A Ferret among Weasels
- Scorpius, querido, posso entrar? – uma voz de mulher fazia-se ouvir através da porta e Scorpius gemeu, tentando adormecer de novo. Chegara a casa há menos de meia hora e bastara cair na cama para adormecer. Nem se lembrava de mudar de roupa, mas ao ver que vestia calças largas de pijama e uma t-shirt velha, concluiu que o deveria ter feito.
Sem esperar por outra resposta, Astoria Malfoy abriu a porta e ao ver o filho deitado aproximou-se da janela e abriu-a de par em par, deixando a luz entrar e fazendo com que Scorpius resmungasse e escondesse a cabeça por baixo dos cobertores.
- Já é muito tarde, Scorpius! A tua irmã já está levantada há mais de duas horas, a fazer sabe-se lá o quê…
- A minha irmã é doida – retorquiu Scorpius, tentando agarrar-se à réstia de sono que ainda o prendia.
- Não sou nada! – exclamou uma voz aguda e Scorpius sentiu o seu colchão começar a mexer-se para baixo e para cima.
- Elise! – disseram simultaneamente Astoria e Scorpius e a rapariga saltou para o chão e saiu do quarto, num andar petulante.
- Ela sai demasiado ao teu pai – bufou Astoria, vendo a figura da sua filha a afastar-se. Aproximou-se da cama do filho e sentou-se e Scorpius, sentindo que mais ninguém deixaria um pobre rapaz usufruir do seu descanso depois de ter passado a noite inteira a voar (não que os seus pais precisassem de ter conhecimento disso), abriu os olhos e observou a sua mãe.
- Que se passa, mãe? – perguntou ele, ao vê-la olhá-lo preocupada. Por loucos momentos julgou que tinham dado pela sua falta, mas quase instantaneamente apercebeu-se de que se fosse isso, a sua mãe estaria zangada e não preocupada.
- O teu pai recebeu hoje uma carta do teu avô… e ele quer que nós o visitemos hoje… - informou Astoria – Mas… tu sabes que não podes ir e a Elise também não e…. Scorpius, desculpa, mas eu sei que deveríamos estar todos juntos hoje, mas o teu avô está tão sozinho desde que a tua avó morreu que eu sinto que eu e o teu pai devemos ir até lá…
- Não te preocupes mãe, eu posso ficar com a Elise em casa – apressou-se Scorpius a acalmá-la.
A expressão da sua mãe fechou-se novamente.
- A Elise quer ir para casa da Aline Zabini…
- Oh! – respondeu Scorpius, surpreendido. O que a sua mãe estava a tentar dizer é que iria passar o dia de Natal totalmente sozinho. Bestial! Ninguém na sua família podia estar com ele no dia em que as famílias deveriam estar juntas… - Não te preocupes, sabes bem que eu não ligo muito ao Natal – Scorpius sentiu a garganta seca, claro que ligava ao Natal, era a sua época do ano preferida, em que podia agir como uma criança sem que ninguém lhe fizesse ver que já era um adulto.
A expressão da sua mãe não se alterou, mas Scorpius abriu um sorriso e desejou-lhe que fizesse uma boa viagem e que dissesse ao avô que continuava a detestar aquela sua bengala, Astoria sorriu um pouco a isto e foi com o coração apertado que se despediu do filho.
- Uma vassoura nova, mantos novos, um colar novo, botas de pele de dragão novas e nenhuma família com quem partilhar o Natal – murmurou Scorpius, sarcasticamente.
Quando Scorpius desceu para ver os pais partir, reparou que Draco observava-o fixamente, com uma expressão que Scorpius julgou ser orgulho… mas não podia ser, de que poderia o seu pai sentir orgulho, sobre si, naquele momento? Os seus pais despediram-se dele apressadamente, com a mãe a fazer-lhe uma festa no cabelo e o pai a dar-lhe uma palmadinha no ombro, e a sua irmã a dar-lhe um beijo na face antes de saltar para a lareira em direcção à casa dos Zabini.
"E agora o que fazer com todo este tempo livre? Podia escrever ao Al, a perguntar se sempre ganhou o novo uniforme de Quidditch…"
Agarrando em pergaminho e numa pena, apressou-se a escrever uma missiva ao amigo, descrevendo o que fizera até então nas férias (deixando de fora a aventura da noite anterior) e enviou-a através de King, que partiu satisfeito em direcção a sul.
O dia passou lentamente, enquanto Scorpius andava indolentemente pela casa, pondo algumas leituras em dia, voando pelos terrenos nas traseiras da imponente mansão e sumariamente, sentindo-se miserável.
Perto das cinco horas, quando Scorpius se sentou em frente da lareira para se aquecer, viu surgir com surpresa a cabeça de Albus Potter por entre as chamas.
- Viva, companheiro! – exclamou Al, com deleite, ao ver o ar surpreendido do amigo – Os teus pais não estão? – perguntou ao olhar em redor.
- Não, foram visitar o meu avô – respondeu laconicamente Scorpius, enquanto observava as fagulhas que saiam da boca de Al e lhe lambiam os cabelos.
- Quer dizer que estás sozinho? E a tua irmã? Por esta altura já esperava que ela estivesse aqui a mandar-me coisas à cabeça – comentou Al, admirado.
- Ela não está, foi passar o dia com uns amigos…
Scorpius viu a expressão de Al cair e de repente a cabeça do amigo desapareceu da sua lareira. Decorridos cinco minutos, voltou a aparecer, com uma expressão muito mais alegre.
- De que estás à espera? – perguntou ele – Vai buscar o teu manto e prepara-te para passares um dia com o clã Weasley-Potter!
Scorpius fitou-o, atordoado, até o significado das suas palavras assentarem. Então, deu um salto do sofá, correu até ao quarto, pegou no manto e escrevinhou um bilhete rápido aos seus pais, informando-os de onde se encontrava. Ao voltar à sala, deparou-se com Al refastelado no seu sofá, com um sorriso sarcástico nos lábios.
- Estiveste a fazer o manto? – perguntou ele, ao ver o amigo entrar na sala, pelo que este se limitou a responder-lhe com um rude gesto de mão.
Al riu-se e saltou para a lareira, enquanto gritava "A Toca!". Scorpius seguiu-o e foi imediatamente rodeado por largas chamas verdes e quentes.
Ao sair da lareira, limpando a face de cinza que pudesse lá estar, Scorpius deparou-se com um mar de cabeças ruivas, de entre as quais, apenas cinco pessoas se distinguiam, Al, de cabelo preto; o seu pai, com a mesma tonalidade e uma mulher de cabelo castanho encaracolado, que Scorpius identificou imediatamente como a mãe de Rose e duas mulheres, sentadas a um canto, a conversar entre murmúrios, uma de cor negra e outra loira de uma beleza estonteante. Scorpius colou-se à parede, à espera de alguém gritar "Agarrem-no!", mas aparentemente ninguém tinha esse desejo, apesar de muitos deles o olharem, desconfiados.
No silêncio que imperava na sala, uma voz familiar a Scorpius fez-se ouvir, vindo do exterior, mas aproximando-se cada vez mais.
- Não me interessa que aches o Quidditch o melhor desporto do mundo, eu sei que é brilhante, mas quatro horas seguidas a jogar é simplesmente demais! – Rose entrou na cozinha, acompanhada por James, Fred, uma rapariga loira e um rapaz de cabelo loiro mais escuro. No entanto, ao depararem-se com a cozinha em silêncio, os cinco estacaram à porta, olhando em redor, até que avistaram Scorpius, meio escondido ao lado da lareira. As bochechas de Rose coloriram-se de rosa, mas esta olhou-o como se nada tivesse acontecido.
- Bom, pessoal, este aqui é o meu amigo Scorpius, como vocês já devem saber… os pais dele não podiam estar, hoje, em casa, por isso eu convidei-o… Eu perguntei ao avô! – apressou-se Albus a acrescentar, para o caso de alguém levantar contrariedades.
- Não se preocupem, se a minha presença vos incomoda, eu vou-me já embora… O Al foi um idiota em convidar-me, desculpem – apressou-se Scorpius a dizer, virando-se para a lareira e preparando-se para entrar, sem olhar para Rose, quando uma mão delicada o impediu. Ao virar-se, deparou-se com os olhos de Rose. Por momentos, pensou que ela tivesse mandado a cautela às urtigas e o tivesse agarrado, mas ao observar melhor, viu que os olhos pertenciam a uma face mais velha, rodeada por cabelo castanho e não ruivo. Era Hermione, a mãe de Rose.
- Scorpius, seria muito agradável se ficasses connosco para jantar – disse ela, numa voz suave que fez Scorpius lembrar-se da sua própria mãe e fez com que o seu coração ficasse apertado. Um som sarcástico por trás de Hermione fez ambos virarem-se e Scorpius viu que as costas da mãe de Rose ficaram rígidas ao deparar com a expressão maldisposta do marido. Scorpius não conseguiu ver a expressão na cara de Hermione, mas deveria ser assustadora, pois Ron pareceu diminuir de tamanho e acabou por encolher os ombros, de uma forma derrotada.
A partir daquele momento, o ruído voltou a imperar na sala e por todos os lados podiam ouvir-se gargalhadas e gritos de entusiasmo. Al puxou Scorpius pela manga do manto e fê-lo segui-lo até à cozinha, onde a sua avó, a mãe e a sua tia Hermione deambulavam, levitando pratos e mais pratos de comida. Os olhos de Scorpius abriram-se de espanto ao ver tanta comida junta, mas ao olhar para trás e aperceber-se de quantas pessoas estavam naquela casa, acabou por concluir que seria necessária toda ela.
- Não, Albus! – exclamou Mrs. Potter, de repente, batendo na mão de Al, que se aproximava de uma travessa com cubos de chocolate e amêndoa. Scorpius riu-se do amigo e imediatamente três pares de olhos caíram sobre ele. No entanto, não continham uma expressão acusatória, apenas de surpresa.
- Isso, ri-te, não é a tua mãe que te está a deixar a morrer à fome! – queixou-se Al, massajando a mão
- Pois, a minha está com o meu avô Devorador da Morte – retorquiu sarcasticamente Scorpius, fazendo com que a expressão das três mulheres se sobressaltasse.
- Já te disse para lhe roubares a bengala e correres atrás dele com ela – sugeriu Al, com naturalidade, fazendo com que três pares de sobrancelhas se erguessem.
- Nah, o velho já nem a consegue tirar da mão, fossilizou lá – concluiu Scorpius, com um falso ar pesaroso, fazendo com que Al se risse. Este aproximou-se dele e passando-lhe o braço pelo ombro guiou-o para fora da cozinha, enquanto lhe ia descrevendo pormenorizadamente o que deveria fazer à bengala do avô.
- O que é que acabou de acontecer aqui? – perguntou, subitamente Ginny, mas as outras duas mulheres limitaram-se a encolher os ombros.
- Achas que resultou? – perguntou Scorpius, quando já estavam suficientemente longe da cozinha.
- Pelo menos, não acham que és um potencial príncipe das trevas, isso posso assegurar-te – afirmou Al.
- Elas talvez não, mas os outros, especialmente o pai da Rose… - suspirou Scorpius.
- Não te preocupes, eles habituam-se, mas… porque é que reparaste especialmente no meu tio? Não me digas que pensas pedi-la em casamento, hoje? – perguntou Albus, enquanto ambos se encaminhavam para o pequeno lago que ficava atrás da casa e que estava totalmente congelado. Gargalhadas provinham daquele local e ao olhar para cima, Scorpius viu que Rose e os dois loiros, que quase de certeza eram irmãos, se divertiam a patinar.
- Nem mereces resposta – retorquiu Scorpius e com um toque de varinha, fez com que um monte de neve caísse dos ramos mais próximos de uma árvore, em cima da cabeça do amigo.
Al gritou e em menos de nada, ambos estavam embrenhados numa dura luta de bolas de neve, a que rapidamente se juntaram Rose e os loiros. Quando todos se cansaram e caíram sobre a neve, Scorpius reparou que Rose estava imediatamente a seguir a si e sentiu os seus dedos tremerem para lhe tocar. Esta levantou a cabeça e sorriu-lhe, antes de agarrar numa bola de neve e lha atirar à cara, correndo em seguida para dentro de casa. Albus desatou a rir à gargalhada e os primos acompanharam-no.
- Sabes, para um Malfoy, até não és pior – comentou o rapaz loiro, ao sentar-se para olhar para Scorpius.
- Louis! – admoestou a irmã, com um olhar severo.
- Peço desculpa pelo meu irmão – afirmou a rapariga e lançando-lhe um sorriso, apresentou-se – Chamo-me Dominique e este mal-educado é o Louis. Não te deves lembrar de nós em Hogwarts, já passaram três anos…
Scorpius tentou puxar pela memória e realmente algo lhe dizia que no mar de cabeças ruivas podia ver três loiras, no entanto à sua frente só estavam dois. Então, lembrando-se de uma conversa que tivera com Rose sobre a família dela, soube quem faltava.
- Vocês têm uma irmã, certo? – perguntou ele, vendo os dois irmãos anuírem.
- Sim, ela só deve chegar depois do jantar. Anda num período muito romântico – Louis fingiu vomitar e a irmã rolou os olhos – com o seu Teddy.
Scorpius ia perguntar de quem se tratava quando a voz da avó de Albus, Louis e Dominique se fez ouvir, chamando-os para beberem uma chávena de chocolate quente. Scorpius riu-se, ao recordar a expressão de Rose, coberta de chocolate, chamando a atenção de três pares de olhos que o fixaram, duvidosos. Este limitou-se a encolher os ombros e a apressar-se a entrar na acolhedora cozinha. Rose já se encontrava lá, com uma caneca nas mãos e a observar as chamas a crepitar na enorme lareira. Ao vê-los entrar, cruzou o olhar com Scorpius, corando e este soube imediatamente que os pensamentos tinham regredido até àquela manhã, na gruta. Chocolate quente tornara-se uma piada secreta entre os dois.
Scorpius aproximou-se de Hermione e aceitando a caneca que esta lhe estendia, sentou-se ao lado de Rose, que estava num mundo só seu a ler o livro que os avós lhe tinham dado nos anos e que ainda não tinha tido tempo de ler. Albus seguiu-o imediatamente e começaram a discutir as probabilidades do jogo de Gryffindor vs Slytherin, no final do ano. Após algum tempo, Scorpius sentiu algo fofo tocar-lhe na mão e olhando para baixo, deparou-se com Winter, a olhá-lo reprovadoramente, como se lhe perguntasse porque ainda não lhe pegara ao colo.
- Se fosse a ti não fazia isso – advertiu Albus, ao ver o amigo estender as mãos para pegar no gatinho – É um demónio coberto de pêlo! Cada vez que me aproximo quase que me come vivo e… - mas o resto das suas queixas não chegaram a ser verbalizadas, pois ficara boquiaberto ao ver o animal enroscar-se no colo de Scorpius e começar a ronronar.
- Que fizeste a esse monstro? – perguntou Albus, aproximando a mão, cautelosamente da cabeça de Winter, mas afastando-a imediatamente, quando o gato fez tenção de a morder.
Mantendo um olhar prudente no animal, Al recomeçou a conversa, enquanto Scorpius afagava distraidamente o bicho e este continuava a ronronar, deliciado, por estar na companhia do seu primeiro dono.
Após uma enorme discussão sobre a melhor táctica para apanhar a snitch, Al levantou-se e encaminhou-se para a cozinha, provavelmente na esperança de roubar mais alguma comida, antes de ser apanhado pela mãe.
Scorpius trocou olhares sub-reptícios com Rose, no entanto, foram quase imediatamente interrompidos pela presença de Hermione, que se sentou ao lado de Scorpius.
- Coitada da minha filha, a ter de aturar tanta conversa de Quidditch – comentou Hermione, enquanto sorria acolhedoramente a Scorpius e este não resistiu a sorrir também. Ao observar Hermione apercebeu-se de uma estranha cicatriz no seu pescoço, como se alguém a tivesse atacado com uma faca e por momentos, os seus olhos fixaram-se aí. Esta apercebeu-se e fez um gesto passageiro com a mão, como a retirar importância àquele pequeno defeito.
- Já agora, a tua estratégia com o Albus foi muito inteligente – observou Hermione, olhando as chamas. Scorpius sentiu Rose, a seu lado, a observá-lo curiosamente, afastando finalmente a atenção do livro.
- Estratégia? – perguntou Rose, surpresa.
- Sim, o teu amigo e o teu primo decidiram dar uma pequena mostra de ironia em relação às tendências dos familiares do Scorpius, nomeadamente o avô, delineando um plano sobre onde enfiar a bengala deste, estou certa, Scorpius? – perguntou Hermione, encarando-o – Cuidadosamente delineado em frente a mim, à Ginny e a avó Weasley.
Scorpius sentiu-se corar, ao ver Rose tremer de riso.
- Foi assim tão óbvio? – questionou ele, pelo que Hermione desatou à gargalhada, chamando a atenção de Ron, que a fixou de olhos semicerrados.
- Meu caro rapaz, nem um hipógrifo seria mais óbvio numa rua muggle… Acredita, em termos de esquemas ainda tens muito a aprender – retorquiu Hermione, dando-lhe uma palmadinha condescendente nas costas e levantando-se, para se dirigir a Ron, que ainda a fixava.
- A tua mãe é muito fixe – comentou Scorpius, observando a figura de Hermione a afastar-se.
- Sim, dizes isso porque nunca a viste numa das suas fúrias. Ela poria o Voldemort num canto a chorar – confessou Rose – Felizmente para nós, o meu pai é sempre o destinatário de tais reacções… realmente não percebo porquê – concluiu ironicamente Rose e Scorpius lembrou-se de como Ron se encolhera perante o olhar de Hermione ao inicio da tarde.
No entanto, antes de Scorpius puder comentar, um flash interrompeu-lhe os pensamentos. E dirigindo o olhar para a origem de tal fenómeno deparou-se com Lily Potter a segurar uma câmara fotográfica.
- Vá lá, pessoal, quero tirar uma foto de vocês juntos! – pediu Lily, numa voz fininha – Eu sei que não gostam um do outro, mas podem dá-la ao Al, que tal? – sugeriu Lily.
Scorpius olhou para Rose e esta encolheu os ombros, fazendo Lily sorrir abertamente. Scorpius aproximou-se mais de Rose e ambos sorriram para a câmara, mas no momento em que o flash disparou ambos se viraram um para o outro e deitaram a língua de fora.
- Vocês são uns idiotas! – acusou Lily e afastou-se deles para tirar fotografias ao resto da família.
- A Lily diz que um dia será fotógrafa para a Quidditch Hoje, com as melhores fotos, em todo o mundo, de incríveis jogadas – disse Rose, enquanto sorria sarcasticamente para a prima, que lhe respondeu com um revirar de olhos. Scorpius riu-se, enquanto se apressava a levantar-se para se dirigir à mesa, em que a Mrs. Weasley mais velha os chamava a todos.
Durante o jantar, Scorpius não pôde deixar de sentir um par de olhos fixos nele e não eram aqueles que ele queria a observarem-no. Ron Weasley parecia que lhe seguia cada mínimo gesto e este sentia os seus músculos tensos como se se estivesse a preparar para um jogo de Quidditch contra um forte oponente.
Quando todos se dispersaram após o jantar e o sentimento de mal-estar em relação a Scorpius tinha descido para um nível aceitável, este reparou que Rose dirigia constantes olhares à escada e ao grupo de pessoas. Esta, trocando um olhar significativo com Scorpius, levantou-se e dirigiu-se para as escadas que levavam aos andares superiores. Scorpius esperou alguns momentos, olhando em redor para se certificar de que ninguém o observava e levantando-se, com um ar que esperava ser de passiva tranquilidade, seguiu a direcção tomada por Rose.
Ao chegar ao topo das escadas, ouviu uma gargalhada familiar e foi puxado em direcção a um quarto, no qual não tinha reparado, mas que agora se lhe apresentava como muito acolhedor. Rose rodeou-lhe o pescoço com os braços e colocando-se em bicos de pés, beijou-o, enquanto Scorpius fechava a porta do quarto com o pé.
- Estive todo o dia com vontade de fazer isto – confessou Rose, ao afastar a cara da do namorado, mas sem deixar de o rodear com os braços.
- Não te preocupa que o teu pai esteja alguns andares abaixo? – questionou Scorpius, sorrindo com um brilho nos olhos.
- Não, torna tudo muito mais excitante, não achas? – retorquiu Rose e Scorpius atacou novamente os seus lábios.
- Hermione, tens de admitir que tenho razão! – a voz de Ron flutuou até ao quarto, fazendo com que Rose e Scorpius se afastassem precipitadamente. Olharam em redor e deparando-se com um guarda-fatos vazio, enfiaram-se lá dentro e deixaram semi-aberta a porta, apenas o suficiente para puderem observar o quarto.
Momentos depois, a porta abria-se e Ron entrava, seguido por uma atribulada Hermione, que usava uma expressão exasperada no rosto.
- Ron – vinha ela a dizer, num tom de voz zangado – o miúdo não tem culpa nenhuma! Ele não é como o pai, é educado e amigo do Albus, até mesmo o James diz que ele não é nenhum idiota preconceituoso – Scorpius empalideceu ao perceber que falavam dele e sentiu Rose mexer-se desconfortavelmente a seu lado.
- Quando eu olho para ele só consigo ver aquela louca, a rir, e o pai dele, parado, sem fazer nada… Percebes o porquê de não o conseguir olhar sem ter vontade de desatar aos gritos tal como fiz naquela estúpida cave? – os punhos de Ron, cerrados, tremiam numa raiva dificilmente contida.
Hermione suspirou e segurou a face de Ron entre as suas mãos, sem a largar e obrigando-o a fixar os seus olhos azuis nos dela.
- Querido, eu compreendo o porquê, mas tens de perceber que eu não culpo o miúdo por nada do que aconteceu há 25 anos atrás e tu deverias tentar fazer o mesmo – pediu Hermione, numa voz baixa.
- Hermione, não consegues imaginar o que aquela noite me fez… - Ron tremeu e os seus braços rodearam Hermione com força – Ouvir-te gritar daquela forma e não poder fazer nada… Quando cheguei à casa do Bill pensei que não te conseguiríamos salvar, pensei que nunca te poderia dizer o quanto te amava, que nunca mais te ouviria a ralhares comigo pelas minhas maneiras à mesa ou falta de tacto, que nunca mais poderia ver esse rasgo de brilho nos teus olhos, quando descobres algo que te entusiasma… – a voz de Ron tremeu e ele enterrou o rosto no cabelo da mulher.
- Ron… - suspirou Hermione – Eu sei o quanto aquela noite nos mudou e sei que às vezes ainda sonhas com isso, mas por favor, por mim, tenta aceitar o Scorpius, ele é apenas uma criança que teve o azar de nascer numa família que fez as escolhas erradas…
Ron suspirou e beijou Hermione docemente, puxando-a para fora do quarto.
Rose olhou para Scorpius, que empalidecera tanto que ela receava que ele desmaiasse.
- Scorp… - começou Rose, mas Scorpius saiu disparado do guarda-fatos e pela porta, sem olhar uma única vez para trás.
