X

Mário não acreditava em amor.
Ele acreditava em permitir que suas mãos subissem e descessem pela cintura pálida e fina do homem que se movia sobre seu baixo ventre. A pele estava suada devido às horas de intenso exercício que os dois vinham praticando desde o começo da tarde. A noite havia chegado, escurecendo o cômodo, mas permitindo que os olhos verdes ainda tivessem a chance de visualizar um ou dois relances. Não era preciso enxergar o que estava acontecendo. O ruivo conseguia imaginar perfeitamente a maneira como seu membro penetrava o rapaz. As mãos que utilizavam seu abdômen como apoio eram pequenas, com dedos finos e delicados. Os gemidos que ele ouvia vinham de lábios vermelhos, cuja boca possuía fileiras de belos dentes brancos. Os olhos verdes de seu amante provavelmente estavam fechados, tamanha intensidade do prazer que ele sentia. Os cabelos, estes louros e agora levemente compridos, provavelmente estavam grudados em seu pescoço por causa do suor.

O braço direito dos Cavallone segurou a cintura de Jules com um pouco mais de força e quando o rapaz ergueu o quadril, ele o forçou a sentar-se com um pouco mais de pressão. O louro deixou escapar um gemido de contentamento, e Mário preencheu o homem que estava por cima com seu clímax. Jules ainda moveu-se mais algumas vezes, apenas para provocá-lo um pouco mais. Ele era insaciável, e o ruivo sabia que se permitisse os dois provavelmente passariam mais algumas horas em cima daquela cama.

"Você deveria parar de me provocar." O braço direito dos Cavallone virou-se e deitou o louro na cama. A risada animada e feliz de sua companhia ecoou pelo quarto. Era gostosa e familiar.

A resposta foi um longo e profundo beijo. Mário retirou-se de dentro do rapaz, deitando-se por cima dele e permitindo que o gesto durasse o tempo necessário para que o ar começasse a faltar. Quando o beijo terminou, Jules passou as costas das mãos sobre o rosto do ruivo e murmurou algumas palavras em francês que mereceram um segundo beijo. O braço direito dos Cavallone rolou para um dos lados da cama, apoiando o rosto no travesseiro e deixando-se admirar o belo homem que estava deitado nu ao seu lado.

Era difícil dizer quantas vezes ele havia feito aquilo no último mês. Passar horas dentro de um quarto com Jules tornou-se obrigatório nos últimos quatro fins de semana, e Mário começava a se esquecer do que fazia antes de conhecê-lo. Não. Eu quero esquecer. Uma de suas mãos desceu pelas costas do louro, sentindo como ele se arrepiava quando era acariciado. O francês perguntou se sua companhia estaria livre para jantarem juntos e o ruivo não pensou em nada que pudesse lhe dar mais prazer do que dividir uma refeição com Jules. Aquele assunto os levou a outro, e por cerca de uma hora os dois permaneceram deitados e conversando. Quando foi decidido o local em que jantariam, o braço direito dos Cavallone convidou o louro para um banho e os dois seguiram para a outra extremidade do quarto.

Quarenta minutos e outro orgasmo depois, Mário deixava o quarto de Hotel ao lado do rapaz. Havia apenas dois lances de escadas até o restaurante do Hotel, e que naquela noite estava parcialmente vazio. A mesa escolhida ficava próxima à janela, e o ruivo sorriu satisfeito ao ver Jules corar por estarem sentados frente a frente. Ele sempre fica tímido quando jantamos, porque parecemos realmente um casal. O braço direito dos Cavallone deixou que sua companhia escolhesse primeiro, optando por uma salada e um prato de ravioli que envolvia frutos do mar. O louro escolheu uma sopa e o mesmo ravioli. A espera pelo jantar durou pouco, e nesse tempo os dois conversaram sobre o que acontecia na cidade. A comida não diminuiu a vontade de interagir, e Mário muitas vezes escolheu falar do que comer.

Mário e Jules estavam juntos há quase um mês. Não era um relacionamento propriamente dito, mas sexo também não era o principal. Os dois se reencontraram novamente três dias depois de Giulio ter enxotado o ruivo da calçada de sua residência, e depois daquela noite, sem que ele tomasse conhecimento, o braço direito dos Cavallone passou a ver o rapaz pelo menos uma vez por semana nos dias úteis, assim como em seus fins de semana. Bem, eu posso dizer que hoje foi nossa última noite. Mário limpou o canto da boca com o guardanapo e sorriu para sua companhia. Jules retornará para a França no final da semana. Aquela conversa seria necessária. Ambos sabiam o que tinham e apesar de o louro sempre mostrar uma expressão triste quando eles se despediam, era difícil dizer até onde iria a tristeza de um rapaz de dezoito anos.

A idade e outras informações acerca do francês foram obtidas após alguns encontros. Jules estava estudando na Itália e iria embora quando seu curso terminasse. Estudante de Artes, o louro estava acompanhado de alguns amigos, aqueles mesmos que o braço direito dos Cavallone havia visto quando os dois se encontraram pela primeira vez. Quando ouviu sobre o curso, Mário não conseguiu evitar pensar em um taciturno e arrogante homem que (in)felizmente havia sido agraciado com o talento de um pintor, mas que perdia seu tempo atrás de um sujeito frio e totalmente deselegante. Porém, tudo o que Jules ouviu realmente foi que o ruivo tinha um conhecido que pintava paisagens, e aquilo foi o suficiente para animar o louro e o assunto transcorreu naturalmente.

Pensar em Giulio não era doloroso. O braço direito dos Cavallone não sentiu a angústia ou a profunda depressão que os escritores apontavam em seus romances e poemas. O único sentimento que o abateu foi um profundo arrependimento, não somente por ter se aproveitado de um momento de fraqueza para praticamente violar o homem, mas também por ter permitido se envolver com uma pessoa que não deveria. Ele não pertence ao meu mundo, o ruivo disse para si mesmo no dia seguinte a rejeição. Ele permaneceu na cama durante toda a manhã e agradeceu mentalmente por Ivan não ter nada de relevante para fazer. O problema começaria depois, quando o moreno resolvesse querer visitar o Guardião da Nuvem dos Vongola. Eu apenas disse que não poderia mais acompanhá-lo por causa do trabalho e Ivan consentiu. Livre de suas viagens diárias, Mário pôde se dedicar inteiramente ao trabalho, mesmo que sua preocupação com o bem estar de seu Chefe às vezes o deixasse incomodado. Foi a melhor opção. Eu jamais quero voltar a encarar aquele homem.

Jules agradeceu o jantar e nenhum deles pareceu inclinado a pedir sobremesa. O braço direito dos Cavallone caminhou com sua companhia até a saída do Hotel e em seguida os dois entraram no carro. O local em que o louro estava hospedado ficava próximo e o ruivo fez questão de acompanhá-lo. A conversa durou poucos minutos e quando o veículo parou, Mário segurou gentilmente o queixo de seu amante, beijando-o profundamente. Ele sentiu o corpo de Jules tremer ao toque e toda vez que sua língua envolvia a do louro era fácil conseguir uma reação. Ele é jovem. Tudo ainda é novo e excitante. O rapaz corou e abriu a porta, mas deteve-se por um instante.

"Vejo você na quinta?"

"Eu estarei aqui. Às três horas em ponto."

"M-Merci!"

A porta foi fechada e o braço direito dos Cavallone sorriu e esperou até Jules entrar em seu Hotel para então seguir viagem. O céu estava escuro e a lua iluminava as ruas e também seria sua guia naquela noite. O tempo estava frio, mas as janelas do carro ficaram abertas durante os quarenta minutos que Mário gastou para chegar até a propriedade da Família. Aquele tempo foi gasto pensando em seu trabalho e na maneira adorável com que o louro havia feito aquela pergunta. Ele estava pedindo e não perguntando, Mário parou o veículo e acenou para os subordinados que eram responsáveis pelo enorme portão. Os dois cavalos se afastaram e então o carro voltou a andar. Eu poderia tentar me apaixonar por Jules. Ele é belo, educado e amável e eu sei que está apaixonado por mim. O ruivo soltou um suspiro, apoiando um dos braços na janela. Depois da segunda semana ele desconfiou de algumas atitudes de seu amante e não foi difícil entender que toda aquela gentileza e amabilidade eram resultados de sentimentos mais profundos. O sexo entre eles ainda era intenso, mas era preciso reconhecer que boa parte do tempo era gasto com conversas, sorrisos ou simplesmente momentos um ao lado do outro. Ele pertence ao meu mundo. Nós seriamos uma combinação perfeita.

Os minutos que levou da entrada da propriedade até sua casa pareceram mais longos do que a viagem. A mansão principal ficava do lado esquerdo, enquanto a casa em que o ruivo morava com Giuseppe à direita. As duas eram afastadas uma da outra cerca de dez minutos, e ao avistar sua casa de dois andares, o braço direito dos Cavallone ficou surpreso por ver as luzes acessas. Giuseppe deveria estar com Francesco. Ele disse que dormiria na mansão. Há três dias Ivan recebeu o resultado da investigação sobre Graziella. A morte da jovem era esperada, mas a certeza desestruturou o futuro Chefe dos Cavallone e Giuseppe não saiu do lado do pequeno desde que soube da notícia.

Mário estacionou o carro e entrou em sua casa, chamando pelo irmão assim que a porta foi fechada. Não houve resposta inicialmente, mas segundos depois alguns passos vindos do escritório denunciaram sua companhia. O Chefe dos Cavallone encostou-se à porta e sorriu para seu amigo. Ele está bêbado.

"Desculpe a invasão." O moreno segurava uma taça de vinho e o líquido já estava pela metade. Quantas taças ele já não deve ter bebido?

"À que estamos comemorando?" O braço direito riu e retirou o terno, passando por Ivan e adentrando ao escritório. O local era pequeno e possuía apenas uma mesa, uma cadeira, duas poltronas e uma mesinha de centro. Sobre a mesinha havia uma quantidade absurda de garrafas de bebidas como vinhos, whisky e alguma coisa estrangeira. Duas garrafas de vinho já haviam sido abertas e provavelmente o conteúdo da taça de seu Chefe vinha de uma terceira.

"Nada, realmente." O Chefe dos Cavallone se jogou em uma das poltronas. Ele estava visivelmente descomposto, o rosto vermelho por causa da bebida e os primeiros botões da camisa azul-clara estavam abertos. "Eu só precisava sair daquela casa. Giuseppe colocou Francis na cama e eu achei que não era mais necessário. Espero não incomodar."

"Você está absurdamente formal para um bêbado." Mário riu e se serviu com uma taça de vinho. O líquido desceu encorpado por sua garganta, e ele retirou a gravata e abriu alguns botões de sua camisa. "E como está Francis? Ele parecia bem esta manhã."

"Acredito que esteja melhor do que eu". O moreno tinha os olhos na direção da larga janela que ficava atrás da mesa. O jardim estava iluminado e a lua bem de frente a eles. "Giuseppe tem passado bastante tempo com ele, então aos poucos as coisas ruins vão sendo esquecidas."

"Você não deveria fazer isso? Esquecer as coisas ruins?" O ruivo se serviu de whisky. "Nós sabíamos que Graziella provavelmente estaria morta e ela não dava sinal de vida há mais de um ano."

"Eu sei. E eu sinto muito que ela tenha tido esse fim, mas eu sinto mais por Francis. Ele é muito novo para perder uma mãe, mesmo uma mãe ausente."

"Ele tem você e o restante da Família, então nunca ficará sozinho, você sabe disso."

"Obrigado." Ivan virou o rosto e sorriu para seu amigo. A taça de vinho tocou seus lábios e ele a esvaziou com um rápido gole. "Mas hoje eu não quero beber por Graziella. Eu já dediquei a ela vinhos suficientes ontem. Esta noite beberemos à minha rejeição."

Aquelas palavras foram ditas com uma simplicidade tão grande que seria impossível acreditar que o Chefe dos Cavallone estivesse falando sério. Sua taça estava cheia com vinho novamente, e Mário o olhou sério, esperando ouvir o restante da história.

"Alaudi me rejeitou. Ele disse que não poderia retribuir meus sentimentos." O moreno balançou a taça em suas mãos antes de levá-la aos lábios. "Não que eu não esperasse por isso, mas... sempre acreditamos no melhor, não?"

O ruivo estudou a expressão do homem sentado do outro lado da mesinha e encarou sua própria bebida. Ele havia sido o primeiro a ter conhecimento sobre os sentimentos de Ivan, e provavelmente a única pessoa a incentivá-lo. Durante o tempo que permaneceu servindo como motorista, o braço direito teve a chance de observar o comportamento do Guardião da Nuvem e era difícil acreditar que seu Chefe e também melhor amigo havia sido realmente rejeitado.

Um gosto amargo fez Mário virar o copo de whisky e esse movimento acabou fazendo-o engasgar. O moreno riu e inclinou-se um pouco, batendo de leve nas costas de sua companhia enquanto sua risada ecoava pelo escritório. Quando o braço direito recuperou-se do acesso de tosse, seus olhos verdes estavam cheios de lágrimas e ele começou a rir como se tivesse acabado de ouvir uma história extremamente hilária. É uma fatalidade, não existe outra explicação.

"Você não foi o único rejeitado, Ivan." O ruivo colocou a franja atrás da orelha, encarando a lua em frente à janela. "Eu fui rejeitado também."

"Você? Impossível!" O Chefe dos Cavallone riu mais alto. "Não existe possibilidade de você ser rejeitado, Mário, mas conte-me. Quem foi a pessoa que disse não a você? Certamente não é o estudante de Arte que você tem encontrado.

"Não, não." Lembrar-se de Jules levou um sorriso terno aos lábios de Mário. Ele tem sido minha mais fiel companhia. "Eu fui rejeitado por Giulio, o braço direito de Alaudi."

A risada de Ivan diminuiu a casa segundo. O sorriso, largo e descontraído que estava em seus lábios desapareceu lentamente e quando o silêncio os envolveu, tudo o que Mário viu foi a expressão incrédula e assombrada no rosto de seu amigo. O moreno pousou a taça na mesinha e entreabriu os lábios para dizer alguma coisa, mas as palavras aparentemente não queriam sair. O Chefe dos Cavallone então coçou os cabelos e fez uma segunda tentativa, mas foi preciso alguns minutos até que a mais elementar e esperada pergunta fosse feita:

"Você fala sério?"

"Seriíssimo." Mário sabia que deveria rir daquela situação ridícula e absurda, mas não conseguia. De repente toda a graça havia desaparecido, pois aquela era a primeira vez que ele falava com alguém sobre o que havia acontecido. "Ele me rejeitou no mês passado."

"M-Mas... Como?" A surpresa e indignação de Ivan se intercalavam. "E-Eu nunca ouvi nada sobre isso. Eu nem sabia que você estava interessado naquele homem. Quando aconteceu? Onde eu estava?"

"Ocupado demais flertando com o Guardião dos Vongola." O ruivo esboçou um meio sorriso, inclinando-se e colocando um pouco mais de vinho na taça do moreno. "Aqui, beba comigo meu amigo, porque esta noite afogaremos nossas rejeições. E não se preocupe comigo. Eu mereci, Giulio nunca me deu nenhuma esperança. Tudo não passou de um mal entendido."

O braço direito sabia que o Chefe dos Cavallone não ficaria satisfeito com aquele nível de resposta, então antes de iniciar um resumo do que havia acontecido, Mário deu mais um gole em sua taça, sentindo o corpo mole e a bebida fazer efeito. Por alguns segundos ele contou superficialmente o que havia acontecido, omitindo certos detalhes sórdidos, mas mencionando coisas que até aquele momento ele não tinha conhecimento. As conversas com Giulio, as horas que passaram juntos e principalmente a estranha naturalidade que tinham um com o outro ganharam um peso maior ao deixarem os lábios de Mário. Quando seu momento terminou, o ruivo sentiu o peito apertado e uma incrível vontade de voltar no tempo e reviver aquele fim de tarde. Ele nunca teria convidado o moreno para beberem alguma coisa. Ele nunca teria se insinuado e se aproveitado da situação. Ele nunca teria deixado outra pessoa machucá-lo daquela forma...

Ivan ouviu a tudo em silêncio. Quando o relato terminou, a taça retornou aos seus dedos e ele deu um longo gole, servindo-se novamente. Seus olhos cor de mel encararam a janela, e os dois homens embora vissem a mesma direção, enxergavam coisas diferentes.

"Dói, não é?" O Chefe dos Cavallone tinha a voz derrotada. "Estar apaixonado dói."

Mário abaixou os olhos, encarando sua taça. Se ela estava meio cheia ou meio vazia ele não sabia. "Você é a escória da sociedade. Saia da minha casa e não retorne."

"Sim, dói."

X

Naquela noite os dois amigos acabaram dormindo após muitas garrafas de vinho e foram acordados no dia seguinte por um irritado Giuseppe, que praticamente enxotou os dois do escritório. Ivan arrastou-se até o banheiro do andar de cima e o ruivo ficou com o pequenino e desconfortável banheiro do primeiro andar. A expressão no rosto de seu irmão ainda era severa, mas toda a sujeira da noite anterior havia sido limpa. Ele apenas se preocupa demais. Giuseppe poderia relaxar às vezes. Mário desculpou-se mais duas vezes até conseguir um esboço de meio sorriso do belo rosto do louro, mas este pequeno fragmento desapareceu quando o Chefe desceu as escadas vestindo uma troca de roupas de seu braço direito.

"Seu filho o espera na mansão para o café, então se o senhor não se importar, poderia me acompanhar?" O sorriso de Giuseppe não era sincero. Ele finge. Ele está irritado por ter acordado e não encontrado Ivan na mansão. Ele detesta quando o pequeno fica sozinho.

O Chefe dos Cavallone aparentemente não havia notado a raiva do louro, pois aceitou aquele pedido sem nenhum resguardo. Os dois amigos se entreolharam, e o moreno lançou um vago e triste meio sorriso antes de deixar a casa. Mário sentou-se no primeiro degrau da escadaria de madeira que levava ao segundo andar, soltando um longo suspiro. Sua cabeça doía horrores e a última coisa que ele queria era trabalhar ou simplesmente pensar. A conversa com Ivan apenas serviu para reabrir uma ferida que ele considerou fechada, e agora não havia como simplesmente fazer um curativo e deixá-la curar-se naturalmente. A expressão de nojo no rosto de Giulio era a única coisa que o ruivo via quando fechava os olhos, então ele decidiu mantê-los muito bem abertos. Suas pernas se esticaram e ele permaneceu sentado por um tempo indeterminado. Quando seu corpo ficou em pé, o braço direito subiu as escadas e bagunçou um pouco os cabelos. É hora de fazer algo útil.

O trabalho naquele dia foi feito devagar, quase parando. O Chefe dos Cavallone não parecia estar em melhor estado, e após uma longa e maçante conversa sobre uma possível viagem, que culminaria em uma reunião que Ivan teria de atender no final da semana, os dois amigos decidiram que não haveria melhor maneira de terminarem a noite do que ao lado de algumas garrafas de vinho. Entretanto, ao contrário da noite anterior, os dois se comportaram e permaneceram no escritório da mansão. Mário arrastou-se até um dos quartos de hóspedes no começo da madrugada e aquele ritual de trabalho - e bebida - se estendeu por mais dois dias. As obrigações do moreno o fizeram seguir para a Espanha, e como sua fiel sombra, o ruivo esteve com ele durante todo o tempo.

O retorno foi calmo e tranquilo, e ao pisar em solo italiano Mário pediu permissão a Ivan para se ausentar na tarde do dia seguinte. O moreno riu e disse que ele não precisava pedir permissão, mas indagou com uma charmosa curiosidade o que seu amigo faria.

"Apenas diga se não envolver roupas sendo tiradas e hotéis. Poupe-me dos detalhes sórdidos."

O ruivo riu e ficou em silêncio e os dois acabaram gargalhando juntos. "Eu vou me despedir de Jules. Amanhã ele retorna à França."

"O seu estudante de Arte? Eu não sabia que vocês estavam juntos." O Chefe dos Cavallone tinha uma expressão confusa. "Achei que gostasse de Giulio."

"Eu não sou você, Ivan." Mário encostou-se à mesa do escritório. Os dois resolveram trocar o álcool pelo chá naquele fim de tarde. O alaranjado do pôr do sol pintava o cômodo e aquecia um pouco aquele inverno. "Eu não ficarei esperando por uma virada da vida. Aquele homem não será meu, não importa o quanto eu espere. Provavelmente ele nem gosta de homens, o que por si já deveria ser o maior dos empecilhos."

O moreno tinha os olhos baixos, colocando a xícara sobre a mesinha e encostando melhor as costas no sofá.

"Talvez você tenha razão. Não direi que a ideia de procurar companhia não passou por minha mente nesses dias, mas toda vez que penso em sair eu me lembro de Alaudi e todas aquelas pessoas parecem inferiores..."

"E olha que você não tocou naquele homem. Eu teria medo de imaginá-lo como um amante que foi deixado." O ruivo sorriu, mas não foi sincero. Eu estou feliz por você Ivan. Eu nunca deveria ter tocado Giulio.

O Chefe dos Cavallone riu e os dois amigos permaneceram ainda alguns minutos no escritório. O braço direito seguiu para sua casa e naquela noite, assim como em todas as outras, seu sono demorou a vir e quando veio, ele dormiu pouco. Há semanas Mário não sabia o que era uma noite completa de sono. Sua produtividade não havia sido alterada, mas ele começava a sentir em seu corpo o impacto das noites mal dormidas. O ruivo acordou cedo e trabalhou em seu escritório durante toda a manhã. O almoço foi feito na mansão e na companhia dos Cavallone, e antes de seguir em direção ao centro de Roma, o braço direito comunicou a seu Chefe sobre a viagem da semana seguinte.

"Comece a conversar com Francesco desde hoje. O garoto sempre fica tristonho quando você está prestes a viajar."

"Giuseppe dormirá na mansão na minha ausência. Eu duvido que Francis vá se sentir sozinho." A resposta do moreno era a mesma. Alias, aquela conversa era padrão e os dois falavam as mesmas coisas todas as vezes que uma viagem surgia.

"Giuseppe não é o pai." O ruivo apontou um dedo na direção do amigo. "Faça seu trabalho, Ivan."

"Certo, certo..." O Chefe dos Cavallone deu de ombros. "Eu cuidarei da minha criança e você vá cuidar da sua." Havia segundas e terceiras intenções naquela frase e Mário não conseguiu não rir. "Você gosta do rapaz. Talvez pudesse tentar algo mais sério. Do jeito que você o mencionou nessas semanas eu poderia jurar que havia muito mais do que encontros casuais entre vocês."

Onde está seu discurso sobre inferioridade, Ivan? O braço direito ponderou o que deveria responder. "O garoto tem apenas dezoito anos. Eu sou dez anos mais velho. Ele terá todos esses anos para conhecer outras pessoas."

A resposta pareceu satisfazer o Chefe dos Cavallone, e o ruivo despediu-se, mas não sem antes lembrá-lo de conversar com Francesco. O clima havia mudado e não havia mais sol no céu italiano, apenas aglomerações de nuvens cinzentas. A distância entre a propriedade e o centro de Roma já havia se tornado irrelevante depois de todos aqueles meses, e o braço direito deixou a estrada para entrar nas ruas movimentas sem notar a diferença. Seu carro percorreu alguns quarteirões até estacionar em frente a um Hotel e ele só parou para cumprimentar a bela recepcionista, deixando com ela um terno "boa tarde" e uma piscadela. Seus pés o levaram para o terceiro andar e quando a porta de número doze surgiu diante de seus olhos, Mário deu duas leves batidas. A espera durou poucos segundos, e a pessoa que o recebeu não vestia nada além de duas bochechas coradas e um sorriso alegre.

"Achei que fossemos tomar um café." O ruivo foi puxado para dentro do quarto e sua voz saiu risonha. "Você disse que gostaria de visitar aquele Café."

"Eu posso beber café na França". Jules subiu as mãos delgadas pelo peito do homem que estava à sua frente. "Mas eu não poderei tê-lo ao meu lado na França."

Se aquelas palavras tivessem chegado aos ouvidos de Mário há seis meses ele teria se sentindo lisonjeado e dito qualquer bobagem que o rapaz gostaria de ouvir antes de se despir e amá-lo vigorosamente pelas próximas horas. Porém, sua expressão se tornou séria e ele encarou aqueles belos olhos azuis por alguns segundos, entendendo pela primeira vez a posição em que se encontrava.

"Você me ama, não é?" Uma das mãos do braço direito deslizou pelo angelical rosto do louro. A resposta foi um constrangedor silêncio, mas não seria preciso dizer nada. Os lábios podem mentir, mas os olhos sempre dizem a verdade. E aqueles olhos diziam exatamente o que ele precisava saber. "Eu vou amá-lo pelas próximas três horas nesse quarto, e garantirei que você sempre se lembre de mim nas próximas vezes que for envolvido por outro homem ou envolver uma mulher. Depois tomaremos um banho e iremos comer uma torta de chocolate no Café. Quando eu me despedir de você será com um longo beijo para que se lembre do tempo que passamos juntos."

Jules ouviu a tudo com um silêncio admirável. Quando o ruivo beijou sua testa com ternura, o louro enxugou uma lágrima no canto de seus olhos e Mário viu naquele gesto o quanto era amado por aquele rapaz. Você é exatamente o que eu procuro em um amante, mas eu simplesmente não consigo amá-lo. O braço direito segurou o francês pelo queixo, erguendo aquele adorável rosto e beijando-o com gentileza. Você é belo, educado, charmoso, divertido e eu poderia me perder em seu corpo pelo resto dos meus dias e ainda morreria insaciável. Então por quê? Por que mesmo beijando esses lábios eu não consigo ver nada além do agora?

Naquela tarde Mário cumpriu o que prometeu. Ele amou o louro devagar e gentilmente em cima daquela cama, pensando mais em oferecer prazer do que receber. Seus movimentos eram lentos, mas precisos. Suas mãos e lábios acariciavam aquele pequeno corpo e procuravam transmitir pelo menos um pouco de toda a gratidão que ele sentia. O ruivo sabia que Jules havia aparecido em sua vida em um momento em que ele precisava de companhia, e por isto o braço direito seria eternamente grato. O louro parecia sentir muito mais do que nos outros dias e sua doce voz ecoou por três horas naquele caro quarto de Hotel. Os dois continuaram mais uma vez no banho, e quando finalmente deixaram aquele lugar, Mário não olhou para trás.

A próxima parada foi em um Café que ficava localizado próximo a vários restaurantes. Os dois vinham combinando visitá-lo há dias, mas deixar o quarto sempre era uma tarefa difícil. O francês pediu uma gorda fatia de torta de chocolate e uma xícara de chá de menta para acompanhar. Mário pediu apenas uma xícara de café, sorrindo ao sentir o gosto amargo em seus lábios. Por cerca de meia hora os dois homens conversaram sobre tudo e nada. O braço direito pagou a conta e no momento em que se levantou ele soube que era hora de dizer adeus.

Os dois caminharam lado a lado até o Hotel em que Jules estava hospedado. A distância era grande, mas nenhum deles sugeriu o carro. A caminhada foi dada em silêncio, e após cinco minutos Mário deixou que sua mão segurasse a do jovem. Aquele gesto fez o rapaz sorrir satisfeito e o restante do caminho pareceu menos triste.

"Então, eu fico por aqui." Jules tentou sorrir quando chegaram à frente do Hotel, mas a maneira como ele se esforçava era mais adorável do que triste.

Mário acariciou o rosto do louro antes de puxá-lo sem nenhum aviso para um profundo e intenso beijo. O francês pareceu visivelmente surpreso, mas não interrompeu o momento. Seus dedos seguraram com possessividade os cabelos do ruivo e naquele momento ele pareceu um homem e não um garoto. Nenhum deles se importava com o fato de que estavam em um lugar público e à luz do dia, e quando o beijo terminou, o braço direito agradeceu baixo e em francês.

"Eu te amaria para sempre e você sabe disso." Jules deu um passo para trás. Duas gordas lágrimas escorreram por seu rosto e ele se transformou novamente em um garoto de dezoito anos. "Eu me mudaria para cá e continuaria com meus estudos. Nós nos encontraríamos sempre que possível. Você me ensinaria italiano e eu o tornaria fluente em francês... Mas eu seria melhor do que a pessoa que partiu seu coração e disso eu não tenho dúvidas."

O louro esboçou um tímido sorriso antes de dar as costas e entrar com passos largos dentro do Hotel. Mário só conseguiu abaixar os olhos após alguns segundos, colocando as mãos nos bolsos e seguindo pelo mesmo caminho que havia feito. Seus lábios haviam se repuxado em um meio sorriso e durante os minutos que gastou andando até seu carro, tudo o que o ruivo pensou foi que ele havia se encantado pela pessoa errada.

X

Após a partida de Jules, o braço direito dos Cavallone ficou muito ocupado com o trabalho. Ivan recebeu três convites distintos para conhecer Chefes estrangeiros e ficou a cargo do ruivo organizar sua agenda, ao mesmo tempo em que analisava os convites e pensava em como percorrer aquelas distâncias em pouco tempo. O moreno não pareceu animado ou desanimado com a notícia de que ficaria um tempo fora da Itália, e Mário desconfiou que isso talvez tivesse alguma ligação com o Guardião da Nuvem dos Vongola. De qualquer forma, o braço direito sabia que teria de ponderar, pois Ivan não poderia se ausentar por muito tempo. Francesco. Nós precisamos pensar no garoto.

Foi preciso uma noite inteira de muito planejamento e várias xícaras de café para que o ruivo terminasse a agenda de seu Chefe. Nas próximas duas semanas os dois estariam ocupados e os dias seriam cansativos.

"Duas reuniões na Espanha e uma em Portugal. Deixaremos para visitar à Espanha por último, pois teremos de permanecer mais tempo no país. Mesmo Portugal sendo praticamente ao lado, voltaremos para cá e três dias depois seguiremos viagem novamente."

Ivan olhou as anotações de Mário e concordou com a cabeça. Ele ficaria alguns dias fora, mas depois retornaria para o filho antes de se ausentar novamente. O garoto de cabelos castanhos recebeu a notícia da viagem do pai como sempre: havia um meio sorriso em seus lábios, e por mais que ele dissesse que ficaria bem, os olhos cor de mel mostravam que ele sabia que ficaria sozinho.

A primeira viagem durou quatro dias e foi passada basicamente dentro de salas de reuniões. Mesmo não participando diretamente, o braço direito permaneceu como uma estátua ao lado de seu Chefe, atento a qualquer tentativa negativa por parte dos presentes. A vida de Ivan valia mais do que a de qualquer um daqueles homens, e ele não hesitaria em puxar o gatilho se o momento chegasse. Felizmente não houve necessidade de medidas drásticas e o retorno a Roma foi sem dúvidas a melhor parte da viagem. Entretanto, a impressão que o ruivo sentiu foi que o tempo que passaram em solo italiano terminou muito mais rápido, e quando ele percebeu já era hora de seguir viagem novamente, mas dessa vez rumo à Espanha.

Ao contrário das outras vezes a despedida de Francesco foi menos triste, e o garoto dessa vez pareceu realmente não se importar em ficar sozinho. Ivan bagunçou o cabelo do filho e prometeu que voltaria logo, recebendo um abraço apertado nas pernas. Mário lançou um olhar sério para o irmão, e Giuseppe respondeu um baixo "Eu cuidarei do jovem Chefe. Façam uma boa viagem."

A Espanha estava tão fria quanto à Itália, e o ruivo sentiu como se houvesse apenas caminhado para o outro lado de Roma. Diferente das maçantes e tediosas reuniões em Portugal, a viagem à Espanha seria um pouco mais animada. Os Chefes que queriam conhecer o moreno marcaram almoços e jantares, então pelo menos uma boa refeição era garantida. As noites eram passadas no bar do Hotel ou conversando na sacada. Nos últimos dias Ivan - ou melhor, desde que fora rejeitado por Alaudi - carregava a mesma expressão triste e nem mesmo a bebida o fazia sentir-se melhor. Mário sabia que era uma de suas obrigações como amigo tentar animar sua companhia, mas era difícil quando ele mesmo estava em uma situação similar. Na quarta noite o braço direito arrumou-se e avisou que daria uma volta para conhecer a noite espanhola, mas assim que se sentou no banco do carro, uma onda de más recordações o inundou e ele retornou ao quarto de Hotel e passou a noite bebendo e admirando o céu. O fantasma de Giulio vai me transformar em um padre.

Os sete dias passaram arrastados e ambos os amigos pareceram felizes em retorno para casa. Francesco os recebeu de braços abertos naquela manhã, mas assim que o garoto entrou, Giuseppe aproximou-se com uma expressão que beirava tristeza e preocupação. O garoto aprontou. Giuseppe quer e não quer dedurar Francesco. Eu não gostaria de estar em sua pele, irmão.

O louro aproximou-se do ruivo, contando sobre as escapadas do garoto de cabelos castanhos. Não foi preciso pensar muito para saber onde e quem ele visitava e Mário sentiu uma ponta de inveja do pequeno. Ele podia ir e vir, ver e rever quem gostaria naquele lugar. O braço direito de Ivan ouviu a tudo e pediu que Giuseppe esperasse até depois do jantar para comunicar ao dono da casa.

"Ele vai ficar chateado comigo." A voz do louro saiu quase como um sussurro. A expressão de dor em seu belo rosto era quase palpável.

"Claro que vai, mas você sabe que é o que deve ser feito, Giuseppe." Mário passou uma das mãos pelos cabelos. "Nada disso estaria acontecendo se você não tivesse permitido que ele fosse visitar aquele homem."

"M-Mas Franc-, o jovem Chefe estava se sentindo sozinho. O que eu poderia fazer? E-Ele é dono da casa na ausência do pai, eu não poderia simplesmente me opor a uma decisão e-"

"Ouça bem, porque eu só direi isso uma vez." O ruivo colocou a mão no ombro do irmão e a apertou levemente. "Sua função não é somente proteger o Chefe da Família. Você precisa colocar juízo na cabeça de Francesco enquanto ainda há tempo, porque ele vai crescer e então todas as suas palavras não servirão para nada. O pequeno te respeita e escuta a tudo o que você diz, mas você precisa ter pulso firme, Giuseppe." O braço direito do Chefe dos Cavallone engoliu seco. Será cruel. Eu sei que ele vai se machucar, mas eu não posso mais fingir que não sei o que está acontecendo. Eu já tenho meus próprios problemas para resolver e Giuseppe precisa conhecer seu lugar. Eu realmente sinto muito, irmão. "Faça com que Francesco ouça pelo menos até que assuma a chefia da Família. Quando ele estiver casado e com filhos o problema não será mais seu."

As palavras de Mário acertaram o belo rapaz de dezessete anos como um tapa. Giuseppe recuou e seu rosto tornou-se vermelho. Os olhos verdes, que apesar de serem parecidos com os do ruivo sempre tiveram num brilho diferente, o olhavam com raiva e tristeza. Eu estou fazendo isso para o seu próprio bem, não vê? Por que não poupa anos de decepção deixando isso para lá? Você deveria cuidar e proteger seu chefe e não se encantar por ele, Giuseppe! O ruivo abaixou os olhos, sentindo que era impossível encarar seu irmão naquele momento. Eles nunca haviam tocado naquele assunto e ele esperava nunca precisar falar diretamente o que passava por sua mente. O louro respondeu um baixo "Eu falarei com o Chefe depois do jantar, com licença," antes de se retirar e Mário chutou um pedaço de grama, passando a mão com fúria pelos cabelos. Ele estava frustrado e descarregando aquela nova e estranha angústia em quem não merecia.

Naquela noite Giuseppe relatou a Ivan que seu Chefe havia visitado o Guardião da Nuvem dos Vongola nas últimas duas semanas. Suas palavras saíram sérias e não havia sinal de que o louro estivesse lutando internamente contra suas próprias palavras. O ruivo estava encostado a uma parte do escritório, encarando uma das estantes e apenas notando as sutis mudanças na voz do irmão. O moreno provavelmente não reparou em nada disso, mas ele conseguia distinguir totalmente quando o rapaz de cabelos longos e louros não agia naturalmente. O Chefe dos Cavallone ouviu a tudo e não fez perguntas, pedindo para que Giuseppe chamasse Francesco, pois eles precisavam conversar a sós. O garoto de cabelos castanhos desceu animado, mas assim que a porta do escritório foi fechada, Mário soltou um longo suspiro ao ver o irmão afastar-se e deixar a mansão. Ele sabe o que vai acontecer.

Dez minutos depois o futuro Chefe dos Cavallone abriu a porta e cruzou o hall de cabeça baixa e subiu as escadas com os ombros curvados. O ruivo que esteve o tempo todo encostado a um pilar próximo à biblioteca, desencostou-se após alguns segundos e passou em frente ao escritório. Ivan estava sentado em uma poltrona e pela expressão em seu rosto, saber que seu filho visitava o homem que o havia rejeitado era mais do que ele poderia suportar.

"É ridículo, não é?" O moreno sempre sabia quando seu braço direito estava por perto. Como uma sombra. "Eu fiquei com inveja do meu filho de cinco anos porque ele passou duas semanas almoçando com o homem que amo. Mal consegui conversar seriamente com o garoto. Na metade do sermão eu queria perguntar como Alaudi estava, o que ele comia nos almoços, se ele sorria..." O Chefe dos Cavallone esboçou um triste sorriso. "Diga-me, Mário, o quão patético eu pareço neste momento?"

O ruivo queria dizer que Ivan lembrava uma jovem garota apaixonada, mas se seu amigo se assemelhava a isso, o que poderia ser dito sobre ele?

"Eu escreverei uma mensagem e me desculparei com Alaudi pelo que aconteceu. Eu não quero que ele pense que não respeito seus sentimentos. Francesco deveria ter ficado em casa ao invés de sair para importuná-lo."

"Seu filho sente falta de companhia, Ivan." Mário tocou o alto da poltrona antes de se sentar. "Você tem outra viagem na próxima semana então a conversa de hoje deve surtir efeito." O braço direito colocou a franja atrás da orelha. "E eu entregarei a mensagem amanhã pela manhã."

O moreno virou o rosto e encarou o ruivo com seriedade e um pouco de surpresa.

"Tem certeza? As chances de encontrar Giulio são grandes."

"Eu sei, por que acha que decidi ir pessoalmente?" O braço direito sorriu. "Eu cansei de ficar me escondendo, Ivan. E, além disso, é o meu trabalho. Não posso deixar que o que aconteceu me impossibilite profissionalmente."

Mário permaneceu na mansão o tempo suficiente para que seu Chefe escrevesse a mensagem e depois retornou para sua própria residência. E apesar da autoconfiança que transpareceu anteriormente, no dia seguinte o ruivo sentiu um estranho frio na barriga quando deu partida no carro. Ele conhecia o caminho até a sede de Polícia, mas refazer aquele caminho era o mesmo que reviver aquela noite e isso o deixava incomodado. Ele disse que não queria mais me ver, mas eu estou indo a trabalho. Meu mundo não pode se adequar aos caprichos de Giulio. O braço direito inventava histórias para si mesmo, procurando explicar intimamente porque estava indo em pessoa realizar um trabalho tão trivial e que poderia ter sido designado para qualquer outro subordinado.

Os medos e anseios de Mário pareceram insignificantes quando ele chegou ao fatídico local de trabalho de Alaudi. O subordinado de nome Alfredo o recebeu com o carismático sorriso de sempre, e pareceu sinceramente chateado ao informar que o Guardião da Nuvem não estava no local e só chegaria depois do almoço. O ruivo confiou a mensagem de seu Chefe a Alfredo, sabendo que ele a entregaria. Todos idolatram aquele homem e não perderiam a chance de fazerem bonito na sua frente. Não havia melhor desculpa do que realmente não encontrar o Vice-Inspetor de Polícia, mas ao sentar-se novamente no banco do carro, o braço direito tentou disfarçar o desapontamento por ter perdido tanto tempo pensando em possíveis encontros, quando a realidade lhe mostrou o quão infantil e ilusório aquilo parecia.

O retorno à propriedade foi mais rápido do que a ida, e ao entrar na mansão a primeira pessoa que encontrou foi Giuseppe. O rapaz tinha uma triste expressão em seu rosto e não era preciso perguntar para saber o que estava acontecendo. Francesco o está evitando, tenho certeza.

"Ele já desceu para tomar café?"

"O jovem Chefe nem se quer respondeu quando eu bati na porta." A voz do louro saiu quase um sussurro. "Quando tentei abrir a porta ela estava trancada por dentro. Fran-, o jovem Chefe nunca tranca a porta!"

Você está sendo muito dramático. Mário pousou a mão no ombro do irmão antes de subir, virando levemente o rosto ao chegar ao meio da escadaria e observando o louro afastar-se quase se arrastando. Eu não quero estar aqui daqui a dez anos quando Francis aparecer com uma namorada. Giuseppe precisa de uma boa mulher para esquecer certas coisas. O ruivo parou em frente à porta do quarto do futuro Chefe dos Cavallone, batendo duas vezes e mostrando-se presente.

"Francesco, abra a porta." A voz soou baixa, mas o suficiente para que o garoto escutasse. "E eu não sou Giuseppe. Se você não abrir eu irei arrombá-la e depois contarei ao seu pai porque precisei derrubar a porta."

Em menos de cinco segundos o barulho da chave girando na fechadura fez o braço direito sorrir vitorioso. Uma pequena vitória depois de centenas de derrotas. O rostinho sonolento do garoto de cabelos castanhos surgiu em uma pequena fresta, e Mário ergueu uma sobrancelha.

"Deixe-me entrar, precisamos conversar."

"Papà já conversou comigo." A voz de Francesco saiu arrastada. "Ele disse que eu não posso mais visitar Alaudi. Eu já sei que fiz coisa errada, então não precisamos conversar."

O ruivo suspirou e ajoelhou-se, ficando na altura da criança, ou melhor, da metade do rosto que o encarava com desconfiança.

"Mas eu garanto que seu pai não lhe contou o porquê de você não poder visitar seu amigo, certo?"

Aquela irresistível isca foi acompanhada de uma piscadela e um sorriso. A porta foi escancarada no mesmo instante, e Francesco colocou a cabeça no corredor, olhando para os lados freneticamente antes de puxar Mário para dentro do quarto.

"Você pode entrar. Giuseppe não! Eu nunca mais quero vê-lo. Você é meu braço direito agora, Mário!"

Oh irmão se você pudesse ouvir isto! O ruivo riu consigo mesmo imaginando que o louro teria certamente chorado se escutasse aquelas cruéis e infantis palavras. Isso só prova o quão despreparado você está para este trabalho, Giuseppe.

"Então, por que não posso visitar Alaudi?" O futuro Chefe dos Cavallone havia se sentado em sua bagunçada cama. "Papà apenas disse que era errado e que eu não deveria fazer mais isso. Mas por quê?"

"Você vai ter de guardar segredo, acha que consegue? Por que se eu te contar e seu pai descobrir eu terei de ir embora." O braço direito esboçou sua melhor expressão dramática.

"Francis não dirá nada! Eu prometo!"

Mário sentou-se ao lado do garoto, tirando uma mecha castanha que estava sobre os olhos cor de mel. A janela do quarto estava aberta e a claridade permitia que ele pudesse ver sua companhia. Francesco era uma cópia exata de Ivan. O ruivo se recordava muito bem da infância na propriedade, e o menino gentil e educado que costumava ser sua companhia de brincadeiras era uma versão de cabelos negros do garoto sentado ao seu lado. Francesco é hiperativo e inconsequente. Ivan era mais quieto e ponderado. Aquela personalidade só poderia ter vindo de Graziella, mas era difícil imaginar aquela bela e gentil mulher fazendo pedidos egoístas e extravagantes como o filho fazia.

"Seu pai e Alaudi tiveram um pequeno desentendimento. Não foi uma grande briga, mas eles se afastaram por um tempo."

"Por que?" Os olhos cor de mel exigiam uma explicação melhor do que aquela.

Porque Alaudi é idiota, Francis. Porque ele está jogando o melhor partido da Itália pela janela e porque seu pai foi se apaixonar por um cubo de gelo. "Eu não sei, mas o motivo não interessa. Seu pai não quer que você se aproxime de Alaudi até que ele resolva a situação."

"E quando será isso? Hoje? Amanhã? Eu não fiz nada, por que não posso vê-lo? Ele não virá me visitar mais?"

"Eu não sei quando Ivan resolverá esse assunto, mas enquanto isso você precisa obedecê-lo." Vamos todos torcer para que seu pai conheça uma bela jovem estrangeira que te dê mais cinco ou seis irmãos e assim você esquecerá o Guardião da Nuvem dos Vongola porque estará ocupado demais pentelhando os pequenos. "Você não precisa se sentir sozinho, Francis. Giuseppe estará sempre ao seu lado."

"Giuseppe contou ao meu pai sobre meus passeios. Ele não é meu amigo. Amigos não deduram os outros."

"Você está certo, amigos não deduram os outros, mas ontem ele não foi seu amigo, Francis." O ruivo passou a mão pelos cabelos castanhos. Eles eram finos e levemente encaracolados nas pontas. Exatamente como os da mãe. "Ontem ele foi seu braço direito e foi seu dever reportar o que estava acontecendo. Você é apenas uma criança e não sabe muito sobre as coisas da vida, então é obrigação de Giuseppe zelar por sua segurança. Diga-me, o que você faria se algo tivesse acontecido nesses passeios? Se alguém os tivesse atacado?"

"E-Eu protegeria todo mundo! E Peppe também!"

"Este é o trabalho dele, não o seu. Quando o assunto for trabalho, Francis, ele não poderá ser o seu amigo e, às vezes, Giuseppe terá de tomar decisões que você não irá gostar. Você vai ficar chateado e magoado com ele, exatamente como você está agora, mas no fundo você sabe que ele fez o que tinha de fazer, não é?"

O futuro herdeiro dos Cavallone mordeu o lábio inferior e balançou as perninhas no ar. Mais uns cinco ou seis anos e ele já conseguiria tocar o chão. Quantos anos até ele começar a trazer companhias para este quarto? A imagem de seu irmão deixando a mansão com aquela expressão triste fez com que o braço direito suspirasse. As coisas só vão piorar conforme o garoto for crescendo. Talvez fosse melhor se Francesco tivesse outro braço direito por um tempo.

"Mário..." A voz do garoto trouxe o ruivo de volta a realidade. "Se Peppe me protege, quem protege Peppe?"

Aquela pergunta possuía menos inocência do que o braço direito gostaria de pensar. A resposta "ninguém" estava na ponta de sua língua, mas ele não conseguiu pronunciá-la. O cargo de braço direito não era algo que eles conseguiram apenas por terem crescido junto com os Cavallone, ou porque os pais de ambos eram grandes amigos. O próprio Mário teve treinamento dos treze aos dezoito anos, e quando Ivan assumiu a família após a morte do pai e com isso criou a Família Cavallone, o ruivo estava preparado para dar sua vida àquele homem. Giuseppe passou por treinamento parecido, começando pouco depois do nascimento do pequeno. Suas visitas à mansão eram esporádicas e no aniversário de quatro anos de Francesco ele assumiu oficialmente o cargo de braço direito, mesmo que aquilo fosse mais teórico. Na prática o belo rapaz de cabelos louros era mais uma babá do que um guarda-costas.

"Você não deveria se preocupar com isso, Francis. Como eu disse, é trabalho de Giuseppe garantir que nada de ruim lhe aconteça."

"M-Mas e se algo acontecer ao Peppe?" Havia medo naqueles olhos. O futuro herdeiro dos Cavallone levantou-se e parou em frente a Mário. Suas mãozinhas estavam juntas ao peito, como se ele guardasse algo em seu coração. "O que eu farei se algo acontecer ao Peppe?"

Não chore! Não chore! O braço direito não acreditava que a conversa havia seguido para aquela direção. Até poucos segundos ele havia se tornado o novo subordinado favorito de Francesco e de repente Giuseppe retornava? Por que as pessoas o estavam deixando em segundo plano?

"Se você se preocupa tanto, por que não abriu a porta quando ele veio chamá-lo para o café?"

Não houve resposta. Francesco abaixou os olhos e corou.

"Sabe, Giuseppe estava muuuuito triste quando eu o encontrei nas escadas. Por quanto tempo você vai tratá-lo desse jeito, Francis? Ele está realmente preocupado com você."

Eu vou para o inferno por isso. Mário apoiou a mão sobre a cabeça do pequeno, sabendo exatamente o tipo de briga interna que Francesco travava naquele momento. O garoto ainda estava chateado por ter sido dedurado, mas a ideia de que algo pudesse acontecer a Giuseppe havia feito aqueles primeiros sentimentos serem abalados. Ele é muito transparente, como o pai. Ivan nunca foi bom em guardar rancor.

O futuro herdeiro ergueu os olhos e eles estavam levemente úmidos. O braço direito dos Cavallone abriu a boca para dizer qualquer coisa que evitasse que o pequeno chorasse, mas antes que as palavras pudessem ser ditas, Francesco saiu do quarto às pressas e naquele momento o ruivo soube que seu irmão ficaria pisando em nuvens pelo resto do dia. Mário levantou-se e caminhou até a janela, a tempo de ver o garoto saindo da mansão e gritando por Giuseppe. O louro estava sentado em um banco bem embaixo da janela do quarto, e assim que viu seu futuro Chefe o chamando, ele ficou em pé e a primeira coisa que deixou seus lábios foi um pedido de desculpas. Francesco não pareceu ouvir, jogando-se nos braços do louro e o abraçando. A última coisa que o ruivo ouviu antes de sair da janela foi o pequeno prometendo que "Cuidarei de você, Giuseppe, não se preocupe. Para sempre!". Não dê esperanças ao idiota, Francis. Ele já vai se iludir por si mesmo. Mário deixou o quarto e soltou um longo suspiro, pensando no trabalho que teria de organizar antes da próxima viagem. Deve ser bom... poder se iludir desse jeito.

O braço direito de Ivan não teve muito tempo para pensar em ilusões. Um Chefe do sul do país iria se juntar a reunião que eles participariam, e como a reputação do homem não era das melhores, o ruivo precisou dobrar seu plano com relação à segurança de seu Chefe. Grupos foram remontados, subordinados remanejados e durante dois dias ele avaliou o trabalho dos seguranças e escolheu dividir igualmente quem ficaria e quem iria com eles para a viagem. Eu não posso deixar o pequeno desprotegido. Giuseppe estará aqui, mas ele só tem dezessete anos. Precisará de apoio se alguma coisa acontecer. A divisão foi feita um dia antes da viagem e aqueles subordinados que acompanhariam Ivan ganharam o restante do dia de folga para descansarem, pois precisariam estar alertas no dia seguinte.

A viagem seria em solo italiano, mas Mário não perdeu o foco de sua missão. Ele esteve o tempo todo ao lado de seu Chefe, e seus olhos não saíram do tal homem em nenhum instante. Os únicos momentos em que o ruivo conseguia relaxar eram quando retornavam ao Hotel, mas isso significava que ainda haveria trabalho antes que eles voltassem para casa. A estadia em Napoli deveria durar uma semana, mas o braço direito dos Cavallone conseguiu mudar a agenda e transformar os sete dias em quatro e meio. Quando Ivan soube que já poderia retornar para casa, ele abraçou o amigo e o convidou para comemorarem com vinho e outras bebidas.

"Eu terei de recusar. Só vou me sentir seguro quando sairmos desta cidade. Alguém precisa estar sóbrio se acontecer um ataque. Beba e aproveite a noite, Ivan."

Os Cavallone deixaram o Hotel na manhã seguinte e Mário foi responsável por dirigir o moreno. Eles passariam o dia na estrada, mas a cada metro rodado, significava um metro perto de casa. O moreno encarava a janela e tinha um tolo meio sorriso nos lábios. Ele está pensando em Francesco. Eu adiantei a agenda para que ele pudesse voltar para o filho. Está cada vez mais difícil para Ivan deixar o pequeno. Talvez seja hora de começar a trazê-lo para as viagens. Aquele pensamento o fez juntar as sobrancelhas, imaginando o sermão que Giuseppe lhe daria caso isso fosse mencionado. Um dia Francis terá de sair da mansão e será uma briga. Mário balançou a cabeça e acendeu a luz de dentro do veículo. A noite havia chegado e eles ainda não estavam em casa.

O carro foi estacionado em frente ao chafariz com os dois cavalos alados, e a chacoalhada do veículo fez o moreno abrir os olhos, despertando de seu cochilo. Giuseppe desceu a pequena escadaria e aproximou-se do carro, abrindo a porta e cumprimentando o dono da casa com um largo sorriso.

"Você ainda está acordado?" O ruivo perguntou surpreso.

"Eu estava ocupado." O louro tinha as bochechas coradas. "Ivan, você tem visita. Eu tomei a liberdade de permitir que ele utilizasse seu quarto, então espero que minha atitude não tenha sido petulante. Ele está com Francesco."

O braço direito não teve tempo de sair do carro. Ivan correu na direção da mansão, subindo os degraus de dois em dois e praticamente invadindo a entrada. O ruivo não precisou adivinhar para saber quem era "ele". O sorriso no rosto de Giuseppe e a maneira completamente descontrolada com que seu amigo havia corrido só poderia significar uma coisa: Alaudi. Ele agiu como um jovem que não vê a namorada há anos. Onde estava todo aquele autocontrole?

Giuseppe anunciou que dormiria na mansão e Mário entrou novamente no carro, despedindo-se do irmão e seguindo para sua casa. Ele só poderia imaginar como sua vida seria dali em diante, e que provavelmente haveria uma grande mudança logo na manhã seguinte. Como aquele homem teve a ousadia de rejeitar Ivan e depois aparecer como se nada tivesse acontecido? O ruivo desejou que seu amigo fosse menos bobo e mais pulso firme. Eu jamais o teria aceitado. Eu o teria enxotado da casa e diria que nunca mais o veria. Que absurdo! Você não brinca com os sentimentos dos outros por capricho. Eu jamais– Mário parou o carro e encarou o volante. Ele estava em frente a sua própria casa e alguma coisa naqueles pensamentos não parecia certo. A imagem de Giulio e o som daquelas palavras ríspidas e grosseiras eram tudo o que ele conseguia ver ou ouvir. Aquela amarga e cruel recordação o fez soltar um pouco a gravata de seu pescoço e recostar-se melhor ao banco. O teto do carro era baixo, mas ele não reparou nesse detalhe. Seus olhos se fecharam e o ruivo suspirou. Eu gostaria que ele procurasse também...

X

Mário já previa o que aconteceria no dia seguinte, mas não foi nem um pouco agradável ver o Guardião da Nuvem dos Vongola. Ele e Giuseppe estavam ao pé da escada quando Ivan surgiu ao lado de Francesco, caminhando junto de Alaudi. O jovem rapaz de cabelos louros tinha sua usual trança, e assim que viu os três descendo, seu corpo abaixou-se um pouco e ele fez uma polida reverência. O garoto desceu primeiro, rindo, sorrindo e arrastando Giuseppe para a sala de jantar. O ruivo não tirou os olhos do Inspetor de Polícia, sentindo um misto de antipatia e desdém. Você merece coisa melhor, Ivan.

"Mário." O moreno o chamou com um sorriso, entregando-lhe um pedaço de papel.

O braço direito meneou a cabeça e desejou um falso "ótimo" café da manhã antes de se retirar. O papel na verdade eram dois papéis: um dentro do outro. O primeiro continha o nome de Mário e a instrução de que o segundo papel deveria ser colocado dentro do carro de Alaudi. Eu não acredito que farei isso! Eu deveria deixar um ameaça de morte para aquele homem e não bilhetes de amor. Ivan, o que você está fazendo?

O carro do Guardião da Nuvem havia sido levado para a parte de trás da casa, e o ruivo só se deu ao trabalho de ir buscá-lo após alguns minutos. Ivan deixou a mansão ao lado do louro, e o braço direito saiu do carro e caminhou até Alaudi, entregando-lhe a chave. Eu definitivamente nunca gostarei desse homem. Mário permaneceu ao lado de Giuseppe, tentando não revirar os olhos ao ver a maneira como seu Chefe e melhor amigo se comportava na frente do amante. Porque não existe dúvida de que o idiota conseguiu fazer Ivan ficar novamente apaixonado. Bem, ele provavelmente nunca deixou de amar aquele homem, mas aceitá-lo assim tão facilmente é burrice! Quando o carro do Guardião da Nuvem deixou a mansão, o ruivo conseguiu finalmente suspirar, mas ele não se moveu. Seus olhos verdes estavam fixos no moreno e na maneira como ele encarava o caminho que Alaudi havia percorrido. Seus olhos cor de mel brilhavam e havia um tolo e sincero meio sorriso em seus lábios. O braço direito abaixou os olhos e se retirou. Ele não estava em seus melhores humores para ver felicidade.

A rotina do ruivo como motorista retornou. Ivan não precisou comunicar oficialmente que havia se entendido com Alaudi. Os dois amigos apenas se olharam e o sorriso do moreno disse tudo o que Mário já sabia. Entretanto, dois dias depois da visita do Guardião da Nuvem o Chefe dos Cavallone anunciou que iria para Roma e ao ver seu braço direito no banco do motorista, Ivan pareceu desconfortável.

"Eu posso pedir para Carlos me dirigir. Não se sinta obrigado a me acompanhar, Mário. Eu entenderei se não quiser ir."

"Entre de uma vez, Ivan. Você me ofende falando desse jeito. É meu trabalho afinal de contas. Vamos, vamos."

O moreno entrou, mas não pareceu muito feliz. Mário mentiria se dissesse que estava fazendo aquilo por livre e espontânea vontade, mas aquela situação ridícula já se estendia por muito tempo. Se Giulio estivesse no prédio, provavelmente não iria querer vê-lo então não havia nada o que temer. E se por acaso eles se encontrassem, o ruivo estava preparado para agir como se nada tivesse acontecido. Não existe nada que eu faça melhor do que isso. Bem, fora o meu trabalho, claro! O caminho até Roma foi feito sem nenhum transtorno, mas assim que pisaram na sede de Polícia, cerca de quatro homens apareceram e renderam o Chefe dos Cavallone, algemando-o e pedindo que ele não falasse nada. Alfredo era um deles, e o subordinado ria enquanto se desculpava, dizendo que aquelas ordens haviam sido do Inspetor de Polícia.

Alaudi apareceu poucos segundos depois. Seu rosto estava sério e ele olhou para Ivan com uma mistura de embaraço e raiva. Mário revirou os olhos e desejou sorte ao seu amigo antes de sair do local, avisando que passaria o tempo em algum outro lugar. Ele sabia muito bem porque o moreno estava naquela situação e para ser sincero, era bem merecido. Pelo menos Alaudi sabe colocá-lo na linha, e eu não precisarei ficar por aqui.

Quando retornou para buscar Ivan, o braço direito permaneceu no carro, imaginando até quando ele se sentiria incomodado em fazer aquele trajeto. Se o relacionamento entre o moreno e o Guardião da Nuvem fosse se prolongar, uma hora ele teria de aceitar o fato de que um encontro com o Vice-Inspetor de Polícia seria inevitável, então o quanto antes isso acontecesse melhor. Aquela resolução tornou-se mais forte no dia seguinte, e no seguinte e no decorrer daquelas duas semanas. Porém, em nenhum desses dias Giulio deu o ar da graça. As visitas do Chefe dos Cavallone ao louro eram diárias, e muitas vezes Francesco também os acompanhava. O garoto havia se apegado muito a Alaudi, e foi impossível para Mário não notar como ele mudara depois que seu círculo social se expandiu. Francis costumava ser um garoto reservado e não muito inclinado à pessoas, mas ele não se importa de estar perto daquele homem. Quando o futuro Chefe dos Cavallone vinha visitar a sede de Polícia, Giuseppe estava fielmente ao seu lado e nesses dias o ruivo tinha companhia para passar o tempo. Nos outros dias a única companhia do braço direito era sua consciência.

O trabalho tirou Ivan do país por alguns dias e devolveu a paz de espírito que Mário precisava. Portugal nunca pareceu tão belo e confortável quanto naquela curta viagem. O ruivo não fez nada além de seguir o moreno como uma sombra, mas qualquer coisa parecia mais agradável do que esperar impacientemente por uma pessoa que nunca apareceria. Retornar para Roma foi penoso, mas o mesmo trabalho que tirou o Chefe dos Cavallone do país seria responsável por ocupá-lo por algum tempo. A quantidade de relatórios e cartas que precisavam ser lidos era absurda, e Mário sentiu um pouco de pena de seu amigo quando ele entrou em seu escritório e encarou as pilhas de papéis. Ele vai ficar ocupado por um tempo e eu usarei esse tempo para sair. Eu preciso de companhia ou vou acabar criando teias de aranha. É hora de voltar para a noite. Desde a partida de Jules o ruivo não havia dormido com outra pessoa, e fantasiar com Giulio era extremamente excitante e prazeroso, mas ele precisava de algo real. Ele tem um rosto comum, então não vai ser difícil achar um substituto.

"Eu quero que entregue uma mensagem a Alaudi. Acha que pode fazer isso esta tarde?"

Os pensamentos pecaminosos do ruivo desapareceram como nuvens que se dissipam em um céu azul de verão. Em um minuto ele estava se imaginando sendo dominado por um belo moreno de olhos verdes, para no outro ouvir que teria de pisar naquele lugar repugnante ainda naquele dia. Originalmente seus planos para aquela tarde eram... nada.

"Como quiser, Ivan."

O braço direito deixou a mansão logo após receber o bilhete, querendo o quanto antes se ver livre daquele problema. O caminho todo foi feito com a cabeça em outro lugar, lembrando-se dos bares que poderia visitar e dos amantes que já havia conhecido, tentando se recordar se algum deles poderia servir para o que ele queria fazer naquela noite. A última vez que ele se permitiu ser envolvido por outro homem foi há quase um ano, e a experiência havia sido mediana. Poucos homens sabiam fazer as coisas certas, por isso Mário optava por ser ativo. Ele sabia exatamente onde tocar para obter uma reação. As fantasias com o Vice-Inspetor de Polícia começaram a povoar sua mente muito antes da rejeição chegar aos seus ouvidos, mas havia uma colossal diferença entre se tocar ao pensar na pessoa e ser tocado por essa mesma pessoa. O homem das minhas fantasias está sempre sorrindo. Ele nunca fala. Não. Ele não pode falar. Eu nunca mais quero ouvir aquela voz. Lembrar-se das duras palavras de Giulio fez o ruivo se arrepiar, lançando um olhar desanimado para a sede de Polícia.

Mário entrou no local e cumprimentou Alfredo educadamente, avisando que tinha uma mensagem de seu Chefe. O subordinado parecia não se importar em ser avisado e o braço direito percebeu que a intimidade entre os Cavallone e a Polícia era uma estranha e confusa amizade. O ruivo seguiu para o segundo andar, cumprimentando aqueles que cruzavam seu caminho como se fossem velhos conhecidos. Eu conheço praticamente todos aqui. A porta da sala de Alaudi estava fechada e foi com duas batidas que Mário anunciou sua presença. A voz do outro lado pediu que ele entrasse e mesmo não querendo, o ruivo respirou fundo e girou a maçaneta.

O Guardião da Nuvem estava sentado atrás de sua mesa, e assim que o braço direito entrou, seus olhos azuis se ergueram e sua expressão mudou totalmente. Os lábios finos tornaram-se ainda mais finos, o olhar tornou-se carregado e de repente o clima ficou pesado e nem um pouco amigável. Ele me ama como eu o amo. Somos perfeitos um para o outro! O ruivo entrou e disse um baixo boa tarde por mera educação, retirando o pequeno envelope de um dos bolsos do terno e entregando-o para Alaudi. O louro segurou o envelope e não ofereceu um segundo olhar ao homem que estava em frente à sua mesa, lendo o conteúdo da mensagem como se nada no mundo pudesse lhe interessar. Frio, muito frio.

"Obrigado pela mensagem." O louro ergueu momentaneamente os olhos

"Não pretende responder? Eu posso aguardar." O braço direito sorriu e apontou para uma das cadeiras vagas que estava no escritório. Ele podia sentir que o Inspetor de Polícia estava incomodado com sua presença e nada lhe daria mais prazer do que prolongar aquele sofrimento.

Alaudi pareceu pensar por um instante, pegando um pedaço de papel e se colocando a escrever.

"Eu espero que seu interesse e cordialidade sejam porque a mensagem é diretamente para seu Chefe." A voz do Guardião da Nuvem saiu baixa.

Mário escolhia aonde iria se sentar quando aquelas palavras chegaram aos seus ouvidos. Seus lábios se alargaram em um sorriso e o gosto da vingança era doce em sua boca. Alguém está com ciúme.

"Oh, você é direto. Eu gosto disso." O ruivo tocou o encosto de uma das cadeiras, mas não se sentou. Os olhos verdes estavam fixos na pessoa localizada atrás da mesa. "E eu possuo outros interesses. Porém, meus sentimentos em ajudar Ivan são genuínos, acredite."

"Sentimentos?" O louro assinou o papel, dobrou-o e ergueu os olhos azuis. Havia indiferença e algo muito parecido com raiva.

"Terminado?" O braço direito dos Cavallone aproximou-se e segurou o papel entre seus dedos. Seu corpo projetou-se um pouco à frente, o suficiente para que ele encarasse bem de perto o belo rosto de sua companhia. "Você está com ciúme?"

"Eu não sei do que você está falando." Alaudi respondeu em tom monótono, mas seus olhos não mentiam. Os lábios podem mentir, mas os olhos sempre dizem a verdade.

"Vou direto ao assunto: você tem algo que eu quero." Mário guardou o pedaço de papel dentro do terno escuro. Se eles estavam jogando aquele jogo então era hora dele começar a colocar as cartas na mesa. "E eu não vou desistir até conseguir."

Aquelas palavras não foram totalmente verdadeiras. O braço direito de Ivan não tinha nenhuma esperança em ter seu final feliz com Giulio, mas ele não perderia a oportunidade de provocar o Inspetor de Polícia. Aquele homem frio e indiferente havia brincado com os sentimentos de seu melhor amigo, fazendo-o de palhaço por muito tempo. O moreno tinha uma personalidade bondosa e aparentemente no que se referia a Alaudi, o Chefe dos Cavallone se tornava ainda mais mole. Alguém precisa colocar um freio nisso ou esse homem vai pintar e bordar com o coração de Ivan. Eu nunca permitirei isso.

"Você está perdendo seu tempo." O Inspetor de Polícia abaixou os olhos e voltou ao seu relatório. "Porque eu não tenho intenção alguma de dá-lo a você. E se tocar no que é meu, eu o matarei."

O sorriso desapareceu dos lábios de Mário e a cena da rejeição de Giulio reapareceu em sua mente tão vívida que ele podia até mesmo sentir o cheiro da colônia que o homem usou naquele dia. Diante de seus olhos estava uma das pessoas mais sortudas do mundo, e tudo o que ele fazia era agir com desdém, como se merecesse ter tudo. Não era justo. Não era justo que Alaudi tivesse o amante e o amigo, e o ruivo precisasse ouvir que não passava de lixo. "A única diferença entre você e uma prostituta é que no final da noite ela recebe em espécie. Eu detesto esse tipo de gente, baixa e suja. Agora saia, eu não quero mais vê-lo."

Não é justo. Eu fiquei com nada. Você roubou meu amigo e se você não tivesse aparecido minha vida não teria mudado. Eu estaria com Jules e seria amado e não estaria aqui perdendo meu tempo com um tipinho feito você.

"Você não pode ter os dois!"

O braço direito nunca elevava seu tom de voz. Nesse quesito ele e Giuseppe eram muito semelhantes. Os únicos momentos em que perdiam o controle eram quando sentiam que se não gritassem acabariam retirando a arma da cintura e resolvido o problema com uma bala. A escolha de Mário foi deixar sua frustração sair em forma de palavras ao invés de fazer algo que o faria se arrepender pelo resto de sua vida. Aqueles sentimentos deixaram seu peito e lábios, e o fizeram sentir-se mais leve, como se durante aqueles meses aquilo fosse exatamente o que ele queria ter dito. Seu coração batia mais rápido e sua atenção estava totalmente na expressão surpresa do Guardião da Nuvem. A porta do escritório foi aberta e o dia de Mário tornou-se infinitamente pior.

"Desculpe, eu não sabia que tinha companhia, Alaudi." Giulio abriu a porta e olhou de Mário para seu Chefe.

Deus, não! O ruivo sentiu como se de repente o chão do escritório houvesse desaparecido. A sensação exata era indescritível e não havia palavra ou expressão que pudesse resumir o que seu corpo inteiro sentiu ao rever o moreno depois de tanto tempo. O homem estava exatamente como ele se lembrava: o mesmo corte de cabelo, a mesma expressão séria e o mesmo cheiro. A colônia do Vice-Inspetor fez Mário se arrepiar, mas também foi responsável por trazê-lo a realidade. Eu preciso sair daqui. Eu nunca deveria ter vindo.

"Nós já ter-" Alaudi tomou a voz da situação.

"Eu já estava de saída." A voz do braço direito dos Cavallone cortou a fala do Guardião da Nuvem. O ar presunçoso e a autoconfiança que ele demonstrara até aquele momento pareciam ter se dissipado. Ele se sentiu novamente com doze anos, completamente inexperiente e indefeso. "Eu repassarei a mensagem ao meu Chefe. Ele espera vê-lo no fim de semana. Com licença." Os olhos verdes do braço direito dos Cavallone se abaixaram e com uma polida reverência ele deixou a sala.

Seus passos ecoaram pelo piso de madeira do segundo andar e ele desceu as escadas com uma pressa absurda. A figura de Alfredo surgiu antes que Mário deixasse a sede de Polícia, mas ele apenas meneou a cabeça antes de ganhar a calçada, entrando em seu carro e saindo daquele local rapidamente. Ruas, quarteirões, lojas, Cafés e restaurantes... O ruivo não viu nada, somente a estrada e o caminho para casa. Deixar o centro de Roma foi a melhor coisa que ele fez naquele dia, e quando o veículo estava longe o bastante para o entorno ter se transformado apenas em uma bela paisagem verde, o braço direito dos Cavallone parou o carro e abriu a porta. Era difícil respirar. Era difícil pensar. Era difícil manter a compostura. As mãos de Mário tremiam e ele suava frio. Seu estômago dava voltas e pela primeira vez na vida ele não soube o que fazer. Pela primeira vez ele não sabia qual seria o próximo passo.

X

Os dias passaram como deveriam passar. O tempo e o trabalho não esperaram que o ruivo tomasse uma resolução ou esquecesse o que havia acontecido no escritório de Alaudi. Suas manhãs e tardes eram passadas ao lado de Ivan, revisando relatórios, marcando reuniões ou simplesmente sentado no escritório da mansão observando seu Chefe e melhor amigo trabalhar. À noite o braço direito retornava para sua casa e depois de um banho e um jantar quente ele ia direto para cama. O sono, porém, não chegava. Por horas e horas ele encarou o mesmo teto, as mesmas paredes e a mesma paisagem através de sua janela. Quando permanecer no quarto tornava-se impossível, Mário descia para a cozinha e fazia chá ou café. As horas mesmo de sono eram poucas, cerca de duas ou três horas. Ele estava de pé antes do sol nascer, e então mais um dia começava.

Aquela rotina se repetiu por um tempo indeterminado. Horas se tornaram dias, dias se transformaram em semanas e a mudança do mês trouxe o auge do rigoroso inverno italiano, cobrindo o jardim com uma capa de fina neve. As copas das árvores estavam brancas, as cercas úmidas, mas nada parecia mais frio do que o humor do ruivo. Naquelas semanas pouco havia acontecido. Seu trabalho de dirigir o moreno até Roma continuou, e por quatro vezes ele encontrou-se com Giulio. A primeira vez ainda o surpreendeu levemente, mas as outras três já não o deixavam nervoso ou ansioso. Seus lábios só se moviam para transmitir um polido cumprimento, mas seus olhos verdes estavam sempre fixos no chão. Os encontros sempre duravam segundos, e os dois sempre se encontravam em corredores ou escadas, não criando a possibilidade de algo mais profundo. Ivan esteve ao seu lado em todos esses momentos, mas o braço direito nunca ousou perguntar a opinião de seu amigo. Ele não pode me ajudar, ninguém pode. O único momento em que os dois conversaram foi em um final de noite, quando o moreno lhe confidenciou sobre o passado de Giulio. Mário havia terminado de beber meia garrafa de vinho, e as palavras atingiram seus ouvidos e o fizeram rir de maneira ousada. Não era felicidade. Era impossível, simplesmente impossível!

"Então ele encontrou a noiva na cama com outro homem?" O ruivo tinha o rosto vermelho de tanto rir.

"Por que você está rindo?" O Chefe dos Cavallone olhou seu amigo com assombro. "Eu achei que você ficaria surpreso, mas não que iria... rir. Mário, o assunto é sério."

"Perdoe-me, Ivan, mas eu não consigo evitar." O braço direito enxugou uma lágrima que escorria pelo canto de seu olho esquerdo, continuando a rir. Sua taça de vinho tornou-se cheia novamente e ele deu um longo gole. A bebida desceu cortante e o riso morreu quando o líquido terminou. Quando seus olhos voltaram a encarar Ivan, a graça havia acabado. "Eu estraguei tudo, Depois de saber disso eu entendo porque mereci aquelas palavras. Giulio nunca me fez nada, eu já disse antes, a culpa foi toda minha."

"Isso aconteceu há anos. A vida continua para todo mundo, Mário. Ele não tinha o direito de te tratar mal. Eu não sei o que aconteceu, mas ninguém merece ouvir o que você ouviu. Foi cruel, foi frio... não foi humano."

"Eu acho que já não faço parte desse grupo, meu amigo." O ruivo ficou em pé, pousando a taça sobre a mesinha. "Eu estou realmente feliz por você. Eu nunca o vi tão contente e cheio de vida. Até Francis percebeu a diferença. Se aquele homem lhe faz feliz, então é tudo o que eu gostaria de saber. Mas não se preocupe comigo. Sua preocupação é desnecessária e não vai mudar nada. Agradeço por ter compartilhado a informação e peço licença para me retirar."

Ivan ainda tentou persuadir o amigo, mas desistiu após alguns minutos. O braço direito deixou a casa, mas não seguiu para seu carro. Era uma longa caminhada, ele sabia. Quando era mais jovem, ele e o Chefe dos Cavallone – naquela época apenas seu melhor amigo – costumavam cruzar aquela distância entre risos e sorrisos, correndo um atrás do outro ou simplesmente apostando quem chegaria primeiro. A noite estava fria, e o vento que tocava o rosto de Mário criava a estranha sensação de que a cada passo alguém o batia no rosto. Eu mereço. Eu mereço uma bela surra pelo que fiz. Onde estava com a cabeça quando pensei que Giulio não se importaria de ter um homem se aproveitando dele em uma situação como aquela? Meu erro. O ruivo seguia pela estrada mal iluminada, sem se importar que teria de caminhar cerca de quarenta minutos até sua casa. O céu não possuía estrelas ou lua. Não havia nada que o guiasse pelo caminho, e aquele pensamento o fez rir novamente, mas desta vez o riso morreu rápido. Não havia nada para rir, além de sua vergonha.

Mário não retornou mais a vida noturna de Roma. Ele mentiria se dissesse que em algumas noites não gostaria de companhia. Qualquer companhia. Mas sempre que pensava em sair, a recordação daquela amarga noite o lembrava que tudo aquilo só havia acontecido por ele ser como era. Jules passou por sua mente diversas vezes e o ruivo se pegou imaginando como teria sido se ele tivesse aceitado aquela inocente proposta. "Eu te amaria para sempre e você sabe disso." Ele estava falando a verdade. Jules estaria comigo neste momento se eu pedisse. Entretanto, ele não queria o francês. Quem Mário realmente queria era o sério e frio Vice-Inspetor de polícia, com sua pele morena e seus olhos verdes, sua falta de humor e seu tímido sorriso. Ele queria ouvir novamente aqueles doces gemidos enquanto oferecia prazer àquele homem, queria sentir aquelas mãos afagando-lhe o rosto e dizendo o quão belo o ruivo era. Ele queria voltar no tempo e reviver aquele dia, para nunca ter deixado sua casa naquela noite.

Era um frio e nublado domingo. A neve havia caído com mais força durante a noite, e alguns subordinados precisaram removê-la dos caminhos principais da mansão. A casa estava vazia, deserta e levemente triste. Os proprietários estavam no centro de Roma desde a sexta-feira e só retornariam na terça-feira. Ivan deixou a mansão ao lado de Francesco e o destino era a casa do Guardião da Nuvem dos Vongola. O braço direito tentou persuadir seu Chefe, dizendo que a ideia era perigosa, mas no fundo ele sabia que estava apenas fazendo seu discurso de praxe, pois o moreno não iria ouvi-lo. A ordem de Mário foi que alguns subordinados vigiassem a casa do louro, mas sem serem notados. O próprio ruivo faria isso, mas alguém precisava comandar o restante da limpeza da neve, então ele se prontificou a ficar para trás.

O trabalho era mais maçante do que parecia. Dar ordens e fiscalizar o andamento conseguia ser pior do que horas em uma sala com Chefes mal-humorados e mal-educados. A manhã passou branca e gelada. Não importava para onde ele olhasse, a neve parecia dominar pouco a pouco a propriedade. O caminho principal, do portão até a mansão, havia sido limpo depois de muito custo. Os homens responsáveis pela limpeza pareceram exausto e o ruivo achou que aquilo era suficiente. Contanto que Ivan conseguisse retornar, os outros caminhos poderiam esperar. O braço direito consultou o relógio de ouro que sempre carregava dentro do bolso do terno, percebendo que era hora de almoçar. Os subordinados comeriam na mansão, mas Mário seguiu até seu carro, torcendo para que o caminho até sua casa estivesse liberado. Com a partida de Francesco para Roma, Giuseppe havia ficado triste e desanimado, e o ruivo achou que seria injusto deixar o irmão almoçar sozinho.

O caminho estava escorregadio e em determinados lugares ele precisou parar e retirar a neve antes de prosseguir. A distância que geralmente levava menos de dez minutos acabou lhe roubando meia-hora, e quando avistou a entrada de sua casa, o braço direito apertou os olhos, curioso com relação ao veículo que estava estacionado na sua vaga. Eu não conheço esse carro, Mário parou logo atrás do veículo, abrindo a porta e revirando os olhos quando seus pés se atolaram em um monte de neve que chegou à altura de seus joelhos, encharcando seus caríssimos sapatos.

Os passos até a entrada da casa foram iguais e ao abrir a porta, o ruivo tremia de frio. O nome de Giuseppe foi chamado várias vezes, mas não havia sinal do belo rapaz louro em lugar nenhum. O ruivo entrou e retirou o terno, chamando novamente o irmão e dessa vez obtendo alguma reação. A porta do escritório foi aberta e Giuseppe saiu com um largo sorriso. O garoto de dezessete anos parecia realmente um garoto quando não estava vestido com roupas formais. Seus longos cabelos estavam presos a um delicado rabo de cavalo e sempre que o via tão simples, Mário não poderia ignorar o pensamento de que talvez toda aquela vida de máfia e funções importantes eram demais para uma pessoa tão gentil quanto Giuseppe.

"Nós estávamos te esperando." O braço direito de Francesco tinha uma xícara nas mãos. "Você tem visita."

Jules. A mente do ruivo foi preenchida com a imagem do francês, e automaticamente seus lábios se repuxaram em um meio sorriso. O braço direito de Ivan agradeceu ao irmão e seguiu na direção do escritório, esquecendo-se totalmente dos pés molhados e do frio que o fazia tremer. Em breve eu estarei quente. Eu nunca trouxe ninguém em casa por respeito a Giuseppe, mas terei de abrir uma exceção dessa vez. Eu amarei aquele rapaz o restante do dia e da noite. Os passos molhados ecoaram pelo assoalho de madeira escura. O ruivo entrou no escritório esperando sentir os braços de Jules ao redor de seu pescoço, mas tudo o que recebeu foi um olhar. Dois belos olhos verdes o encararam e naquele momento o braço direito desfez o sorriso que trazia nos lábios, voltando a sentir frio. A pessoa em seu escritório não era o sensual e charmoso francês. A pessoa que havia se levantado da poltrona quando ele entrou era o último ser humano que ele imaginou que entrasse um dia em sua casa. O carro. Eu conheço aquele carro. Eu apenas esqueci. Eu quis esquecer quem era o dono daquele carro.

"Desculpe por incomodar." Giulio tinha uma xícara nas mãos e foi impossível para Mário não se recordar da noite em que ele e Ivan beberam garrafas e mais garrafas de bebidas. O próprio ruivo havia se sentado na poltrona que o Vice-Inspetor estava ocupando e aquilo era irônico. Irônico e cruel. "Mas eu gostaria de conversar com você."

Continua...


p.s: O capt da semana que vem pode ou não ser adiado. Eu não progredi muito nessa semana que passou, então isso acabou atrasando tudo o que eu tinha planejado. Se o capt não for postado no próximo domingo, eu farei o possível para postar até a quarta-feira. Qualquer eventual problema eu deixarei uma aviso no meu profile. Peço desculpas, mas crises de criatividade são um porre ;-;