— São seis horas da manhã — resmungou Ino ao passar por Sakura. — Você poderia parar de assobiar? Seu constante bom humor está me fazendo mal.
— Estou de bom humor esta manhã — respondeu Sakura.
— Como de costume...
— O quê?
— Eu me sinto como se estivesse vivendo em um filme da Disney. Fico sempre esperando que você comece a cantar enquanto criaturas da floresta limpam a casa e fazem um vestido para o baile.
— Isso seria interessante, não é? Não tenho um ouvido muito bom para a música e não sei se jacarés teriam a mesma destreza e habilidades de costura que coelhos e esquilos.
Sakura piscou para a irmã, mas se absteve de um novo assobio enquanto ela saía da cozinha.
Ino a seguiu.
— Viu? Eu não posso nem sequer zombar de você. Onde está a Sakura hipócrita, a Sakura que eu conheço e amo?
— Pobre Ino. Você está vivendo um pesadelo.
Ino fez uma careta ao se sentar em seu lugar de sempre, no canto do sofá.
— Estou feliz que você esteja feliz, mas você precisa ficar alardeando isso o tempo todo?
— Nossa, como você está mal-humorada! Beba seu café. Eu gosto mais de você quando está totalmente cafeinada. — Ela deu um tapinha no braço de Ino. — Preciso ir. Vou direto para a casa do Sasuke quando terminarmos hoje. Portanto, nós vemos amanhã.
Ao ver a careta da irmã, Sakura perguntou:
— Algum problema?
— Não. — Ino tomou outro gole de café. — Na verdade, sim. Tem algo errado.
— O quê?
— Você. — O olhar de Ino era inquietante. — Você não está muito bem atualmente.
— Como?
— Essa não parece você.
— Eu sei. É uma loucura. Mas é divertido... e você queria que eu me divertisse, certo?
— Claro. Mas quão profunda é essa coisa com Sasuke?
— O que você quer dizer?
— Você nunca, nem uma vez na vida, teve um caso, nem mesmo um caso de uma noite. Mas agora você está dormindo, muito publicamente, devo acrescentar, com Sasuke. Você gasta todo o seu tempo livre, e até o que não está livre, com ele. Parece que você está levando isso muito a sério...
— E qual é o problema?
— O problema é que Sasuke não é um bom investimento de longo prazo... e não quero que você se machuque.
Ino pousou a xícara de café sobre a mesa e dirigiu um olhar duro para a irmã.
— Você está apaixonada por ele?
A ideia havia flutuado em sua mente, mas não era algo que ela estivesse disposta a explorar.
— O quê?
— É uma questão muito simples. Você está apaixonada por Sasuke?
— Isso ainda é muito novo para mim... — disse Sakura.
— Você e Sasuke estão na mesma sintonia, pelo menos?
— Você está me perguntando se nós tivemos uma conversa sobre "onde isso vai parar"? — A simples ideia parecia totalmente fora de questão para Sakura. — Não. Não tivemos.
Ino olhou para ela, como se a irmã tivesse perdido a cabeça.
— E isso não incomoda você? Seu corpo foi abduzido por aliens, Sakura?
Sim, isso a incomodava um pouco, mas Sasuke não era o tipo de homem que ficaria confortável com esse tipo de conversa.
— Não. E eu acho um pouco prematuro falar sobre isso.
— Você sempre teve um plano na vida. Sempre buscou uma finalidade para as coisas.
— Meu plano é viver a vida. Se existe alguma coisa, não sei se é amor... Poderiam ser os hormônios, uma paixão ou qualquer outra coisa. É muito forte e estou disposta a explorar e aproveitar a sensação. Não quero me apressar. — Ela encontrou os olhos de Ino. — Sou uma mulher adulta e posso lidar com isso, seja lá o que for.
— Sakura...
— Preciso me aprontar para sair. Mas prometo que está tudo bem Eu estou bem
Ino não parecia convencida, mas não fez nada além de suspirar profundamente.
No entanto, Sakura estava tendo dificuldade em fazer o mesmo. Em algum momento, ela teria de decidir. Mas ainda não, pois queria aproveitar ao máximo.
A rua estava tranquila quando Sakura trancou a porta de casa. Ela começou a descer os degraus de pedra, mas parou, de repente, ao ver Sasuke encostado em seu carro esporte vermelho.
Ele abriu a porta do lado do passageiro.
— Uma surpresa? — perguntou Sakura.
— Estou cheio de surpresas — disse ele.
Já sentado em seu assento, Sasuke lhe entregou uma caixinha.
— Toma.
— O que é isso?
— Algo que encontrei ontem no mercado francês.
Era uma pulseira com uma auréola pendurada, e da auréola pendia um par de chifres do diabo.
Sasuke piscou para ela.
— Eu pensei que poderia ser apropriado.
— É perfeito. — Ela se inclinou e lhe deu um beijo. — Obrigada.
— De nada.
Sasuke ligou o motor enquanto Sakura observava a pulseira. Não era um presente caro, mas isso fazia parte do charme dele. Não era um presente feito para impressionar, e ela gostava disso.
Sem sombra de dúvida, Sakura estava apaixonada por Sasuke. No entanto, o sentimento de felicidade durou pouco. Ela se apaixonara por um homem que não dava a mínima dica sobre os próprios sentimentos.
A enorme insensatez disso a atingiu como um saco de tijolos. E não importava o quanto tentasse, Sakura não conseguia se livrar desse sentimento para se concentrar nos projetos do dia.
O último dia do concurso de Santos e Pecadores os levara a um centro comunitário, em uma das áreas mais pobres da cidade.
As equipes estavam pintando paredes, lavando janelas e ajeitando o parque infantil, como parte de um projeto de reabilitação. Eles estavam no meio do dia quando Sakura percebeu que se esquecera de que eram concorrentes. Ela estava muito perdida na bagunça da própria cabeça para competir adequadamente.
— Odeio dizer isso, mas você perdeu mais uma vez, Sakura.
— Não precisa me avisar...
— Se eu pudesse escolher, estaríamos no apartamento de Neji, em um tapete, na frente da lareira, bebendo vinho.
— Tudo que eu peço é honestidade. Se quiser alguma coisa, é só pedir. Não tente jogar charme para cima de mim.
— O que está querendo dizer?
— Nada. — Ela forçou um sorriso. — Só estou dizendo que sou uma mulher dura, embora não pareça.
Pouco depois, ela se viu sendo levada (quase arrastada, na verdade) a uma sala de atividades vazia, e ele fechou a porta.
Déjà vu...
— É melhor que essa porta não possa ser trancada do lado de fora. Depois de tudo o que aconteceu, ninguém vai acreditar na nossa inocência.
Sasuke cruzou os braços.
— O que está tentando me dizer, Sakura?
Droga...
— Acho que você está exagerando.
— Não fuja do assunto, Sakura.
— Na verdade, Sasuke, não acho que você me conheça. Aliás, estou começando a pensar que não me conheço muito bem... Toda a minha vida virou de cabeça para baixo.
— A minha também, sabia?
— Sério? Imaginei que isso fosse comum para você.
— Não, isso não é comum Mas não acho que estamos falando sobre a mesma coisa. Do que está falando, Sakura?
— Tudo bem.. Temos cinco dias restantes de Santos e Pecadores. O que vai acontecer quando tudo isso acabar?
— Eu não sei quanto a você, mas eu vou dormir.
— Eu já imaginava... — disse ela.
Ele enfiou as mãos nos bolsos da calça.
— Você está em busca de algum tipo de declaração de intenções? Eu realmente não pensei nisso.
— Mas eu pensei, infelizmente. Parece que todo o país está me observando, e eu preciso me preparar para as conseqüências. Essa história com você foi um desvio da norma, e eu preciso estar preparada para lidar com a queda.
— Você está se adiantando muito, Sakura.
— Na verdade, estou tentando voltar atrás... estou tentando me reorganizar e me preparar para o que virá.
— E o que você acha que virá?
— Eu não sei. Muita coisa está acontecendo e é tudo tão rápido...
— Então por que não esperamos até as coisas se acalmarem antes de termos essa conversa? Não podemos continuar como estamos?
— Se você fosse qualquer outra pessoa, Uchiha Sasuke, eu diria que sim. Vou perder muito mais do que você se isso acabar mal. Talvez seja a hora de parar, antes de...
Sasuke não conseguia acreditar no que ouvia.
— O que está dizendo, Sakura?
— Estou dizendo que não posso investir em algo sem futuro. Eu pensei que poderia. Pensei que poderia apenas aproveitar o momento, sem me preocupar. Mas não sou aventureira, e você não é o tipo de cara que gosta de relacionamentos longos.
— Quer dizer que você mergulhou os dedos dos pés na piscina, viu que a água estava muito quente e agora está saindo?
— Não. Eu mergulhei nessa piscina, mas ela parece muito funda para mim. Você me conhece, Sasuke, sabe que sou uma boa menina.
— Eu não tinha intenção de me envolver com ninguém quando cheguei por aqui. Após o desastre dos últimos meses, a última coisa que eu queria era ter minha vida amorosa estampada em todos os jornais. Muito menos com você. Sem querer ofender, claro...
Sakura forçou um sorriso.
— Não ofendeu...
Ele enganchou um dedo em seu cinto e puxou-a para mais perto. Ela não resistiu. Ele usou um dedo para levantar o queixo de Sakura, fazendo-a olhá-lo diretamente nos olhos.
— Eu não esperava por isso, não planejei nada disso... e se alguém me dissesse que isso aconteceria, eu teria rido na sua cara. Mas estou adorando...
— Eu também. Tem sido divertido.
— E pode continuar a ser divertido. Não podemos viver nos preocupando com a maneira como a nossa vida está sendo interpretada ou julgada pelo resto do mundo. E lembre-se de que você tem um agente agora. Controle de danos é o trabalho dele...
Ela fez que não com a cabeça.
— Você está se esquecendo do meu ponto de vista.
— A única coisa que posso dizer é que não estou pronto para acabar com nada. E você? Está pronta?
— Honestamente? Não.
Ele soltou a respiração que estava segurando.
— Não tenho muita experiência com mulheres como você, mas não estou disposto a desistir.
Aqueles olhos negros estavam arregalados e luminosos.
— Então, vamos deixar rolar? — perguntou ela.
— Sim. Mas como? Basta esperar e ver o que acontece?
Por fim, Sakura assentiu.
— Eu acho que sim. Vou tentar, pelo menos.
— Isso é tudo que eu peço, Sakura.
Na realidade, ele sabia que estava pedindo muito.
Sasuke se inclinou para lhe dar um beijo, mas ela saltou quando alguém bateu à porta.
— Estão procurando por nós.
— Claro que estão. Vamos.
Ele segurou a mão de Sakura e abriu a porta.
Sakura não era a única em águas desconhecidas. Isso era completamente novo para ele também. Entretanto, Sakura parecia ser alguém por quem valeria a pena arriscar.
E era um sentimento novo.
Embora poucos acreditassem, Sasuke não queria ser um solteirão. Ninguém acreditaria, da mesma maneira, que ele passaria o primeiro dia de folia na casa de um amigo da família, comendo hambúrgueres e assistindo aos desfiles em uma varanda recuada, separados do povo por um grande muro.
Nanami, depois de uma tarde parecia um pouco cansada ao anoitecer. Ver sua agente glamorosa de jeans, com os cabelos desarrumados, era quase divertido.
— Nossa! Eu amo esta cidade — disse ela. — Ela tem seus encantos. Mas por que você está aqui? Por que não foi para o Bairro Francês?
— É assim que me lembro do carnaval. E eu já fiz as coisas mais loucas na juventude...
— Não acredito...
— Pegue alguma coisa para comer. Temos algum tempo antes do desfile.
— E você vai estar em um desses carros alegóricos na terça-feira, certo?
— Sim. O Pecador, a Santa e toda a nossa corte.
— Sendo sua agente, eu deveria saber sobre essas coisas antes que elas estejam acertadas.
— Sou voluntário, não sou pago para isso. Portanto, sua aprovação não é obrigatória.
— Não é o dinheiro, Sasuke... isso você já tem bastante. Aliás, como vão os planos para centralizar suas operações aqui, em Konoha?
— Tudo está correndo muito bem.
Nanami suspirou e fez que não com a cabeça.
— Esta é a influência de Sakura em você, não é?
— O quê?
— Eu gosto da Sakura. Ela é uma garota legal, é um modelo para muita gente, mas não é seu modelo. — Ela olhou para Sakura, Ino e Hinata, que estavam colocando ainda mais comida em uma mesa repleta. — Eu sei que você está gostando disso, mas não estrague tudo, não estrague o trabalho de tantos anos.
— Não vou estragar nada. Estou apenas desfrutando.
— Ótimo! Faça isso. Todo mundo deveria se divertir um pouco.
— Nanami, se há algo que você gostaria de me dizer, diga. Sem rodeios.
— Acho muito interessante que, do nada, você se ligue a uma garota daqui...
— Não é do nada — corrigiu ele. — Eu conheço a Sakura há muitos anos, desde criança.
Nanami revirou os olhos.
— Oh, isso soa romântico! Mas pense um pouco. Você mesmo me disse que essa garota passou a maior parte da vida odiando você e, de repente, quer ficar com você, agora que você é famoso? Isso parece um pouco oportunista.
— Você é cínica, Nanami.
— Não, sou realista. Três semanas atrás, ela era uma ex-miss, dona de uma pequena galeria em Konoha. Hoje está na capa da People.
— Você não conhece a Sakura. Esse não é o estilo dela.
— Sério? E você a conhece? Sasuke, o rosto dela está em todos os lugares. Ela teve de contratar um agente e se transformou em mercadoria. Ela ficou conhecida em tempo recorde, e tudo o que fez foi dormir com você.
Um sentimento incomum, algo entre o medo e a raiva, instalou-se em seu peito.
— Há uma relação causal, com certeza. Mas isso não implica premeditação.
— Você deveria duvidar, pelo menos. Especialmente agora que está brincando com ideias que poderiam colocar sua carreira em jogo.
Ele não deveria ter dúvidas, mas a seriedade de Nanami forçou-o a reconsiderar.
— Você está fazendo todos os tipos de conexões onde não há nenhuma e atribuindo motivos onde não existem. Isso cheira a paranóia.
— Você não é meu primeiro nem único cliente, Sasuke. Já vi muita coisa acontecendo por aí. E só quero o melhor para você.
No entanto, Sasuke sabia que Nanami não tinha nada de maternal. Eles não eram amigos. O que havia entre eles era um relacionamento de negócios.
— Você está com medo de perder dinheiro?
— Seu sucesso é meu salário, Sasuke. Não vamos tomar decisões precipitadas.
Nanami azedara o bom humor dele.
Mas era de Sakura que Nanami estava falando...
A multidão na rua rugiu, e Sakura apareceu um segundo depois, pousando uma das mãos em seu ombro.
— Vai começar o desfile. Vamos?
Nanami estava apenas protegendo o seu território e sua maior galinha de ovos de ouro do momento. Ela não tinha vida fora do trabalho e não entendia quem tinha.
Sasuke se levantou e deixou Sakura pegar em sua mão. O que ele compartilhava com Sakura era a coisa mais real que acontecera em sua vida em um bom tempo.
Olhando para Nanami, ele sorriu e disse:
— Eu não acredito arrependimentos.
