N/A: Oi, gente! Queria começar pedindo MIL desculpas pela demora, mesmo! A faculdade estava pegando pesado, realmente estava dificil encontrar tempo para escrever. Mas agora que chegaram as férias vai ficar mais tranquilo, e espero conseguir postar pelo menos mais uns três capítulos! Obrigada àqueles que comentaram, e esperaram por uma atualização. Enfim, aqui está. Sei que com todo esse tempo eu devia ter vindo com um capítulo muito fantástico, mas foi só isso aqui que deu pra sair, hahaha. Pelo menos ele está bem maior do que os outros. Em breve estarei aqui de novo, se tudo der certo. Espero que gostem, beijocas!
Capítulo 10 – Fabula Temporis.
GRRR.
POR QUE EU NÃO CONSIGO DORMIR?
Já devia ter passado das três da manhã, e eu ainda não tinha conseguido pregar no sono. Já tinha virado para todos os lados, tentado todas as posições, mas nada. Necas de pitibiriba.
É claro que uma parte do meu cérebro insistia que era porque eu não conseguia tirar a discussão de ontem da cabeça. Quero dizer, eu tinha perdido completamente as estribeiras com ele, e no final ele ainda deu aquele discurso altamente pertubador, mas isso não era motivo para eu ter insônia!
Puxa, tudo bem que eu planejei uma festa por debaixo de seu nariz, falei poucas e boas para ele, e ainda fiz com que ele me contasse mais sobre sua vida pessoal do que ele provavelmente gostaria. Mas mesmo assim, que pirralho. Não precisava ter dado aquele ataque.
Tá. Pare de pensar nisso. Você não tem que se arrepender de nada. Ele mereceu.
Agora tente dormir. É facil. É só fechar os olhos, se enrolar nas cobertas e apagar. Puxei a minha máscara para dormir e virei para o outro lado, dessa vez sentindo que ia conseguir.
...
O que diabos ele quis dizer com aquilo tudo, afinal? Era tudo um esquema para me fazer sentir culpada, aposto. Não é isso que ele faz? Manipula todo mundo para que tudo fique do jeito que ele quer? Eu estou sendo ridícula de me importar com qualquer coisa que esse otário imbecil diz.
Ele não merece nem um centavo da minha pena. Não, não e não. Ele é um Lord das Trevas!
Mas... bem, ele deve ter se tornado mal por algum motivo, não é? Eu sempre via na televisão que os psicopatas se tornavam psicopatas devido à traumas de infância, na maioria das vezes. E a vida dele certamente não tem sido fácil. E ninguém por aqui tem facilitado nada.
Ok, isso não está me levando a lugar algum. Já vi que dormir vai ser algo improvável de acontecer, então acho que vou aproveitar meu tempo para fazer algo útil.
Levantei da cama e fui até a escrivaninha que havia no meu quarto.
Acordei no dia seguinte com o barulho de corujas voando e piando alegremente do lado de fora da minha janela e com o ar frio batendo no meu cabelo.
Ergui a cabeça, com um pedaço de pergaminho grudado na bochecha. Eu me sentia como se tivesse dormido apenas dois minutos. E como se tivesse bebido todas na noite anterior.
O que aconteceu? Por que eu dormi com a cabeça na escrivaninha, em cima de pergaminhos?
...
Ah. É.
Como em um flash, tudo voltou a mim. Tom Riddle, a briga, a insônia. Desgrudei o pergaminho da minha cara, me sentindo mais fracassada do que nunca, e dei uma olhada nele.
É. Lá estava minha patética tentativa de fazer uma carta de conciliação.
"Riddle,
Foi mal"
Não pude deixar de rir. Que diabos eu estava pensando? Pedir desculpas? Ah, claro! Querido Tom, desculpa por você ser um tremendo imbecil. Pff. Eu realmente não funciono com sono.
Amassei o pergaminho até ele virar uma bola e o joguei de volta na mesa, me espreguiçando logo depois. Que horas eram, aliás?
Olhei para o relógio da minha mesinha de cabeceira. 8:05.
Maneiro. Estava só uns trinta minutos atrasada para a aula de DCAT.
Pensei seriamente em matar a aula toda logo, mas aí Riddle poderia pensar que eu estava com medo de encontrá-lo, ou alguma coisa estúpida do tipo. Suspirando, me levantei de vez e fui me enfiando no uniforme, logo depois fazendo um coque de qualquer jeito naquela juba que estava no lugar do meu cabelo.
Abri a porta do quarto e já ia me dirigir ao banheiro para escovar os dentes, quando vi um pedaço de pergaminho de tamanho razoável (nem pequeno demais para não chamar minha atenção, mas nem muito grande) repousado na mesinha da sala comunal.
Franzi o cenho e me aproximei vagarosamente, como se temesse que o papel fosse explodir ou coisa parecida. Lá estava, perfeitamente dobrado, olhando pra mim.
O peguei cautelosamente, ainda com medo que aquele papel criasse dentes e arrancasse minha cabeça. O que diabos era aquilo? Certamente não estava ali ontem.
Os segundos passavam, e eu continuava a me perguntar o que aquilo estava fazendo ali, sem coragem para abrir. Por que Riddle iria se incomodar em me deixar um bilhete?
Será que ele ia dizer que o que eu disse na noite passada tinha o afetado tanto que ele ia se mudar para Madagascar, vivendo dos recursos da selva? Será que era um bilhete avisando que eu tinha apenas 24h de vida, para aproveitá-las antes que a noite chegasse e ele acabasse comigo? Ou talvez fosse... um convite para um piquenique?
OK! Chega de suspense. Vou abrir logo. É só um pedaço de papel! ... eu espero.
Desdobrei o pergaminho, logo revelando a caligrafia ridiculamente perfeita de Riddle.
Schiffer –
Eu não quero saber o que você viu na noite passada.
TR
Por um momento, meu coração parou de bater enquanto eu relia o bilhete, confusa. O que eu vi na noite passada? Hã?
Ah, sim, sim, claro. Quando foi sair emputecido do quarto ontem ele esbarrou em mim (quase arrancando meu braço fora, aliás). Agora deve estar aflito pelos cantos achando que eu tive mais uma das minhas "visões" magníficas.
Enfiei o bilhete no meu bolso, suspirando. Agora eu tinha que pensar em alguma visão. Ou não né, ele não quer saber mesmo.
Já ia andando para o banheiro quando uma idéia me fez parar. Olhei para a minha direita, vendo a porta que levava ao dormitório de Riddle.
He he he he.
Por que não pensei nisso antes? Eu já perdi a aula quase toda mesmo, e ele não vai sair mais cedo da aula nem que suas calças estejam pegando fogo. Não tem riscos, certo? Só vou dar uma espiadinha inocente no quarto dele, vejo se descubro algum outro segredo obscuro, algum ponto fraco ou sei lá, e dou o fora.
Me sentindo o Tom Cruise em Missão Impossível, fui saltitando em direção ao quarto do Riddle. Estiquei a mão em direção à maçaneta, e a girei.
Nada.
Claro, como se ele fosse realmente deixar o quarto dando bobeira assim.
Bem, sinceramente, feitiços abridores não são minhas especialidade. Em vez disso, me especializei em outra coisa que costuma funcionar bastante no mundo bruxo, para este quesito: artes marciais.
Me afastei um pouco da porta, respirei fundo, entrei em posição, e dei um chute certeiro bem no meio da porta, que se escancarou.
Há. Esses bruxos. Se protegem contra todo o tipo de magia, mas esquecem dos métodos clássicos.
Fui entrando, me sentindo muito maneira. Logo ao entrar, um cheiro bom me atropelou como um piano gigante andante. Nossa, tá aí uma coisa que eu não esperava: o quarto dele era muito cheiroso. Era um aroma levemente cítrico, que poderia ser vendido facilmente como um perfume da Carolina Herrera. O que diabos ele faz pra deixar o quarto cheiroso?
Além de cheiroso, era o próprio significado de arrumação e organização. Enquanto o meu continha roupas, material escolar e assessórios espalhados pelos cantos, o dele tinha tudo em perfeita ordem.
Entrei um pouco mais, dando uma boa olhada em tudo. Sua mala estava ao fundo, do lado do armário, fechadinha – ao contrário da minha, que estava aberta no meio do quarto, com tudo desorganizadamente pulando pra fora -, sua cama dorsel estava perfeitamente arrumada, e sua escrivaninha não continha nada em cima. Em frente à janela, havia um vaso com uma flor muito bonita.
Não, não. Espera aí. Tom Riddle tem uma flor?
Uma flor?
Me aproximei, para olhar melhor. Parecia uma orquídea, só que maior e mais bonita. Era vermelho-sangue, com umas manchinhas brancas, e parecia ser a origem do cheiro.
Estranho.
Enfim, seguindo em frente. Fui até a escrivaninha. Não tinha nenhum pergaminho em cima, só um tinteiro e uma pena. Abri a primeira gaveta, esperando que fosse estar vazia e, surpreendentemente, havia o que parecia ser um pequeno caderno ali.
Mal podendo acreditar na minha sorte, o peguei. Na capa traseira, havia um pequeno inscrito:
"Diário de Tom M. Riddle"
Ah não, espera. Isso é bom demais pra ser verdade.
Ele tem um diário? Um DIÁRIO?
HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ!
O que ele é? Uma garotinha de 12 anos?
Muito animada, o abri. Porém, pra minha total decepção, parecia estar todo em branco. Ahhh, não é possível!
Me sentei na cadeira em frente à escrivaninha, folheando o diário inteiro. Nada!
Quando eu já estava prestes a deixar a frustração me dominar, uma idéia me ocorreu. Ele pode usar algum tipo de magia pra esconder o que ele escreve! Tirei minha varinha do bolso, e tentei uns dez feitiços.
Ainda nada.
Molhei a pena no tinteiro, como uma última tentativa, e deixei uma gota cair em uma das páginas. Quase que imediatamente, a gota sumiu, e palavras começaram a surgir.
AHÁ! Eu me sentia tão vitoriosa que poderia até chorar.
"4 de Agosto de 1944
'Fabula Temporis'
Mais uma..."
Fabula Temporis? O que é isso? Riddle está escrevendo um conto?
Mais palavras iam se formar, quando ouvi um barulho do lado de fora.
E quase tive um ataque cardíaco.
Merlim. Ele tinha voltado? Ai, céus, AI CÉUS!
Fechei o diário com um tapa e o enfiei de volta na gaveta. E agora? Eu não podia sair, ele ia me ver. Mas ele também ia ver a porta do seu quarto semidestruída. Ok, pense, PENSE!
TUM
Mais um barulho. AI MERLIMMMMMMMMMMMMMMMM!
Ok, não tem saída. Simplesmente não há como sair dessa com vida. Vou ter que arriscar.
Me levantei e comecei a correr em círculos pelo quarto. Eu poderia fingir que sou sonâmbula e confundi o quarto dele com o meu... não, não. Ia me esconder embaixo da cama e esperar que ele dormisse e então...
Passos.
Certo. Nunca em minha vida senti um desespero tão grande.
Ok, dane-se, o plano seria sair, atacá-lo com algum feitiço e sair correndo. Não, eu ia sair, começar a chorar e falar que um duende entrou pela janela e me obrigou a fazer aquilo.
Eu já estava suando e com lágrimas nos olhos. Não conseguia sair do quarto sabendo que ele estava lá fora, provavelmente já pensando qual seria a melhor forma de me matar por invasão de privacidade. Vi uma sombra se aproximando do quarto. Ok, essa era a minha hora. Minha vida foi boa, não foi? Eu aproveitei bastante. Quero dizer, tudo bem, eu gostaria de ter tido um namorado, vivido um grande amor, comprado aquele casaco Chanel e de ter visto aquele filme novo do Bradley Cooper, mas ninguém consegue tudo o quer, né?
Decidi finalmente que já que era pra morrer, seria com a dignidade intacta. Não ia me rebaixar nem me humilhar, ira morrer como um lorde.
- Kate...?
- EU NÃO SEI COMO VIM PARAR AQUI, EU ESTAVA INDO PRO BANHEIRO EU JURO, E AÍ PUFF, EU ESTAVA AQUI. SINCERAMENTE, A GENTE DEVIA DAR UMA OLHADA NISSO ALGUÉM PODE TER ENFEITIÇADO... – comecei, totalmente fora de controle. Até que vi a pessoa que estava parada em frente à porta, segurando o riso – Charlotte!
- Puxa Kate, parece que você viu um fantasma!
- Você que quase viu um! Se queria me matar de susto fez um bom trabalho – respondi, aliviada como nunca me senti antes. Ufa. Nossa. Nunca fiquei tão feliz de ver o rosto de traquinas sorridente de Charlotte.
- Este é o quarto do Santo? – perguntou ela, olhando em volta.
- Claro que é, olha minha cara de quem tem saco pra arrumar tudo desse jeito – respondi, me sentando de novo na cadeira para recuperar o fôlego totalmente.
- E por que você está aqui? – perguntou, ainda sem ousar entrar no quarto. Acho que para Charlotte, uma perfeita dama dos anos 40, deve ser muita grosseria entrar no quarto de alguém sem permissão, mesmo que o dono seja um completo babaca.
- Longa história. Vem, me ajuda com a porta – falei, de repente me lembrando de consertar logo a porta antes que ele chegasse. Foi então que ela reparou o estrago que eu tinha feito, e arregalou os olhos. Sinceramente não sei como a Charlotte não tem vergonha de andar comigo. Com minha agressividade e maneirismos, eu devo ser considerada no nível de um cafetão ou algo do tipo.
Ela me ajudou a botar a porta retinha no lugar, enquanto eu fazia um feitiço reparador. Pronto. Estava como nova.
Só um probleminha: não tinha idéia de como iria trancá-la de novo. Bem, aí já não era problema meu. Qualquer coisa alegarei que ele que deve ter esquecido de trancar e que deveria abrir os olhos para doenças de perda de memória.
- Ufa – suspirei, já voltando à segurança – Aliás, o que você está fazendo aqui?
- Ah, bem, eu estava preocupada por você ter perdido a aula, achei que poderia estar se sentindo indisposta – respondeu ela.
- Sério? Ah, puxa, obrigada. Na verdade eu só dormi demais. Riddle foi? – perguntei, antes que pudesse segurar. Droga, Charlotte vai começar que tenho uma paixão louca pelo Riddle ou coisa do tipo, porque sempre pergunto sobre ele.
- Certamente. Ele não perde uma aula sequer – ela replicou.
- E você viu aonde ele foi depois que a aula acabou? – perguntei. Ah, que seja. Não é como se Charlotte fosse sair por aí espalhando que tenho uma falsa paixão por Tom Riddle, então deixemos ela pensar o que quiser.
- O professor Slughorn o solicitou no final da aula, quando eu saí ele estava indo de encontro ao professor.
Ah. Ótimo. Eu estaria segura por mais alguns minutos, podia ter lido o que diabos era Fabula Temporis. Mas não. Estou aqui batendo um papo com a Charlie.
- Vamos entrar no meu quarto, preciso dar uma olhada em uma coisa – disse, já me dirigindo à minha porta. Charlotte assentiu com a cabeça e veio logo atrás de mim.
Ao entrarmos, vi que ela soltou uma risadinha. Deve ter sido um choque, realmente, sair do quarto do Riddle e entrar no vortex da desorganização que é o meu.
- Hm, fique à vontade – falei, enquanto me dirigia à minha mala. Precisava pegar os livros que Dumbledore e Desirée haviam me emprestado pra trazer na viagem, uns livros sobre magia negra barra pesada e outras coisas que não teriam na biblioteca inocente de Hogwarts. Talvez tivesse alguma coisa sobre "Fabula Temporis" neles.
- Aliás, o que se passou aqui ontem? Glade disse que quando os monitores saíram estava prestes a "explodir um vulcão entre você e Riddle". Ele disse assim. Nessas palavras.
Legal, ela tinha que me fazer relembrar disso.
Como as notícias correm rápido. E, cara, como a Charlotte fala engraçado.
- Ah. Ele só meio que descobriu sobre a festa, e deu ataque de pirua – respondi, abrindo o primeiro livro que encontrei: "1001 Magias Negras", da série "Seu Guia Preferido". Era um livro de, no mínimo, um trilhão de páginas. Não sabia nem por onde começar. O que tá faltando pros bruxos inventarem um Google?
- Mas... por quê? É apenas uma festa, no final das contas – respondeu Charlotte, mesmo parecendo não entender muito bem o que era um "ataque de pirua".
- Ah, você sabe. Ele deve ser contra qualquer tipo de diversão – respondi, dando uma folheada no livro. Hmm. Horcruxes, Poções envenenadoras... blá, blá, blá. Nada.
Um já foi, só faltam cem.
- Não sei quem devo chamar para a festa – comentou Charlotte, semi distraída com minha máscara de dormir, que havia a frase "Não Ouse Me Acordar" escrita na frente – Pensei em chamar o Glade, mas aí me recordei que ele já era monitor...
"Magia Negra Através dos Séculos". Aham, aham, esse parece bom.
- Pensei também em chamar o Roth, mas acho que ele não gosta muito de mim... – continuava Charlotte.
- Ah, Charlie, faz o que seu coração mandar... – resmunguei, mal prestando atenção no que ela dizia. "Capítulo XXI – Fabulas". Uhh. Sinto que estou chegando perto.
- Talvez seja mais plausível eu ir sozinha...
"Fabula consiste em uma estória que contém pelo menos um dos treze mistérios do Universo. Por exporem uso de feitiçarias negras e perigosas, foram ocultadas pelos governos de cada país, para que não caíssem na boca do povo".
Nhé, nhé, nhé. Seguindo em frente.
"Fabula Temporis"
AH! AH! AH!
"Uma dentre tantas as Fabulas avançadas e antigas das quais pouco se sabe."
Puxa, que grande ajuda.
- Mas ir sozinha é tão triste. Acho que convidarei o Devon.
Não, sério, muito obrigada, livro. Você me ajudou de verdade. Pff.
Ah, não, espera. O que foi que a Charlotte disse?
- Charlotte, vamos conversar – falei, fechando o livro inútil e jogando-o em cima da escrivaninha, onde estava o outro – Não acho que chamar o Devon seja solução. Pra nada na vida, aliás.
- Mas K, eu não tenho com quem ir – choramingou Charlotte.
- Charlie, eu também não vou com ninguém e não estou me sentindo mal por causa disso – argumentei. Ela franziu as sobrancelhas como se dissesse que não sou parâmetro para comparações. Talvez esteja certa.
- Ok, se significa tanto pra você, chame o Zé Mané. Sinceramente acho que é melhor ir sozinha do que com ele, mas... – fui dizendo, já revirando minha mala novamente. Droga, por que eu tenho que ser tão desorganizada? Meus livros estavam soterrados por uma pilha de bagunça, no fundo da mala. Eu estava abaixada, com a bunda pra cima, tentando puxar um livro que não parecia querer sair do lugar - ...mas acho que no final você vai se arrepender, e aí...
TAP. TAP. TAP.
- Você ouviu isso? – perguntei, olhando pelo meio das minhas pernas, vendo tudo de cabeça pra baixo.
- É, não se preocupe, eu vejo isso – disse a Charlotte, se levantando da cama – Continue fazendo... isso aí que você esta fazendo.
Resmunguei um "valeu", e continuei tentando tirar o livro do fundo da mala. As batidas na porta continuavam, e Charlotte finalmente girou a maçaneta.
Bem quando a porta se abriu, eu consegui puxar o livro. Só que acho que eu fiz uma força exagerada, porque assim que o livro se desprendeu, eu me desequilibrei, bambeei e caí pra trás, com as pernas pra cima e com a capa dura bem no meu nariz.
- Hã, Kate? – ouvi Charlotte me chamar, parecendo desconfortável. E nem era ela que estava caída no chão com um livro na cara.
Afastei as páginas dos meus olhos e olhei pra cima, vendo Charlotte segurando a porta e – quem mais – Tom Riddle atrás dela.
Ao vê-lo, senti meu coração palpitar. Talvez por causa da discussão, talvez porque eu havia acabado de invadir seu quarto, talvez porque eu estivesse na posição mais ridícula do mundo.
Me levantei o mais rápido que consegui, e olhei pra ele. Ele me encarava intensamente. Tentei detectar algum sentimento – ódio, pena, vontade de rir – mas ele estava mais impenetrável do que nunca.
Não sabia o que fazer. Nunca havia me sentindo tão desconfortável na presença dele.
Desorientada, dei uma ajeitada no cabelo (o coque estava semi desfeito, e havia fios de cabelo para todos os lados), dei um sorriso simpático e disse:
- E aí!
Ele não respondeu, só foi entrando. Rapidamente escondi o livro que segurava atrás das costas. O que foi inútil, já que havia dois outros livros sobre o mesmo tema em cima da escrivaninha.
- O que... hã, você está fazendo aqui? – perguntei. Ele sabia que eu tinha invadido o quarto dele, não sabia? Agora veio tirar satisfações.
- Slughorn – começou ele – Pediu para que eu te entregasse isso – ele esticou o braço para que eu pegasse uns pergaminhos que estava segurando – Se você não tivesse dormido ao invés de assistir à aula, teria descoberto que temos um trabalho em grupo.
Ah, que ótimo. Trabalho em grupo, tudo que eu queria, uhul. Peguei os pergaminhos, e perguntei:
- Trabalho... em grupo?
Charlotte, que estava quieta em seu canto desde a entrada de Riddle, se manifestou:
- É! Eu já ia me esquecendo de te falar. É um trabalho sobre mandrágoras. Temos que cuidar de uma espécie de imitação de mandrágora, porque as verdadeiras poderiam ser perigosas, até elas ficarem prontas para serem usadas em poções contra petrificação – explicou Charlotte. Tudo que ouvi foi "blá blá blá". Não quero saber de nada disso. Quero saber qual é o meu grupo!
- Mas eu estou em que grupo?
Charlotte abaixou os olhos. Oh, oh. Isso não podia ser um bom sinal.
- Bem... eu ia pedir para você ficar no meu grupo e do Glade, mas...
- Pedi para que fizéssemos juntos – terminou Riddle, num tom de gelar.
O encarei.
- O.. qu... hã?
Eu só podia ter ouvido errado. Por que Riddle iria fazer questão de me ter em seu grupo? Que diabos de motivo ele tinha?
Motivos assassinos, logo imaginei.
- Normalmente – começou, sem tirar os olhos de mim – eu peço para fazer os trabalhos sozinho. Mas achei que seria interessante ter uma parceira dessa vez.
Eu não conseguia entender. Não conseguia entender mesmo.
- Mas... eu não concordei com nada disso! Eu devo ter algum direito a...
- Você tem "Magia Negra Através dos Séculos"? – perguntou Riddle, me ignorando completamente e encarando o livro sobre a escrivaninha – Só existem três cópias deste livro no mundo inteiro.
Ah, pelo amor. Como ele sabe dessas coisas?
- Ah, é, isso aí ta na minha família há séculos! – respondi, tentando parecer desinteressada.
- Não sabia que os Schiffers tinham tanto interesse na magia negra – ele replicou, dando um sorrisinho sarcástico.
- É, bom, é sempre bom saber dessas coisas. Para se proteger – respondi. Achei minha resposta muito boa.
- Esperta – ele mandou. Não sei bem o que ele quis dizer com isso – Também não sabia que você fazia o tipo matadora de aulas, Schiffer.
- Bom, tem muitas coisas que você não sabe sobre mim – repliquei, de queixo erguido.
- Sim, suponho que isso seja verdade – disse ele, numa voz baixa, me encarando fervorosamente de cima a baixo – Acho que já acabei por aqui. Se me dão licença, senhoritas...
Ele já ia saindo, quando Charlotte – para a surpresa de todo o universo – o parou.
- Ahm, espere! – chamou ela, antes que ele saísse do quarto.
Minha cara e a de Riddle viraram dois pontos de interrogação ambulantes.
- Sim... ? – perguntou ele, ajeitando a postura, como se para disfarçar a confusão que provavelmente passava pela sua cabeça.
- Eu, só... queria... – começou Charlotte, mais nervosa do que eu jamais a havia visto – saber se voc... o senhor não gostaria mesmo de ir à festa. Vai ser bacana.
Meu queixo foi ao chão. E aposto que o de Riddle também, por dentro.
- Hã, Charlie, acho que... – comecei, mas Charlotte me lançou um olhar de "eu sei o que estou fazendo". Embora eu duvidasse muito.
- Acredito que a resposta seja não, Srta. McNair – respondeu ele, polido como o gentleman que ele fingia ser, já se dirigindo à porta novamente.
- É só que... – interrompeu-o Charlotte mais uma vez – É só que eu fiquei sabendo do desentendimento que você e Katherine tiveram e... na verdade ela gostaria muito que você fosse.
- Charlotte! – dessa vez não consegui me segurar. Que CARGAS D'ÁGUA essa loira que com certeza tem um prato de macarrão no lugar do cérebro pensa que está fazendo?
Riddle virou seu olhar pra mim, depois se voltou para Charlotte.
- Ah, é? – ele questionou, com um leve tom de ironia. Isso não podia estar acontecendo – E por que a Srta. Schiffer quer tanto minha presença nessa... festa? – terminou ele, fazendo um leve tom desgostoso ao dizer "festa".
- Na verdade eu na... – comecei, em legítima defesa, mas Charlotte ergueu a mão como se me mandasse calar a boca. Ótimo. Ela resolve criar atitude e personalidade logo agora.
- Ora... – ia dizendo a Traíra, provavelmente tentando pensar em um motivo – Porque... porque ela quer dançar com você, é claro – terminou Charlotte, com um sorriso vitorioso estampado no rosto como quem se achava muito genial.
E eu não podia estar mais envergonhada.
Eu quero dançar com ele? EU quero DANÇAR com TOM RIDDLE? Fala sério! Em nenhum universo isso pareceria um motivo remotamente verdadeiro. Qual é a finalidade da Charlotte com isso tudo?
Riddle não estava mais parecendo se divertir com a situação constrangedora em que eu me encontrava. Seu rosto havia fechado de repente e ele parecia... sei lá. Não faço idéia, na verdade. Ele parecia... sério.
- Certo. Mas eu não danço – disse Riddle, em uma voz baixa e rouca, logo depois saindo do quarto rápido como um relâmpago.
Assim que Charlotte fechou a porta, ela se virou pra mim, e riu:
- Hi hi hi hi, isso foi divertido!
Demorei uns 10 segundos para absorver o que ela havia dito. Aliás, ainda estava tentando digerir o que tinha acabado de acontecer.
- Charlotte! O qu.. pra qu... – eu gaguejava, tentando formular uma pergunta - ?
- Ora, pode me agradecer maninha! –disse ela. Maninha. Ah meu Deus. Maninha – Eu sei que você nutre uma secreta paixão pelo Sr. Riddle.
Ah. Eu sabia. Eu sabia! Eu sabia que Charlotte iria acabar achando uma maluquice dessas qualquer hora.
Só não sabia que teria que arcar com esse tipo de conseqüência por causa disso.
- Mas eu nã... Charlotte! – me sentei na cadeira, de repente meio tonta. Era muita informação pra um dia só.
- Tudo bem, K! Não precisa se envergonhar! Todas já passamos por isso. Bem, não com o Santo, mas... – ela prosseguia, muito animada – Ah! Já posso até imaginar vocês dois abraçadinhos na pista de dança! Será tão romântico! Estou tão feliz por você! Para ser sincera, acho que será bom pra ele, também. Sempre tão solitário...
Ela continuou tagarelando, mas eu não ouvia, porque agora além de tontura, eu sentia vontade de vomitar. Dançar abraçadinha com Tom Riddle? Nem em um milhão de anos.
