Arcano 10 – A Roda da Fortuna
(a)
Foi no próximo Inverno
que houve horror na Aldeia!
Surgiu, das profundezas do Rio
de agora Águas Congeladas
pelo mais terrível Inverno que jamais houve,
o Dragão Gordo:
com aquelas suas enormes asas,
corpo escamoso, todo tenebroso,
ele cuspia... terrível Água Fria
que a tudo que tocava... apagava!
O Dragão Gordo voava a esmo,
parecia por vezes perdido,
parecia por vezes achado.
Geralmente voava perto do Rio
de terríveis Águas Congeladas
mas também avançava pelos Campos de Cinzas
e, certa vez, chegou a atacar a Aldeia
levando muitas belezas,
carregando muitas riquezas,
consumindo muitas cabanas
e apagando muitas pessoas!
(b)
Mais do que isso:
o Dragão Gordo do nada surgia
e a quem não apagava
fazia coisa pior:
sequestrava jovens moças
e as levava, reféns,
às profundezas do Rio d'Água Congelada!
(c)
Os Chefes da Aldeia prometeram, então,
imersos no temor de a tudo perder,
muitas riquezas, belezas e favores à mão
de quem se dispusesse ao Monstro vencer.
(d)
Muitos heróis então surgiram,
todavia, um após o outro,
o Dragão Gordo a todos apagava,
fosse na Aldeia, o coração do Reino,
fosse no Vulcão, o ventre do Reino,
fosse nos Campos de Cinzas, os limites do Reino:
todos que partiram para a liça
nunca mais voltaram.
Eis que a Cobiça
os transformou em linguiça!
(e)
Eles eram todos heróis!
Todos estávamos temerosos, sim,
mas eu, Ió-reh, mesmo preocupado,
vivia a descascar minhas batatas assim:
Dragões e Prêmios,
Chefes da Aldeia e Favores, enfim,
são coisas somente para os heróis.
Melhor eu ficar quieto, na minha,
descascando a batata que me convinha...
