Como prometido postei no prazo

Capitulo oito

Bella ocupou o assento da carruagem, encolhendo-se o mais possível a um canto.

— Desculpe se fui muito apressado ao sair, mas não gosto de deixar os cavalos muito tempo ao relento, e também creio que não está disposto a jogar hoje, depois de sua... noitada.

A voz do conde soou brusca, e Bella olhou as ruas pela janela do coche, esperando um pouco antes de responder.

— Se fosse um cavalheiro que levasse a sério as anotações de sua agenda, escreveria que às vezes os homens são gentis com os animais e indelicados com as pessoas.

— Um cavalheiro que se preza aceita as desculpas do outro com dignidade.

— Trata seus cavalos tão bem quanto suas amantes ou é o con trário?

— Não entendi.

— Seu comentário sobre os cavalos foi como se quisesse acal mar uma amante ofendida. — Bella observou o olhar espantado de Edward, e sorriu.

— Pode acrescentar esse pensamento ao item 4.

Confuso, Edward retirou a agenda do bolso e sorriu ao ler. Número 4: Para Reter uma Amante.

— Boa memória, Andrew, mas garanto que nunca dei um colar de brilhantes a um de meus cavalos.

— E deu uma maçã para sua amante? O conde riu.

— Meu rapaz, uma mulher nunca ficaria feliz com um presente desses.

Ante o tom condescendente, Bella se empertigou furiosa. Como gostaria de revelar sua verdadeira identidade para vê-lo ar regalar os olhos e abrir a boca de espanto! Tratou de se controlar, e murmurou:

— Jasmine disse que sou um garanhão. Edward voltou a sorrir de modo paternal.

—As prostitutas são pagas para fazê-lo acreditar que é o melhor amante do mundo.

— E uma amante não age assim?

— Não... sim... Porém a amante interessa mais como um troféu para o homem. Vale muito se tem vários outros pretendentes, e é isso que importa.

— Se é verdade, gostaria de ler o restante de suas anotações e regras.

— Pediria a um campeão que divulgasse suas técnicas? A um mágico que revelasse o segredo de seus truques? Lamento, mas já deixei que lesse o suficiente. Terá que adquirir suas próprias ex periências daqui em diante.

Bella estirou as pernas e cruzou-as na altura dos tornozelos, como vira o irmão fazer, e sorriu.

— Um método que foi testado por um só homem não é um fato cientifico. Talvez seu sucesso com as mulheres se deva à sua... elegância. Veste-se muito bem, milorde, portanto o crédito vai para seu alfaiate.

— Tolice!

— Pode ser, mas existem outros fatores que sem dúvida con tribuem para o seu sucesso.

— Minhas botas? — brincou Edward. — Um brinde ao sa pateiro!

— Bem, milorde é muito rico. — Fitou-o de cima a baixo.

— Tem uma aparência física razoável, é pontual, asseado... e possui todos os dentes.

As ironias começaram a irritai- o conde, que afrouxou a gravata.

— Sinto-me lisonjeado. Jamais alguém enumerou minhas qua lidades assim. Porém teria acrescentado à sua lista sofisticação, inteligência e experiência para satisfazer uma mulher.

— E é vaidoso também. — observou Bella em tom sarcástico. O conde inclinou a cabeça em um cumprimento irônico.

— Está bem. Enviarei uma cópia de minhas regras de ouro para você — disse, fazendo Bella imaginar que saíra vitoriosa. — E ficarei observando enquanto põe em ação meus métodos.

Bella quase engasgou de surpresa.

— Impossível!

— E por quê? Tem uma aparência razoável — continuou Edward, plagiando as palavras de Bella — e todos os dentes. Vou ensiná-lo a lutar boxe.

— Não posso, minha... tia Elizabeth fez planos.

—Enviarei uma carta para ela. Tenho certeza que ficará agra decida por ver que pretendo colocar seu sobrinho sob minha proteção.

— Tenho certeza que jamais concordará.

— Claro que sim. Sou um conde e isso me dá certas prerro gativas.

Deus! O que fizera? Seu espírito de aventura colocara a família em perigo, pensou Bella. Tia Elizabeth nunca a perdoaria se sou besse de tudo que fizera. Sem mencionar a pobre Rose.

Precisava ganhar tempo para fazer o jovem "Andrew" desapa recer. Talvez uma grande viagem, refletiu. Isso mesmo! Afinal, o verdadeiro Andrew estava viajando. No dia seguinte enviaria uma mensagem polida para lorde Edward, informando sobre a partida de Andrew para o continente. A história terminaria ali, e o verda deiro lorde Mansen não ficaria sabendo de nada. A voz do conde a arrancou de seus pensamentos.

— Acompanhá-lo será divertido, além de conveniente.

Bella o fitou, curiosa.

— Como disse?

— Desculpe. Estava pensando em voz alta.

— Mas mencionou algo sobre ser conveniente. Por quê?

— Não foi nada.

— Conte logo! Tenho direito de saber.

Edward pareceu pensar por um momento, e depois balançou a cabeça concordando.

— Muito bem, mas isso deverá ficar entre nós dois. Decidi procurar uma esposa.

Bella imaginou as mães das debutantes em polvorosa, e o con de riu.

— Feche a boca antes que entre uma mosca. Não estou dizendo nada absurdo. Todos os homens acabam se casando um dia, meu rapaz.

Aproximavam-se de Grosvenor Park, e Bella tratou de se des pedir.

— Pode me deixar nesta esquina, milorde. Seguirei a pé para tomar um pouco de ar fresco.

— Então irei procurá-lo amanhã às quatro horas da tarde. Co meçaremos com uma visita ao meu alfaiate. E pode dizer para sua tia ficar sossegada que não esqueci o salão de jogos.

Bella ficou parada na calçada, enquanto a carruagem seguia seu caminho.

— Que inferno! — exclamou pela primeira vez em sua vida de moça recatada.

— Consegui me meter em outra encrenca!

Edward recostou-se no assento do coche, satisfeito consigo mesmo. Andrew seria a alavanca para reingressar na alta sociedade que tanto detestava.

Tudo ia bem, mas se sentia inquieto. Havia algo estranho que não conseguia entender. Seus instintos lhe diziam isso, e apren dera a confiar neles. Seria apenas por causa do lento progresso nas investigações? Mas estava certo que haveria um desfecho em breve.

Relembrou a conversa com o diretor, pois não conseguia iden tificar o motivo de sua apreensão

Entretanto um problema conseguia identificar. Sua língua solta. Falara demais enquanto se encontrava na companhia de Andrew.

Primeiro a viúva, depois o sobrinho, pensou. Por que os mem bros daquela família o faziam baixar a guarda?

Bella penetrou na casa pé ante pé. Tentou subir as escadas com cuidado, mas uma voz esganiçada gritou no escuro.

— Saia daqui, seu ladrão de meia-tigela!

Bella piscou para conseguir enxergar alguma coisa.

— Cope?

A velha, com um camisolão xadrez e chinelos amarelos, surgiu como uma valquíria vingadora, um taco de críquete na mão. Uma expressão de reconhecimento surgiu em seu rosto enrugado, e dei xou cair a arma improvisada.

Mas então, desperta pelas exclamações de Cope, toda a criadagem acorreu ao vestíbulo.

Ao ver a ama, Mike guardou no cós da calça a pistola que empunhava, e a sra. Denali pôs de lado um atiçador de lareira.

— Lamento tê-los acordado — gemeu Bella. — Voltem a dormir.

Subiu as escadas e lá encontrou Rosalie, de camisola, que a aguardava.

— Bella! Já voltou? Recebi doze cartões hoje de pessoas requi sitando minha presença em suas festas. Quatro buquês de flores, seis poemas, três caixas de chocolate, e uns lenços bordados com minhas iniciais que devolvi, é claro, por ser um presente muito pessoal. Aliás nem sei quem foi o cavalheiro que o mandou.

Bella dominou uma pontada de inveja. Durante as duas tempo radas que passara em Londres não recebera nem a metade das atenções que a irmã recebia.

— Fez bem.

—Precisa me contar sobre sua aventura desta noite, Bella. Deve ter sido fascinante.

— Sim, foi...

Rosalie cobriu a boca com a mão.

— Talvez pela manhã. Lorde Mcarthey vai me levar para um passeio no parque e não quero ficar com olheiras por falta de sono.

— Sim, é claro. Boa noite, querida.

Bella viu a irmã entrar no quarto, e desceu de novo. Notou luz sob a porta da biblioteca, e soube que Cope lá estava, fazendo suas rezas contra as forças do mal.

Ainda bem que Jasper sempre chega ao amanhecer, senão meu disfarce teria sido descoberto, pensou Bella com alívio. Só lamen tava o trabalho que a pobre Sra. Carmem teria para descosturar as emendas que fizera nas roupas a fim de que lhe servissem. Porém o irmão não podia desconfiar de nada.

Bella subiu para seu quarto, e lá encontrou um bule com chá quente e uma salva com frutas e biscoitos. Apesar de exausta, não conseguiu sentir conforto dentro da camisola de flanela e sob as cobertas macias.

Rosálie tinha razão. A noite fora fascinante. Sua primeira aven tura real. Não considerava sua vida maçante, porém... muito calma.

Mas nessa noite se transformara em uma de suas heroínas, re fletiu. Vestira-se de homem, arriscara a reputação saindo sozinha com o conde Cullen e ainda fora a um bordel. Era muito provável que fosse a única mulher de seu meio a ter entrado em uma casa de prostituição.

Muito excitada para dormir, levantou-se, colocou um xale nos ombros, atiçou o fogo da lareira, e foi escrever.

O dia amanhecia quando Bella começou a descer as escadas calçando os chinelos delicados que não faziam o menor ruído. Estava com fome e não havia necessidade de acordar os criados.

Varara a noite preparando seu manuscrito sobre o salão de jo gos. Teria que se basear na própria imaginação de novo, pois não conseguira visitar um de verdade. Blackthorne, editor muito com petente, estava certo. A cena era crucial para o desenvolvimento do personagem do herói, e transportar o jogo para um bordel reforçava ainda mais a veracidade, com alguns toques tirados de sua imaginação.

Incluíra Rose e Jasmine como personagens com outros nomes, no intuito de agradecê-las. No momento mal via a hora de ama nhecer para poder levar seu trabalho ao editor.

Mas antes que alcançasse o último degrau, a porta da casa se abriu com um repelão e Jasper entrou cambaleando, apoiado ao braço de seu amigo de infância e companheiro de jogo, James. Cantavam uma canção da moda, mas o irmão de Bella parecia ter esquecido quase todas as estrofes. Mike surgiu por outra porta, como se estivesse no aguardo do amo, e segurou-o pelo outro braço.

O primeiro impulso de Bella foi subir as escadas correndo, po rém decidiu ficar para que Jasper compreendesse mesmo bêbado, que não a enganava. Os três homens ficaram paralisados ao vê-la, e James fez um cumprimento galante.

— Srta. Bella, está linda esta manhã.

O comentário era insolente, pois sabia estar despenteada e de roupão. Bella cruzou os braços sobre o peito com ar severo.

— Jasper...

—Não fique zangada comigo, mana. — Assim dizendo, retirou várias notas do bolso.

— Estamos ricos.

— Você está bêbado.

O rapaz deu de ombros, mas o movimento brusco o fez perder o equilíbrio e, se não fosse pela mão firme de Mike, teria des pencado no chão.

— Sempre venço quando me embriago.

— Discutiremos isso mais tarde.

Com um gesto, indicou a Mike que era hora de levar Jasper para a cama.

James encostou-se no corrimão da escada.

— Uma boa anfitriã me convidaria para tomar café. Sempre que Jasper não estava por perto, seu amigo tentava flertar de modo indelicado, e isso deixava Bella exasperada.

— O café da manhã só será servido dentro de duas horas.

— comunicou com frieza.

— Posso imaginar várias maneiras de passar o tempo enquanto aguardamos — replicou James, fitando-a de cima a baixo.

O mordomo Manson denali surgiu, já vestido para trabalhar.

— Posso fazer algo pela senhorita?—indagou com serenidade.

— Obrigada, Denali. O cavalheiro já estava de saída.

O mordomo fez um gesto delicado de cabeça que nem por som bra traía o fato de conhecer o tipo de homem que era James, e abriu a porta da rua.

— Nem sempre estará protegida por serviçais. — murmurou o amigo de Jasper antes de sair.

Estremeceu ante o tom de voz dissimulado e ameaçador, fazen do James sorrir de maneira zombeteira.

— Raios! — sussurrou Bella por entre os dentes semicerrados, assim que a porta se fechou.

Dessa vez a imprecação surgiu em seus lábios de modo natural.