Notas: Na minha opinião, esse foi o pior capítulo até agora. Bloqueio maldito... Espero que não desistam da história por culpa dele, eu prometo que tenho idéias melhores para o próximo. O título não foi inspirado em nada dessa vez.
Musicas: Angels – Robbie Willians, Any Other World – Mika, e King Kill 33º - Marylin Manson. Ah sim, a musica muda a cada tracinho desse – que aparece na fic, pois é uma mudança de "cena".
Kaleidoscope – Um mundo só seu by Blodeu-sama
Cap. X – Black stones, black eyes
Kai tinha a própria mãe entre os braços, num gesto carinhoso atípico. Mas também, era atípico ver Akemi-san chorando daquele jeito. A última vez que se lembrara de ter visto ela chorar, tinha talvez cinco anos. Não, não tinha cinco anos ainda... fora por volta daquela época do ano, se lembrava bem. Havia muita neve acumulada nas janelas e por causa disso ele não podia sair para brincar no quintal. Naquela época havia um quintal. E um pai.
Bem, naquele tempo sua mãe chorava justamente porque não havia mais um pai. Havia uma carta de desculpas no lugar de seu marido e perspectivas sombrias no lugar de uma casa com quintal. Foi por volta desta época que Baachan começou a morar com eles. Logo se mudaram para Yokohama, Kai logo se acostumou a vida urbana, a ausência constante de sua mãe - trabalhando, sempre trabalhando - e a presença divertida de sua avó. Ele nunca se acostumou muito bem a maneira como Baachan ficava mortalmente séria cada vez que tentava mencionar o pai, mas logo aprendeu a parar de tocar no assunto. E até se acostumara a ter apenas o sobrenome de sua mãe. Seu pai poderia estar respirando em algum outro lugar do mundo, mas para ele e Akemi, estava muito mais morto que sua avó.
E foi em meio a esses sombrios pensamentos que Kai sentiu um leve toque em seu braço. Pensou, por um átimo de segundo, que fosse Uruha dizendo que iria embora agora (e Kai precisava se lembrar de agradecê-lo, porque ele fizera muito mais do que se poderia esperar), mas quando se virou, seus olhos não se chocaram com um cinza chumbo impenetrável, mas com os olhos muito escuros de Nao.
Uma sensação diferente tomou conta dele. Se a um segundo antes pensava nas lágrimas de sua mãe e na dívida que tinha com o melhor amigo, naquele momento ele se sentiu apenas muito grato por ter alguém ali que se importava apenas por se importar. Nao não conhecia Baachan. Eles na verdade não eram grandes amigos. Então o único motivo para ele enfrentar um funeral seria simplesmente porque queria prestar apoio.
Ou não?
- ...Eu sinto muito, Kai...
O cozinheiro baixou o rosto, sorrindo tristemente.
- Não é sua culpa... já era a hora dela nos deixar, acho...
- Kai? – Akemi erguera o rosto molhado e se afastara um pouco do abraço, perguntando daquela maneira trêmula quem era aquele rapaz.
- Ah, desculpe, mãe, esse é...
- Murai Naoyuki, Yutaka-san... minhas condolências – e fez uma reverência quase desproporcionalmente perfeita (1).
Kai olhou de esguelha para o amigo. Ele agia de forma tão... adequada! Não que isso de alguma maneira o ofendesse, apenas parecia estranho toda aquela formalidade vinda de uma pessoa que se parecia tanto com uma criança.
Sua mãe pareceu gostar. Teria feito algum elogio a boa educação de Nao se não estivesse se sentindo tão esgotada. Então ela apenas aceitou as condolências e se afastou mais murmurando algo sobre agradecer as pessoas por terem vindo. Kai percebeu que ela apenas não queria participar de alguma conversa em que tivesse que prestar atenção ao que era dito.
- Ela está muito abatida agora, acho que deveria levá-la para casa...
- Se Kai-san quiser, eu levo vocês dois. Estou no meu próprio carro hoje, mas acho que isso não faz muita diferença, não é?
O menor deu um sorrisinho tímido e Kai sorriu brevemente também, lembrando-se com uma certa vergonha de como havia ficado praticamente 'babando' no carro de Ruki-san.
- Não, não faz diferença... – murmurou, lançando um último olhar ao túmulo negro e afastando-se dali também, com um calafrio desagradável.
- Você também parece exausto. Tem alguma coisa que eu posso fazer para ajudar?
- Ah não, obrigado, Nao-san, mas eu acho que tenho que ficar um pouco mais e dizer algo a essas pessoas... além do mais Uruha foi quem tomou quase todas as providências práticas. Eu... eu estava... sabe...
E de repente ele sentiu-se novamente desesperado. Deuses, o que faria agora?! O que fariam os dois sem a Baachan?! Teria que começar a roubar de novo? Prometera a si mesmo nunca mais fazer isso, mas... Encostou as costas a uma pedra negra alta, escondendo-se daquelas pessoas todas e passando as mãos pelos cabelos. Não... não podia começar a chorar outra vez! Não na frente de Nao-san e não agora... No entanto o ar não chegava a seus pulmões e um soluço engasgado saiu de sua garganta.
No momento seguinte sentiu seu corpo sendo puxado e refugiou o rosto no pescoço de Nao, tentando conter-se, tentando respirar de novo e controlar esse acesso embaraçoso. E chorando como um bebê. O enfermeiro dava pequenas palmadinhas em suas costas, porém estava em silêncio. Kai agradeceu por isso. Não agüentaria ouvir mais uma vez "Era melhor assim" e "Não fique tão triste". E após alguns minutos, achou seguro finalmente se afastar dos braços do outro, secando um tanto brutalmente o rosto com a palma da mão.
- ...Está tudo bem agora? – perguntou o outro, timidamente.
- E-está, desculpe por isso, Nao-san...
- Você precisa ir pra casa. Você e Yutaka-san... eu tenho certeza que as pessoas vão compreender.
Kai não pode discordar disso. Afinal, estava falando com um enfermeiro. "Enfermeiros são quase médicos."
- ...Certo, eu vou chamá-la... – e voltou a olhar para todas aquelas pessoas amontoadas, distinguindo logo sua mãe parada entre elas, imóvel e de rosto baixo, sem falar com ninguém. Porém antes de ir até ela, sorriu brevemente para Nao.
- Obrigado, Nao...
O rapaz apenas fez um leve gesto de assentimento com a cabeça, esperando. Quando Kai virou as costas, ele calmamente guardou o envelope que segurava no casaco largo e sorriu de leve. Kai o tratara apenas como Nao... era bom que começasse a considerá-lo como um amigo íntimo. Era o que pretendia ser, em horas tão difíceis. Logo Kai estava de volta e ele conduziu os dois até seu carro – um novo, porém simples carro popular – e Akemi-san logo que se acomodou no banco traseiro fechou os olhos, parecendo ter caído em transe. Kai sentou-se ao lado de Nao para lhe ensinar o caminho, porém não falou uma palavra além disso até chegarem ao prédio cheio de minúsculos apartamentos.
- Por favor, suba, Nao. Está muito frio por aqui – disse, parecendo então levemente mais animado.
- Eu não quero trazer problemas.
- Não será problema, Naoyuki-kun. Kai, faça uma xícara de chá quente para ele, está bem? – murmurou a mulher, ainda parecendo demasiadamente abatida para falar num tom mais alto que este.
Logo Nao estava no elevador com eles e tão logo Akemi entrou no pequeno apartamento, se desculpou dizendo que precisava se deitar e sumiu para dentro de seu quarto. Kai fez um gesto para que o enfermeiro se acomodasse no sofá.
- Eu vou fazer o nosso chá.
- Você realmente não precisa...
- Tudo bem, eu quero – Kai afastou sua franja da frente dos olhos avermelhados. – Fará bem a nós dois.
Nao se sentou no sofá, com as mãos sobre os joelhos juntos e olhou em volta. Era um apartamento muito pequeno, pelo que percebia. A sala também servia de sala de jantar e pelo que via através da porta, a cozinha também era diminuta. Pelo corredor, visíveis quatro portas, uma para o banheiro e as outras para os quartos. Mas Nao achava bastante provável que os quartos não fossem maiores do que a cozinha. No entanto era tudo muito aconchegante e agradável. Os quadros na parede mostravam cenas campestres e sobre a mesa de jantar, um vasinho transparente com duas flores de crisântemo brancas em cima de uma toalha de rendas. Ao lado da TV, fotos e mais fotos de família. Havia uma em que Akemi posava sorrindo ao lado de um Kai de no máximo doze anos, em uniforme escolar. Havia uma em que Kai parecia orgulhoso em uma beca de formatura, havia ainda outra em que parecia estar morrendo de rir ao lado de Uruha – demorou a reconhecer este, porque ele tinha cabelos longos e totalmente negros nesta foto – e os braços de alguém aparecendo ao lado, provavelmente de Akemi. Havia uma foto de uma velhinha baixinha e simpática com um chapéu branco na cabeça e uma bolsa de palha a tira-colo. "Essa deve ser Baachan", pensou, vendo mais duas fotos dela. Uma segurando um grande bolo de chocolate e outra de talvez uns trinta anos atrás, pois era muito amarelada e ela tinha apenas alguns fios brancos entre a farta cabeleira negra. Ao seu lado, uma jovem Akemi usando uma bata hippie e segurando no colo um bebê de bochechas grandes. Nao apertou os olhos para ver melhor... parecia que havia uma mão masculina sobre o ombro dela...
- Ela era bonita, não era? – perguntou Kai, com uma bandeja nas mãos, também olhando a foto.
- Muito bonita – respondeu sinceramente, voltando a olhar para a mulher mais velha da foto.
- Mamãe diz que quando era mais nova, vovô falava que ela era a mulher mais linda da vila. Todos os rapazes eram apaixonados por ela, mas ela escolheu meu avô porque ele conseguiu compor para ela um poema de mil páginas e fez uma garça de papel com cada folha. Mas eu acho que isso era história do vovô, porque sempre que eu perguntava algo sobre isso, Baachan ria e dizia que escolheu meu avô porque ele tinha ombros largos.
A bandeja tremeu levemente nas mãos do rapaz e Nao rapidamente a pegou, pousando sobre a mesinha de centro, rindo levemente.
- Ombros largos também é um bom motivo, neh, Kai...
- É, imagino que seja. Não muito poético – Kai riu daquela maneira triste, sentando-se ao lado do outro e logo sendo servido de uma xícara de chá pela visita. Tomou um gole lentamente, olhando para as fotos.
- Ele, vovô, morreu quando minha mãe fez vinte e um, uma complicação de um ferimento de guerra antigo. Eu não existia, ainda, mas mamãe disse que ela ficou trancada no quarto com as roupas dele por uma semana inteira. Acho que ela está feliz agora, ao lado dele, certo?
- Com certeza, Kai-kun – respondeu o outro prontamente, aproximando um pouco dele e pousando a mão delicadamente sobre o ombro do rapaz.
O cozinheiro mal desviou o olhar perdido das fotos. Apenas baixou a xícara e continuou falando. Nao sabia que ele precisava disso, desabafar. Lembrar.
- Uruha não me respondeu quando perguntei isso a ele. Mas é claro que ele não acredita que exista algo depois da morte. Talvez seja melhor assim... Você credita nisso, Nao?
- ...Bem, eu acredito que as pessoas que nos amam não nos deixam mesmo depois de morrerem. Não acho que elas permitam que isso aconteça. Tenho certeza que sua Baachan agora está em algum lugar cuidando de você e de sua mãe...
- E do Uruha. Uruha era seu neto adotivo – Kai riu um pouco mais, olhando-o nos olhos pela primeira vez. – Tenho certeza que ela adotaria você como neto também, se tivesse tido tempo o bastante para conhecê-lo. Ela iria chamar você de Nao-kun e perguntar sobre suas namoradas cada vez que bocejasse. E iria falar horas sobre rock'n roll e seus próprios antigos namorados.
O enfermeiro riu, mesmo sem querer. Uma velhinha falando sobre rock e sexo?! Agora entendia porque todos pareciam adorá-la. Tomou um gole de chá e viu Kai suspirar e fechar os olhos por um momento, antes de abri-los de novo, sorrindo daquele jeito sincero e bonitinho "Essa covinhas dão um ar de inocência pra ele".
- Você está exausto, Kai, precisa ir para a cama.
- Eu não estou tã-ã-ãããnnn... tão cansado...
- Esse bocejo acabou de desmentir isso.
- Você se acostumou a agir como uma mãe – resmungou Kai, porém se levantou, deixando a xícara na bandeja. – Eu não sou seu paciente!
- Todo mundo é meu paciente, se eu ver alguma coisa errada – Nao se levantou também, balançando o dedo numa quase realista imitação de mães dando bronca em desenhos animados. Kai riu e se deixou conduzir para o próprio quarto, o último do corredor. De fato, era tão pequeno quanto Nao havia previsto e tão abarrotado de coisas que era quase impossível distinguir uma delas em especial. Kai se jogou de bruços na cama, abraçando o travesseiro e resmungando, e Nao sentou-se na beiradinha da mesma.
- Tem mais alguma coisa que eu possa fazer, Kai?
- ...Me desculpar pela falta de hospitalidade seria muito bom – disse, erguendo o corpo sobre um cotovelo e o olhando. Nao corou levemente.
- É um prazer ser sua babá particular... – Kai riu mais uma vez.
- Não ouça as coisas que Uruha diz, ele não pensa antes de falar.
- Ele me chama de "cara de filhote" – disse, sorrindo apenas com um canto dos lábios, uma sobrancelha erguida.
Desta vez Kai corou.
- Ahn...bem...
- ...O quê?! – perguntou, rindo.
- Bem, Nao-san, você tem o rosto de uma criança...
- Eh! Não tenho não! – disse, cruzando os braços e fazendo um bico. Kai corou ainda mais.
- Está vendo?! Aí está, muito fofinho para um homem adulto...
- Não diga nada sobre fofura, mister covinhas! – Nao pressionou os indicadores nas bochechas de Kai e ele riu mais uma vez.
- Hey! São charmosas!
- Eu não disse que não eram – falou Nao e logo em seguida se levantou bruscamente. Parecia vermelho como um morango. – Bem, seu eu fosse uma garota acharia charmosas! Agora durma, você precisa se recuperar.
Kai, que passava os dedos novamente pelos cabelos, um tanto sem graça, assentiu levemente.
- Obrigado por vir até aqui, Nao.
- ...Sem problemas. Descanse bastante.
Assentindo novamente, Kai fechou os olhos. Nao ainda esperou de pé alguns minutos, mas logo a respiração do outro estava regular e lenta. Ele dormira quase imediatamente.
O enfermeiro voltou para a sala sem fazer qualquer barulho. "Eu não disse que não eram... o que você tinha na cabeça?!" Então se lembrou do envelope que guardara no bolso. O pegou e abriu, vendo seus 30,000 yen ali dentro. Pensando um pouco, Nao olhou ao redor mais uma vez. Então puxou a carteira do bolso de trás da calça e tirou dela todo o dinheiro que tinha, colocando no envelope também. Deixou o envelope prateado em cima da mesa, sob o vasinho com flores e pegou uma delas para si. A mais bonita das flores, quase perfeita. E segurando o crisântemo branco nas mãos, Nao deixou a casa, fechando a porta trás de si.
-
Ruki estava há muito tempo olhando para nada em específico. E ele honestamente não estava ligando nem um pouco para isso naquele momento. Na verdade, se não fosse por insistência de Nao-san, ele não teria saído da mansão naquele dia. Mas segundo Nao-san, ele tinha que sair sempre que possível, interagir com pessoas e estava muito frio para ir ao parque. Mas Ruki achava que não queria ir ao parque, tampouco.
O parque lembraria Uruha-san.
O parque também lembraria Uruha-san.
E Uruha-san o odiava. Ruki sabia que sim. Sabia que estragara tudo, de algum jeito, só não sabia como. Ele perdera mais um bom amigo porque não era normal. Porque tinha essa maldita coisa da cabeça. Síndrome de Asperger. Autismo. Assombravam seu mundo desde que se lembrava. E Ruki, mesmo que se lembrasse de épocas mais felizes às vezes, sempre acabava se sentindo sozinho. Sem amigos que não fossem pagos por Saga-sama. E muitas vezes sem Saga-sama. Ruki, no entanto, não sabia se preferia quando ele estava perto ou longe. Ao menos com Uruha-san ele tinha algumas certezas, ou pelo menos achava que tinha.
Até estragar tudo e agora Uruha-san o odiava. Uruha-san brigara com Reita-san por causa de alguma coisa – Ruki se perguntava se era muita pretensão achar que fosse por causa de si mesmo – e havia alguma coisa nele que Ruki não conseguia entender naquele momento. Havia muitas coisas nos olhos de Uruha-san e Ruki não pudera suportar tudo aquilo de uma vez só. Eram muitas coisas para se entender em uma única ocasião.
Mas Uruha-san provavelmente não achava isso... ele era normal.
Ruki, com os olhos fixos em uma única folha de uma árvore do lado de fora da janela, nem sequer conseguia prestar atenção a isso. Geralmente isso lhe acalmava, embora soubesse que também não era natural. Prestar atenção em uma única coisa, um único detalhe de um quadro muito carregado. Uma folha em uma árvore. Mas ele não conseguia nem mesmo fugir de sua própria mente, agora. Era como se estivesse preso para sempre em um filme ruim que se repetia em sua cabeça e não o deixava notar as coisas ao redor. Não o deixava notar Nao-san falando alegremente com ele sobre alguma bobagem. Não o deixavam notar Shou-san a um canto da sala – mesmo que ele fosse facilmente notável com roupas verde limão – conversando com Hiroto-san em um tom bem mais sério do que o usualmente. Em voz baixa.
- ...Deixa eu ver se entendi direito, Pon, Uruha deveria estar na prisão agora?
- Deveria. Ele não poderia ter nenhum tipo de delito e quebrar o nariz daquele cara foi definitivamente um delito.
Shou parecia estar indeciso entre ficar descrente ou horrorizado.
- Mas não foi uma briiiiiiga briga. Pelo que me disse, o pobrezinho estava passando por um dia bem difícil. Se eu soubesse que ele tinha perdido a avó...
- Não era a avó dele, era do amigo.
- Mesmo assim, era como se fosse a avó dele. E se eu soubesse, teria dado uma folga ao rapaz. Poor honey, por isso estava daquele jeito, como que soltando faísca. Achei que era TPM ou algo assim...
Hiroto revirou os olhos e os desviou para outro canto da sala. Aquela roupa de Shou estava começando a doer em suas retinas outra vez.
- Enfim, eu tive que fazer meu trabalho. Eu sou pago pra fazer esse sistema funcionar. Mas como o Takashima estava realmente passando por uma fase difícil... e pelo que entendi aquele seu psiquiatra é o atual do ex dele ou alguma coisa assim, resolvi usar um pequeno recurso com ele... depois das devidas advertências.
Shou relembrou por um segundo daquele homem moreno que estava conversando com Uruha antes de Reita chegar e mentalmente parabenizou ambos – Reita e Uruha - pelo excelente gosto. E logo depois se deixou tomar completamente pela curiosidade sobre o que seria aquele "pequeno recurso".
- ...Bem, e o que você fez, Pon?
- Disse que se conseguisse convencer o Diretor que poderia ser realmente útil aqui pelo resto do tempo da pena, ele não iria para a prisão... dessa vez. Não há chance disso acontecer de novo se ele for reincidente.
O secretário, entretanto, havia arregalado os olhos e levado as mãos - "quando foi que ele começou a pintar as unhas de preto?!" - a boca.
- Você quer dizer que ele tem que obter o perdão do Sakamoto?!
O fiscal apenas confirmou com a cabeça e Shou baixou o rosto, parecendo desolado.
- Pobrezinho, ele não parece o tipo que agüenta bem a prisão...
Hiroto riu levemente.
- Ah, não seja descrente, Shou, Takashima pode ser um playboy perdido, mas tem lá seu charme. Saga-san não pode ser tão ruim.
No entanto o rapaz de vestes verde limão agora olhava para Ruki, vendo-o alheio e perdido, ignorando as tentativas mais animadas de conversa de Nao como se ele nem estivesse ali. E Shou sabia que, de uma maneira ou de outra, ele estava assim por causa de Uruha. Talvez estivesse bravo com o rapaz, mas não seria possível dizer, já que Ruki em suas piores crises aparentava ser apenas uma boneca muito grande com uma expressão facial inalterável. Shou apostava seu casaco de peles sintéticas que Saga-san havia percebido o estado do protegido. E se ele soubesse a causa...
- Uruha vai ter sorte se Saga não providenciar para que ele seja espancado na prisão – e ao voltar o rosto novamente para Hiroto e vê-lo com um olhar desconfiado, completou. – Saga-san é bem conhecido por conseguir o que quer, da maneira que for preciso, mas pouca gente sabe que ele protege esse rapaz como se fosse o seu bem mais valioso. E, se pensar bem, Pon, Ruki é o bem mais valioso de Saga-san. Saga pode ser o general do império Matsumoto, mas Ruki continua sendo o príncipe.
- Mas o que a briga do Takashima tem haver com o garoto?
- Bem, o Reita é o psiquiatra do Ruki. Mas, eu tenho observado esses dois... Uruha se tornou um bom amigo para ele, inesperadamente. E eu acho... – Shou deixou aquela leve insinuação incompleta flutuar no ar por alguns segundos. – Anyway, quando o pobrezinho do Uruha vai ter que falar com o diretor?
- Provavelmente deve estar a caminho da sala dele agora – resmungou Hiroto olhando no relógio.
O secretário abriu muito os olhos e fincou um dedo no meio do tórax do outro, parecendo zangado.
- PON!!! Você devia ter me dito isso antes! Eu teria tempo de prepará-lo e... ohmygosh! Uruha será massacrado! Preciso fazer alguma coisa.
Shou mordeu o lábio inferior, aflito, tentando pensar em algo. Tudo bem que fora meio estranho Saga aparecer realmente por ali aquele dia, fazia muito tempo desde que deixara quase toda administração do Circe em suas mãos. Mas agora que pensava sobre isso, havia de fato uma felicidade muito genuína no rosto do diretor ao chegar junto com Ruki naquela manhã. E aquilo não podia ser bom. Se ao menos houvesse alguém que pudesse acalmá-lo...
- Ruki! – exclamou de repente, tirando Hiroto de suas divagações sobre os lábios do secretário e a maneira como ficavam rosados quando ele os mordia daquele jeito.
- O que tem o garoto? – perguntou o fiscal, voltando os olhos na direção do loirinho, evitando que o outro o visse corar diante dos próprios pensamentos.
Mas Shou já o deixara e atravessava o salão de recreação em direção ao menor. Nao, que havia uns dez minutos desistira de fazer Ruki interagir com alguma coisa que não fosse a própria mente, estava apenas sentado a um canto, lendo e ergueu o rosto para o secretário.
- Nao, dear, você se importa se eu falar com Ruki um momento? – perguntou. E o enfermeiro ergueu uma sobrancelha antes de dar ombros.
- Você pode tentar – respondeu.
- Ótimo! Tem biscoitos de gengibre na minha sala, por favor, pegue alguns para você. Quero saber se estou melhorando na cozinha.
Nao entendeu a indireta, rapidamente se levantando com um meio sorriso tímido e se afastando. Shou puxou uma cadeira e sentou-se de frente para Ruki, tomando as mãos dele entre as próprias.
- Ruki-chibi... honey... está me ouvindo?
O menor continuou com a testa apoiada a janela, aéreo e apenas retirou lentamente as próprias mãos das do secretário. Shou suspirou e começou a torcer os próprios dedos uns entre os outros, perguntando-se como deveria começar.
- Ruki... sabe aquela coisa que aconteceu ontem entre Uruha-san e Reita-san?
O rosto do menor ainda não mostrava nenhuma alteração.
- Well, Ruki, mesmo que você não queira falar comigo, é importante que preste atenção. Eu sei que você gosta do Uruha-san, ele joga com você às vezes, não joga? Então, o que ele fez ontem foi muito errado, mas ele estava muito triste porque uma pessoa que ele amava muito se foi. Sabe, para o mesmo lugar onde seus pais estão. Ele estava muito chateado ontem e por isso estava muito nervoso.
Ruki piscou. Uma pessoa que Uruha-san amava muito tinha morrido... e por isso ele estava chateado. Talvez a Baachan, de que ele falara no santuário. Será que então não tinha feito nada errado? Será que era normal ser rude com as pessoas quando se estava chateado? Ruki não tinha certeza absoluta. Mas talvez Uruha-san não o odiasse então. Talvez não tivesse estragado tudo. Mas e se tivesse?
- Eu sei que o que ele fez com o Reita-san foi ruim, Ruki, mas veja por esse lado. Uruha estava tentando ser uma pessoa forte e engolir a dor dele, mas chegou uma hora que ele não pôde mais. Reita-san deve ter falado alguma coisa que deixou ele um pouco mais chateado e aí ele não se controlou. Mas ele não teve culpa.
Ruki piscou outra vez e suas íris claras moveram-se para baixo. Shou-san estava tratando-o como uma criança estúpida. Mas no caso de Shou-san, isso não significava muito porque ele fazia isso com todo mundo. Mas Ruki não entendia o que ele queria dizer com tudo isso. Ele não tinha que perdoar Uruha-san, era Uruha-san que tinha que perdoá-lo por não perceber que ele estava passando por um dia difícil. Como aquele dia difícil em que perdera seus pais num acidente de carro e não sabia bem o que fazer.
- Anyway, o que quero dizer, Ruki, é que agora Uruha está com problemas. Ele não podia ter brigado e agora ele vai voltar para a cadeia se ele não convencer Saga-san a perdoá-lo. Mas eu acho que Saga-san não vai perdoar Uruha por ter batido em Reita-san, porque ele acha que isso magoou você. Então... você tem que falar com o Saga-san e pedir para ele deixar o Uruha continuar aqui no Circe. Você é o único que pode convencer o Saga-san a perdoar o Uruha, Ruki-chibi... você faria isso pelo seu novo amigo?
O loirinho mordeu o lábio e começou a tamborilar os dedos no parapeito da janela, ansiosamente. Estava pensando com toda a sua capacidade mental sobre isso. Falar com Saga-sama? Pedir algo a ele?! Pedir por Uruha-san?! Ruki tinha certeza que Saga-sama não iria gostar nada, nada disso. Não era nada, nada bom quando Saga-sama estava descontente, todos sabiam disso. Mas... Uruha-san poderia voltar para a prisão. Será que a prisão era pior do que Saga-sama?
- Ruki... eles estão conversando na sala da diretoria agora. Você poderia ir lá? Poderia? Tenho certeza que Uruha vai ficar muito agradecido se você for. Ele não gosta de ficar preso. Existem pessoas más na prisão.
Ruki se levantou de súbito e começou a correr.
-
Ao bater na porta de madeira lustrosa com uma imponente placa anunciando "Diretoria", Uruha tinha uma sensação ruim na boca do estômago. Grande parte dele estava relutando contra a idéia de implorar a alguém. Uruha odiava implorar. Mas havia algo mais. Todos diziam que Saga era o demônio em pessoa e Uruha sentia que teria que fazer algum tipo de barganha... algo como "sua alma em troca da liberdade". Entretanto essa pequena sensação ruim na boca do estômago se transformou em uma sensação bem mais inquietante ao ouvir a voz gélida vinda de dentro da sala, mandando-o entrar. E mesmo que quisesse a todo custo se manter tão indiferente as autoridades quanto sempre fora, a primeira visão de Sakamoto era inegavelmente impressionante. E intimidadora.
Ele tinha o corpo esguio e alto encostado a lateral da mesa de mogno vitoriana, de uma maneira que a primeira vista parecia casual, mas quem prestasse atenção perceberia que o diretor se colocou ali apenas para acentuar ainda mais sua impressão de domínio. Vestia-se num terno cinza azulado que Uruha tinha certeza ter custado o dobro do que todo o seu guarda roupa e ele não ousaria falar sobre o preço estimado daqueles sapatos. O cabelo, cor de chocolate, parecia ter sido cuidadosamente desarrumado para dar uma nota de jovialidade, contrastando com a sala antiquada e enorme. Nos dedos finos da mão alongada, havia um único anel prateado, grande, com o brasão da empresa em baixo relevo. E um cigarro acesso, igualmente longo. Os lábios eram rosados, porém cruéis. E quando ele ergueu o olhar, lentamente, Uruha não conseguiu evitar de pensar que aqueles eram os olhos de gelo.
Engoliu em seco.
- Takashima Kouyou, eu presumo.
- Uruha. – respondeu, baixo. Saga não parecia disposto a lhe oferecer uma cadeira.
- Sim, sim... Uruha-san. O homem que conseguiu quebrar o nariz do meu melhor empregado.
Houve uma pausa desconfortável, quando Uruha trocou o apoio do corpo duas vezes e respirou fundo, tentando se manter calmo.
- Imagino que veio aqui me dar suas inúmeras e boas explicações para esse incidente...Uruha.
- Acho que não tenho nenhuma boa explicação, Saga-san.
O diretor desencostou o corpo de sua mesa, e tragou seu cigarro num lentidão exasperante, quanto o avaliava com os olhos.
Então esse era o Uruha de quem Ruki falara naquele almoço – e com quem chegara a falar diretamente, e em publico – de maneira tão insegura, de quem Naoyuki parecia ter medo e que aquela cadela amestrada de Shou havia tentando tão ferrenhamente defender naquela mesma manhã. Esse...garoto rebelde, sem disciplina e obviamente tão emocionalmente descontrolado quanto um gorila. Um perfeito imbecilzinho metido a valente, pelo que via. Um problema que poderia bem ter se resolvido por si mesmo (um garoto tão estúpido certamente faria algo para se prejudicar cedo ou tarde), mas que o rapaz fizera questão de facilitar infringindo as regras de sua probation justamente com Reita-san ferrenhamente defender s olhos... ! Teria que começar a roubar de novo? Prometera a si do que o anterior. Tomara que uma hora. E agora facilitava ainda mais, agindo como o idiota que era.
A única coisa que Saga não entendia era como Ruki poderia ter considerado esse traste suburbano uma boa companhia.
- Não? Então não há necessidade nenhuma de estar aqui. Pode simplesmente pedir a Hiroto seu novo par de pulseiras.
O loiro esfregou os pulsos inconscientemente. Algemas, odiava algemas.
E odiava aquele homem.
- Eu vim aqui pedir que o senhor releve aquele acidente de ontem. Eu estava transtornando por causa da morte de uma grande amiga. E eu sei que posso continuar fazendo um bom trabalho aqui pelos próximos cinco meses. De graça.
De alguma maneira Uruha tinha certeza que o que Saga ouvira fora "Bla bla bla. De graça", e estava meio certo. Saga de fato estava se importando muito pouco com as mortes de quem quer que fosse de seu circulo de amizades, mas havia esse pequeno adicional de ele fazer de graça o tipo de serviço que a maioria das pessoas faria só mediante um bom pagamento. Se este rapaz fosse apenas qualquer coitado que arrumara uma briga com outro coitado, ele nem sequer teria se dado ao trabalho de resolver isto pessoalmente. Mas a briga não passava de uma ótima justificativa para afasta-lo de seu Ruki. E Ruki sim, esse era o verdadeiro problema.
- Sabe o que acho, Uruha? – Saga se aproximou dele, mais e mais, até que podia falar com ele num mero sussurro – acho que você vai passar os próximos cinco meses numa jaula de animais selvagens, que é exatamente onde garotos bonitos metidos a corajosos devem ficar.
Uruha abriu a boca, voltou a fecha-la e abriu de novo, tentando encontrar alguma coisa pra dizer, e se sentindo um maldito peixe. Mas não havia nada em sua mente condizente com o arrepio na espinha que aquele cara o fazia sentir.
- O que foi? Perdeu a língua gato selvagem? Pelo que averigüei, você é do tipo falante, e briguento. O que aconteceu? Medo, talvez...
- Não. – rosnou o loiro, de uma só vez, sentindo sangue subir a sua cabeça. Esse maldito riquinho estava zoando com sua cara. Uruha odiava bancar o palhaço muito mais do que odiava implorar.
- Não?
- Eu vim aqui pensando que havia alguma chance, mas acho que você já tinha se decidido sobre o que fazer antes da minha chegada, Saga.
O rapaz de cabelos marrons o empurrou pelo tórax, com apenas as pontas dos dedos, e Uruha foi para trás, quase batendo na porta atrás de si.
- Saga-san, para você, moleque. Enquanto ainda estiver em meu Centro, você me tratará com respeito. E, já que insiste em ouvir um pouco de 'justiça', eu esperava poder fazer alguma barganha com você hoje, Kouyou. Obviamente, contava que fosse mais esperto.
Uruha afastou-se da porta e do diretor, dando alguns passos para o lado, tentando a todo custo controlar o sangue que fervia em seus ouvidos.
- ...esse Centro não é seu. E do...
E foi neste momento que ele entrou. Não bateu na porta, simplesmente entrou, um pouco ofegante, com os cabelos cor de mel da frente do rosto e a pequena mão apertando a frente do suéter largo. Tanto Uruha quanto Saga voltaram imediatamente os olhos para o menor, porém a reação de Uruha foi congelar com uma expressão descrente, e a de Saga foi imediatamente se recompor e parecer relaxado. Este sorriu para o recém chegado, um sorriso imponente que não chegava aos olhos.
- Ruki, não é uma boa hora para interromper meu trabalho. – disse, num tom condescendente.
Ruki parecia estar tremendo da cabeça aos pés, ao olhar para os próprios sapatos. Mas falou, ou ao menos tentou falar com uma certa firmeza.
- ..S-Saga-sama... não faça Uruha-san voltar a p-prisão. Por favor.
Uruha ergueu tanto as sobrancelhas que elas quase desapareceram entre seus cabelos. Mas... o que Ruki estava fazendo?! Defendendo-o?! Depois de ter sido tão completamente abominável com ele? Porque raios ele faria uma coisa dessas?
Saga não demonstrou o mesmo nível de surpresa, mas internamente estava ainda mais mortificado que Uruha. Aproximou-se, um pouco em duvida, do seu pequeno protegido e o fez erguer o rosto suavemente.
- O que você disse Ruki? Você não quer que eu mande esse homem violento para o lugar dele?
O loirinho não se esquivou ao toque, apenas parou de tremer para sentir seu corpo todo retesar de maneira tensa. Tentou olhar para os lados para evitar os olhos de gelo de Saga.
- Não... não quero. Ele não teve culpa...e-ele estava triste. Não seria justo. Saga-sama não...não gosta muito de Uruha-san...mas, mas ele não é tão ruim. Não é ruim.
- Não é ruim?! Ele machucou Reita-san. Você não gosta mais de Reita-san Ruki?
Uruha notou, mesmo que mal, que o tom de voz de Saga para com Ruki era não apenas condescendente, mas assemelhava-se bastante a uma ordem suave, uma verificação de até onde a força de vontade do menor poderia ir. Limpou as palmas das mãos nas laterais da calça jeans, tentando controlar a indignação que o fazia suar.
- ...eu gosto! E-eu gosto de Reita-san. Mas eu também gosto de Uruha-san. São...são amigos. Os dois.
Aquilo calou Saga e deixou Uruha ainda mais mudamente perplexo. Ruki por sua vez não tinha mais idéia do que dizer. Apenas voltou a pedir, numa voz sumida e suave, o que pedira no começo.
- Não faça Uruha-san voltar para a prisão... existem pessoas más na prisão.
- Está bem Ruki, se é isso que você quer.
O tom conformado de Saga surpreendeu o loiro mais alto, fazendo-o voltar a cabeça muito rapidamente para ele. "Tudo bem? Tudo bem?! Fácil assim?!?"
- Você pode ir. Diga a Shou que quero que você comece a pintar as paredes externas amanhã.
Uruha ainda lançou um longo olhar a Saga antes de se virar para Ruki.
- Escute, Ruki...eu...
O menor virou o rosto na direção oposta. Não tinha expressão alguma no rosto, mais parecia uma escultura realista no meio da sala. O loiro maior tentou se aproximar, porém um braço metido em um terno cinza azulado o impediu.
- Agora. Eu posso mudar de idéia. – disse Saga, novamente frio.
Lançando um segundo porém breve olhar ao Diretor, Uruha baixou a cabeça e saiu, sem tentar dizer algo mais ao menor. Agradeceria o gesto quando não estivesse diante daquele filho de uma... do executivo. Não olhou para trás, aliviado em simplesmente não estar a caminho da prisão.
Se tivesse feito, veria Saga fechando a porta outra vez, impedindo que Ruki saísse. Lentamente, sem olhar para o protegido, atravessou o tapete escuro macio e contornou a mesa antiga, sentando-se em sua cadeira de madeira e couro. Juntou a ponta dos dedos na frente do corpo. O loirinho continuava parado, sem mover um músculo sequer.
- Sente-se Ruki. – sua voz soou suave. Suave de mais.
A passos hesitantes, o menor começou a se mover. Pensamentos mais rápidos que luz surgiam na cabeça do mais velho. Ele tinha calculado mal a situação. Ruki estava mais apegado a esse homem intolerável do que havia previsto. Ruki realmente gostava dele. Nada bom. Precisava resolver.
Ruki puxou a cadeira oferecida para trás, afastando-a da mesa para que pudesse se sentar. Saga o observou mais atentamente, ainda pensando. Ele estava diferente nos últimos tempos. Estava mais inseguro. Mais tremulo. Tinha mais medo e consequentemente – bizarra maneira de pensar - estava se arriscando mais. Parecia insatisfeito com a rotina de sempre. Com os desenhos, o parque e a mansão. Saga sabia que de alguma maneira isso era influencia de Uruha. Talvez o garoto imbecil nem tivesse notado o que fazia com Ruki. Provavelmente estava ocupado de mais puxando fumo e agindo como um valentão de colégio. O que nele atraíra Ruki era uma pergunta que Saga não conseguia responder. Era lindo, o imbecil do Takashima, mas Ruki aprendera a não olhar para ninguém além de seu pequeno circulo, de seu pequeno mundo, mesmo que fosse a Miss Universo em pessoa. Ruki deveria ser um ser humano completamente fechado, a essa altura. Sem riscos, sem perigos. Sem idéias de mais. Protegido.
O menor se sentou e baixou o rosto. Ainda inexpressivo. Mas ele balançava-se levemente. Aquilo sempre irritou Saga, mais que qualquer outra coisa. Fora a primeira lição que dera ao mais jovem. Parar de se balançar como uma bandeira em um dia de vento. Agora ele só o fazia quando sentia-se verdadeiramente ameaçado. Saga se perguntou se estava fazendo aquilo do modo errado, antes se voltar a afirmar seus métodos de 'ensino' para si mesmo. Terapeutas eram suaves de mais. Ineficazes. Ele sabia como fazer o menor ser exatamente aquilo que deveria ser. Um herdeiro milionário seguro sob seus braços. Ruki precisava ter alguém lhe dizendo o que fazer, ou poderia acabar se machucando. E o empresário sabia que era a única pessoa que podia ser o guia do garoto. Não existia mais ninguém.
Saga inclinou-se sobre a mesa, afagando-lhe o rosto levemente. Ruki estava gelado, e tentou se esquivar do toque. Voltou a se afastar, sentando-se com a coluna ereta. Seus olhos bateram em seu anel, feito sob encomenda em ouro branco puríssimo. Empresas Matsumoto. E então tomou uma decisão.
Deveria agir como o líder que sempre foi. Deveria agir de acordo com suas crenças mais profundas e mais verdadeiras no momento. Com perspicácia e agilidade. "Mantenha os amigos por perto, os inimigos ainda mais" pensou, deixando um meio sorriso aflorar no rosto.
- Gostaria de convidar Uruha-san para jantar na mansão, Ruki? Para o seu aniversario talvez. Só você, ele, e eu.
O menor ergueu os olhos. E assentiu.
(1) Uma saudação perfeita no Japão é quando a pessoa inclina o corpo noventa graus exatos para frente, com as mãos ao lado do corpo.
oOo
Fato curioso inútil, desde que comecei a escrever cada capítulo tem sido exatamente uma pagina de word maior do que o anterior. Tomara que uma hora isso se estabilize, ou no final da fic vão existir capítulos grandes de mais para ser lidos de uma vez só... yep, vai demorar ainda gente.
Os capítulos agora são revisados pela Nah, mas eu sempre gosto de ler andar de postar um capitulo betado. Esse aqui eu estava arrumando as cinco da manhã, cheia de cólicas, e talvez tenha relaxado. Desculpem, tentarei melhorar.
Agora, quem ler, eu quero pedir encarecidamente uma coisa. Quero que me digam o que estão achando do Saga. Tudo que passa pela cabeça de vocês quando ele aparece. Qualquer coisa que seja. Não precisam nem comentar o resto, é só me falar sobre o Saga.
Thanks, mesmo, para qualquer pessoa que atender esse meu pedido.
