DEZ
-Edward? – Isabella chamou baixinho, fitando-o com insegurança enquanto o marido a levava no colo para a alcova improvisada.
-Sim?
-Se eu lhe disser uma coisa... promete que não rirá de mim?
-Não antes, nem durante. Quanto a depois, não garanto nada...
-Ah; você está debochando de mim!
-Olhe, confesso, estou mesmo. É o meu jeito, eu gosto de gracejar. Receio que terá que se acostumar.
Isabella não replicou, deixando que o marido a sentasse sobre a cama com docilidade. Contudo, suas mãos crispavam-se uma na outra, traindo-lhe o nervosismo.
-Não há o que temer, confie em mim – Edward tentou apaziguá-la.
-Eu... não posso evitar. Lady Eleanor disse que...
-O que foi que lady Eleanor disse?
-Que às vezes... dói.
-Então foi sobre isso que vocês duas tanto conversaram naquela tarde? Corando, ela mordeu o lábio.
-Não exatamente - respondeu com sinceridade. - Ela me aconselhou a consultar você a respeito... desse assunto. Aliviado, Edward sorriu.
-Ainda bem. Ele abraçou-a com força e beijou-a com doçura, tomado por uma ternura quase tão grande quanto seu desejo.
Para Isabella, parecia que jamais havia sido tocada antes. Todos os seus sentidos aguçaram-se, capturando um turbilhão de percepções excitantes. O sabor dos lábios dele, a odor másculo de sua pele, a textura de seus músculos, a calor de suas mãos, o murmúrio incompreensível em seu ouvido, a visão de seu rosto bonito. Ela queria mais, queria... algo que ainda não sabia bem o que, mas que ansiava com todo o coração. Gemendo de mansinho, aconchegou-se entre as braças dele num movimento faminto.
Ao senti-Ia estreitando o abraço, os seios túrgidos comprimindo-se de encontro ao peito dele, Edward fez um esforço sobre-humano para controlar o ímpeto de rasgar-lhe a roupa, desnudando-lhe a corpo cobiçado por tanta tempo.
Todavia, precisava refrear a impulso e agir com calma, com gentileza. Afinal, procedera assim com outras virgens, coma poderia dispensar um tratamento rude à própria esposa?
A despeito dessa resolução, Edward mal se dava conta dos próprios gestos. Jamais sentira um desejo tão abrasador tão poderoso. Era quase uma dor. Seus beijos prolongavam-se, cada vez mais voluptuosos, e seus afagos alcançavam os recantos mais íntimos, mais ocultos.
Isabella lhe pertencia e estava ali, trêmula, úmida e cálida, em seus braços. Seus olhos verdes brilhavam com um ardor profundo e ela aprendia, adivinhava, moldava-se de acordo com as carícias.
Isabella perdeu a batalha interna. Já não lhe era possível conter-se. Com as mãos tremendo, arrancou os incontáveis laços que prendiam-lhe o vestido, despiu-lhe a camisa branca e, por fim, sentiu a pele aveludada nua sob seus dedos ávidos.
Então, percebeu que mais uma vez a medo ensombrecia o olhar de Isabella.
Buscando dentro de si o que lhe restava das forças, tornou a lutar para sofrear seus instintos. Afastou-se um pouco e pigarreou.
-Os gauleses cultivam um hábito. [i] Caru yn y gwely [/i] – comentou com voz rouca.
Isabella fitou-o com um misto de curiosidade e timidez.
-E o que significa essa expressão?
-"Cortejar na cama".
-Hã?
-Significa que devíamos deitar-nos de modo civilizado.
-Sem roupas?
Edward limpou a garganta novamente e balançou a cabeça, assentindo. Levantou-se para puxar as cobertas, preparando o leito. Pelas chagas de Cristo, quem estava se comportando como se não tivesse a menor noção do que ocorria? Nunca se sentira tão inseguro e temeroso, nem quando fez amor com Efa no celeiro, e era a sua primeira vez. Bem, claro que Efa havia conquistado a fama de mulher que concedia favores de bom grado a quem lhe pedisse, título esse que de forma alguma se aplicaria a Isabella.
Depois de ajeitar o leito, ele apressou-se a despir a própria túnica e, sem olhar para a esposa, escorregou para debaixo do cobertor com rapidez. Só então dirigiu os olhos para ela, que desvencilhara-se de toda a roupa e fulgurava ao luar no esplendor da nudez, mais bela do que Eva no Paraíso.
Ele prendeu a respiração, sucumbindo perante a imagem onírica com que se deparava.
-Você é a mulher mais linda do mundo - murmurou, percorrendo cada centímetro do corpo dela com os olhos até deter-se em seu semblante, que expressava sentimentos antagônicos. Lascívia e vergonha. - Eu não a mereço.
Sorrindo, isabella enfiou-se sob as cobertas.
-Jamais quis outro homem em minha vida... só você - confidenciou num sussurro repleto de sensualidade. E era verdade. Agora, estava pronta para revelar ao marido. Edward retribuiu o sorriso.
-Fico muito feliz em saber. E orgulhoso, também.
Tomando a iniciativa, Isabella curvou-se para beijá-lo como aprendera, acariciando-lhe os lábios com a ponta da língua, espalhando ondas de calor pelas veias de Edward. Desde que assumiu a direção do castelo, após a morte da mãe, Isabella acreditava ser livre, pois fazia o que bem entendia e seu pai não a impedia. Contudo, os deveres excessivos cerceavam-na sobremaneira. Só agora, nos braços de Edward Masen, descobria o verdadeiro sentido da palavra liberdade, em sua acepção mais primitiva e inebriante. Como a embriagava poder expressar toda a paixão avassaladora que pulsava em seu peito, quanta alegria em retribuir cada carícia, dando prazer em troca do prazer que recebia.
Quando Edward segurou-lhe os seios com as mãos em concha, ela arquejou surpresa. Sem perceber, gemia baixinho, como um gato ronronando, mal se dando conta de outra parte do corpo do marido, rígida, quente, fremindo contra o ventre dela, até que o estranho apêndice alojou-se entre suas pernas.
-Isabella. Edward cochichou em seu ouvido, - não tenha medo. Agora, eu vou tocá-la de forma especial...
-Oh, sim, por favor! - ela suplicou, mergulhando as mãos nos cabelos negros de que tanto gostava. Ergueu-se ligeiramente para depositar um beijo no tórax amplo e musculoso.
Contudo, sobressaltou-se quando os dedos de Edward deslizaram abaixo de seu umbigo.
-Calma, não deve temer, minha querida - ele procurou tranqüilizá-la, afagando-lhe o pescoço com os lábios.
-O que... está fazendo? - ela indagou, tensa, enquanto os dedos do marido prosseguiam a exploração.
-Ajudando-a a preparar-se para mim.
Isabella não compreendeu. Mas não lhe importava. Confiava no marido, e sentia-se cada vez mais entorpecida, como se cada carícia equivalesse a uma taça de vinho. E sua sede revelava-se infinita...
De repente, o corpo de Edward ergueu-se ligeiramente no ar e, no instante seguinte, Isabella deu-se conta de que algo a um só tempo, rijo e macio penetrava-a. Uma pontada de dor afligiu-a por um momento, mas desapareceu pouco depois.
Edward beijou-a com carinho.
-Esta é a dor de que lady Eleanor lhe falou. Ainda está incomodando? .
-Não. ela sussurrou intrigada por notar que os movimentos de Edward para dentro e para fora de seu corpo intensificavam-se e tomavam-se mais rápidos, proporcionando-lhe um prazer crescente. Enlaçou-o com mais força, percorrendo-lhe as costas com as unhas. Uma necessidade premente de unir-se a ele da forma mais estreita possível impelia-a a abraçá-lo cada vez mais apertado.
Os movimentos atingiram uma velocidade vertiginosa. Isabella mordiscou o lóbulo da orelha de Edward para não gritar, pois o prazer chegara a uma tal intensidade que era quase insuportável, e ela pensou que fosse explodir de êxtase.
Então, Edward gemeu alto e liberou um jato de líquido quente no interior de seu corpo. Nesse momento, Isabella não aguentou mais e um grito rouco escapou-lhe da garganta.
Após um longo e enlevado instante de imobilidade, Edward saiu de dentro dela, deitando-se a seu lado. Fitou-a com um sorriso embevecido nos lábios.
- Creio que valeu a pena esperar - declarou com suavidade, acarinhando-lhe os cachos dourados que se esparramavam pelo travesseiro.
-Como assim? - Isabella indagou, esforçando-se para raciocinar com clareza. Era como se voltasse de uma viagem ao mundo dos sonhos. A sensação agradava-a tanto que não se importaria se, não conseguisse mais pensar com coerência. Só almejava aninhar-se no ombro do marido e esquecer-se de todo o resto.
-Você não está dolorida, está? - ele indagou com solicitude.
-Oh, não - ela virou-se para ele e estremeceu. - Bem, talvez um pouquinho. Edward franziu a testa. Liliana sorriu e afagou-lhe os cabelos.
-Sossegue, estou bem.
-De qualquer modo, esta foi só a primeira vez.
-Quer dizer que haverá outras? Maravilhoso!
-Você é maravilhosa.
-Não, é você.
- Está certo - ele riu conciliador. - Nós dois somos. E fazer amor também é.
-Edward?
-O quê?
-Com que, frequência nós faremos isso? Dessa vez, ele soltou uma gargalhada.
-Sempre que quisermos. .
-À noite?
-A qualquer hora – Edward replicou com um brilho travesso no olhar. Isabella pareceu escandalizada. Então, sorriu com o mesmo jeito maroto. Edward envolveu-a entre os braços e suspirou.
-Eu sou um homem de sorte, e o mais feliz de todos!
-Eu receava tanto que você só me tivesse desposado por causa da propriedade e do dinheiro...
-E foi por isso. Ela afastou-se e fitou-o, perplexa.
- O que disse? Ele, porém, puxou-a de volta, sorrindo calidamente.
-Seu pai ofereceu-me as terras e o dinheiro... e você. Não pude recusar nenhum dos três itens.
-Você está zombando de mim, não é?
Num gesto solene, Edward balançou a cabeça em sinal de assentimento.
-Está aprendendo, minha querida esposa. Eu me teria casado com aquela garota da árvore mesmo que não passasse de uma camponesa que mendigasse para sobreviver.
-E se eu fosse feia... como Victoria?
-Neste caso, eu definitivamente não me casaria.
-Espero que esteja gracejando.
-Bem, essa não foi uma pergunta justa – Edward protestou. - E se você não fosse você? Claro que não a desposaria! É linda como um anjo e sabe disto - tomou a beijar-lhe a ponta do nariz. - Você se interessaria por mim se eu fosse feio como o diabo?
Isabella refletiu por alguns segundos.
-Não, creio que não.
-Está vendo? Sejamos honestos, minha cara. Você só me aceitou como marido porque me considera bonito.
-Para ser franca... é verdade, em parte.
Edward virou-se na cama, deitando-se de costas. Seus olhos fitavam os raios da luz que se infiltravam pela janela estreita, lá em cima.
-Isabella?
-Sim?
-Por que se casou comigo?
-Já lhe disse. Porque é bonito - ela tentou rir, mas a proximidade de seu corpo despido perturbava-a em demais. Num gesto instintivo, começou a acariciá-lo. - Já é tarde, milorde, e nós dois devíamos dormir um pouco. Voltando a girar para o lado, ele tomou-lhe a mão e fitou-a com intensidade.
-Não me respondeu. Por que se casou comigo? - Insistiu. Ela percebeu-lhe a necessidade premente de saber a verdade.
-Não sei bem. Acho... que me apaixonei por você no momento em que o com aquele elmo entalado na cabeça - replicou com sinceridade, aninhando-se entre seus braços. - Eu já havia visto muitos cavaleiros corajosos e habilidosos como você. Alguns também eram bonitos. Contudo, quando reparei que não conseguia tirar o elmo e brincava com seu amigo a respeito do ridículo da situação... alguma coisa dentro de mim mudou para sempre. Você me pareceu... jovial e humano, desprovido da arrogância insuportável tão comum entre os guerreiros que eu conhecia. Movida por um impulso irresistível, segui-o até o ferreiro. Tinha certeza de que você me ouvira chegar, mas fingia não ter notado a minha presença. Foi muito engraçado e... não pude evitar... principiei a amá-lo.
-Oh, Isabella... – Edward aconchegou-a, enternecido como nunca antes em sua vida. Descobrir que era amado acrescentava uma doçura inefável ao desejo que o abrasava. Dessa vez, a esposa não só correspondeu ao abraço como tomou a iniciativa de estreitá-lo, depositando-lhe um beijo faminto nos lábios.
-Eu sou geniosa, como já deve ter reparado - ela murmurou com um sorriso. - O fato é que costumo zangar-me quando...
-Quando?
-Quando sinto medo. Como no dia em que encontramos aquele bando de assaltantes, lembra-se? Fiquei tão assustada, você, porém, recusou-se a conversar comigo sobre o que acontecera na estrada.
-Não havia nada, para dizer.
-Quem era aquele homem?
-Um gaulês que tem os normandos na conta de invasores. Ele não ignora, e desaprova, o meu juramento de lealdade a lorde Swan. Isabella contemplou-o com gravidade.
-Não acha que seria melhor certificar-se de que os malfeitores abandonaram a floresta? O tal gaulês contava com tantos homens...
- Rapazes, alguns ainda meninos. E mal armados. Ele, o líder, pareceu-me um bocado inteligente. Decerto tem consciência de que não haveria a menor chance de vencer, caso atacasse o castelo.
-Mas a muralha...
-Logo ficará pronta – edward beijou-lhe a testa, acalmando-a.
-Você se preocupa demais com os problemas de seu senhor. E eu só quero pensar nisso... - beijou-lhe os lábios - e nisso... –acariciou-lhe o bico dos seios - e em fabricar bebês...
Isabella esboçou um protesto. Afinal, se os problemas atingiam-na também, devia preocupar-se com sua resolução tanto quanto o marido. Contudo os beijos e afagos de Edward distraíram-na. Em segundos, esqueceu o ladrão e seu bando. Eles que esperassem...
-Edward? Ele esforçou-se para abrir os olhos.
- O quê? Já amanheceu? Não pode ser! Isabella riu com suavidade e apertou-lhe de leve a bochecha.
-Já é de manhã, seu preguiçoso. Se não nos apressarmos, perderemos a missa.
Edward acariciou-lhe os quadris, descendo a mão pelas coxas. - Que pena... iremos à missa outro dia. Ela afastou-o.
-Não faça isso. Não seria correto – ponderou com relutância - como se procurasse convencer a si mesma. - Eu preciso fazer uma oração em agradecimento...
-Agradecimento?
-Foi o que eu disse.
Demorou alguns minutos para Isabella desvencilhar-se, a contragosto, dos braços do marido. Como lhe custava sair da cama! Reuniu toda a força dê vontade de que dispunha e levantou-se. Correu até a bacia, e banhou-se com movimentos rápidos.
-Precisamos ir. As pessoas podem comentar...
-Pois que comentem. Eu não me importo.
-Mas eu me importo - ela argumentou, colocando um vestido de corte severo e elegante, que Edward odiou de imediato. Agora que tinha se deslumbrado com a nudez da esposa, não tolerava vê-Ia com roupa.
-Eu sei - ele assentiu, empurrando as cobertas e expondo o corpo despido ao olhar esgazeado de Isabella. Ao surpreender-lhe a expressão dê cobiça, todavia, cobriu-se logo.
-O'r annwyl, eu criei uma amante devassa! - gracejou um tanto embaraçado.
Lentamente, ela caminhou em sua direção e tomou-lhe o rosto entre as mãos.
-Desagrada-lhe que eu o fite desse modo?
Edward gemeu e olhou para o lençol que enrolara na cintura. O tecido fino pouco servia para esconder a evidência de sua excitação.
-Por Deus, mulher! Como pode pretender que eu vá à missa agora?
-Bem, acho que ainda, temos algum tempo...
-Então, deixe-me ajudá-la a tirar o vestido.
-Ei, não me entenda mal! – Isabella objetou, afastando-se. - Eu disse que havia tempo para você se recompor.
Franzindo a testa, Edward apanhou a ânfora e derramou, toda a água fria sobre a cabeça, espalhando-a por todo o corpo.
-É mesmo melhor adiar pra depois – declarou, enxugando-se.
-Com toda certeza. A qualquer momento, Rosalie chegará para arrumar a cama e não quero que o veja sem roupa.
-Do jeito que ela tem me evitado, duvido que perceba – ele observou vestindo a túnica reservada para ocasiões especiais.
-Ah, é? – Isabella perguntou fingindo inocência.
-O que foi que lhe disse?
-Nada. Apenas admiti que possuo um gênio difícil.
-Só isso?
-Bem, talvez tenha acrescentado que podia tornar-me violenta. Ela decerto pensou que se tratava de uma ameaça, caso prestasse demasiada atenção a meu marido.
-Ah eu sabia! – Edward exclamou triunfante.
-Não seja pretensioso!
-Não sou pretensioso.
-É sim. E arrogante também.
-Não sou.
-então meu humilde senhor, revele-me algo que não seja capaz de realizar com eficiência.
-Como assim?
-Ontem à noite, você afirmou que havia uma porção de coisas que não sabia fazer e citou o canto como exemplo. Estou lhe pedindo pra me dar outro exemplo.
Edward fitou-a pensativo.
-Meus modos não são muito bons.
-Isso eu já havia notado. Carrancudo, ele não replicou.
-Ah, viu só? Você espera que eu confesse minha total ignorância acerca de tudo, mas não tem coragem de reconhecer as próprias limitações!
-Muito bem – Edward fitou-a com seriedade.
Isabella ardia de curiosidade para ouvir o que o marido lhe confidenciaria. O que poderia haver de tão grave para ensombrecer lhe tanto o semblante?
- Eu não aprendi a ler.
De um salto, Isabella aproximou-se do marido, segurou-lhe as mãos e beijou-as com carinho. Intuía que aquela confissão estabelecia um novo relacionamento entre ambos, baseado em sinceridade e confiança, uma felicidade profunda invadiu lhe o coração. Sorrindo, murmurou:
-Eu jamais suspeitaria disso... se quiser, posso ensiná-lo.
-Não. Edward recusou, sacudindo a cabeça com ar magoado. - Estou velho demais.
-Que tolice! Eu o ensinarei a ler e a escrever. Em troca, você me dará lições de Gaulês. Ainda entristecido, Edward sorriu.
-A proposta não deixa de ser interessante. Todavia, não acredito que dê certo. Considerando nosso temperamento instável, as aulas não iriam muito longe. Isabella mordeu o lábio.
-Tem razão...
-E precisaremos esperar até concluirmos a reforma do castelo.
-Mas... isso pode levar anos!
-Eu sei.
-Oh, você é terrível!
-Considera-se assim tão inteligente para aprender Gaulês agora?
-Com certeza.
-E afirma que o pretensioso sou eu... está certo, trataremos desse assunto após a visita de seu pai. Ah, por falar nisso, pedirei a James que designe alguns homens para ajudar a colocar o piso de cima.
-De forma alguma. Ele perscrutou lhe o semblante obstinado.
- Por que não?
-Victoria e eu daremos conta do serviço - Liliana declarou com convicção. Em seguida, enlaçou a cintura do marido. - Mas aceito sua ajuda para caiar as paredes e comprar algumas tapeçarias...
-Eu já desconfiava que isso ocorreria... - ele comentou em tom melancólico, correspondendo ao abraço.
-O quê? A visita de papai?
-Não. Que me persuadiria a fazer tudo o que você quisesse.
-Ora, não se lamente. Até aqui, tem demonstrado grande habilidade em recusar todos os meus pedidos - isabella rebateu com secura.
-Até aqui... ou seja, antes de nos tomarmos marido e mulher de fato. Edward, retrucou, acariciando lhe a nuca com a ponta dos dedos.
-Oh! Procurarei lembrar-me de meu novo poder, caro milorde. - ela redarguiu em tom solene, enquanto acompanhava, excitada, o movimento das mãos dele descendo-lhe pelas costas, por dentro do vestido.
-Edward?
-Hum? - respondeu, distraído, abandonando lhe as costas para dedicar atenção aos seios dela.
-Lembra-se... da nossa... primeira noite... aqui? – Isabella indagou, ofegante.
-Lembro-me muito bem – Edward, mordeu-lhe lóbulo da orelha.
-Você mencionou... qualquer coisa acerca de... um juramento. Sobre... mulheres. Do que... se... tratava? Edward deu um passo para trás, franzindo a testa.
-Não importa mais.
-Mas eu quero saber – Isabella insistiu, esperançosa de que o marido não voltaria a erguer uma parede de mistério entre ambos. Sacudindo os ombros, Edward tornou a abraça-la, aninhando uma das mãos dentro do decote do vestido.
-Aconteceu depois daquele torneio em que vi você na árvore - começou a narrar fitando-a direto nos olhos. - Eu e outro escudeiro nos embebedamos. Havia uma, moça mais jovem do que nós, uma loirinha bonitinha. Então, nós dois... – Edward hesitou, respirou fundo, incapaz de prosseguir. - Quer mesmo que lhe conte essa história?
-Faço questão absoluta.
-Não queríamos magoá-la, nem mesmo assustá-la, mas estávamos embriagados demais para raciocinarmos com clareza. De qual quer modo, ela nos tratou com hostilidade, ou assim nos pareceu. Só queríamos conquistar-lhe a simpatia. Na verdade, nossa intenção era beijá-la. Eu lhe dou minha palavra Isabella, que não pretendia causar-lhe qualquer ma!
-Acredito em você.
-Urien Fitzroy surpreendeu-nos e mostrou-se bastante zangado. Conhece Fitzroy, não é? O sujeito que treina os escudeiros de lorde Gervais.
-Já o vi uma ou duas vezes. Céus, não gostaria de ser alvo da ira daquele grandalhão! O que ele lhe fez?
-Esmurrou-nos e jogou água fria sobre nossas cabeças. Então, obrigou-nos jurar que nunca mais voltaríamos a molestar uma mulher. Eu mantive a minha promessa.
-Por isso você não me forçou a?..
-Por mais que o desejo me corroesse, e a despeito da fúria que você me provocou, não o fiz nem faria.
Isabella sentiu os olhos encherem-se de lágrimas de arrependimento.
-Oh, como devo tê-lo ofendido com as minhas palavras ásperas!
-Não tem importância. Segurando-lhe as mãos carinhosamente, ela fitou-o com fervor. Nesse instante, ouviram uma risadinha familiar.
-Pelas chagas de Cristo! – Edward exclamou, espantado com a inesperada interrupção. Observou o desapontamento no semblante da esposa ao afastar-se dela, cruzando o biombo.
-Bom dia, rosalie ! É um prazer vê-la nesta linda e ensolarada manhã!
-Mas... está chovendo, milorde - a criada replicou, perplexa. Isabella levou a mão aos lábios para conter uma gargalhada. Se continuasse daquele jeito, em breve ficaria igual a Rosalie, rindo por qualquer motivo. De súbito, deu-se conta de que estava feliz demais para incomodar-se com isso.
Uma semana mais tarde, lady Eleanor sentou-se, alegre, ao lado do marido durante a festa, de celebração do final do outono, estação em que procediam ao abate do gado. Era um período de fartura, comemorado igualmente por camponeses e senhores.
O salão estava repleto de convidados. Entre todos ali presentes, os que maior prazer ofereciam ao olhar satisfeito da boa senhora eram os Masen, o jovem e apaixonado, casal à sua esquerda. Ela cutucou o braço de Sir Nevil com delicadeza.
- Creio que Edward e Isabella estão se entendendo muito bem - cochichou-lhe no ouvido.
-Rã? O quê? Ah, sim, claro que estão! Por que não se entenderiam? - Ele replicou.
Lady Eleanor sorriu. O marido jamais poderia ser louvado como possuidor de um raciocínio rápido de brilhante. Ela, porém, mais observadora, percebia que, fossem quais fossem os problemas enfrentados pelo casalzinho já haviam sido superados.
Nem era necessária muita perspicácia para notar que Edward mal podia desviar os olhos de sobre a adorável esposa, que lhe sorria a todo o momento. Na verdade, Isabella pouco tocou na comida, embevecida na contemplação da figura máscula de Morgan.
-Sir Nevil – Edward ergueu a taça para o anfitrião - Na próxima semana, o senhor e sua digníssima senhora nos honrarão com sua presença em nossa casa, para o nos galan gaeaf*! Mostraremos como são as festas gaulesas.
-Sem dúvida, gozaremos desse privilégio - Sir Nevil, que jamais recusava um convite, proclamou.
Lady Eleanor balançou a cabeça, ratificando a resposta do marido com um sorriso de aprovação. Sentia-se feliz por ver que tudo ia bem. Os fora-da-lei aparentemente haviam ido embora, o abate transcorrera sem problemas, Edward e Isabella estavam apaixonados.
Seu olhar, que passeava pelos convivas, deteve-se em Lauren Mallory, sentada na outra extremidade da mesa principal. A austera moça devorava a comida como um faminto cão vira-lata roendo um pernil de carneiro assado.
Pobrezinha, pensou com simpatia. Ela podia mesmo estar passando fome, a julgar por sua magreza excessiva, com os ossos sobressaindo sob o vestido velho e gasto.
-Meu querido - murmurou para o marido, depois de cutucar-lhe o braço outra vez, - talvez devêssemos ajudar Lauren Mallory.
-Ela não aceitaria dinheiro emprestado - o marido ponderou.
-Eu sei. Estava pensando em outra forma de auxílio. Se conseguíssemos arranjar-lhe um marido...
-Para aquele corvo esquelético? Ah, duvido!
-A garota não tem culpa de ser feia.
-Ela não é mais uma garota. Já está bem passada...
-Ora, não seja cruel. Sabe o que quero dizer. Quiçá algum conhecido nosso precise de uma esposa.
-Não conheço ninguém tão necessitado assim.
-Nevil, tenha compaixão! Acho que lauren é muito infeliz. Seu pai tomou-se um ébrio avarento – Lady Eleanor enviesar os olhos na direção do homem que a essa altura, já engolira mais vinho do que podia agüentar. – Não é de estranhar que a coitada tenha ficado tão rígida. Um marido faria muita diferença.
-Ele teria que operar um milagre!
-Nevil, eu falo sério.
_Eu também. Em todo o caso, prometo manter-me atento. Se vir um pobre sujeito tão desesperado que aceitaria uma harpia como esposa, eu a avisarei.
- Lauren Mallory é uma dama da nobreza, não se esqueça. - Pena que essa seja sua única virtude.
- Mas já significa alguma coisa. Quem sabe aquele amigo de Edward ...
- James? Não creio. Parece que a atenção dele já se voltou para uma viúva, pelo que escutei. Uma recém-chegada ao vilarejo - Sir Nevil elevou o tom de voz, voltando-se pata James. - Não é verdade, meu caro?
- O quê? - o rapaz indagou, erguendo os olhos do prato de comida. - Que você está interessado por uma viúva?
- Ah, sim. Só que ela não é muito inteligente - ele replicou em tom lamuriento.
- Não?
- Em absoluto. Imagine que a senhora em questão ainda não se dignou a notar-me. Só posso atribuir o fato a uma lamentável falta de esperteza.
Todos os convidados riram diante da expressão comicamente contristada de James.
Exceto Lauren Mallory. Havia percebido a forma piedosa com que lady Eleanor a contemplara, pouco antes. Também percebera o espetáculo nauseante oferecido pelos Masen, que exibiam sua paixão em público.
Repugnava-a o modo como trocavam olhares, dando a impressão de mal esperarem o momento de irem para a cama. E seguravam-se as mãos sob a toalha da mesa, como crianças estúpidas.
Sempre tivera Isabella swan na conta de uma moça fútil e vaidosa, que se limitava a cuidar dos cabelos e a desfilar roupas novas.
Lauren examinou com inveja o belo vestido de seda adamascada e o manto também de seda que pendia elegantemente sobre os ombros alvos. Só a tiara que lhe prendia os cachos dourados, de prata cravejada com fios de ouro, devia valer mais do que todas as roupas que ela, lady mallory, já possuíra em sua vida inteira.
Como seria Isabella se houvesse suportado um canalha bêbedo como pai, em vez de um homem doce e afável? Seria agora tão sofisticada e bonita se tivesse levado surras e passado fome desde a infância? Se o pai a tivesse despertado no meio da noite e a forçado a...
Não. Com certeza, lady Masen não seria tão linda. Tão pouco teria desposado um cavaleiro bonito e valente que, no entanto, não conseguira disfarçar o desagrado diante de Lauren, apesar de não passar de um pobre diabo que tivera a sorte de vencer alguns torneios.
Ressentida, a moça estendeu a mão na direção da taça de vinho, empurrando o pai, sem cerimônia, para fora de seu caminho. Que aquelas pessoas ricas e felizes se apiedassem dela. Pouco lhe Importava. Não lhes negaria o prazer, diante de sua triste imagem, de se sentirem superiores. De lhe oferecerem dinheiro. De fingirem que se preocupavam.
Ninguém jamais havia tentado ajudá-la de verdade. Ela precisara do apoio deles, anos antes, quando ainda era jovem e inocente. Com certeza, não ignoravam quão miserável era lorde Mallory e deviam supor de que brutalidades ele era capaz. Lauren sorriu. Havia encontrado um meio de controlar o pai e de vingar-se de todos aqueles "bondosos" nobres normandos.
Demorou um pouco, mas ela descobriu um modo de entrar em contato com o líder dos rebeldes. Por acaso, vira Laurent, o capataz de Masen, numa feira, conversando com ar conspirador com um homem que ela sabia tratar-se de um gaulês que morava num vale próximo. Depois disso, interrogou Laurent a respeito do diálogo misterioso, afirmando com convicção que o tal homem pertencia ao bando de salteadores.
O idiota tentou negar, mas o nervosismo em seu semblante traiu-o e Priscilla, triunfante percebeu que acertara em cheio. Ela não tinha a menor intenção de denunciá-lo a lorde Swan ou a qualquer outro nobre normando. Em vez disso, considerou a possibilidade de os dois lucrarem com a ajuda dos gauleses.
Laurent terminou revelando que havia dado - ou melhor; vendido - informações acerca das idas e vindas de seu senhor. Lauren sabia que poderia fornecer informações mais valiosas, já que frequentava o círculo da nobreza normanda. Assim, persuadiu-o a arranjar-lhe uma entrevista com o líder do bando.
A princípio, Ivor não demonstrou grande disposição em confiar nela. Contudo, deixou-se persuadir a dar-lhe crédito. O motivo era simples. Ivor se interessou não pelo que lhe poderia contar, mas por ela própria, como mulher. Coisa que nenhum outro homem havia feito até então.
Lauren desviou o olha mais uma vez, para Isabella que cochichava com o marido. Bem, talvez não fosse tão bonita quanto a jovem lady Masen, mas possuía um amante, um nobre gaulês da melhor estirpe. Além disso, poderia ensinar à arrogante filha de lorde Swan alguns truques acerca de como satisfazer um, homem na cama.
Tomando a sorrir, Lauren sorveu um longo gole de vinho. Não, ela não era tão infeliz e desafortunada como a julgavam. Um dia, dentro em breve, faria todos pagarem pela omissão, por ignorarem uma pobre criança brutalizada pelo pai. Isso aconteceria quando seu amante se tomasse o senhor de todas aquelas terras. E marido dela.
*Calan Gaeaf é o nome do primeiro dia de inverno no País de Gales, observado em 1 de novembro. A noite anterior é Nos Galan Gaeaf ou Noson Galan Gaeaf, um Ysbrydnos quando os espíritos estão no exterior.
