de querida? O que voltava a primeira questão QUEM era essa cara?
Acendeu um cigarro na esperança de diminuir a ansiedade, mas antes que chegasse a metade, o jogou fora e pisou nele em frustração. Ele tinha que ir atrás dela! Não podia continuar esperando, se ela não atendesse ao telefone ainda hoje, ele iria até o Sul buscá-la.
-XxxX-
Campbell continuava correndo arrastando Rogue, quando esta reconheceu o caminho, soltou da mão dele parando de correr.
"Não". A voz dela falhou, mas não era por causa da corrida desenfreada.
"Anna?"
Ela sacudiu a cabeça.
"Eu sei para onde você está me levando, é a clareira perto do lago. Era o meu lugar especial... meu e do Cody, por favor, não me faça voltar lá."
Ele ficou surpreso.
"Me desculpe querida, eu não sabia, juro que não sabia..."
"Tudo bem". Ela suspirou. "Eu só... não posso, não posso fazer isso! Nunca fui até lá sem ele e não vou agora... era nosso momento, nosso lugar..."
Ele a abraçou.
"Tudo bem, você não tem que fazer isso, vamos arrumar outra coisa para fazer..."
"Não. Eu preciso vê-lo Camp!"
"Agora? Anna está tarde. O horário de visitas já acabou há algum tempo."
"Eu não disse que entraria pela porta da frente."
"Como você vai entrar sem ser vista?"
"Eu tenho meus truques". Ela piscou para ele voando ao seu redor. Ele ficou chocado.
"Oh meu deus! Você voa Anna! Como você voa?"
Ela suspirou.
"Eu não sei exatamente. Vou indo e você me espera aqui, tudo bem?"
Campbell assentiu, sabendo que ela precisava de um tempo a sós com Cody.
"Ok, te espero lá fora. Mas cuidado, por favor."
Ambos fizeram o caminho até a clínica em silêncio. Rogue estava ao mesmo tempo ansiosa para rever Cody e hesitante com o que poderia encontrar.
Ao chegarem ao Hospital, ela esgueirou-se pela janela do segundo andar, o quarto de Cody era o mesmo, em que sempre esteve desde o dia em que ela o tocou pela última vez.
Ele tinha no rosto, geralmente bem humorado, uma expressão inerte que fez o coração de Rogue apertar. Seus cabelos loiros escuros estavam bagunçados e curtos, ele estava pálido, mas ainda assim seu rosto estava mais bonito, mais adulto. Rogue imaginou como seria se ele pudesse vê-la, como seria ver o seu sorriso caloroso novamente.
"Oi, amorzinho". Ela sussurrou com lágrimas nos olhos, afagando seus cabelos.
"Eu estou aqui novamente, para ver você. Mas você não pode me ver. Como será que você reagiria se soubesse que estou aqui? Provavelmente me daria uma surra... Pelo que eu fiz a você. Mas eu vim me desculpar, embora saiba que não há perdão para o que fiz. Não imagina o quanto eu sinto por isso querido... o quanto me arrependo. Você foi uma das melhores coisas que me aconteceu... o melhor amigo que já tive". Ela beijou a cabeça dele, enxugando as lágrimas.
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O telefone de Rogue estava com Campbell. E estava tocando sem parar já á alguns minutos, ele imaginou que poderia ser um de seus amigos e seria melhor não deixá-los preocupados, resolveu atender.
"Sim?"
"Quem é vou? Onde está Rogue?"
"É..."
Rogue saiu do hospital indo ao encontro de Campbell, antes que ele pudesse responder ao estranho no telefone. Ele estendeu o telefone para ela, enquanto estudava sua expressão.
"Você está bem querida?"
Ela assentiu, sem confiar na própria voz.
"Oi?"
"Rogue! Chere? Por que non atendeu antes? E quem é esse que atendeu seu telefone?"
Rogue suspirou, mas antes que pudesse responder, foi interceptada por uma mulher idosa, que agarrou seu braço sacudindo-a com força e gritando com ela, seu rosto expressava repulsa e ódio. Rogue a fitou surpresa.
"ASSASSINA! COMO TEM CORAGEM DE VOLTAR AQUI?"
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