Capítulo IX - Shun, Cavaleiro de Virgem.
Vinte anos antes da sucessão do Submundo.
Depois daquele beijo as coisas esfriaram muito entre os dois. Nenhum deles soube o que dizer muito menos o que pensar ou fazer. Haviam sido criados desde tenra idade apenas para servir de guerreiros, bravos soldados que dariam suas vidas em prol da paz da terra. Mas que não sabiam praticamente nada de relações humanas. Recém chegavam a maior idade e isso foi o mais longe que realmente estiveram de uma ligação mais intima.
Naquele dia, June apenas declarou nervosamente que Shun precisava descansar e saiu correndo do quarto deixando-o sozinho. Desde este dia também, Hades não tornou a se manifestar em sua mente, parecia haver realmente adormecido, e o único rastro de que esteve ali era a estranha dormência que possuía em sua cabeça.
Por tanto, passava a maior parte de seu tempo em meditação, tentando seguir parte dos ensinamentos escritos que Shaka havia deixado, ou pelo menos aqueles que conseguia entender, boa parte estava escrito em hindi ao invés de grego.
Como nasceu no Japão, japonês era seu idioma materno, contudo, desde que ele e Ikki foram levados pela fundação Kido, foi-lhes ensinado o grego, portanto, manejava o idioma muito bem, mesmo em sua escrita ou leitura. Por outro lado, nunca teve qualquer contato com o Hindi.
-...Você poderia ter facilitado um pouco, Shaka – Resmungou para o nada em voz alta.
Estava sentado em posição de lótus no chão do quarto da cabana de seu antigo mestre, preferia ter ficado no pequeno casebre que ocupou quando treinou na ilha, mas June o informou com pesar que ela havia sido destruída por Milo. Desviou seu olhar para a janela, pelo qual entrava uma brisa fresca, o que era particularmente anormal para a localidade, suspirou frustrado deitando-se no chão. Uma semana, apenas uma semana que estava em suposto treinamento e já não sabia o que fazer.
Havia conseguido melhorar sua meditação, controlar melhor seu cosmo por consequência, mas não havia mais avanços. Começava a pensar que era realmente impossível aprender a ser um cavaleiro dourado apenas com textos. Porém, o que mais possuía?! Shaka estava morto, e ele não podia falar com os...
Mortos.
Sentou-se novamente, em lótus. Mordeu o lábio inferior enquanto pensava. Talvez existisse um modo de falar com Shaka, afinal, o próprio deus do submundo residia em sua subconsciência e as Moiras e o próprio Hades haviam dado a entender que ele possuía pelo menos parte dos poderes do imperador do submundo.
Contudo, isso não significava que estaria sendo desleal a Athena? Utilizando-se do conhecimento e habilidades do submundo ao invés de só e exclusivamente sua própria habilidade?
Por outro lado, teoricamente, o submundo fazia parte dele...
Seria certo usar-se do poder do pior inimigo de sua deusa em prol dela mesma?
Embora esses questionamentos não tivessem uma resposta clara, talvez realmente não houvesse outra saída, precisava alcançar com plenitude o nível mais próximo de um deus em pouco menos de três meses, caso contrário seu meio irmão viria a falecer por ação da espada do submundo.
E como se não bastasse, também havia descoberto que precisava garantir que a lâmina estivesse segura, para que o submundo não caísse em ruínas.
Com isso em mente, voltou à posição de meditação e concentrou-se exatamente como Hades lhe havia dito, falar com o mais profundo de seu ser não parecia ser muito diferente do que faziam quando precisavam explodir o cosmo que permeava seus corpos.
Por um instante fugaz tentou localizar June pela energia, mesmo que a jovem não soubesse telepatia, tinha certo receio de que ela se aproximasse enquanto conversava com o deus do mundo inferior. Ao constatar que a mesma estava em uma das costas aparentemente pescando, pôde deixar que sua mente caísse na inconsciência.
Estava novamente naquele já conhecido jardim infindável, mas o deus não parecia estar em nenhum lugar.
-...Hades?
Então um vento gélido soprou, levando consigo flores e pétalas, até começar a rodopiar em meio a um pequeno ciclone de folhas, que ficava cada vez mais intenso, forçando Shun a proteger seus olhos incapaz de ver. Quando o vento findou, Hades estava parado onde deveria ser o olho do pequeno ciclone. Sua aparência parecia ainda mais com aquela que conheceu nos Campos Elísios, cabelos negros ainda mais longos, chegando a sua cintura e elevados em cima, contudo, levava ainda a mesma toga negra grega.
"...Algo me diz que não faz tanto tempo desde que conversamos pela última vez..." – Disse em tom embargado com a mesma voz frigida e suave que apresentou no paraíso, não mais uma variação sombria da voz de Andrômeda. "...Não pensei que recorrerias a mim tão rápido..."
- Não pense que estou feliz com isso.
"...Não pensaria..."
O deus estão sentou sob o chão florido e encarou em espera o que o jovem tinha a dizer.
-...Existe ...- Hesitou, por Athena tinha que fazer isso! – Um meio de conversar com os mortos?
Hades sorriu com sombria satisfação.
"...Te interessa agora as artes obscuras?..." – Provocou.
- É apenas para salvar Seiya! – Defendeu-se
"...Sim, é claro..." – Sorriu ardilosamente, contudo seguiu tranquilamente "...Respondendo tua pergunta cavaleiro, sim, existem várias. Algumas mais sujas do que outras, mas tudo depende do desejo do necromante e o que está disposto a fazer..."
-...Necromante? – Questionou.
"...Sim, aqueles que de algum modo podem se comunicar com os seres de meu reino. Tu podes assumir, por exemplo, que os cavaleiros de ouro de câncer são uma espécie de necromantes. Como aquele Máscara da morte..." -O deus parou por alguns instantes, como se ponderasse as opções- "... Mas caso não desejes violar os restos mortais de ninguém ou se adentrar demasiado nas artes obscuras, suas opções se limitam. O melhor seria procurar um Espelho Negro. Com um desses tu podes falar com a alma dos mortos e até mesmo com os deuses..."
- E onde eu encontraria isso? – Sequer imaginava que algo assim existia.
"...Isso não saberia dizer-te, não creio que hajas mais humanos que saibam fazê-lo. Poderias tentar no Monte Olimpo, mas terias que voltar à Grécia para ir até lá e isto te demandaria demasiado tempo, uma vez que não sabes teleportar-te ou pedir pela ajuda daquele garoto com telepatia..."
Shun suspirou em frustração, estava de volta à estaca zero.
"...Posso perguntar em que isto te ajudaria Cavaleiro?..." – Indagou apoiando o rosto em suas mãos, divertido e curioso com as reações do humano.
-...- Novamente hesitou, mas de nada adiantaria esconder isso de Hades de qualquer forma. - ...Eu não consigo compreender com exatidão os ensinamentos de Shaka, estão escritos em Hindi.
E para seu absoluto assombro, o imperador começou a rir, era um riso muito baixo e algo áspero, mas estranhamente parecia sincero.
"...Sabes, já presenciei inúmeras ganancias que levaram humanos a estudar a necromancia, mas creio que esta é a primeira vez que alguém a busca simplesmente por uma incompetência linguística..."
Claramente Shun tinha sido ofendido, mas não sabia como reagir ao fato de que o deus dos mortos estava claramente rindo de sua cara, sem estar coberto de seu sangue ou mesmo com a cabeça de Athena em mãos. Parecia surreal demais.
"...Não é necessário tantos floreios Cavaleiro, eu sou plenamente capaz de ler hindi... "
- Como?!... – Estava completamente confuso, não esperava esse tipo de resposta. - Como é possível que você saiba hindi?!
"...Oras, não crês que os mortos falem todos o mesmo idioma, ou sim?..." – Respondeu como se fosse óbvio. "... Eu não seria capaz de ministrar as almas se sequer consigo entender o que elas dizem..."
Bem, ele tinha um ponto sobre isso...Mas ainda assim parecia simplesmente absurdo
"...Não compreendo tua surpresa cavaleiro..." – Acrescentou vendo a estupefação de Shun- "...Devo recordar-te que vivi por milênios, desde antes do tempo em que os seres humanos falavam uma só língua, deste modo, não foi difícil para mim acompanhar as variantes que nasceram. A maioria são variações do que existia em tempos antigos..."
- Desculpe, não foi minha intenção subestimá-lo – Respondeu Shun por pura educação.
Hades ergueu a sobrancelha pelo gesto, antes de sorrir ladeado, não era todo dia que recebia um pedido de desculpas de um cavaleiro, mesmo que fosse apenas por reflexo.
Andrômeda voltou à consciência ciente de que agora Hades estava com ele, não lhe agradava nem um pouco a ideia de permitir ao deus dos mortos ler um documento tão importante para Athena, porém, novamente não poderia avançar se não o fizesse, além disso, uma vez que ele mesmo aprenderia sobre isso, dividindo o mesmo corpo, era uma questão de tempo até a divindade tomasse conhecimento dos ensinamentos.
Era muito arriscado confiar no imperador, mas teria que acreditar na boa vontade do mesmo por enquanto.
Abriu novamente os documentos, desconfortável com o fato de que o deus do submundo podia vê-lo através dos seus olhos.
"Muito bem, este é o documento" – Disse em sua mente.
"...Hmmm...É...Muito estranho, nunca vi algo parecido..."
Shun piscou, será que estava enganado?! Poderia ser que aquilo não fosse propriamente um idioma? Talvez fosse alguma espécie de código que Shaka criou para que os ensinamentos não caíssem em mãos erradas ou então...
"...Esta letra é simplesmente horrível! Como é possível que um cavaleiro escreva assim?! Até parece que o fez de olhos fechados..."
Ou simplesmente era uma letra feia. Shun teve que segurar a vontade de rir, essa reação foi completamente inesperada. Observou os papeis em seu colo e ponderou por alguns instantes.
"Vindo de Shaka, eu não duvido que ele tenha feito isso, literalmente, de olhos fechados" - O cavaleiro era conhecido por se privar da visão a fim de ampliar suas capacidades, mesmo que fosse incomum, conseguia imaginá-lo desenvolvendo um jeito de escrever sem precisar de sua visão.
Mesmo que a letra deixasse muito a desejar...
" ...Francamente, e eu a pensar que a mania de Minos de colecionar carreteis a cada reencarnação fosse deverás estranha..."
"Carreteis?!" – Era impossível imaginar o juiz do inferno fazendo algo assim.
"...Aparentemente é algo ligado a sua primeira vida. De qualquer modo, estamos desviando do assunto, apesar dos pesares sou capaz de ler isto. Vamos progredir, recorda-te que não dispõe de muito tempo..."
Em um único dia avançou mais em seu treinamento do que em toda uma semana.
-.-.-.-.-
June suspirou triste, havia ido até a ilha habitada mais próxima para conseguir mais suprimentos, deixando Shun sozinho em seu treinamento. Uma semana e meia já haviam se passado e aquele beijo tímido simplesmente não havia saído de sua cabeça desde então, só de recordá-lo seu coração bombeava sangue compulsivamente e seu rosto se colorava.
Revendo a cena uma e outra vez em sua mente, desejava que tivesse agido diferente, ao invés de sair correndo deixando o cavaleiro sozinho. Mas nunca havia passado por situação semelhante em sua vida.
Pelas leis de Athena, por Shun ter visto seu verdadeiro rosto, ela só tinha duas opções. Amá-lo ou mata-lo.
Era evidente que seria incapaz de matar Shun! Não depois de tudo que passaram juntos durante o treinamento com Daidalos, mas a primeira opção era mais difícil do que parecia. Eles eram os guerreiros de Athena, que defendiam o amor e a justiça, mas o que realmente sabiam sobre o amor?
Em sua cabeça relembrava-se dos dizeres da deusa, quando a mesma anunciou sobre a vinda de Shun por telepatia.
"Sei que está a muito tempo preocupada com ele, sei também que ele já viu seu rosto. Estamos embarcando em épocas de paz, então é hora de que tome sua decisão minha cara June".
Recordar-se disso só a fazia envergonhar-se ainda mais, a jovem deusa sabia que seria incapaz de machucar Shun, então ela só poderia estar insinuando que...
- Com licença!
June foi trazida de volta a realidade, notando que estava simplesmente parada no meio de uma rua movimentada de comercio feito de pequenas barracas no chão. Chamava certa atenção pela máscara que usava ou mesmo por sua armadura, embora a maioria dos comerciantes já a conhecesse de outras visitas a ilha. A sua frente, sob os mesmos ladrilhos de pedra que formavam a longa rua, estava uma criança de pele pálida, cabelos negros em duas maria chiquinhas e olhar travesso, trajando um vestido preto que chegava aos seus pés.
- Moça – Dizia com sua voz infantil – Quer comprar algumas frutas? Minha mãe tem as melhores frutas de toooodooo o comercio!
A amazona sorriu frente à felicidade infantil, mesmo que fosse imperceptível sob sua máscara. Ajoelhou-se frente à criança.
- Que frutas você tem?
- Temos maças, morangos e as melhores romãs de todo o oriente médio! – Cantarolou indicando ditas frutas num pequeno cesto que levava em sua mão direita.
- Oooh, isso parece bastante para mim, muito bem, eu vou levar umas romãs então.
- Sim! Muito obrigada irmãziinhaa! – A pequena aceitou algumas moedas exigidas na troca da mercadoria com um enorme sorriso.
Assim que a amazona pegou as frutas, acenou para a criança e deu as costas, porém, lhe ocorreu que talvez a pequena precisasse de ajuda para achar sua mãe em um mercado tão lotado. Entretanto, ao se virar novamente para a garota, ela havia desaparecido. June simplesmente deu de ombros, assumindo que a menina sabia o caminho e tinha voltado correndo para seus pais. Assim, resolveu voltar às compras.
-.-.-.-.-
O avanço que estava tento agora era assustador, cada vez que desviava a atenção era imediatamente repreendido pelo deus do submundo, forçando-o a voltar a se concentrar caso não quisesse uma enorme dor de cabeça por contrariar o imperador. De algum modo, era como se a divindade tivesse assumido o papel de seu tutor.
A principio desconfiou que Hades estivesse realmente lendo os textos de Shaka, poderia claramente estar inventando alguma coisa, algo que pudesse ajuda-lo até mesmo a recobrar o controle de seu corpo, contudo, quanto mais avançava, mais reconhecia as características das técnicas do anterior cavaleiro de ouro, fortemente mescladas com ensinamentos do budismo.
Assumiu que o dourado esperava que seu sucessor estudasse plenamente o budismo antes de assumir sua armadura, talvez por isso fizesse questão de deixar os ensinamentos em seu idioma materno.
Seu domínio do cosmo melhorava a cada dia, seu controle mental também, começava a ser capaz de emanar cada vez mais forte sua cosmo energia e ainda assim, ocultar sua identidade, a igual que o antigo mestre de Virgem fazia.
Ligava o que era lido com os poucos momentos que viu o anterior dourado em ação, tentando compreender completamente como suas técnicas funcionavam, às vezes quase podia sentir como se Shaka estivesse com ele, o ajudando a seguir pelo caminho certo.
Porém, paralelo a isto, quanto mais tempo passava com Hades presente, cada vez mais algumas pequenas memórias pareciam aparecer enquanto meditava.
Memórias em que ele era um pobre menino italiano, bondoso e exímio pintor, que cresceu junto a uma jovem de curtos cabelos roxos e um ruidoso menino de cabelos castanhos de olhos rubis. O imperador das trevas, que era capaz de ver essas memórias também, apenas o orientava que eram lembranças de sua anterior reencarnação, quando foi o pequeno Alone.
Foi uma vida difícil dentro do orfanato, ainda mais quando Sasha, Athena em sua última reencarnação, foi adotada por um jovem alto de cabelos castanhos, Sisífo de Sagitário, Hades havia lhe dito. Tenma, que logo reconheceu ser a anterior reencarnação de Seiya que conheceu nas visões das Moiras, ainda viveu com ele por mais alguns anos, até que também partiu sob a guarda de Dohko de Libra, deixando-o completamente só...
Até, pelo menos, o dia em que estava pintando em um belo campo de flores e conheceu Pandora, que condenou sua alma a pertencer, novamente, a Hades.
As memórias seguintes eram absolutamente doloridas, ser obrigado a lutar contra as duas pessoas que mais consideração possuía no mundo, ver suas mãos sujar-se do sangue dos cavaleiros de Athena e seus pecados se acumularem um a um. Sentia que sua alma iria rasgar-se a qualquer momento, enquanto lágrimas escorriam por seus olhos a cada nova recordação. Hades apenas observava tais reações sem opinar, por mais que a união que viviam o forçava a sentir os mesmos sentimentos inquietantes.
Até que uma recordação em particular arrancou-lhe completamente o fôlego.
Estava em um campo rochoso completamente desolado, sem a presença consoladora do sol, havia resto de mortos espalhados por todo o lugar e o cheiro de enxofre era avassalador. Estava sentado a pintar, seus cabelos, outrora loiros, estavam completamente negros, símbolo da possessão de Hades. Estava chorando sutilmente enquanto confessava algo para alguém que estava às suas costas.
"-Kagaho" – Dizia – "O inferno é um lugar desolador. Não há salvação neste lugar. Morto ou vivo, nada muda. A vida cheia de dor e dificuldades que nós deixamos para trás é só para abrir espaço para uma eternidade marcada de punições. Quando então alcançaremos um verdadeiro descanso?"
As gotas salgadas seguiam incansáveis por sua face, enquanto continuava pintando um quadro de cadáveres agonizantes que eram conduzidos a um céu reluzente por anjos.
"-Eu quero salvar os mortos e os vivos Kagaho. E também seu irmão mais novo, que provavelmente está em algum lugar do inferno." – Não precisava ver esse tal Kagaho para conseguir sentir a tristeza que emanava dele ao ouvir essas palavras - "Isso tudo precisa ser mudado para um novo recomeço... Eu usarei meu quadro para criar, uma nova morte que trará salvação".
Pela primeira vez virou-se para aquele com quem falava, e seu coração pulou algumas batidas, ajoelhado atrás de si, escutando-o atentamente estava um espectro trajando uma sobrepeliz com asas, mas não era qualquer espectro. Os cabelos azuis espetados, olhos escuros de uma ira contida, aquele era claramente Ikki.
"-Kagaho..."-A visão continuou apesar do seu enorme choque, sua face pálida como Alone ruborizada por tantas lágrimas- "-Eu sou um pecador?"
"-Não."- Respondeu categoricamente o espectro, mesmo sua voz era idêntica a de seu irmão "-Provavelmente você é o único capaz de fazer isto. E se isso for um pecado, então eu carregarei o fardo de todos os seus crimes."- Dizia cada palavra com forte convicção e lealdade evidentes "-Pois eu também desejo essa salvação. Você conseguirá."
Voltou à realidade arfante, suando frio.
"...Não regresse de um estado de meditação tão profundo assim de repente, sua mente pode acabar se partindo!..." Advertiu Hades, mas Shun ignorou.
- O que...O que significa isso?! – Falou assombrado pela memória, ignorando que até mesmo estava falando em voz alta. – Você que implantou esta visão?!
"...Não sou capaz de fazer isso, já lhe expliquei que não passo de uma consciência no momento..." – declarou calmamente.
- Então você quer que eu acredite que meu irmão, meu irmão Ikki...Era um espectro?!
"...Tu és livre de crer ou não, mas isto não muda a realidade dos fatos. Kagaho foi tão leal a ti e a tuas crenças, acima até mesmo de sua lealdade para comigo, que encontrou o caminho para reencarnar ao teu lado como seu irmão Ikki..."
Apertou as mãos com força, sentindo-se imponente, sem saber o que pensar.
"...Teu irmão, Ikki, é o primeiro cavaleiro a trajar a armadura de fênix, não é?..."
-...Sim..- Respondeu.
"...Isto porque ele é o primeiro a conseguir ressurgir da morte, das cinzas da existência a igual que a lendária fênix. Uma habilidade impar para um cavaleiro de Athena, mas absolutamente comum para um espectro..."
- ...Ainda assim... – Era incapaz de acreditar.
"...Além disso, ele é capaz de sempre saber onde tu estás, sentir se estás em risco e ir até tua presença independente de onde estejas..."
- E o que tem isso haver?
"...Ele reencarnou como teu irmão, te afastando de Athena e Pégaso a principio, tomando o lugar de Pandora. Tu sempre foste meu corpo humano, para tanto, o direto sangue de teu sangue também detém parte de meu poder..."- Ao ver a expressão de pânico em seu rosto, continuou "...Não sou também capaz de possuí-lo, antes que me pergunte, mas os espectros por meio de suas sobrepeliz que possui meu poder, são capazes de sempre se transladarem ao meu lado. Ikki, nascendo contigo, contém parte de seu sangue e cosmo, sendo capaz de usar esta habilidade mesmo sem sua armadura. Essa ligação que sempre o leva até ti, é por suas almas estarem ligadas pela essência do submundo..." *
Shun estava completamente sem palavras. Kagaho...Um espectro havia reencarnado ao seu lado, disposto a carregar seus pecados? Pela expressão que mostrou sabia que suas palavras eram sinceras, sua lealdade era espantosa... Seu próprio irmão... Ikki, mesmo em outra vida sempre o protegeu como pôde.
Lágrimas escapavam de seus olhos, recordando-o de cada um dos momentos que seu irmão esteve ao seu lado, como o defendia das brincadeiras cruéis dos outros órfãs da fundação Kido, como foi até a Ilha da Rainha da morte em seu lugar...Mas talvez isso fizesse parte de seu destino, o destino da fênix.
-...Meu irmão...
"...Ao aprofundar-se cada vez mais dentro de seu próprio ser, ao almejar ser o cavaleiro mais próximo de deus, é natural que cada vez mais seja consciente de cada uma das suas reencarnações. Acredito que por estes textos tu chamarias isto de iluminação..."
- "A verdadeira natureza dos fenômenos" - Recitou Shun um dos dizeres de Shaka, limpando seus olhos – "A chave para a libertação é a pureza mental e a compreensão correta".
"...Agora, se tu estás a recordar isto, pela ligação que tens com teu irmão, imagino que ele também esteja a ver algumas recordações de quando era um espectro. Seria a resposta da alma dele ao ecoar da tua. Mas sem alguém para guia-lo sobre isto como eu estou fazendo para ti, imagino se ele não vai acabar enlouquecendo...Com essas recordações... " Não pôde deixar de sentir um arrepio na espinha pelo tom malicioso do deus do submundo.
- Você estava planejando isto, não é?!
"...Bem, era uma consequência e um risco ao assumir tal treinamento..." – A malicia e o prazer maldoso manchava cada palavra. – "...Mas que mal me recorde, tu tinhas declarado que faria tudo que pudesse pela salvação de Pégaso. Ou será que sacrificar a sanidade de seu pleno irmão não é um preço válido pelos desejos de Athena?..."
A risada cruel do deus arrepiava até o âmago de sua alma.
- Você sempre soube que isso podia acontecer! – Acusou o deus, um sentimento impar de raiva nascendo em seu interior, junto à impotência.
"...Apenas eu? Te engana imaculado Cavaleiro, crês que Athena não saibia dos riscos? À tua vida e alma?..." Colocou com desdém - "...Ela pode não saber sobre a reencarnação de Kagaho, mas sabe que tua alma e de teu irmão estão conectadas, caso contrário, por que crês que ela fez esta barreira para ocultá-lo do mundo? Pois é claro, para impedir que ele venha por ti, caso teus esforços o levem ao estado de quase morte..."
- Você está tentando apenas me enganar e me jogar contra Athena.
"...Pense como quiseres, mas sabe o que irá acontecer? Aos poucos as memorias despertarão em Ikki, atormentando-o e enlouquecendo-o, Athena em algum momento se dará conta que isso tem haver com seu treinamento, com suas almas sincronizadas, e sabe o que ela farás? Nada. Por que a vida de seu salvador vale mais do que a tua ou de qualquer outro cavaleiro..."
- Eu não darei ouvido a suas blasfêmias!
"...Minta para si mesmo como quiser, mas sabe que falo a verdade. Aquela Meretriz poderia tentar ressuscitar Aioros, o cavaleiro de sagitário que morreu para protegê-la quando bebê..."- Suas palavras eram revestidas por veneno- "..Poderia implorar pelo retorno de seus cavaleiros de ouro que sacrificaram a alma para destruir o muro das lamentações. Mas o que ela faz? Viaja até o Monte Olimpo, arrisca a estabilidade do tempo e espaço, apenas pelo maldito Pégaso! ..."
- Se ela pudesse, ela salvaria a todos! – Insistia.
"...Mas ela não é capaz. Por isso sacrifica vós como insetos, para conseguir o que ela e sua incompetência são incapazes de lograr..."
- CALE-SE! ATHENA NÃO É ASSIM! - O sentimento de raiva frigido tomou seu corpo por alguns instantes.
Uma onda fria de cosmo negro emanou de seu ser, murchando completamente cada uma das flores que cercavam aquela cabana, apodrecendo parte das madeiras da casa, congelando as águas dentro das torneiras.
- O que...O que foi isso ...- Questionou assustado.
"...Muito bem, obrigado por esclarecer minha duvida sobre o que aconteceria se tu mostrasse raiva. No entanto, estás mais longe de alcançar o equilíbrio do que eu imaginava. Meu cosmo está suavemente mesclado com o teu, se não controlares teus sentimentos, uma emanação dessas pode assombrar Athena e fazê-la voltar seus cavaleiros contra ti, assumindo-te como inimigo. Não tenhas tão seguro que tua deusa o poupará uma segunda vez..."
Shun não respondeu, estava cansado dos joguinhos de Hades, mas em pelo menos uma coisa ele tinha razão. Se uma emanação de cosmo sombrio assim acontecesse no santuário, estaria em sérios problemas.
Mas sua preocupação era outra agora.
- ...O que eu preciso fazer para ajudar meu irmão? – Declarou com decisão.
"...Eu posso te dizer, mas isso faria com que ele recobrasse a consciência dele como espectro..." – Mesmo sem poder vê-lo, claramente podia saber que Hades sorria nesse momento. "...Isso não mudará em nada o apreço que ele tem por ti, na verdade, só a fará mais forte. Ele tampouco atentará contra Athena se tu fazer questão de que ele não faça isso..."
- Eu não quero um servo!
"...Ele não será mais teu servo e nesta vida acredito que ele é particularmente leal a Athena e não gostaria de traí-la. Mesmo que recobre a memória, continuará sendo teu irmão, mesmo que priorize tua segurança acima da segurança de sua deusa..."
Então as peças encaixaram na mente de Shun.
- Você quer que eu use meu próprio irmão! Por causa dessa história da minha vida e a existência da espada sustentarem o submundo?! – Acusou horrorizado – Se ele foi um de seus espectros, como pode usá-lo assim?! Por que você vai tão longe para manter o submundo?!
"...Ele reencarnou para ser usado. Estou apenas ajudando-o a realizar seu desejo..."
- Você evadiu minha segunda pergunta.
"...O submundo, meu antigo reino, é tudo o que resta da existência que deixei para trás. Eu nunca desejei sua pose, eu sempre odiei ser condenado a cuidá-lo..." – Sua voz, em contraste com antes, era triste e melancólica..." Porém, ele sempre foi tudo que eu tive. Eu não espero que tu entendas. Mas da mesma forma que Athena está disposta a passar por cima de tudo pela terra, eu farei o mesmo pelo submundo. Esta é a única prova que eu, alguma vez, existi..."
Um silencio suprucal seguiu essas palavras, onde Shun podia sentir o vazio de Hades como se fosse seu. Sentia que havia algo mais nessa história, enraizado na existência do deus. Mas não era o momento para isso agora.
- Eu posso entender, o que é questionar a razão de sua própria existência – Anunciou em tom amargo. – Desejar estar morto e ao mesmo tempo, querer ser lembrado por algo...
June, que estava a ponto de bater na porta ouviu essas últimas palavras, parando no ato. Encarou o chão sentindo a tristeza avassaladora do cosmo de Shun, sem saber o que fazer. Queria entrar e abraçá-lo, confortá-lo de sentimentos tão funestos. Observou a pequena cesta de frutas, e resolveu voltar outro momento. Se Shun estava falando consigo mesmo, poderia estar demasiado imersivo em seu treinamento e desligado da realidade.
E tudo que ela desejava, era não atrapalhá-lo.
Nos seguintes dias, além de seu treinamento, empenhou-se para comunicar-se com seu irmão, mentalmente usando-se da ligação de alma que possuíam, concentrando seu cosmo ao máximo e ainda assim ocultando sua presença para que nem Athena nem os cavaleiros percebessem que a intervenção partia dele.
As semanas foram passando, Shun parecia cada vez mais imerso em seu treinamento, sequer parava para fazer suas refeições como deveria, forçando June a deixar a comida na porta da cabana torcendo para que ele as comesse.
Era iniciada a primeira semana do segundo mês quando Shun entrou num estado de meditação tal que a amazona podia jurar que ele estava em um plano completamente diferente, como se sua alma estivesse se projetando para um lugar distante. Ela não estava errada.
"Me perdoe Ikki...Mas você precisa se lembrar...Vamos comprimir, aquela promessa, juntos"
Ela não sabia o que passava por sua mente, mas começou a rogar por Athena que cuidasse de sua saúde, ele sequer se alimentava mais.
"Meu irmão, agora é hora de acordar e desfrutar da redenção de sua própria alma... Mas Kagaho...Ainda existe uma promessa que precisamos cumprir."
Quando dois meses haviam passado, June estava distraída observando o por do sol de um dos rochedos da ilha, preocupada com Shun, quando ia se levantar e voltar a sua cabana, porém, uma voz em sua mente a fez sobressaltar-se.
"June, por favor, continue onde está, eu estou indo até ai."
Ela olhou para todas as direções, mas não viu ninguém, mesmo que soubesse que aquela voz pertencia a Shun. Ele estava falando por telepatia?!
Ainda assim, ela obedeceu, e fiel a suas palavras dentro de poucos minutos Shun apareceu a passo lento.
Parecia estar com uma ligeira dificuldade em andar, por todo o tempo que permaneceu em posse de meditação, estava claramente mais magro e pálido, mas exibia um enorme sorriso que afastou momentaneamente suas preocupações.
- June, me desculpe, eu devo ter te preocupado – Sua voz era rouca, um claro sinal de que não a usava há dias.
- Ainda bem que você sabe! - Exclamou sem conseguir se domar. – Você sequer come há dias! Não dormia ou saia da cabana, apenas seguia nesse... Nesse estupido treinamento! – Ela parou, chocada com suas palavras e com as lágrimas que escapavam de seu rosto sem mascara – M-me desculpe, eu sei que foi sua missão, e é por Athena, é só que...- Desviou seu olhar para o rochedo, limpando as gotas salgadas. – Eu fiquei preocupada.
Shun sorriu abertamente, vendo como o por do sol deixava os cabelos loiros da jovem mais brilhante até mesmo que as armaduras de ouro.
- Eu sei, sinto muito por isso...Posso me sentar?
Ela apenas balançou a cabeça, ao que ele se sentou. Ambos observaram a grande estrela se deitar em meio ao reino de Poseidon, quando Shun tornou a falar.
- Estou na última etapa de meu treinamento. – Anunciou sem desviar o olhar do sol sumindo entre as ondas – Pretendo acumular uma grande quantidade de cosmo, para conseguir explodir minha energia ao máximo. Para tanto, pretendo privar-me de um dos meus cinco sentidos a igual que Shaka.
Ela virou-se para ele horrorizada pela ideia.
- Não será algo permanente como Shiryu – Explicou calmamente – Apenas me privarei de minha visão fechando meus olhos e vendo apenas com os olhos da mente.
Voltou-se para June, observando-a com carinho, como se quisesse marcar cada curva de seu rosto a ferro em suas memórias.
- Por isso pensei, antes de fazer isso, queria poder contemplar algo realmente bonito. – Comentou sem desviar o olhar da bela moça.- Estou muito feliz que eu consegui.
Ela não respondeu, corando violentamente, facilmente competindo e ganhando do vermelho do sol. Estava realmente feliz pelo elogio, mesmo que estivesse triste pela decisão de Shun de privar-se de algo tão vital como a visão.
-...Dentro de um mês eu serei o cavaleiro de ouro de virgem. – Voltou a falar Andrômeda – Mal posso acreditar que já fazem mais de quatro anos que eu obtive minha armadura de bronze...E agora tenho que deixá-la.
- Nem me fale, aquele teste final ainda me assombra os sonhos – Comentou June abraçando os próprios joelhos contra o corpo – Te amarrar a uma pedra com as correntes, como Andrômeda foi amarrada em auto sacrifício para acalmar a ira de Poseidon. Eu nunca quis tanto bater em nosso mestre Daidalos como naquele dia.
Shun riu abertamente pelo comentário, pela primeira vez desde antes da guerra santa.
- Pobre mestre Daidalos!
- Ele merecia – Disse levemente emburrada.
- Mas o importante é que deu tudo certo no final, eu venci o desafio e ganhei minha armadura. Mesmo Andrômeda não morreu em seu mito. Perseu apareceu e a salvou no último instante e ainda a desposou.
- Sorte a dela. – Comentou com um suspiro.
Shun a observou de canto de olho, sorrindo maroto.
- Acredito que Perseu tinha bom gosto, quem não se apaixonaria por tão bela donzela? – A amazona concordou com a cabeça – Eu queria fazer uma última homenagem à constelação que me protegeu por tanto tempo... Fico muito feliz que o mar esteja estranhamente calmo hoje, irá facilitar as coisas. Porém, eu queria fazer o papel de Perseu pelo menos dessa vez.
June virou-se para ele claramente sem entender, mas a resposta foi esplanada em sua cara quando no instante seguinte o cavaleiro de Athena a tomou em braços e lançou-se do rochedo ao mar em um grande salto, sob o grito de terror da amazona.
- VOCÊ FICOU LOUCO?! – Ela berrou quando ambos emergiram, Shun foi plenamente capaz de desviar das pedras pontiagudas que cercavam a ilha com uma velocidade que ela nunca tinha visto.
O Cavaleiro sorriu, ainda segurando-a na posição de noiva. Desvencilhou um de seus braços para fazer um sinal de "um pouco" com os dedos e rir, ao tempo que ela jogava água em sua cara irritada.
Esse, contudo, foi um dos dias mais felizes de sua vida, enquanto nadava nos braços do virginiano e riam da cara ensopada um do outro quando lançavam água como crianças. Sentia-se completa e absolutamente segura nos braços desse homem, podendo desfrutar por alguns instantes a possível sensação que a Andrômeda original sentiu quando Perseu a tomou em seus braços.
Agarrou firmemente o pescoço de Shun, sentindo para seu assombro que o jovem tinha o mesmo cheiro que da fruta que comprou daquela menininha há algumas semanas, fruta que acabou murchando e apodrecendo sem que pudesse ser realmente desfrutada.
- Você cheira a romã – Anunciou descansando a cabeça sobre o ombro dele enquanto à noite os cobria com seu véu negro.
- E você cheira a flores. Eu gosto disso. – Beijou com dedicação a testa da jovem, desejando que este instante durasse para sempre.
Mas Chronos não era um deus conhecido por realizar caprichos como parar seu tempo. O último mês passou rapidamente, em que Shun cumpriu sua palavra e fechou seus olhos para o mundo. Quando faltavam três dias para o prazo de Seiya se esgotar, o ex cavaleiro de Andrômeda usou de sua telepatia para comunicar-se com Kiki, mesmo June ficou estupefata com o fato de que ele conseguiu fazer isso. O menino de Áries que apareceu saltitante, embora ao mesmo tempo parecesse ansioso, também se revelou felizmente surpreendido.
Os dois jovens se abraçaram uma última vez, gravando a essência um do outro em seus corações antes de se separarem, e Shun junto a Kiki partiu para o Santuário.
E aquela foi à última vez que a amazona viu seu grande amor sorrir em vida.
Notas finais
* Essa é minha teoria sobre como Ikki sempre consegue ir até seu irmãozinho.
O próximo capítulo voltará ao santuário, e se chamará "Tempos de paz, tempos de guerra". Aguardem!
