- Desculpem-me, Miyabi-chan, Keisuke-sama.

Estávamos parados na frente da barraquinha do pai de Keiko. Ele estava vendendo comida, e uma das ajudantes tinha acabado de passar mal. Uma pequena confusão se formou, e enquanto levavam a moça para algum lugar mais ventilado, Keiko-chan já tinha prendido as mangas do yukata e se posto do lado de dentro do balcão.

- Tudo bem, Keiko-chan. Seu pai precisa de ajuda.

Fizemos mesuras e nos despedimos, e Keiko piscou discretamente pra mim. Meu coração estava batendo quase na boca - eu estava sozinha com Keisuke!

- Sua amiga é bem animada - Ele me disse finalmente, depois de ficarmos em silêncio alguns longos segundos.

- Ah, sim. A conheci em um festival como este... - ri um pouco com a lembrança. - na verdade, eu tropecei nela.

Keisuke riu.

- A senhorita realmente tem um dom para conhecer pessoas.

Me senti corar, ainda bem que estava escuro. Eu realmente era tão desastrada que conheci as principais pessoas de minha vida tropeçando ou caindo nelas. Ficamos sem ter o que conversar de novo.

Acho que nem prestamos atenção para onde andávamos, pois logo estávamos na porção do templo mais distante da festa. Havia um pequeno laguinho e uma ponte, e paramos sobre ela. Olhei para cima e vi a lua, cheia e brilhante.Senti um pouco de nostalgia, mas não havia tristeza ou vazio. Nesta noite, a lua era apenas linda e prateada.

- A noite está bonita hoje.

Ele também olhava para a lua ao meu lado. Ficamos mais alguns segundos em silêncio, pois ele parecia que ia falar mais alguma coisa, mas nada disse.

- O senhor conhece a história do Tanabata¹, Keisuke-sama?

- Na verdade, não.

Apontei duas estrelas brilhantes no céu.

- Aqueles são Orihime e Hikoboshi. Eles são casados, mas estão separados pelo rio - E passei o dedo pela densa fileira de estrelas no céu. - E só podem se encontrar uma vez por ano, quando os pássaros fazem uma ponte com suas asas para eles se encontrarem.

- E se chover?

- Então eles tem que esperar mais um ano.

- Então que bom que não está chovendo.

Sorri um pouco incerta, pois não sabia se Keisuke estava brincando comigo por ter contado uma história daquelas ou se realmente estava levando a sério. Mas ele sorriu para mim e pareceu ter gostado. Desviei o olhar, envergonhada. Ficamos um bom tempo ali, até que resolvemos dar mais uma volta, em que eu apontava coisas e fazia algum comentário infantil, que normalmente o fazia apenas sorrir, sem responder. Depois de um tempo notei que uma parte das luzes das barraquinhas tinha se apagado - as pessoas começavam a ir pra casa. Lembrei-me que ainda tinha que andar todo o caminho até minha casa e que provavelmente já tinha passado do horário que Takashi-san havia estabelecido.

- Está tarde! - Eu exclamei de repente, começando a correr de repente.

- Onde a senhorita vai? - Keisuke me seguiu e foi andando rápido ao meu lado.

- Pra casa, ela fica fora da cidade...

- Vai andar pela estrada à essa hora da noite? Não vou deixar a senhorita ir sozinha.

- Está tudo beeem - Falei exasperada, não queria trazer transtornos para Keisuke. - Oyasuminasai, Keisuke-sama.

Nisso já estávamos fora do templo. Fiz uma mesura apressada, ele também se despediu, mas não notei na hora que ele pareceu ter ouvido alguma coisa. Eu já tinha me virado e logo já estava na outra esquina.

Minha distração e minha pressa poderiam ter me custado muito caro aquela noite. Pois alguns minutos depois, quando eu já estava quase na estrada, ouvi a voz de alguém. Senti meu sangue congelar.

- Onde a senhorita vai tão apressada?

Me virei e um homem com vestes surradas estava perto de mim. Recuei imediatamente.

- Não é da sua conta - Respondi rudemente.

- Talvez seja da minha conta então - Outro homem apareceu junto com o primeiro. Ele tinha uma espada.

Meu coração batia forte, me avisando do perigo. Ignorei-os e continuei meu caminho, sabendo que não adiantaria. Me lembrei da tanto no meu obi. Se ousassem tocar um dedo em mim eu cortaria seus braços e daria para os cães, pensei com raiva.

Eu não devia ter virado as costas, pois o homem me alcançou e me deu uma chave de braço. Por mais treinamento que eu tivesse, eu era só uma menina de 15 anos desarmada, e não consegui me desvencilhar.

- ME LARGA!

- Calma aí, mocinha. Você vem com a gente.

Antes que todas as coisas ruins que iriam me acontecer passassem pela minha cabeça, o bandido desarmado deu um ganido de dor. Alguém tinha atirado uma pedra nele.

- Soltem ela - Era Keisuke. Uma onda de alívio me invadiu para ser varrida novamente; afinal, o homem que me segurava tinha uma espada!

- Quem você acha que é, moleque?? - O bandido desarmado se colocou em uma posição ofensiva. Keisuke apenas continuou andando em sua direção.

Provavelmente o homem pensou que o garoto era burro, pois apenas continuou com seu sorriso molenga no rosto. Sorriso esse que foi apagado quando Keisuke lhe desferiu um rápido soco no meio da cara. O bandido cambaleou de susto, enquanto Keisuke dava um chute que o jogou no chão.

- SEU MOLEQUE, VOU TE DAR UMA LIÇÃO! - O bandido rapidamente se levantou. O outro bandido, o armado, que devia ser umas duas vezes maior que eu, me pegou com mais força e fez menção de me levar dali. Eu tentei me desvencilhar novamente e gritei para ele me soltar.

- É melhor calar a boca sua vagabunda, ou faço o trabalho aqui mesmo - Ele me segurou com força até machucar, e acho que devo ter dado um gritinho de dor, porque Keisuke olhou na nossa direção. Mas o outro bandido rapidamente tirou uma faca das roupas e o atacou.

Keisuke até se desviou, mas a faca conseguiu cortá-lo, e logo depois o bandido lhe deu um chute, pronto para atacá-lo com a faca de novo, mas agora Keisuke estava no chão.

Sinceramente, não sei como consegui fazer aquilo naquele momento. Mas eu dei um chute no ar tentando me soltar, e meu geta voou bem no nariz do bandido que lutava com Keisuke, que ficou completamente desnorteado. Keisuke então lhe deu uma rasteira, enquanto eu me aproveitava do espanto do bandido armado para acertar com força meu geta restante em seu pé. Ele deu um grito e me soltou, e voltei ao chão meio desequilibrada.

- VOLTE AQUI SUA VADIA!

- MIYABI!

Tanto eu quanto Keisuke vimos o bandido rapidamente desembainhar a espada. Mas quando ele a baixou sobre mim em menos de um segundo, um ruído metálico se ouviu, pois eu tinha o bloqueado segurando a tanto com as duas mãos, agachada no chão.

Não consegui afastá-lo, mas foi ele que retirou a espada, em fúria, e tentou outro golpe. Mas então eu rolei pro lado e acertei um golpe atrás de seu joelho, enfiei a faca até sentir o osso. Ele caiu com um grito, ficou se retorcendo no chão, segurando a perna ensanguentada. Fiquei olhando para ele uns segundos, ofegante, com a tanto suja de sangue.

- Venha, Miyabi! - Senti Keisuke pegar minha mão e me deixei levar por ele.

Corremos até chegar na estrada, e ofegantes, paramos um pouco pra respirar. Nos entreolhamos e então começamos a rir. Vi que ele estava com meu geta na outra mão, e ele me devolveu.

- Nunca tinha visto getajutsu antes! - Ele gargalhava, enquanto eu calçava meu geta novamente. Isso me fez gargalhar mais ainda, ele ficava ainda mais bonito tendo um ataque de riso. E então parei um pouco.

- Você me chamou de Miyabi.

Acho que se estivesse claro o suficiente eu teria visto Keisuke corar.

- Bem... é seu nome, não é?

Dei um risinho.

- Eu disse para não andar por aí sozinha.

Não o respondi. Ao invés disso, lembrava do corte que ele tinha sofrido.

- Você se machucou - Fui até ele, preocupada, olhar o corte em seu braço. Estava sangrando.

- Não é nada...

- Mas foi culpa minha...

- Não se preocupe - Ele disse em tom de quem conclui a conversa, se levantando. - Vamos, vou te levar pra casa. - E estendeu a mão para me ajudar a levantar.

Só muito tempo depois eu saberia a razão de aqueles dois salteadores estarem ali me esperando.

¹ na verdade, existem duas versões. a outra versão é muito semelhante à lenda da tennyo japonesa. para mais informações, wikipedia :3