Maggie Black

Bati a porta do carro com força e segui com passos firmes até a porta de casa. Ouvi meu pai suspirar atrás de mim, mas não dei bola. Segui até a cozinha, e pescando uma latinha de Coca da geladeira, sentei no balcão. Logo meu pai se juntou a mim.

-Vai me dar uma surra? - perguntei.

-Eu nunca bati em você, sabe disso – disse ele, calmamente, procurando algo na geladeira. Tal pai, tal filha.

-Tem uma vez pra tudo – falei, bebericando o refrigerante. Papai pegou uma lata de energético e se encostou na pia à minha frente. Ficamos nos encarando em silêncio.

Nossos olhos são idênticos.

-Duas semanas de suspensão – disse ele, por fim. – Sem chance de recuperar as provas desse meio-tempo.

-Não é tão ruim... - murmurei, encolhendo os ombros.

-Por pouco os pais do Fulaninho Deniels não nos processaram – continuou papai, sério.

-Ele que começou! - gritei – Ele chamou meu cabelo de vômito de vaca!

-Não há provas que ele fez isso, Maggie – disse ele – Só um bilhete, que não coincide com a caligrafia do garoto.

-Ah, e você agora está defendendo ele, é? - gritei, descendo do balcão e seguindo para a sala – Porque eu sou a adolescente revoltada, não posso ser levada a sério!

-Você tem 14 anos, Maggie, isso não é considerado adolescência – disse papai, me seguindo, parecendo calmo demais para meu agrado.

-Claro que é! - gritei, me voltando para ele no primeiro degrau da escada – EU PESQUISEI NO GOOGLE!

Por um segundo, pareceu que ele queria rir da minha cara.

-Eu não estou defendendo aquele mané, Maggie – disse meu pai – Só quero a verdade.

-EU ESTOU DIZENDO A VERDADE! - berrei, sem saber ao certo porque estava tão exaltada. Subi as escadas correndo – VOCÊ NUNCA ACREDITA EM MIM!

-Você é maluca.

-ENTÃO ME VENDE E COMPRA UM COELHO PRA PÔR NO MEU LUGAR!

Antes de bater a porta do meu quarto, ainda pude ouvir papai, da sala:

-Isso não é de um filme?

Rony Weasley

Harry Potter tomava seu milkshake com tanta fúria que chegava a me assustar.

-Você tá bem? - perguntei, e ele não respondeu. Apenas continuou a observar as pessoas passeando pelo centro de Hogsmead – Vem cá, a gente não ia criar uma banda de rock?

Harry se desgrudou do seu canudo e me olhou, afobado.

-Tá vendo essas pessoas? - perguntou, apontando para os passantes. Assenti – Sabe do que elas precisam?

-Do seu décimo terceiro?

-De uma razão para viver – disse Harry, me ignorando – E vamos dar essa razão a elas.

-Você vai pagar milkshake pra todo mundo?

-Vamos fazer música. E inspirar essas pessoas a continuarem lutando e acreditarem que existe um futuro melhor... Ou algo assim.

Harry voltou ao seu milkshake de morango.

-Elas parecem bem felizes para mim – comentei – Esse não é um pensamento meio convencido?

-Nope – respondeu ele – É esperançoso.

-Me diga uma coisa – falei – Porque estamos tomando sorvete no centro ao invés de estarmos planejando nossa ascensão à indústria musical?

-Eu tô pensando – disse Harry, pensativo. Ele olhou para mim – Acho que depois dessa caminhada e desse milkshake meu cérebro caiu na real e percebeu que isso é loucura.

-Fala sério, Harry! - exclamei – Não vai desistir agora, tá? Para de babaquice.

-Sério – resmungou ele, desanimando como um balão que murcha.

-Olha, eu não caminhei sete quadras até o centro para ver você desistir, ok? - falei, ficando de frente para ele e cutucando seu ombro – Sua música é fantástica, e se você tem tanta vontade de fazer as pessoas felizes, pra quê desistir?

-Ele tá certo – disse o garçom da loja de sorvete.

-Se você tem um sonho, corra atrás dele. Se não alguém toma seu lugar.

Harry mordeu o lábio.

-Precisamos de um guitarrista – disse ele – E de um baterista.

Sorri.

-Esse é o Harry que eu conheço.

E dando uma de Harry Potter, saí da loja em passos largos, dizendo:

-Vem, Harry! Vamos mudar o mundo.

Ginny Weasley

Pisquei confusa.

-Eles foram vistos em Madagascar, carregando sacos manchados de algo vermelho – dizia Luna Lovegood, com uma voz tão calma que chegava a dar sono – Acreditam que eram cérebros dos macacos da região, que usaram para fazer experiências na Nave-Mãe.

Como eu começara a conversar com essa garota, isso eu não tinha a mínima ideia. Só sabia que estava no meio de um dos corredores de Hogwarts, com uma loira completamente pirada em minha frente, falando sobre alienígenas.

-Acredito que não é mais uma farsa criada para assustar a população, ou para fazer propaganda de um video-game, como aconteceu no Japão. Se fosse isso eu não teria ouvido...

-Ginny!

Graças a Deus.

-O que está fazendo aqui? - perguntou Dean, se aproximando – Te procurei por toda parte.

Ele percebeu com quem eu estava, e parou, confuso.

-Ãhn, eu estava tendo uma construtiva conversa com Luna sobre desmaquilantes e... Naves-Mães – balbuciei, e me voltei para a garota – Tenho que ir agora. Continuamos nossa conversa mais tarde.

-Ok, tchau – disse ela simplesmente, e dando um giro gracioso, se afastou. Sacudi a cabeça, confusa. Eu e Dean seguimos até a saída, de mãos dadas.

-Por que você estava falando com ela? - perguntou ele, quando chegamos ao gramado.

-Sei lá – falei – Uma hora eu estava guardando meu uniforme no armário, e na outra estava conversando sobre cérebros de macacos com uma garota com quem eu nunca falara na vida. Acho que ela me parou no corredor, mas não tenho...

-Ginny, precisamos conversar.

Ele parou abruptamente na metade do gramado, e soltou minha mão. Se Dean Thomas me interrompe, assim, do nada, deve ser coisa séria.

-O que foi? - perguntei – Tá tudo bem?

-Não, não tá tudo bem – disse ele – Você anda muito estranha ultimamente.

-Estranha? - perguntei, rindo – Eu não estou estranha. Eu estou como eu sempre estive.

-Não, você mudou – continuou ele – Primeiro começou com... isso – ele olhou significativamente para minha camiseta, preta e com os dizeres "Green Day" na frente – Depois você mal fala com seus amigos...

-Você tá assim por causa de uma camiseta? - perguntei, sorrindo – Nem é minha, o Harry que me emprestou...

Percebi que tinha falado merda depois que vi sua expressão exaltada.

-Harry Potter anda te emprestando roupas? - perguntou ele, de sobrancelhas erguidas – E depois diz que não mudou. Sério, Ginny, o que está acontecendo?

Dean me observava com uma expressão levemente preocupada. Agora que ele falava, percebi que ele tinha uma porcentagem de razão. A Ginny de duas semanas atrás nunca usaria nada como camisetas de banda, ainda mais aquela surrada e emprestada, de um garoto que ela nem ao menos sabia que existia. Agora ela andava pra lá e pra cá com esse garoto esquisito, ouvia bandas de rock e não retornava ás ligações do próprio namorado.

-Eu... - comecei, e engoli em seco – Você vai terminar comigo?

-Não – ele balançou a cabeça – Eu só quero saber porque você mudou tanto. Você não é a mesma garota de duas semanas atrás. Aquela era minha namorada.

-Essa sou eu, agora – falei, tentando manter a voz firme e confiante – Uma garota que gosta de escutar música boa e que não se importa com o que os outros pensam.

-Não sei o que essa música fez com você – disse Dean – Mas você mudou, Ginny. Pensa um pouco, ok? Porque essa não é a garota de quem eu gosto.

Ele deu ás costas para mim e se foi.

-Droga – resmunguei.

Se Dean realmente gostasse de mim, ele me aceitaria como eu sou. Não é? Mas eu também não estava sendo muito justa com ele. Mudando assim, de uma hora para a outra, porque, admito, eu mudei. E por mais que eu só tenha trocado roupas de líderes de torcida por camisetas de bandas, minha personalidade continuava a mesma. Só um pouco mais objetiva devido ás músicas que eu ouvia ultimamente.

Suspirei e sentei no chão, começando a pensar seriamente se me aproximar de Harry Potter fora mesmo uma boa ideia.

Ted Lupin

-Não me diga que estão pensando em dominar Las Vegas de novo. Porque o pessoal de lá já conhece vocês.

-Isso é passado, Ted – disse Rony, revirando os olhos – Éramos pequenos.

-Isso foi há três meses – falei, mas ele me ignorou.

-Fala pra ele, Harry.

Harry, sentado de pernas cruzadas em meu tapete, tomava seu milkshake como se fosse uma criança abandonada. Quando se ouviu o barulho do canudo sugando o ar, ele pareceu triste.

-Cabô – disse, olhando para Rony, e passou a morder o canudo.

-Ah, não. Não me diga que ele tomou gasolina de novo – falei, em um falso tom de preocupação.

Harry resmungou.

-Foi só uma vez – murmurou ele, pelo canto da boca – Eu achei que fosse refrigerante.

-Que seja – falei – Podem me dar o motivo de terem invadido meu quarto?

-Seu tapete é macio – sussurrou Harry, deitando de cara no chão e suspirando. Olhei para ele, e depois para Rony.

-Sério, o que você deu para ele?

Rony coçou a cabeça.

-Hoje Harry veio com uma ideia muito estranha – disse ele. Ouviu-se o garoto suspirar novamente, com a cara no tapete – Ele me mostrou a música que ele gravou e disse que queria fazer música.

Meu queixo caiu.

-Ahn tá – falei, rindo – Harry Potter querendo fazer música?

-Bem melhor do que a época que Harry Potter queria ser o Homem-Aranha – resmungou ele, sem levantar a cabeça.

-Estamos pensando em criar uma banda de rock – disse Rony – E queremos você nela.

Olhei para ele.

-Não ria – pediu Rony. Mordi o interior da minha boca.

-Não estou rindo – falei, mas logo depois explodi em risadas. E parei quando vi que ninguém me acompanhava.

-Pera, você tá falando sério? - perguntei, agora pasmo.

-Seríssimo – disse Harry. Diz o cara que tá com a cara enfiada no tapete felpudo do primo.

-E vocês me querem nela?

-Você é um excelente baixista – disse Rony – E que eu me lembre, você já teve uma banda de rock.

-Na quarta série – falei, cruzando os braços – E era com meus amigos imaginários.

-Precisamos de você, Ted – disse Harry, sentando – Rony na guitarra, eu na bateria e você no baixo e nos vocais.

-Ah, além de tocar baixo com um bando de pirralhos, vocês ainda querem que eu cante?

-Você cantou no musical da primeira série – disse Harry.

-Era um musical. Eu era a pedra. Pedras não cantam – resmunguei.

-James canta – comentou Rony.

-Ok, saiam do meu quarto – falei, me levantado e abrindo a porta.

-Mas...

-Minha resposta é não. Por favor, saiam.

-Você nem ao menos pensou! - exclamou Harry.

-Hm, deixa eu ver – fingi pensar – Não. Se eu quisesse tocar com um bando de pirralhos, eu ia pro maternal. Saiam.

Harry se ergueu do chão, e os dois saíram do meu quarto emburrados. Harry se voltou para mim.

-A Hannah Montana morre no final.

A porta bateu na cara dele ao mesmo tempo que soltei um grito de frustração.