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[1347 d.C., quadrante Delta]
A sonda 407 agora havia se transformado em um cubo com mais de 130 metros de aresta. No seu banco de dados ainda havia um mapa marcando uma grande área de setores estelares e repleto de informações sobre as civilizações que os habitavam. O cubo avaliou os dados sobre cada civilização e traçou uma rota para a criação e a expansão de um domínio. Seu objetivo era o aperfeiçoamento, e os seres orgânicos não faziam parte disso, por enquanto. A rota começou com as civilizações de menor poder bélico.
Naves e sondas dos povos mais pacíficos iam sendo facilmente dominadas e seus materiais e tecnologias úteis eram incorporados, construindo-se novos cubos. Com a quarta civilização dominada, veio o recurso de mineração por métodos totalmente mecânicos, o que permitiu a aceleração na construção dos cubos. Agora já enfrentavam civilizações com médio poder bélico, com pequenas batalhas acontecendo.
Em 92 anos, todos aqueles setores eram de domínio dos cubos. A frota, naquele instante, era formada por quase 600 cubos com volume de até 500 mil metros cúbicos. Todas as tecnologias consideradas úteis dessas civilizações, principalmente às relativas às armas, foram aproveitadas. Até meados da segunda década após iniciar a expansão para outros setores, todos os seres orgânicos eram eliminados para não prejudicarem o desempenho das tecnologias. Com a espécie 149 foi assimilada uma tecnologia de nanossondas médicas de alto desempenho, que atuavam na reparação de tecidos e órgãos, inclusive em células nervosas. O projeto de uma expansão mais agressiva e a adaptação da tecnologia de nanossondas da espécie 149 levaram os cubos, todos interligados no processamento de informações, a considerarem uma forma de aproveitar os seres orgânicos. Passaram a considerar que aperfeiçoar os seres orgânicos também seria parte de sua diretriz de trazer ordem ao caos. Consideraram que os seres orgânicos, abundantes na galáxia e imperfeitos, também mereciam ser aperfeiçoados.
Nessa decisão igualmente levou-se em conta a maior versatilidade e baixo custo de obtenção e manutenção dos seres orgânicos. Eram fáceis de capturar e ótimos para as tarefas necessárias dentro dos cubos. E podiam ser melhorados com o implante de partes eletromecânicas. O custo de um ser orgânico era menor do que os robôs e diversas outras máquinas até então utilizadas.
A inclusão dos orgânicos tomou alguns anos até atingir uma eficiência mínima. Trabalhou-se inicialmente com diferentes espécies escolhidas ao acaso, dissecando-as aos milhares. As nanossondas foram adaptadas, principalmente para tomarem controle rapidamente do cérebro dos orgânicos, tirando-lhes a vontade própria. Seus centros emocionais, geralmente existentes, eram praticamente desativados. Os orgânicos que fossem considerados inúteis ou ineficientes eram eliminados.
Depois de algumas dezenas de espécies dissecadas, optou-se por assimilar somente as que seguissem um certo padrão. Aquelas com um tronco com dois braços, duas pernas e uma cabeça mostraram-se as mais eficientes, embora geralmente não tivessem razoável capacidade mental. Mas isso era desnecessário, de forma geral. Era até preferível que não fossem muito inteligentes, pois a assimilação era menos custosa. A quantidade de nanossondas necessária para assimilar um ser com alta capacidade cerebral fazia com que o custo não compensasse o ganho. Essas espécies, as muito inteligentes, eram ignoradas ou totalmente eliminadas. As espécies pouco inteligentes recebiam este mesmo tratamento.
O implante de transceptores criava a ligação dos assimilados entre si e com os cubos. Surgia uma coletividade com uma só vontade.
As nanossondas executavam, durante a assimilação, a análise genética do orgânico, eliminando-o se verificasse predisposições a doenças. Inicialmente, todas as crianças da espécie assimilada eram descartadas ou deixadas no planeta, mas se constatou que era possível aproveitar suas maiores quantidades de neurônios em bom estado para o armazenamento de dados da coletividade. E serviam como fornecedores de órgãos para reposição para os assimilados que apresentassem algum problema orgânico posterior e se fosse compensador mantê-los ativos. Todavia, isso era pouco comum. Se um componente orgânico apresentasse algum problema, o custo menor de utilizar-se de um outro orgânico levava ao descarte do defeituoso, reaproveitando-se as partes mecânicas implantadas.
Somente as espécies usadas para uma atividade em especial eram multiplicadas, incubando-se seus fetos concebidos artificialmente. Os zangões, como todo ser orgânico, envelheciam. A cada ciclo equivalente a 40 horas terrestres havia a mensuração individual do custo e da produtividade de cada zangão. Se em três ciclos seguidos o custo excedesse a produtividade, o zangão era descartado, reaproveitando-se as partes mecânicas. Não existiam zangões idosos.
Logo após as primeiras assimilações, quando os borgs iniciavam de imediato o processo de assimilação com o primeiro contato, verificaram que era uma boa tática ameaçar inicialmente. Tirava algo do efeito surpresa, mas deixava mais fragilizada a espécie a ser assimilada, reduzindo o custo da assimilação. Nisso havia importância o nome escolhido pela comunidade borg para se identificar perante cada nova espécie. Geralmente utilizava-se um nome de poucas sílabas, de acordo com a análise prévia do banco de dados da nova espécie. Numa delas, o nome teve que ser longo para condizer com a cultura da civilização, ficando a apresentação borg: "Nós somos os tatabacuchthrak hak boshtuhuk. Sua existência, como a conheciam, acabou. Acrescentaremos suas peculiaridades biológicas e tecnológicas às nossas. Resistir é inútil."
Numa outra espécie, o nome escolhido ficou cômico, pois era uma gíria recente, que não constava no banco de dados extraído. Quando os borgs se apresentarem para a espécie como "nós somos os mercs", a tripulação da ponte da nave caiu na gargalhada. Foram todos assimilados.
[1594 d.C.]
A civilização preborg expandiu-se para outros sistemas graças às sondas. A maioria delas não encontrou nada de relevante durante seu tempo de vida ou ficou fora de uso por alguma falha ou incidente. Das centenas de sondas encaminhadas, pouco mais de três dezenas retornaram informações sobre planetas habitáveis. Isso foi suficiente para que o resultado fosse favorável, ao possibilitar a expansão para outros territórios promissores. Quatro sondas transmitiram informações sobre novas tecnologias obtidas. A surpresa foi a Agência Espacial 1 receber o sinal de uma das sondas consideradas desaparecidas, identificada como sonda 407, série 12. Mas, na verdade, eram os borgs.
A coletividade borg havia decidido que já possuía poder bélico suficiente para aproveitar-se da informação de uma das diretrizes recuperadas de sua programação original. Entre as diretrizes originais, uma estabelecia o retorno da sonda ao ponto de partida ou o envio das informações coletadas, qual fosse a opção mais adequada. A coletividade decidira que seria apropriado assimilar essa civilização, reunindo uma frota de cubos que se direcionava ao setor dos preborgs. E a forma de menor custo seria simular tratar-se de uma sonda original preborg.
A Agência Espacial transmitiu ao governo a notícia do retorno de uma sonda perdida. Era a primeira sonda que retornava fisicamente. O governo aproveitaria o evento para uma comemoração mundial. A previsão da chegada era de quatro semanas.
Essas semanas passaram-se lentamente para os cientistas, empolgados com a perspectiva das informações que a sonda traria. Essas informações deveriam ser muito importantes, senão a sonda optaria por apenas transmitir os dados, segundo o padrão estabelecido. O povo preborg estava orgulhoso de ter conseguido produzir sondas espaciais tão perfeitas.
A recepção seria no 15º planeta do sistema. Boa parte da frota preborg acompanharia o retorno da sonda a partir desse ponto, como parte do espetáculo político.
Faltando uma semana para a chegada, os sensores mais longínquos captaram a frota borg se dirigindo ao sistema.
Embora os cientistas e políticos comemorassem o fato de uma sonda ter criado uma verdadeira frota, que interpretavam como um exemplo da eficiência, alguns militares ficaram preocupados.
— Mas essa frota está transmitindo o sinal padrão de reconhecimento, diziam os cientistas.
— Não podemos perder essa oportunidade de confraternização entre nosso povo, diziam os políticos.
Quatro dias após a chegada dos borgs, aquela civilização estava assimilada. Passaram a ser todos borgs. A espécie preborg já constava no banco de dados como a espécie zero.
[1722 d.C.]
Uma sonda borg entrou no quadrante Beta pela primeira vez. Uma esfera com pouco mais de seis metros de diâmetro, com a única tarefa de rastrear vida inteligente e as tecnologias, como as sondas preborgs faziam. Mas agora o interesse era de expandir o território borg, assimilar civilizações inteiras e suas tecnologias. A cada dois meses, a sonda transmitia para o espaço borg um pacote com os dados coletados. Manter-se-ia nessa tarefa até quase esgotar suas reservas de energia, quando então se autodestruiria. Era uma sonda de prospecção.
Ela girava lentamente em torno de seu próprio eixo enquanto captava os primeiros sinais dos setores do quadrante à frente. Analisando esses sinais, principalmente traços de uso de motor de dobra, decidia a rota a seguir, na busca de civilizações que parecessem ser as mais avançadas tecnologicamente da região.
A sonda já estava há duas semanas em deslocamento apenas inercial, somente coletando dados suficientes para decidir por alterações em sua rota. Terminara o processamento dos dados, traçando, por fim, a rota. Reativou os motores, quando parou de repente. Seus motores desligaram. A sonda não mais girava em torno de seu eixo e nem se deslocava pelo espaço. Um rápido clarão e, sobre ela, sentado, apareceu um ser que viria futuramente a ser conhecido no quadrante Alfa como Q. Seu rosto e corpo eram humanos, a mesma forma que adotará no seu futuro contato com humanos. O que lhe diferia a aparência agora eram diversos implantes cibernéticos, como se tivesse sido assimilado pelos borgs.
— Até que não fico tão ruim como borg – falou Q, como se conversasse com a sonda.
Estalou os dedos e em torno dele surgiram diversos painéis de comando e telas flutuando no espaço.
— Vamos ver o que esta sonda quer fazer...
Q pressionou teclados, girou botões, divertindo-se com isso. Milhares de informações deslizaram pelas telas.
— Ah, seus borgs malvadinhos, vocês não podem ainda se expandir para este quadrante. E, depois, vocês ainda irão para o quadrante Alfa? Não, não podem. Vamos esperar mais um pouco? Quando tiver passado por lá o capitão Archer, o capitão Kirk e, ah, estivermos na época daquele que será o meu preferido, capitão Picard, vocês estarão liberados para bisbilhotar estes quadrantes. Se vocês chegassem lá tão rápido assim, seria o fim dos humanos e, no longo futuro, acreditem, nem o Q-Continuum, nem eu, esta maravilha do Universo, existiriam. Prometo que lhes apresentarei pessoalmente os humanos assim que eles estiverem no ponto certo para se tornarem ótimos zangões.
Q estalou novamente os dedos e todos os dados coletados e armazenados pela sonda foram apagados e substituídos por dados falsos.
— Pronto, com esses dados seu passeio não será tão interessante...
Outro estalo de dedos e Q desapareceu. A sonda voltou a se mover, planejando agora, com base nos dados falsos, um percurso que a manterá distante das principais civilizações do quadrante Beta. Depois de algumas décadas informando aos borgs que nada de interesse havia encontrado, e com sua reserva de energia esgotando-se, a sonda ativou sua autodestruição.
No decorrer dos séculos, Q fez o mesmo com as outras catorze sondas borgs encaminhadas ao quadrante Beta e à parte do quadrante Alfa. Cada uma seguindo por um caminho que parecia promissor, mas nada tendo a reportar aos borgs.
Assim, os borgs acreditaram que não era compensador expandir-se para esses quadrantes, e a evolução natural das civilizações desses quadrantes manteve-se por mais alguns séculos. Em especial, a civilização no planeta Terra.
