IX

Ele sabia que aquilo era um sonho.

Ele sabia que a mão que apertava suas costas, marcando a pele e a deixando avermelhada, não passava de uma fantasia.

Ele sabia que a voz que gemia não era real, mas sim uma projeção do som original adicionada a uma pitada de imaginação.

E ele sabia — e essa era a parte triste dos sonhos — que nada daquilo aconteceria realmente.

O gemido soou alto e impróprio. Francesco não sabia sequer se conseguiria emitir tal som, porém, ele havia deixado sua garganta de uma maneira ou de outra. Os olhos cor de mel se abaixaram, fitando o homem que estava por baixo. Giuseppe o encarava, os olhos verdes e abertos, e a pele extremamente vermelha. Deus, ele é perfeito, embora nunca houvesse visto o louro sem roupa, o rapaz de cabelos castanhos o havia imaginado diversas vezes naquela situação. É a quarta vez nessa semana que tenho esse tipo de sonho. A cada noite eles faziam sexo em algum lugar da casa, e ele sabia que naquele momento ambos estavam em seu quarto.

"Você está bem?" Mas é claro que ele está bem. Isso é um sonho!

O Braço Direito sorriu, meneando a cabeça em positivo.

Ele nunca falava. Com exceção dos gemidos, Giuseppe era sempre mudo em seus sonhos. O futuro Chefe dos Cavallone retirou-se de dentro do louro, depositando um gentil beijo no pescoço corado. Seus lábios desceram, sentindo o calor e o leve perfume que emanava da pele de sua companhia. No entanto, ao atingir o baixo ventre, o Braço Direito tornou-se sério, meneando a cabeça em negativo. Até mesmo em meus sonhos ele me rejeita. O herdeiro tornou-se sério, segurando a imaginativa ereção entre seus dedos e umedecendo os lábios; contudo, antes que pudesse tocá-la, os olhos cor de mel se arregalaram e Francesco encarou o teto do quarto.

O silêncio só foi quebrado pelo som de sua alta respiração e a cada segundo ele se dava conta de que havia acordado. O rapaz de cabelos castanhos sentou-se na cama, fechando os olhos e soltando um longo suspiro. O grosso cobertor foi levantado e o futuro Chefe revirou os olhos, arrastando-se da cama para o banheiro às pressas. Eu estou cansado desses sonhos. E estou cansado de acordar... assim. As empregadas começarão a estranhar que minhas roupas de baixo são lavadas por mim mesmo. Quando isso terminará?

O banho foi longo e o herdeiro cozinhou na banheira por quase uma hora. Giuseppe não veio habitar sua imaginação, então ele pôde simplesmente relaxar. Seus ombros estavam rígidos e ele se sentia cansado, embora soubesse que aquela sensação não era propriamente física. O tempo passado na banheira o ajudou e, quando retornou ao quarto, Francesco se sentia plenamente acordado. A cama foi arrumada e as janelas abertas. O céu estava azul, entretanto, a temperatura continuava baixa. Aquela seria uma primavera fria e ele mal se recordava da última vez que saiu de casa sem um casaco. Eu preciso comer alguma coisa. O rapaz entrou no closet, escolhendo o que vestiria naquele dia. Ele tinha planos de visitar Enrico, logo, precisaria vestir algo adequado a um passeio de cavalos. A escolha foi uma calça marrom e uma camisa creme. Ele levaria as botas quando saísse da mansão, todavia, por hora vestiria os sapatos escuros.

Os corredores estavam silenciosos, o que significava que Catarina estaria tomando café ou trancada em algum lugar. A sala de jantar estava vazia, então o futuro Chefe dos Cavallone deduziu que a segunda opção era a correta. A garota ainda não tinha permissão para deixar a mansão sozinha, e o seu tempo era passado entre livros ou aborrecendo os empregados.

"Bom dia."

A voz veio da entrada da sala de jantar e o herdeiro sabia quem era antes mesmo de virar o rosto para retribuir o cumprimento. Somente uma pessoa conhecida possuía aquela voz rouca, uma mistura de seriedade e sarcasmo. Mario esboçou um meio sorriso, aproximando-se devagar. Ele vai me perguntar se preciso de alguma coisa, pois, aparentemente, meu Braço Direito não virá hoje novamente.

"Eu posso fazer algo por você, Francis?" O ruivo inclinou-se, servindo-o com suco de laranja.

"Não." Mas você poderia me dizer o que está acontecendo, aquele pensamento o fez juntar as sobrancelhas. Aquela definitivamente não era uma boa ideia. "Eu pretendo visitar Enrico depois do almoço, avise meu pai, por favor."

"Como quiser. Geleia?"

"Não, obrigado."

Francesco colocou uma torrada na boca, observando sua companhia servir-se de um pedaço de maçã. Eles são parecidos, mas ao mesmo tempo tão diferentes. O rapaz de cabelos castanhos estudou o homem parado ao seu lado, como já havia feito tantas vezes. O Braço Direito de seu pai tinha traços mais masculinos, maxilar bem delineado e costas largas. O irmão era delicado, magro e sua voz soava sempre gentil e parcialmente baixa. Porém, ambos compartilhavam os mesmos olhos verdes. Enquanto Mario tinha um sádico olhar ferino, o louro esbanjava uma tentadora inocência. Não tão inocente ou ele estaria aqui comigo.

"Peppe chegou tarde ontem à noite, não?"

"Sim." O ruivo respondeu de boca cheia. "Eu espero que entenda. Nós já conversamos sobre isso."

O herdeiro manteve o olhar parado, voltando a atenção ao seu café. Intimamente ele sentia o peito apertado, mas não poderia demonstrar isso para sua companhia. Eu sabia que ele tinha um amante, mas dessa vez é diferente. Peppe nunca deixou de aparecer por esse motivo. No entanto, há três dias Chefe e Braço Direito mal se viam. Giuseppe avisou que durante a semana suas visitas seriam escassas, contudo, não explicou realmente o motivo. Quando questionado, Mario esboçou um maldoso sorriso e uma piscadela. "Giuseppe é um homem, Francis. E um homem tem suas necessidades. Um dia você entenderá." E ele entendia, infelizmente Francesco entendia melhor do que ninguém sobre necessidades. O que o consumia era imaginar o louro nos braços de outra pessoa, gemendo e tremendo para outro homem; sorrindo e sendo adorável para alguém que não era ele. Aquele sentimento era simplesmente enlouquecedor.

O ruivo retirou-se tão furtivamente que o rapaz ficou surpreso ao notar que estava sozinho. O restante do café foi passado em silêncio, mastigando a comida por obrigação e engolindo por não haver nenhuma outra opção. O futuro Chefe dos Cavallone retirou-se da mesa, agradecendo às empregadas que deixaram a cozinha ao vê-lo se levantar. O herdeiro espreguiçou-se, cruzando o hall e voltando a se sentir cansado. Se eu permanecer aqui não conseguirei pensar em outra coisa. Os passos o levaram até o escritório e os nós dos dedos da mão esquerda bateram três vezes na madeira antes da porta ser aberta. A primeira coisa que ele viu foi Ivan sentado atrás de sua mesa. O moreno estava conversando com seu Braço Direito, que estava sentado em uma das poltronas, e ambos interromperam o assunto ao ouvirem o barulho na porta.

"Bom dia, Francis." O Chefe dos Cavallone fez menção de ficar em pé, Francesco fez sinal para que ele permanecesse onde estava.

"Bom dia." O rapaz de cabelos castanhos esboçou um sorriso. "Eu vim avisar que estou indo ver Enrico."

"Mario disse que você planejava ir depois do almoço. Giuseppe estará de volta e ele poderá acompanhá-lo."

O café da manhã girou no estômago do futuro Chefe, entretanto, ele fez o possível para não demonstrar seu desconforto ao ouvir aquele nome.

"Eu ficarei bem. Não sou mais uma criança e a propriedade é segura. Eu almoçarei por lá e retornarei antes do anoitecer... está bem?"

"Não vejo problemas." Ivan juntou as sobrancelhas e ficou em pé. "Eu te acompanharei até lá fora."

O moreno cruzou o escritório e ofereceu um sorriso a Mario antes de sair. Já do lado de fora, o Chefe dos Cavallone colocou as mãos na cintura e encarou o filho com um olhar curioso.

"Aconteceu alguma coisa, Francis? Algo que você queira me contar?"

"Não..." O herdeiro manteve a expressão branca. Nada havia acontecido realmente, além de seu ciúme infindável e desnecessário. Giuseppe não lhe pertencia. Eles não tinham nada além da amizade e cumplicidade entre Chefe e Braço Direito. "Eu só quero visitar meu amigo."

"Eu gosto quando você passa seu tempo com Enrico, ele é um excelente rapaz, mas algo me diz que você está me escondendo alguma coisa." Ivan tocou o ombro esquerdo do filho. "Se for algo que eu possa ajudar, por favor, diga."

Francesco mordeu o lábio inferior. Ele sabia que jamais poderia falar sobre seus sentimentos, todavia, o moreno era uma pessoa atenta e não o deixaria em paz se não recebesse algum tipo de informação. O rapaz permaneceu alguns segundos pensativo até que o assunto perfeito cruzou sua mente e ele soube que seu pai ficaria satisfeito com aquilo.

"Eu andei pensando sobre aquele assunto... s-sobre o noivado com Clara."

"Oh!" A surpresa no rosto do Chefe dos Cavallone era visível.

"Eu estou pensando seriamente sobre isso e acredito que terei uma resposta em pouco tempo." Mentira. Eu nem ao menos me lembrava disso até este momento.

"O-Oh! I-Isso é realmente interessante, não?" Ivan parecia desconcertado. "Mas tome o seu tempo, Francis. Como Alaudi disse, você é novo para noivados e casamentos. A ideia era somente te fazer pensar sobre o futuro."

"E eu estou pensando sobre isso, de verdade."

"Fico satisfeito em saber disso." O moreno esboçou um sorriso orgulhoso. "Desculpe se pareci intrometido, mas eu estou apenas preocupado."

"Eu entendo e não se preocupe." O futuro Chefe dos Cavallone sorriu. "Eu vou subir agora e colocar minhas botas. Mandarei lembranças a Ottavio!"

Pai e filho se despediram com um aceno e o herdeiro pôde respirar aliviado. Eu deveria ter me lembrado de que ele é perspicaz quando o assunto é a Família. Aquela pequena mentira renderia problemas e Francesco sabia disso. Eventualmente ele me perguntará sobre o assunto e eu precisarei ter uma resposta. O rapaz de cabelos castanhos começou a subir as escadas. Ele nem sequer lembrava-se daquele assunto. Quando a ideia foi sugerida, Francesco achou que seria algo que pudesse ser evitado ou que o tempo fosse tornar esquecido. Clara comentou a mesma coisa. O pai dela também fez a mesma pergunta. Nós conversamos sobre o assunto e nenhum de nós realmente está pronto para casamentos.

O relacionamento com Clara era apenas amizade. A garota era interessante, não como uma pseudo-namorada, mas como companhia. Os dois sempre se divertiam quando estavam com Enrico, e o rapaz de cabelos castanhos não queria que nada mudasse. Sem contar que não consigo sentir nada por ela. A incapacidade de sentir-se atraído por alguém do sexo oposto já havia roubado noites de seu sono. Ele poderia imaginar mulheres perfeitas, com roupas ousadas e posições comprometedoras, porém, seu corpo não reagia. E pensar que depois que Giuseppe me beijou pela segunda vez eu venho tendo esses sonhos absurdos todas as noites. O que há de errado comigo?

Os sapatos foram trocados pelas botas e o futuro Chefe deixou a mansão. O jardim estava cheio de subordinados e o herdeiro perdeu a conta de quantas vezes desejou bom dia até chegar ao estábulo. Seu cavalo foi selado em minutos, e ele agradeceu ao subordinado responsável pelo local. Pelo menos eu não ficarei naquela casa esperando que ele apareça com um sorriso no rosto, esfregando na minha cara como a noite havia sido interessante. O cavalo havia começado a corrida e Francesco balançou a cabeça, tentando afastar aqueles pensamentos negativos. De nada adiantaria se chatear por coisas que estavam fora de suas mãos. O louro não largaria o amante, ele jamais teria sua chance e não havia nada a fazer além de viver um dia depois do outro. O vento frio batia em seu rosto, no entanto, a sensação de liberdade era definitivamente mais convidativa. Levaria cerca de dez minutos até que ele chegasse à casa do amigo e Francesco não passaria aquele tempo se remoendo com sentimentos tolos.

x

O futuro médico estava na biblioteca quando o rapaz de cabelos castanhos chegou. Enrico saiu à porta, abrindo um largo sorriso ao ver o amigo. Os dois se abraçaram e o rapaz o convidou a entrar. O sobrado em que morava era grande, embora a família fosse pequena. O amigo estava sozinho em casa, os pais foram a Roma fazer compras e o deixaram estudando. A biblioteca era pequena se comparada à da mansão, contudo, servia para o seu propósito. Sobre a mesa havia vários livros abertos, a maioria contendo imagens de anatomias humanas e de animais.

"Então, a que devo a honra dessa visita?"

"Nada em especial." O futuro Chefe dos Cavallone encarou os livros. "Eu vim apenas passar o tempo. Se você estiver ocupado eu posso retornar outra hora."

"Não, de maneira alguma." Enrico esboçou um sorriso. "Eu estava apenas repassando algumas coisas. Meu pai me levará para uma aula prática na próxima semana."

"Em prática você quer dizer... gente viva?"

"Gente morta...?" O aprendiz de médico riu. "Eu sei que você não gosta de falar sobre isso, então acho melhor irmos para o jardim."

"Eu aceito a sugestão."

O herdeiro passou a mão na nuca. Ele adorava seu amigo, entretanto, o rapaz de cabelos claros tinha o dom de conseguir ser estranho quando queria, principalmente com seu fascínio por medicina. Ambos saíram juntos, ganhando novamente o jardim. O cavalo de Francesco havia se afastado, todavia, não o suficiente para deixá-lo preocupado.

"Como está sua irmã?"

"Bem." Ele respondeu enquanto fitava o cavalo. "O castigo serviu para que ela se acalmasse um pouco. Duvido que Catarina vá aprontar tão cedo."

"Ela começará a frequentar a escola? Digo, a ideia continua firme?"

"Sim. Alaudi falou sobre isso no fim de semana, mas Catarina continua querendo estudar em outro lugar."

O futuro médico chutou de leve uma pedra, protegendo os olhos do Sol. Os dois caminharam até a cerca de madeira branca que separava o jardim do vasto gramado e Enrico soltou um longo suspiro antes de continuar.

"Eu não acho que seja uma boa ideia, Francis."

"Por quê?" O rapaz de cabelos castanhos encostou-se à madeira. O Sol não estava forte, apenas agradável, mas realmente irritava os olhos.

"É algo que venho pensando há algum tempo. Catarina tem nove anos agora, hm?"

"Sim."

"Mas ela não terá nove anos para sempre." O amigo tornou-se sério e naquele momento o futuro Chefe dos Cavallone endireitou-se melhor. "Você não se preocupa com isso?"

"Eu deveria? Eu não entendo o que você está tentando me dizer."

"O que acontecerá quando ela estiver com a nossa idade? Imagine as cartas que ela receberá e a atenção dos rapazes? Se ela estiver em outra escola não saberemos de nada disso."

A expressão no rosto do herdeiro tornou-se dura. Ele não havia pensado naquilo.

"Mas eu terminarei os estudos antes de Catarina começar a receber esse tipo de atenção... não?"

"Quem sabe? Os garotos a visitarão diariamente, levando flores e poemas e doces." O rapaz mais baixo deu de ombros. "Eu estou preocupado com isso, reconheço."

"Você?" Francesco riu. "Por que você está preocupado com ela? E eu duvido muito que Catarina vá receber atenção. Nenhum garoto perderia tempo com uma pessoa tão atrevida e impossível."

A resposta do aprendiz de médico foi um longo olhar. O rapaz de cabelos castanhos coçou a nuca e calou-se. Ele encarou a grama embaixo de seus pés, digerindo o que acabara de ouvir. Enrico tem razão. Catarina é insuportável hoje, mas e amanhã? Imaginar sua irmãzinha sendo cortejada o fez juntar as sobrancelhas. Somente por cima do meu cadáver!

"Você tem razão. Eu conversarei com meu pai sobre isso."

"M-Mesmo?" Havia um sincero alívio nos olhos azuis.

"Não quero ninguém escrevendo cartas melosas para minha irmã."

"N-Não é?! Eu te ajudarei a protegê-la!"

"Obrigado!" O futuro Chefe dos Cavallone sorriu. "É uma pena Catarina ser como é. Você seria muito bem-vindo à família, Enrico. Se eu tivesse outra irmã e ela não fosse um monstrinho eu certamente ficaria feliz se vocês um dia se casassem!"

O comentário foi dito de maneira irreverente e sem nenhum prospecto de resposta, porém, a reação do amigo o surpreendeu. Enrico tornou-se corado e agradeceu várias vezes, mesmo sem haver motivo real para aquilo. O herdeiro riu, bagunçando os cabelos de sua companhia e avisando que levaria o cavalo até o estábulo ou correria o risco de precisar retornar a pé. Enrico é uma boa pessoa. Uma pena você não ser mais maleável, Catarina. O rapaz de cabelos claros se prontificou a ir com o amigo e os dois cruzaram o gramado entre conversas tolas e comentários bobos.

O estábulo estava fresco e o cavalo foi amarrado firmemente em um dos apoios de madeira. O futuro médico o serviu com um pouco de água e ambos retornaram à biblioteca. Enrico ajeitou seus livros e os dois conversaram um pouco sobre as aulas até que Ottavio e a esposa retornassem. A mãe do rapaz de cabelos claros ficou encantada em vê-lo, convidando-o automaticamente para o almoço. Francesco aceitou de bom grado, pois não tinha intenção de retornar à mansão. Os dois amigos então seguiram para o quarto de Enrico, onde passaram a manhã jogando conversa fora. Catarina tornou-se o assunto várias vezes e o rapaz de cabelos castanhos não acreditava que não havia pensado antes sobre o perigo de enviar a irmã para outra escola.

O almoço foi bem mais simples do que as refeições servidas na mansão, no entanto, nem por isso menos saborosa. A mãe do futuro médico era uma belíssima mulher por volta de seus 35 anos. Mariana tinha os cabelos claros como os do filho, contudo, os olhos azuis haviam sido herdados de Ottavio. A mulher era baixa, mais baixa que o filho e o marido, entretanto, energética e cheia de vida. Todas as vezes que visitava o amigo o futuro Chefe dos Cavallone imaginava se aquela sensação morna em seu peito era o que significava estar perto de uma "mãe". Ele crescera somente tendo Ivan como família, até a chegada de Alaudi e logo em seguida Catarina. Todavia, o herdeiro não sabia o que era realmente conviver com uma figura feminina, embora isso não o incomodasse como um dia chegou a incomodar. Eu não acho que as coisas seriam diferentes se eu tivesse tido uma mãe, às vezes Francesco se pegava imaginando se ele teria se apaixonado por seu Braço Direito se sua vida fosse um pouco diferente. Eu certamente teria me apaixonado por ele. O prato principal foi uma deliciosa torta de carne e de sobremesa eles comeram um pedaço saboroso de pudim. O rapaz de cabelos castanhos sentia-se plenamente satisfeito ao retornar ao quarto do amigo, que foi impossível não se jogar na única poltrona do cômodo.

"A refeição estava ótima." O futuro Chefe espreguiçou-se. "Sua mãe é uma excelente cozinheira."

"Eu sei, mas você precisa evitar certas coisas. Se eu não prestasse atenção eu estaria enorme." O futuro médico sentou-se em sua cama e colocou a franja atrás da orelha. Os cabelos eram claros e levemente cacheados nas pontas. "Mas diga, Francis, por que você realmente veio aqui hoje?"

A pergunta não o surpreendeu. Seu amigo era extremamente atento para as coisas. Enrico descobriu sobre seus sentimentos por Giuseppe sem que ele precisasse dizer absolutamente nada. Quando soube, através de Catarina, que seu Braço Direito estava apaixonado por alguém e que possuía um amante, o herdeiro ficou inconsolável por dias e foi em um desses momentos que o futuro médico questionou o que estava acontecendo. Eu disse que não era nada, mas ele simplesmente jogou a pergunta como se fosse algo insignificante. Porém, o rapaz de cabelos claros não pareceu enojado ou evitou a presença de Francesco. "Nós amamos quem amamos, não? Não escolhemos essas coisas," foi a exata resposta que o amigo lhe ofereceu. Desde então se tornou familiar que falassem sobre o louro, apesar de que raramente o futuro Chefe dos Cavallone iniciava o assunto.

"Eu não quis ficar em casa." O herdeiro deu de ombros. "Giuseppe não aparece há dias, ocupado demais com o amante."

"Ele disse isso a você?" Enrico não pareceu surpreso.

"Não, mas Mario sim."

"Você já pensou em confrontar Giuseppe sobre isso? Quero dizer, falar como você se sente?"

"Confrontar?" A risada que deixou os lábios do herdeiro foi amarga. "E para quê? Giuseppe é apaixonado pelo amante e eu não duvido que talvez ele me aceite por pura obrigação e isso é a última coisa que eu quero." Enrico pareceu ponderar um pouco sobre o que ouvira. Os olhos azuis o estudavam. "Eu estou pensando em aceitar Clara."

"Clara? Mesmo?"

"Sim. Meu pai aguarda uma resposta e eu acho que talvez essa seja a única saída."

"Você ama Clara?"

"Claro que não." O rapaz de cabelos castanhos sentiu-se mal em dizer aquilo. "Ela também não gosta de mim, mas acho que no final casamento e amor não precisam andar juntos. Salvo certas exceções."

"Minha mãe disse que não amava meu pai quando eles se casaram." O futuro médico disse baixo. "Ela me contou que o amor cresceu aos poucos, com o convívio. Talvez isso aconteça com você e Clara."

"É, talvez." E eu preciso também pensar em como manter o casamento, já que não me sinto atraído por mulheres.

"Mas eu ainda acho melhor você falar com Giuseppe primeiro."

"Isso não irá acontecer." O futuro Chefe moveu a mão como se afastasse a ideia. "Por hora, eu poderia ficar mais algum tempo? Eu prometo não atrapalhá-lo."

"O que é isso? Desde quando você se tornou tão educado?" Enrico riu para o amigo. "Fique o tempo que quiser. Eu posso acompanhá-lo até a mansão depois. Seria um prazer."

O herdeiro sorriu, achando a ideia excelente. Desculpe, Enrico, mas eu realmente não quero voltar para casa agora. Eu não quero ver Giuseppe se aproximando e pedindo desculpas, como fez nos últimos dias, apenas para avisar que também estaria ausente no dia seguinte. A conversa continuou, no entanto, o assunto tornou-se um pouco mais animado quando o foco mudou de relacionamentos para bobagens corriqueiras entre garotos. O humor de Francesco também melhorou e em pouco tempo os dois estavam rindo. As horas ao lado do amigo sempre eram agradáveis e ele sabia que havia feito a escolha certa quando decidiu sair de casa naquele dia.

x

O Sol estava se pondo no horizonte quando o rapaz de cabelos castanhos entrou na mansão. O futuro médico da Família o acompanhou, como prometido, contudo, retornou após deixá-lo no estábulo. Enrico prometeu visitá-lo outro dia, e foi com um largo sorriso no rosto que o futuro Chefe dos Cavallone cumprimentou os subordinados que estavam espalhados pela propriedade. O hall estava vazio e ele subiu direto para o quarto, querendo tomar um longo e relaxante banho. Hoje foi um bom dia. Quando eu tiro a mente de Giuseppe eu consigo me divertir muito mais. Sem sentimentos ruins, sem ciúmes, nada... apenas diversão. A porta foi aberta e o herdeiro podia sentir a água quente e o cheiro dos sais de banho que o esperavam em seu banho. Entretanto, muito antes que seus olhos fitassem o quarto, a última pessoa que ele gostaria de encontrar se levantou da poltrona.

"Boa tarde, Francesco." O homem de longos cabelos louros se aproximou. Em seus lábios havia um tímido meio sorriso.

"Oh... Olá." Francesco não conseguiu esconder a surpresa. Eu achei que conseguiria evitá-lo novamente, mas estava enganado. No dia anterior, o rapaz fingiu cochilar quando Giuseppe veio procurá-lo depois do jantar. A última coisa que eu precisava era ver o seu sorriso de felicidade antes de se encontrar com seu amante.

"Perdoe a intromissão, mas eu estava te esperando. Quando cheguei me informaram que você havia ido visitar Enrico e eu não quis atrapalhar." O Braço Direito parecia estranhamente explicativo naquele começo de noite.

"Eu não esperava vê-lo... tão cedo." O futuro Chefe fechou a porta devagar, abaixando-se, tirando as botas e deixando-as em um canto. "Mario disse que talvez você não voltasse hoje."

"Ele disse?" O louro juntou as sobrancelhas um pouco perdido. "Eu vim porque gostaria de saber se você precisa de alguma coisa."

"Eu?" Você. Eu preciso de você, mas não temos tudo o que queremos, não? "Eu estou bem. Os passos o levaram até o closet em busca de uma nova troca de roupas. O Braço Direito o acompanhou.

"Entendo..." Giuseppe colocou uma parte do cabelo atrás da orelha. "Por favor, permita-me." O louro aproximou-se e esticou a mão, pegando a camisa que o herdeiro queria. "Aqui."

"Obrigado." Francesco sorriu. Há algum tempo não ficamos tão próximos. O ombro do Braço Direito encostou-se ao dele e seu corpo arrepiou-se automaticamente. Ele é tão belo. "Eu estou mais alto agora. Eu poderia ter pegado a camisa."

"Eu sei." Giuseppe sorriu e virou-se, ficando de frente à sua companhia. "Você provavelmente me deixará para trás em pouco tempo. Eu sou mais baixo que Mario."

Eu só te deixarei para trás se você quiser. O rapaz de cabelos castanhos encarou o homem à sua frente e automaticamente sua consciência ganhou a voz de Enrico. Ele disse que eu deveria ser honesto e dizer o que sinto, mas como? Eu não quero que ele me ame por pena. O futuro Chefe dos Cavallone esticou a mão, pegando uma calça aleatória.

"Peppe, o que você pensa sobre mim?"

"Perdão?" O louro juntou as sobrancelhas, confuso.

"Eu perguntei o que você pensa sobre mim. Qual a sua opinião, o que você sente?"

A confusão desapareceu dos gentis traços do Braço Direito e a seriedade tornou-se presente. Giuseppe o fitou por alguns segundos, todavia, apenas sorriu ao final.

"Você é meu Chefe. E eu espero que se torne um homem justo e que possa assumir a Família." As palavras soaram ensaiadas. "Você é um ótimo rapaz e eu tenho certeza de que se transformará em um bom homem."

"Eu entendo." O herdeiro sentiu o peito apertado, mas não demonstrou. Ele não estava surpreso. Ele simplesmente não esperava nada. "Obrigado, Peppe."

"Aconteceu alguma coisa? Não entendo porque a pergunta tão repentina."

"Não aconteceu nada." Francesco balançou a cabeça em negativo e passou por sua companhia, porém, parando na entrada do closet e virando-se. "Só mais uma pergunta, você ficará ausente pelos próximos dias, não é?"

O homem de longos cabelos louros entreabriu os lábios, no entanto, não respondeu. Por um momento o rapaz de cabelos castanhos achou que ele fosse dizer alguma coisa indiretamente ligada à pergunta, contudo, no fim o Braço Direito apenas meneou a cabeça em positivo e desculpou-se.

"Prometo que na próxima semana poderemos passar mais tempo juntos."

"Não se desculpe, eu não estou preocupado."

O futuro Chefe dos Cavallone acenou e seguiu na direção do banheiro. Ele não soube dizer como conseguiu cruzar o cômodo sem derrubar as roupas, tropeçar ou deixar que suas lágrimas fossem vistas. Elas desceram gordas e pesadas quando a porta foi fechada, enquanto seu coração batia forte e pesado em seu peito. Ele me vê apenas como Chefe. Peppe jamais teria olhos para um pirralho como eu. As roupas foram retiradas sem pressa, e o herdeiro apenas parava para enxugar os olhos que teimavam em continuar molhados. A banheira foi trocada pelo chuveiro e a água misturou-se às lágrimas, omitindo um pouco da dor de não ter seus sentimentos correspondidos. Francesco nunca criou expectativas, entretanto, era impossível não sentir a muda rejeição e o amargo gosto de um amor que jamais aconteceria.

O banho foi longo e durante os minutos que permaneceu ali o rapaz teve tempo suficiente para extravasar aquelas emoções. O choro foi quieto e discreto, assim como eram seus sentimentos. Giuseppe o esperava, sentado na mesma poltrona. O herdeiro esboçou um sorriso fraco ao vê-lo, imaginando se demoraria muito para que aquelas sensações passassem. Talvez seja uma questão de tempo. Talvez um dia eu acorde e meu coração não bata mais rápido ao vê-lo e eu não sinta mais essa louca vontade de envolvê-lo e fazê-lo meu.

"Quer que eu vá verificar se o jantar está pronto?"

"Não é necessário, eu preciso falar com meu pai. Ele está no escritório?"

"Acredito que sim. Eu irei acompanhá-lo."

Chefe e Braço Direito ganharam o corredor e caminharam lado a lado. Giuseppe perguntou sobre o passeio e Francesco respondeu polidamente, sem omitir que se divertira com Enrico. O louro parecia encantado em ouvir, pedindo desculpas duas vezes por não ter feito companhia. Havia barulho vindo da sala de jantar e o rapaz de cabelos castanhos deduziu que o jantar seria servido em pouco tempo. Os dois cruzaram o hall e viraram à direita, seguindo pelo corredor e parando em frente à porta escura do escritório. O Braço Direito bateu duas vezes e só abriu ao ouvir a voz de Mario do outro lado. O cômodo estava aquecido por causa da lareira e seu pai estava sentado em uma das poltronas. O ruivo havia se acomodado ao sofá e ambos pareceram surpresos em vê-lo.

"Como foi seu passeio, Francis?" Ivan abriu um largo sorriso. Ele está bem humorado. Desde que Alaudi retornou meu pai não tirou o sorriso do rosto. Eu invejo isso de certo modo, pois duvido que um dia eu vá sorrir dessa forma.

"Ótimo. Ottavio mandou lembranças e tomei a liberdade de convidar Enrico para um passeio no sábado."

"Fique à vontade. Se Catarina se comportar ela também poderá participar do passeio de vocês." O moreno ofereceu uma piscadela. "Mas você veio me chamar para o jantar? Achei que seria servido no horário de sempre."

"Eu não estou aqui para isso." O futuro Chefe aproximou-se e sentou-se na poltrona ao lado da do pai. "Eu preciso conversar com o senhor."

"Bem, eu pedirei licença então." Mario fez menção de ficar em pé, todavia, o herdeiro fez sinal para que ele permanecesse sentado.

"Vocês podem ficar, não é nenhum segredo." Francesco olhou de um irmão para o outro. Giuseppe encarou o ruivo e sentou-se ao seu lado um pouco perdido.

"Então, o que eu preciso saber?" O Chefe dos Cavallone parecia achar aquilo divertido.

O rapaz de cabelos castanhos encarou as próprias mãos, ponderando a melhor maneira de abordar aquele assunto. Eu não posso encará-lo ou desistirei de tudo. Um olhar que Peppe me desse de maneira diferente e eu abandonaria essa ideia totalmente absurda. Os olhos cor de mel se ergueram e o futuro Chefe dos Cavallone ofereceu um breve olhar ao louro, que ergueu as sobrancelhas e pareceu tão curioso quanto o pai.

"Eu pensei sobre aquilo que conversamos há alguns dias... a respeito de Clara."

"Oh, sim, sim. Você mencionou que havia se decidido, não?" Ivan não pareceu surpreso. "Eu compreenderei a negativa. Alaudi tem razão ao dizer que é muito cedo para pensar ne—"

"Minha resposta é sim," a voz do herdeiro soou um pouco mais alta, "eu decidi pedir Clara em namoro... ou algo assim. Acredito ser o melhor a ser feito na atual situação."

O moreno ergueu as sobrancelhas e era visível que ele não esperava aquela resposta. O Chefe dos Cavallone estudou o filho, ficando em pé e passando as mãos pelos cabelos. Francesco o seguiu com olhos e então eles caíram sobre os outros dois presentes. Mario estava sério, estranhamente sério, e o encarava de maneira ofendida. Porém, nenhuma das reações se igualaria a maneira como o seu Braço Direito o olhava. Ele parece... triste... ou surpreso ou... eu não sei. O rapaz de cabelos castanhos tentou sorrir, contudo, isso só pareceu piorar a situação. Giuseppe ficou em pé e abriu a boca, no entanto, não houve palavras. O ruivo encarou o irmão, puxando-o novamente para o sofá, mas sem sucesso.

"Você é muito novo, Francesco. Você tem quinze anos!" A voz do louro soou mais alta.

"E-Eu sei. Eu não estou falando em casamento, apenas quero deixar claro minhas intenções."

"Giuseppe tem razão, Francis." Ivan voltou a se sentar. "Você gosta da garota?"

"Sim..." Não, eu não gosto de garotas, de nenhuma delas, mas o que eu posso fazer? Eu sei que tenho a responsabilidade de continuar a Família e se não for Clara será outra. Qual a diferença? Os olhos cor de mel foram automaticamente para a figura de seu Braço Direito que continuava em pé. Você é quem eu quero! Você provavelmente só está indignado porque ainda me vê como uma criança. "E amor pode crescer, não? Q-Quero dizer, eu posso aprender a amar Clara, não?"

"Sim, você pode." O moreno pareceu surpreso, entretanto, uma surpresa diferente. "Eu não achei que você fosse aceitar, mas se é o que quer fazer, então eu não me oponho."

"M-Mas, Chefe!" Giuseppe deu um passo à frente, todavia, dessa vez Mario foi mais rápido, puxando-o pelo braço.

"Não está em suas mãos decidir isso, Giuseppe." O ruivo ficou sério. "Coloque-se em seu lugar."

O louro piscou como se saísse de um transe. Seus dedos colocaram uma mecha atrás da orelha e ele corou violentamente.

"E-Eu sinto muito." O Braço Direito fez uma polida reverência. "Com licença."

Giuseppe deixou o escritório com passos rápidos. Mario seguiu o irmão, deixando pai e filho a sós. O Chefe dos Cavallone suspirou e tocou a cabeça do herdeiro, bagunçando os cabelos molhados.

"Tem certeza, Francis? Eu ainda acho que Alaudi tem razão e que devemos esperar um pouco mais."

"Nada irá mudar, pappà." Francesco esboçou um triste meio sorriso. "E eu já sou um homem crescido. É hora de parar de esperar pelo impossível. Eu estou pronto para assumir minhas responsabilidades."

Continua...