Capítulo 8

Please, wind her up

A loira desceu os degraus dois a dois, saindo da passagem secreta de Ravenclaw. Só depois é que se lembrou do recado da colega e foi com uma certa surpresa que encontrou Ginny à espera, do lado de fora da entrada.

- Luna, demorou.

- Desculpa, mas eu tive que fazer umas coisas, e tenho que pedir um favor muito grande.

- Se é para copiar os trabalhos de estudo tens meia hora...

- Não, não é isso. - A sua voz tremeu-lhe involuntariamente. - É outra coisa. Podemos encontrar-nos numa das salas que não é utilizada. Ou então na Sala das Necessidades.

- Só se for logo à tarde, estamos a ficar atrasadas.

Desceram escadarias e atravessaram uns dois ou três corredores, mas em silêncio. Luna imaginava todas as possibilidades. Desde a recusa da amiga até a possíveis fracassos que houvesse. Logo agora que sabia, que tinha a certeza, tinha a confirmação do pai. As três bonecas continham as memórias dos três Talismãs da Morte. E, muito provavelmente, sabiam o seu paradeiro.

Entraram na sala de Transfiguração ao mesmo tempo que muitos dos seus colegas. Não estavam muito alegres e quase nem falavam. Era óbvio que o ambiente pesava a todos. A guerra impregnara-se dentro da escola como um gás que se infiltrava pelas pedras do imenso castelo. Contagiava tudo e todos com a sua presença.

Sentaram-se ao lado uma da outra a duas carteiras de distância da professora. A aula começou como sempre, normalmente.


A porta do dormitório de Ravenclaw abriu-se silenciosamente, mas ainda assim despertou a atenção da mais nova das Peverell Maiden. Num instante fechou-se dentro da sua caixa, escondida debaixo da cama de Luna ao lado da caixa da irmã. Prendeu a respiração enquanto aguardava a segurança definitiva. Mas não podia ser nenhuma das alunas de Ravenclaw. Embora já fosse tarde ainda era tempo de estarem nas aulas.

Sentiu a caixa a ser arrastada e antes que pudesse fazer alguma coisa a tampa abriu-se.

- Que tal parar de esconder? Fiquei farta da brincadeira. - Uma voz calma e ponderada que pertencia a uma boneca de vestido azul meia-noite e longos cabelos entre o loiro e o ruivo.

- Ichijiku nee. Onnesan, não é esconder nee. - Zakuro olhou para cima, encarando os olhos vermelhos da mais velha.

- Não, não é esconder, claro. Deve ser é exibicionismo. - Falava num tom zombeteiro, como se apreciasse a situação. Estava divertida com a situação.

- Não me vais atacar, pois não nee? Desvantagem nee!

- Onde está a tua irmã? Não te andas a esconder atrás dela? Pensei que agora era "tudo pelo bem da irmãzinha". - Era visível a curiosidade de Ichijiku, embora a própria tentasse escondê-la. Só não esperava a reacção da outra boneca.

Zakuro abraçou a irmã a chorar histericamente, o seu corpo estremecendo com o choro audível.

- Onnesan nee... Ringo-chan não se mexe mais, não acorda nee... Onnechan nee!

A mais velha soltou-se da irmã e com um estalar de dedos puxou a outra caixa para fora. Demorou as mãos pelo círculo de metal, antes de abrir a tampa. Ringo continuava lá deitada como se estivesse a dormir.

- Então só continuará quando se arranjar um médium. Belo.

Fechou a caixa e virou-se para sair do dormitório, mas foi interrompida pela loira, que entretanto regressara das aulas. Os seus olhos demoraram-se uns segundos enquanto observava a sua silhueta. Depois foi-se embora, tão silenciosamente quanto um felino.

- Zakuro, o que se passou aqui? - Luna largou a mala em cima da cama. Zakuro deu-lhe um abraço rápido, e tentou afastar a conversa.

- Ela só veio aqui para nos ver, não é nada de mal nee. Encontraste alguém interessado nee?

- Ringo ficará com Ginny. Acho que ela aceita.

- A Ginny é qual nee? A ruiva do chocolate nee?

- Essa mesmo.

- Mas se ela não gosta dela nee... como é que fazes, elas não se dão bem nee!

- Tem que ser. A Ginny é a única suficientemente próxima, a minha... melhor amiga, não sei de outra pessoa que melhor compreendesse. E é por isso que pensei nela, e falei com ela. Vamos encontrar-nos na Sala das Necessidades.

- E disseste-lhe exactamente o que era nee?

- Haaamm... não exactamente.

Pegou na boneca e equilibrando-a num braço apanhou a outra caixa. Saíram do dormitório tentando não encontrar muita gente pelo caminho. Mas os restantes alunos pareciam demasiado preocupados consigo mesmos para repararem na loira com uma boneca e uma mala estranha a descer a Torre de Ravenclaw.

Quando ela chegou à Sala das Necessidades vinha estranhamente mais cansada do que o habitual. O caminho parecera-lhe mais longo e mais cansativo.

Entrou e encontrou a sua amiga de Gryffindor sentada numa poltrona avermelhada enrolando as pontas do cabelo com os dedos.

- Ginny?

A ruiva virou-se e apontou-lhe a outra poltrona para ela se sentar. Luna puxou uma cadeira e pousou a caixa em cima dela. Respirou fundo, como se pedisse para tudo correr bem.

- Ginny, como sabes a Zakuro é uma boneca, e como ela existem mais duas. Eu desconfio que tanto ela como as irmãs sejam uma espécie de guardiãs dos Talismãs da Morte.

- Do quê?

- Isso agora não interessa, o que interessa é eu preciso da tua ajuda, porque o contrato com o médium de uma delas terminou. E eu queria que tu ficasses com ela.

- E eu tenho que fazer o quê? - Ginny estava com cara de quem não estava a perceber nada, mas mesmo assim aceitava ajudar a amiga.

- Eu quero que a acordes. - Assim que disse isso abriu a caixa com a boneca vestida de vermelho. Ginny saltou da poltrona e virou-lhe as costas, reconhecendo a ladra que lhe relembrara dele.

- Não. Não o faço, procura outra pessoa. - Recusou, a voz inflexível e estranha.