Capítulo 10 – A Flauta

Na calada da noite, o campus do colégio Cross já estava praticamente vazio... muitos alunos já tinham saído para as inesperadas férias. Entre o alojamento da noite e do dia vinha uma garota de cabelos compridos andando, com o rosto meio amassado de tantas lágrimas que há pouco tempo foram derramadas. Agora estava mais tranqüila, e vinha caminhando, sem rumo. Refletia sobre seu estado atual e o que deveria fazer quanto a ele. A velocidade dos acontecimentos fora tão grande nos últimos dias que mal tivera tempo para pensar direito sobre eles. Mas agora poderia processar, enquanto andava vagarosamente.

Há mais ou menos duas semanas atrás, era uma garota super normal (a exceção de desconhecer seu passado), monitora do colégio, onde tinha várias amigas. Era uma das poucas que sabia do segredo da Night Class, onde estudava o garoto que salvara sua vida aos 5 anos, pelo qual era com um órfão caçador em que, embora não de sangue, o considerava seu irmão.

Sua vida mudou completa e recentemente quando Shizuka, que deixou Zero órfão, reapareceu, trazendo consigo seu irmão gêmeo, e confundindo a cabeça de zero a ponto querer morrer se conseguisse matá-la. Conseguiu, e não morreu, porém lhe deixou confuso, e foi a partir daí que a história da garota começou a mudar.

Zero, seu irmão de criação, seu grande amigo, a beijou. Isso lhe deixou profundamente confusa, por nunca ter olhado daquela maneira o garoto. Para complicar ainda mais, fora buscar consolo com Kaname, o garoto a quem era apaixonada. Voltou a sua verdadeira forma, recuperou suas memórias, e descobriu que o garoto que tanto amava era o tempo todo seu próprio irmão! Que ironia... Parecia que os dois garotos da sua vida trocaram de "papel".

Piorando a situação, Zero ficou decepcionado... Provavelmente a odiava agora... Era uma pena, mal tivera tempo de saber o que sentia em relação a ele (como irmão ou como amor), e já tinha seu ódio eterno. Sem contar que agora tinha um tio psicopata querendo matá-la...

Há pouco tempo, fugira do alojamento do seu onii-sama, este não a entendia, e embora o amasse do fundo do coração, não queria estar perto dele no momento, queria estar só. Estava refletindo esse tempo todo no campus do colégio, mas agora tinha que fazer alguma coisa, queria falar com ele... Pedir desculpas, poder voltar a ser ao menos sua amiga...

Estava tanto tempo perdida nos pensamentos que nem percebeu que o colégio estava tão vazio... Provavelmente seu pai tinha cancelado as aulas, visto a confusão no colégio... Uma lágrima lhe cai dos olhos ao lembrar do pai... Não só do pai, mas de toda vida que tinha antes, que embora tão recente, parecia-lha tão distante... Lembrou-se de sua amiga Yori-chan, será que ela a aceitaria por ser uma vampira? Deveria contá-la...somente assim poderia saber... Decidiu então caminhar em direção ao alojamento do sol, provavelmente ela ainda estaria lá esperando preocupada por Yuuki antes de sair para as férias.

Enquanto andava, ouvia um lindo som de flauta, muito fraco o som, provavelmente só estava ouvindo-o porquê era vampira. Continuou a andar mesmo sem saber de onde vinha o som. Avistando de longe o alojamento, viu Yori-chan no portão. Caiu-lhe uma lágrima. Ela realmente esperou por Yuuki para saber o que estava acontecendo. Tinha uma ótima amiga. Foi andando até chegar lá. Pensava em como falaria com a amiga, era melhor não mostrar que estivera chorando há pouco. Talvez o melhor a fazer fosse falar com ela no seu jeito natural, alegre.

Quando finalmente chegou lá, pulou em cima da amiga dando um abraço animado, como antigamente sempre fazia...

- Yori-chan!!^^

-Oi...- Disse-lhe indiferentemente. Nem retribuiu ao abraço. Yuuki então notando esse comportamento estranho da amiga, se afastou um pouco.

-Yori-chan, você está bem? Está com raiva de mim?-hesitou um pouco. Antes de criar confusão era melhor dizer logo. Podia confiar nela.- Olhe, eu sei que você é uma grande amiga minha e devo lhe confiar quem eu sou, não contei antes porque eu mesma não sabia, é que...eu sou uma vampira...

-Hum... Eu já sabia... - Disse de novo indiferentemente. Yuuki olhou-a assustadoramente..

-mas... Como...?

-Você sabe... As notícias se espalham... - Disse no mesmo tom de voz. Yuuki não quis lhe perguntar mais, não tem como as "noticias terem se espalhado", porque só quem sabia da verdade eram kaname e os amigos dele... e o zero...Mas mesmo assim decidiu não discutir com Yori, provavelmente a amiga nem sequer tinha acreditado quando falou que era uma vampira e provavelmente estava blefando...provavelmente estava agindo assim porque estava com raiva de Yuuki de ter sumido sem dar avisos por vários dias, mas não discutiu, tinha outras coisas mais urgentes a fazer...

-Yori, sei que esta com raiva de mim, me desculpe, mas você sabe onde está o zero?

-Sei... Siga-me...

Então a seguiu. Yori nem entrou no alojamento, nem foi em direção ao alojamento da turma da noite, nem foi em direção as salas de aula, nem ao prédio do diretor. Foi em uma nova direção. Yuuki, embora morando no colégio e sendo monitora nunca viu este caminho, começou a pensar que estava saindo dos limites do colégio. Yori andava serenamente em sua frente, ate que chegaram em frente a uma floresta. Yuuki ficou preocupada, era de noite, tinham vampiros por todos os lados, não era seguro para Yori-chan. Mas por mais estranho que pareça, a garota não recuou, e entrou na floresta. Yuuki não quis argumentar com ela, se era lá que o zero estava, tinha que ir, então entrou também. Alem do mais, não tinham muitos riscos, já que era uma sangue-puro e os vampiros obedeceriam a ela, só temia de encontrar seu tio...Mas continuou, e quanto mais andava, mais forte ficava o som da flauta...

Estava muito escuro principalmente na floresta. Conseguia ver por ser vampira, mas Yori-chan deveria ter dificuldades! Porem caminhava tão bem como ela... A floresta era densa e um pouco difícil de passar, mas conseguiu avistar que estavam indo em direção a uma clareira...O som da flauta cada vez mais forte. Conseguia ver...na clareira...alguns túmulos..

- YORI, PARE!

-Que foi?

-Tem alguém ali. Alguém nos observando. Sinto. Ali, perto dos arbustos.

-Tem certeza?

-Vi uma coisa se mexer... Poderia jurar que vi...

Yori continuou como se não houvesse nada. Então Yuuki seguiu e finalmente chegaram na clareira. O que Yuuki pensava que eram túmulos, realmente eram túmulos. E não eram poucos. Era um verdadeiro cemitério. Tinham tantos túmulos que não dava para ver até aonde acabavam. Não sabia que tinha um cemitério no colégio Cross, se é que ainda estavam no colégio. Então começaram a andar por entre os túmulos. Estranhamente, o clima pesado do ambiente combinava com o doce som da flauta que se ouvia. Havia árvore entre algumas tumbas, e ao jugar pela aparência e abandono do cemitério, notava-se que era um bem antigo. Mas Yuuki teve a impressão de que já foi um cemitério bastante bonito e bem cuidado no passado.

Então teve a curiosidade de ver o nome das pessoas falecidas. Porem quando se aproximou de um tumulo, viu que não tinha nenhum nome escrito! Porque não tinha nome naquele túmulo? Então foi ver outro, mas também não tinha absolutamente nada!Alias, nenhum túmulo tinha nome, e isso era bastante estranho... Mas saber do porque zero estaria num lugar desses era mais importante do que saber do porque da ausência dos nomes, então continuou...

Depois de passarem por várias e várias lápides anônimas, elas chegaram à parte central. Provavelmente era das pessoas mais ricas porque o local era mais sofisticado, existiam 16 lápides feitas de ouro, no mais artístico possível a arquitetura das tumbas. Essa parte central estava separada por um cercado todo requintado das outras tumbas, onde se dizia em cima:

VIDA LONGA AOS REIS E RAINHAS KURAN

Yuuki petrificou depois dessas. Quer dizer que seus antepassados estavam enterrados ali? Entrou dentro do cercado. E dessa vez todos os túmulos tinham nomes, todos terminados em Kuran. Então se lembrou de quando seu onii-sama lhe disse, quando ainda não tinha perdido a memória, que existiram exatamente 16 reis Kuran, desde o primeiro ancestral Kuran, até seu avô, o último rei. Embora desde que a sociedade vampirica existe eram governados pelos Kurans, a existência de somente 16 era pelo fato de que, sendo sangue puro, viveram muito mais. Seus pais foram os primeiros Kurans não-reis, provavelmente não estariam ali...Mas o mais estranho era que vampiros, quando morrem , não sobram os corpos. Então porque havia um cemitério para eles?

Deixando um pouco mais a parte central, correu para alcançar Yori, que continuou a andar sem perceber que Yuuki tinha ficado para trás. Andaram até que, logo após o cemitério, avistaram um chalé acabado pelos anos e abandono. A sebe crescera livremente pela casa, o capim chegava à altura, a maior parte do chalé permanecia de pé, embora inteiramente coberta de hera escura, e o lado direito do andar superior explodira.

-O zero está aqu...?

Então se calou. Um vulto muito agasalhado capengava pelo cemitério em sua direção, era difícil ver por causa da escuridão da noite. Yuuki achou, embora fosse difícil julgar, que o vulto era uma mulher. Ela se movia com lentidão, provavelmente receosa de escorregar. Suas costas curvadas, sua corpulência, seu andar arrastado, tudo indicava uma idade muito avançada. Elas observaram sua aproximação em silencio. Por fim, parou a uns poucos metros das duas e, simplesmente, ficou ali as encarando.

Yuuki não sabia o que dizer, nem imaginava razoes para uma mulher estar andando por um cemitério abandonado. Olhou para Yori para buscar algum conselho, mas a garota parecia extremamente tranqüila. Por fim, a mulher ergueu a mão enluvada e fez sinal para que se aproximassem.

- Quem é a senhora? Sabe onde está o Zero?

O vulto agasalhado assentiu e fez um sinal para que a seguissem. Então andou em direção as garotas, passou por elas e andou na direção do chalé. Ela se atrapalhou um instante com a chave à porta, abriu-a e se afastou para deixá-las entrar.

A mulher cheirava mal, ou talvez fosse a casa, Yuuki torceu o nariz ao passar por ela. A mulher fechou a porta, então se virou e espiou o rosto de Yuuki. Seus olhos tinham cataratas e pregas fundas de pele transparente, e todo o seu rosto era riscado de pequenas veias rompidas e manchas marrons.

-yori, não me sinto muito segura. –Sussurrou

A mulher andava vacilante pela sala, ascendendo velas, mas o lugar continuava muito escuro, para não falar de sua extrema sujeira. Um lindo e assustador som pairava pelo local, o som de uma flauta, cada vez mais intenso, desta vez ele estava muito próximo, provavelmente vinha do andar de cima.

-Senhora..? – sua voz tremeu um pouco – que flauta é essa?

A mulher olhou para ela como se não tivesse entendido a pergunta. Yuuki decidiu perguntar coisas mais importantes.

-O Zero... - insistiu em um tom mais lento e alto do que o normal – A senhora sabe quem é? Onde ele está? Porque a senhora nos pediu para acompanhá-la? A senhora queria nos dizer alguma coisa?

A mulher se adiantou para a garota, com um pequeno movimento de cabeça, olhou para Yuuki, para si mesma e para o teto.

-Ah... Yori, acho que ela quer que subamos com ela.

A mulher fez um sinal negativo

-Eu acho que ela quer que você vá sozinha.

Então fez um sinal positivo.

-Bem, então ok, vá na frente, - disse Yuuki a mulher

Ela pareceu entender, porque passou por ela e se encaminhou para a escada. Os degraus eram altos e estreitos. Devagar, arquejando um pouco, ela subiu ao primeiro andar, virou à direita e levou-a para um quarto de teto baixo. O som da flauta já estava ficando insuportável de tão alto.

Estava muito escuro e fedia horrivelmente, Yuuki levou um tempo para seus olhos de vampiro se "acionassem" para poder enxergar. Levou um susto: A mulher se aproximara naqueles segundos de escuridão, e a garota nem a ouvira.

-Você é a princesa Kuran? - sussurrou ela.

-sim, sou. – Ela assentiu lenta e solenemente. Yuuki estava surpresa, como ela sabia? Foi uma sensação desagradável e enervante.

- A senhora tem alguma coisa para mim?

Então ela fechou os olhos e abriu.

-A senhora tem alguma coisa para mim? – perguntou, pela segunda vez, mais alto.

-Aqui – sussurrou ela, apontando para um canto. Yuuki viu os contornos de uma penteadeira muito cheia sob uma janela com cortinas. Desta vez a mulher não foi à frente. Yuuki passou entre ela e a cama desfeita.

- Que é? – Indagou ao chegar a penteadeira em que havia uma pilha de alguma coisa que, pelo cheiro e aspecto... parecia roupa de cama suja.

-Ali – disse ela apontando para a massa informe.

E, no instante que ela virou a cabeça e varreu com o olhar o amontoado confuso à procura de alguma coisa familiar, a mulher fez um movimento estranho: Yuuki percebeu pelo canto do olho; O pânico fez com que se voltasse e o horror a paralisou ao ver o corpo velho se despojar e no lugar de uma senhora um monstro de olhos vermelhos, garras e dentes afiados em total ausência de qualquer fragmento de consciência. O som da flauta estava vindo de um local muito próximo, talvez quem a estivesse tocando tivesse ali, em algum local do quarto. Mal tivera tempo de pensar e a Level E a atacou, derrubando-a.

-Pare! – Gritou Yuuki em meio ao desespero. Mas a criatura não parou, investindo de novo contra a garota, que desta vez foi mais ágil e se esquivou. Mas era muito estranho, um level e obrigatoriamente deveria seguir as ordens de um sangue puro... A criatura arranhou-a com suas enormes garras, saindo um pouco de sangue. Yuuki se sentia frágil, sendo atacada por um vampiro de level inferior, e esta sendo sangue puro. Era terrível não ter desenvolvido seus poderes a ponto de não poder se defender.

Correu o mais rapidamente à janela, com o monstro a perseguindo. Afastou as cortinas. Pânico. Da janela, de onde se podia ver o cemitério, vinham varias criaturas de olhos vermelhos, provavelmente atraídas pelo sangue. A criatura atrás dela ia destruindo tudo a sua volta, Yuuki rolou para o lado, evitando, por um triz, seus braços, que golpeavam a penteadeira onde ela estivera um segundo antes. Cacos de vidro choveram sobre ela quando bateu no chão. Então, por reflexo, pegou um caco atirou-o no coração da criatura, que logo virou pó.

Não tinha muito tempo, desceria as escadas e salvaria Yori dos levels Es que estavam chegando. Mas mal alcançou a porta e um deles apareceu na sua frente. Correu na direção oposta, e vira o terror; Tinham vários subindo pela janela e cercando-a. Um ar gelado enchia o quarto. Um deles atacou. Yuuki atirou-se para o lado com um grito. Tentava se defender, mas eram muitos! Já estava quase sem forças. Uma lagrima caiu-lhe dos olhos. Era uma inútil. Se Kaname estivesse ali destruiria todos em segundos. Sentia-se arrependida de ter saído de seu quarto... Se pelo menos o Zero realmente estivesse ali, a salvaria com sempre fazia.

-Zero...

De repente um braço vindo de trás a segurou pelo pescoço, e outro pela barriga. Estava presa! Tinha um deles atrás dela segurando-a! Então, de um canto escuro do quarto, ela percebeu um vulto que provavelmente estivera lá o tempo todo e nem notara. Este vulto estava segurando um objeto... Podia-se ler, com alguma dificuldade, "Hiou", o vulto se aproximou e deu para distinguir que o objeto era uma flauta! Se aproximando mais, notava-se que o vulto era alguém muito familiar... Um garoto alto, de cabelos cinza e aparência bela...

-Ze... Zero?

Sua voz saiu quase como um sussurro de tão fraca que estava. Então a criatura que estava segurando-a por trás lambeu lentamente seu pescoço... Deu um sorrisinho...e sussurrou no seu ouvido...

-Não... Eu estou aqui...

E a mordeu.