CAPÍTULO 9
O duque do Masen foi visto, uma vez mais, com a senhorita McCarthy (Isabella McCarthy para o que, como a esta autora, custa- diferenciar a todas as irmãs McCarthy). Passou já muito tempo desde que esta autora viu um casal tão apaixonado como este.
Entretanto, é estranho que, exceção da excursão familiar a Greenwich, que relatávamos nestas páginas faz dez dias, só os veja juntos em bailes e festas. Esta autora sabe de boa tinta que, embora o duque visitou a senhorita McCarthy em sua casa faz duas semanas, não o tornou a fazer e, além disso, não os viu passeando juntos pelo Hyde Park nenhuma só vez!
REVISTA DE SOCIEDADE DO LADY WHISTEDOWN,
14 de maio de 1813
Duas semanas depois, Isabella estava no Hampstead Heath, entre as colunas do salão de lady Trowbridge, afastada de todo o mundo. Gostava de estar ali.
Não queria ser o centro da festa. Não queria encontrar-se com as dezenas de homens que agora matariam por uma dança com ela. Honestamente, não queria estar nesse baile.
Porque Edward não estava.
Mas isso não queria dizer que não fosse dançar em toda a noite.
Todas as predições do Edward referentes a sua crescente popularidade eram certas e Isabella, que sempre tinha sido a garota que todos gostavam mas que ninguém adorava, converteu-se da noite para o dia na sensação da temporada. Todos os que se incomodavam em dar sua opinião a respeito, que era todo mundo, declaravam que sempre tinham sabido que Isabella era especial e que estavam esperando que outros se dessem conta. Lady Pulôver disse a todos que quisessem escutar que ela havia predito o êxito de Isabella fazia meses e que o único mistério era por que ninguém lhe tinha feito caso antes.
E tudo aquilo, é claro, eram tolices. Embora Isabella nunca tivesse sido objeto do desprezo de lady Pulôver, nenhum dos McCarthy recordava havê-la escutado referir-se ao Isabella, como o fazia agora, como "O tesouro do futuro".
Entretanto, embora agora tivesse o cartão de baile cheio depois de poucos minutos de chegar a uma festa e embora os homens brigassem por lhe trazer um copo de limonada, a primeira vez que tal se passou, esteve a ponto de pôr-se a rir a gargalhada, descobrindo que nenhuma noite era memorável a menos que Edward estivesse ali.
Não importava que lhe parecesse necessário mencionar, ao menos uma vez cada noite, sua completa oposição à instituição do matrimônio. Embora, muito ao seu favor, normalmente o mencionava junto com seu agradecimento ao Isabella por salvar o das garras de todas essas mães desesperadas. E tampouco importava que às vezes ficasse calado ou fosse mal educado com determinados membros da sociedade.
Só importavam os momentos em que estavam quase sozinhos, porque nunca estavam os dois sozinhos, mas que podiam fazer o que quisessem. Uma divertida conversa em um canto, uma valsa ao redor do salão. Isabella podia olhá-lo aos pálidos olhos e esquecer-se que estava rodeada de quinhentas testemunhas, todas inexplicavelmente interessadas no estado de seu cortejo.
E quase esquecia que esse cortejo era todo fachada.
Isabella não havia tornado a tentar falar do Edward com o Emmet. A hostilidade de seu irmão reluzia sempre que o nome do Edward aparecia na conversa. E quando se encontravam... bom, Emmet o tratava com cordialidade, mas daí não passava.
E, ainda apesar de toda essa raiva, Isabella ainda via brilhos de sua amizade entre eles. Ela só esperava que quando tudo isto terminasse, e ela estivesse casada com algum aborrecido embora afável conde que nunca a fizesse estremecer, os dois homens voltassem a ser amigos.
A pedido do Emmet, Edward decidiu não ir a todos os eventos sociais que Renne e Isabella tinham confirmado sua presença. Emmet disse que a única razão pela que tinha aceito aquela ridícula farsa era para que Isabella encontrasse um marido entre os novos pretendentes. Infelizmente, segundo Emmet e, felizmente para Isabella, nenhum desses jovens se atrevia a aproximar-se dela se Edward estava presente.
"Já vejo o bem que te está fazendo isto", foram às palavras exatas do Emmet. Em realidade, foram acompanhadas de muitas palavras malsoantes que Isabella nunca se atreveu a repetir. Desde o incidente no rio, Emmet tinha investido muito tempo lançando impropérios para a pessoa de Edward.
Entretanto, Edward entendeu o jogo do Emmet e disse a Isabella que queria que encontrasse um marido apropriado. Assim Edward desapareceu.
E Isabella ficou destroçada.
Supôs que teria que ter sabido que, cedo ou tarde, aquilo ia acontecer. Deveria ter sabido os perigos de ser cortejada, embora não fosse de verdade, pelo homem que a sociedade tinha batizado como o Irresistível Duque.
Tudo começou quando Philipa Featherington o descreveu como "irresistivelmente bonito" e como o conceito de falar em voz baixa não existia na cabeça da Philipa, todo mundo a escutou. Em poucos minutos, o recém-chegado se converteu no príncipe azul da temporada, e aí nasceu o Irresistível Duque.
Para Isabella o nome pareceu tristemente irônico, porque o duque irresistível lhe estava destroçando o coração.
E não era culpa do Edward. Ele a tratava com muito respeito, honra e senso de humor. Inclusive Emmet teve que admitir que não lhe dava nenhum motivo de queixa. Edward nunca tentava ficar a sós com Isabella e seus contatos se limitaram a um casto beijo na mão enluvada, e para maior desespero de Isabella, aquilo só tinha acontecido duas vezes.
Converteram-se na melhor companhia para o outro, compartilhando desde longos silêncios até a mais divertida das conversas. Cada festa, dançavam juntos duas vezes, o máximo permitido sem escandalizar a sociedade.
E Isabella soube, sem dúvida nenhuma, que se estava apaixonando. A situação não podia ser mais irônica. Tinha começado a passar cada vez mais tempo em companhia de Edward para atrair a mais homens. Por sua parte, Edward tinha começado a passar cada vez mais tempo com Isabella para evitar o matrimônio.
Pensando-o bem, disse Isabella, apoiando-se na parede, a ironia era esquisitamente dolorosa.
Embora Edward continuasse expressando em voz alta sua aversão ao matrimônio, às vezes Isabella o via observar a de uma maneira que qualquer diria que a desejava. Jamais havia tornado a repetir os atrevimentos comentários que lhe tinha feito antes de saber que era uma McCarthy, mas as vezes o via olhá-la com o mesmo desejo e a mesma ferocidade que aquela primeira noite.
Obviamente, quando se sentia observado afastava o olhar, mas aquilo já era suficiente para arrepiar a pele e cortar a respiração de Isabella.
E esses olhos! Todos gostavam dessa cor parecida ao gelo e quando Isabella o observava enquanto falava com outra pessoa, entendia por que. Edward era tão loquaz com outros como com ela. Cortava as palavras, falava em um tom mais brusco e seus olhos refletiam a dureza de seu caráter.
Entretanto, quando riam juntos, os dois zombando de alguma estúpida norma social, brilhavam-lhe os olhos. Eram mais quentes e acolhedores. Inclusive, nos momentos mais felizes, Isablla achava que iriam derreter se.
Suspirou e se afundou ainda mais na parede. Tinha a sensação de que, nos últimos dias, cada vez havia mais momentos felizes.
-Bella, o que faz se escondendo aqui?
Isabella levantou o olhar e viu que Jasper se aproximava, com seu habitual sorriso presunçoso no atraente rosto. Desde sua volta a Londres, tinha arrasado por toda a cidade, e Isabella podia facilmente citar uma dezena de garotas que estavam seguras de estar apaixonadas por ele e que morriam por desfrutar de suas atenções. Entretanto, não estava preocupada porque seu irmão se encaraprichar com alguma delas, porque ainda tinha que provar muitas flores antes de sentar a cabeça.
-Não me escondo - corrigiu-. Evito a determinadas pessoas.
-A quem? Ao Masen?
-Claro que não. Além disso, esta noite não veio.
-Sim veio.
Como se tratava do Jasper, cujo principal objetivo na vida, além de correr atrás das garotas e apostar nos cavalos, claro, era atormentar a sua irmã, Isabella quis ignorá-lo, mas acabou sucumbindo e perguntou.
-De verdade?
Jasper assentiu e fez um gesto com a cabeça apontando a entrada do baile.
- O vi entrar não faz nem um quarto de hora.
Isabella entrecerrou os olhos.
- Está zombando de mim? Porque ele me disse claramente que esta noite não viria.
-E por que veio você? - Jasper cobriu as faces com as mãos e abriu a boca, fingindo estar surpreso.
-Porque sim - respondeu ela-. Minha vida não gira em torno de Masen.
-A não?
Isabella teve a sensação de que seu irmão o dizia a sério.
-Não, é claro que não - disse ela.
-Pode ser que sua vida não girasse em torno de Masen, mas seus pensamentos sim.
Os olhos verde esmeralda do Jasper adquiriram uma seriedade pouco habitual nele.
-Está por ele, não é verdade?
-Não sei o que quer dizer.
Jasper sorriu, seguro de si mesmo.
-Já o descobrirá.
-Jasper!
- Enquanto isso -disse ele, olhando para a porta - por que não vai buscá-lo? Estou convencido de que minha companhia empalidece ante a perspectiva da dele. Vê? Até seus pés se estão afastando de mim.
Isabella olhou ao chão, horrorizada de que seu corpo a traísse daquela maneira.
-Ah! fiz você olhar.
- Emmet McCarthy - disse Daphne-. Às vezes acredito que não pode ter mais de três anos.
- Isso é interessante - disse ele, rindo-. Porque quereria dizer que estaria na tenra idade de um ano e meio, irmãzinha.
A falta de uma resposta suficientemente seca, Isabella se limitou a olhá-lo com o cenho franzido. Entretanto, Jasper só pôde rir.
-Uma expressão muito atraente, Bella, mas estou certo de que suas faces prefeririam substituí-la por um sorriso. O irresistível duque vem para aqui.
Isabella se disse que não tropeçaria duas vezes na mesma pedra. Não ia fazê-la olhar.
Jasper se aproximou dela e lhe sussurrou:
-Esta vez é a sério, Bella.
Isabella manteve a careta.
Jasper riu.
-Isabella! - A voz do Edward. Justo em sua orelha.
Isabella se virou.
Jasper riu com mais vontade.
-Deveria confiar mais em seu irmão favorito, Bella.
-Ele é seu irmão favorito? -perguntou Edward, arqueando uma incrédula sobrancelha.
-Só porque Gregory me pôs um sapo na cama ontem de noite - respondeu Isabella -. E Benedict perdeu o direito a sê-lo no dia que decapitou a minha boneca preferida.
-Me pergunto o que terá feito Emmet para não optar por tão honorável título -murmurou Jasper.
-Não tem que ir a nenhum lugar? - perguntou Isabella.
Jasper encolheu os ombros.
-Em realidade, não.
-Não me acaba de dizer - perguntou Isabella, entre dentes-, que tinha prometido uma dança à Prudence Featherington?
-Deus, não. Deve ter escutado mau.
-Talvez mamãe esteja procurando-o. E mais, acredito que a ouvi chamá-lo.
Para sua desgraça, Jasper riu.
-Não deveria ser tão óbvia - disse em voz baixa, embora não tão baixa para que Edward não pudesse ouví-los. - Descobrirá que você gosta.
O corpo do Edward se sacudiu com um pouco de dissimulado regozijo.
-Não é sua companhia que tento assegurar - disse Isabella, mordaz. - É a sua que quero evitar.
Jasper se colocou uma mão no coração.
-Me matas, Bella. - Se virou para o Edward-. Como me mata.
-Enganou-se de profissão, McCarthy - disse Edward, que esteve genial-. Deveria ter sido ator.
-Teria sido interessante - respondeu Jasper-. Embora à minha mãe teria dado algo. -Se lhe iluminou o olhar. - Tenho uma idéia. Justo agora que começava a me aborrecer. boa noite aos dois. -se inclinou e se foi.
Edward e Isabella ficaram calados enquanto observavam como Jasper se perdia entre a multidão.
-O próximo grito que ouvir - disse Isabella-, certamente será de minha mãe.
-E o som seco será o golpe de seu corpo contra o chão quando desmaiar?
Isabella assentiu, sorrindo muito a seu pesar.
-Mas, bom. -Fez uma pausa e continuou-. Não esperava vê-lo esta noite.
Edward encolheu os ombros e a jaqueta do impecável traje negro se enrugou um pouco.
-Estava aborrecido.
-Estava aborrecido e decidiu vir até o Hampstead Heath para vir ao baile anual de lady Trowbridge? -Isabella arqueou as sobrancelhas. Hampstead Heath estava a uns dez quilômetros do Mayfair, no mínimo com uma hora se a estrada estivesse em boas condições e mais em noites como essa, em que todo mundo se dirigia ao mesmo lugar-. Me perdoe se começar a me questionar sua saúde mental.
-Eu também estou começando a me questionar isso - disse ele.
-Bem, em qualquer caso - disse ela, com um suspiro de felicidade-, me alegro que tenha vindo. foi uma noite espantosa.
-De verdade?
Ela assentiu.
-Me avassalaram com perguntas sobre você.
-Bem, isto fica interessante.
-Eu não iria tão depressa. A primeira foi minha mãe. Quer saber por que nunca vem para ver-me à tarde.
Edward franziu o cenho.
-Acha que é necessário? Pensava que minha total dedicação a você nestas festas bastaria para perpetrar nosso engano.
Isabella se surpreendeu a si mesma ao reprimir uma careta de frustração. Edward não tinha que dizê-lo como se aquilo fosse um trabalho muito pesado para ele
-Sua total dedicação teria bastado para enganar a qualquer um menos a minha mãe. E possivelmente não teria dito nada se sua ausência diurna não tivesse aparecido no Whistedown.
-De verdade? -perguntou Edward, muito interessado.
-Sim. Assim será melhor que venha amanhã à tarde ou todo mundo começará a fazer-se perguntas.
-Gostaria de saber quem são os espiões dessa senhora - murmurou Edward - E então os contrataria para mim.
-Para que necessita de espiões?
-Para nada. Mas me parece uma lástima deixar que tanto talento se desperdice nisso.
Isabella duvidou que lady Whistedown estivesse de acordo em que esse talento se desperdiçava, entretanto, não queria começar uma discussão sobre os méritos e deméritos daquela revista, assim não disse nada.
-E depois - continuou-, depois de minha mãe, vieram outros e isso foi pior.
-Deus nos ajude.
Lançou-lhe um olhar mordaz.
-Todas eram mulheres exceto um e, embora todos expressaram publicamente que se alegram por minha felicidade, claramente tentavam adivinhar as probabilidades que tinha que não acabássemos juntos.
-Suponho que disse a todos que estou desesperadamente apaixonado por você, não é verdade?
Isabella sentiu uma sacudida em seu interior.
-Sim - mentiu, lhe oferecendo um sorriso tremendamente doce. - Ao fim e ao cabo, tenho que manter uma reputação.
Edward riu.
-E me diga quem foi o único homem que a interrogou?
Isabella ficou séria.
-Em realidade, era outro duque. Um homem mais velho e muito estranho que diz que era um bom amigo de seu pai.
Os músculos do rosto do Edward se tencionaram imediatamente.
Isabella encolheu os ombros e não percebeu a mudança na expressão do Edward.
-Me começou a dizer o "bom duque" que era seu pai. - Isabella riu enquanto tentava imitar a voz do homem. - Não tinha nem idéia que os duques tinham que sair em defesa de outros. Bom, tampouco queremos que um duque incompetente desmereça seu título, não?
Edward não disse nada.
Isabella começou a dar-se batidinhas com um dedo na face enquanto pensava.
-Sabe? Nunca o ouvi mencionar ao seu pai.
- Isso é porque eu não gosto de falar dele - disse Edward, muito seco.
Ela piscou, preocupada.
-Passa-lhe algo?
-Não - disse ele, com a voz cortante.
-Oh. -Isabella se deu conta de que estava mordendo o lábio inferior e se obrigou a parar-. Então, não o mencionarei.
-He dito que não me passa nada.
Isabella se manteve imperturbável.
-Claro.
Produziu-se um longo e incômodo silêncio. Isabella se entreteve com o tecido do vestido antes de dizer:
- As flores que lady Trowbridge usou para decorar a casa são bonitas, não lhe parece?
Edward seguiu com o olhar as rosas brancas e cor-de-rosa que Isabella estava tocando.
-Sim.
-Me pergunto se as cultivará ela.
-Não tenho nem idéia.
Outro desconfortável silêncio.
- As roseiras são muito difíceis de cuidar.
Desta vez, a resposta se limitou a um som gutural.
Isabella pigarreou e então, quando Edward nem sequer a olhava, perguntou:
-Provou a limonada?
-Não bebo limonada.
-Bem, pois eu sim - respondeu ela, muito seca, porque já tinha suportado bastante-. E tenho sede. Assim, se me desculpar, vou procurar um copo de refresco e o deixo aqui com seu mau humor. Estou certa de que encontrará a alguém mais divertido que eu.
Virou-se para partir, mas não pôde dar nem um passo porque sentiu uma forte mão que a agarrava pelo braço. Sob a vista, momentaneamente fascinada pela visão da mão enluvada do Edward apoiada na seda alaranjada de seu vestido. Olhou-a fixamente, quase desejando que se movesse, que lhe percorresse o braço até a parte nua do cotovelo.
Entretanto, Edward não ia fazê-lo. Só fazia essas coisas em sonhos.
-Isabella, por favor - disse-. Olhe-me.
Falava em voz baixa e com uma intensidade que a fez estremecer.
Virou-se e, quando seus olhos se encontraram, Edward disse:
-Por favor, aceite minhas desculpas.
Ela assentiu.
Entretanto, Edward sentia a necessidade de explicar-se mais.
-Eu não...- Tossiu um pouco para limpar a garganta-. Não me dava bem com meu pai. E não... Eu não gosto de falar dele.
Isabella o olhou fascinada. Nunca o tinha visto tão inseguro.
Edward suspirou, irritado. Isabella pensou que era muito estranho, mas parecia que estava irritado consigo mesmo.
-Quando o mencionou - Sacudiu a cabeça, como se quisesse mudar o rumo da conversa.- Me grava na memória. Não posso deixar de pensar nele. Me-me-põe isso muito furioso.
- Sinto muito - disse ela, consciente que seu rosto refletiria sua confusão. Pensava que devia dizer algo mais, mas não sabia as palavras que tinha que usar.
-Consigo não - disse ele, rapidamente e quando seus pálidos olhos azuis se centraram nela, pareceram mais relaxados. Seu rosto também relaxou um pouco, sobre tudo as linhas que lhe tinham acentuado ao redor da boca. Engoliu em seco -. Zango-me comigo mesmo.
-E, ao que parece, também com seu pai - disse ela, suavemente.
Ele não disse nada. Isabella não esperava que o fizesse. Edward ainda a tinha agarrada pelo braço, assim lhe cobriu a mão com a sua.
-Você gostaria de sair para tomar ar? - perguntou. - Parece que o necessita.
Ele assentiu.
-Você fique. Se sair comigo ao terraço, Emmet me cortará a cabeça.
-Emmet pode dizer da missa - disse Isabella, irritada-. Estou farta de sua vigilância constante.
-Só tenta ser um bom irmão.
-De que lado está?
Ignorando essa pergunta, Edward disse:
-Está bem. Mas só um passeio. Com o Emmet posso, mas se acudirem todos seus irmãos, sou homem morto.
A alguns metros, havia uma porta que dava ao terraço. Isabella a indicou e a mão do Edward desceu por seu braço até chegar ao cotovelo.
-Além disso, possivelmente haja dezenas de casais no terraço - disse ela-. Assim não poderá dizer nada.
Entretanto, antes que pudessem sair, ouviram uma voz masculina a suas costas:
-Masen!
Edward se deteve e se virou, triste de quão familiarizado estava com o nome de seu pai. Dentro de pouco, pensaria nele como seu próprio nome. Sem saber por que, aquela idéia o desgostava.
Um senhor mais velho com uma bengala se aproximou.
- É o duque de quem lhe falei - disse Isabella-. Middlethorpe, acredito.
Edward só assentiu, porque não tinha vontade de falar.
-Masen! -exclamou o senhor, lhe dando uns golpezinhos no braço-. Faz muito tempo que desejava conhecê-lo. Sou Middlethorpe. Era muito amigo de seu pai.
Edward assentiu de um modo tão preciso que parecia um militar.
- Sentiu falta de você, sabe? Durante suas viagens.
Edward sentiu que a ira ia crescendo em seu interior e aquilo lhe paraliso a língua. Sabia, sem nenhum tipo de dúvida, que se tentasse falar, soaria igual a quando tinha oito anos.
E, por nada do mundo, queria envergonhar-se assim diante de Isabella.
Sem saber como, possivelmente porque nunca tinha tido muitos problemas com as vocais, disse:
-Oh.
Alegrou-se que sua voz soasse seca e condescendente. Entretanto, se o homem percebeu o rancor em sua voz, o passou por cima.
-Estive com ele quando morreu - disse Middlethorpe.
Edward não disse nada.
Isabella, bendita seja, interveio na conversa com um compassivo: Meu Deus.
-Me pediu que lhe desse algumas mensagens. Em casa, tenho várias cartas.
-Queime-as.
Isabella se surpreendeu e agarrou ao Middlethorpe pelo braço.
-Oh, não, não o faça. Talvez não queira lê-las agora, mas certamente no futuro mudará de opinião.
Edward a atravessou com o olhar e se girou para o Middlethorpe.
-Lhe digo que as queime.
-Eu...né - Middlethorpe parecia totalmente confundido. Deveria saber que o duque e seu filho não se davam bem, mas obviamente o defunto duque não lhe tinha explicado a verdadeira natureza de sua relação. Olhou ao Isabella, reconhecendo a uma possível aliada, e o disse-. Além das cartas, disse-me que lhe explicasse várias coisas. Poderia dizer-lhe agora.
Entretanto, Edward tinha soltado Isabella e tinha saído para o terraço.
- Sinto muito- disse Isabella ao Middlethorpe, sentindo a necessidade de desculpar o atroz comportamento do Edward-. Estou certa de que não era sua intenção ser tão brusco.
A expressão do Middlethorpe lhe confessou que ele sabia que aquela tinha sido exatamente sua intenção.
Entretanto, Isabella disse:
- É um pouco sensível quando se trata de seu pai.
Middlethorpe assentiu.
- O duque já me advertira que reagiria assim. Mas, enquanto me dizia isso riu e disse algo do orgulho dos Cullen. Devo confessar que não achei que o dissesse a sério.
Isabella olhou nervosa para a porta.
-Ao que parece, sim o fazia - disse-. Será melhor que vá com ele.
Middlethorpe assentiu.
-Por favor, não queime as cartas - disse ela.
-Nunca me teria ocorrido. Mas...
Isabella já ia para o terraço, mas se deteve ao ver que o homem tinha algo mais que dizer.
-O que acontece?
- Já sou velho e estou doente -disse ele. - Os médicos dizem que não resta muito tempo. Poderia lhe deixar as cartas?
Isabella o olhou surpreendida e horrorizada. Surpreendida porque não podia acreditar-se que lhe confiasse uma correspondência tão pessoal a uma garota jovem a quem mal conhecia. E horrorizada porque sabia que, se as aceitasse, Edward jamais a perdoaria.
-Não sei - disse, indecisa-. Não estou certa de ser a pessoa indicada.
Os anciões olhos do Middlethorpe se enrugaram como os de alguém que sabe o que vai dizer.
-Creio que você é exatamente a pessoa mais indicada - disse-Além disso, acredito que saberá encontrar o momento adequado para dar-lhe. Posso fazer chegá-las a sua casa?
Isabella assentiu. Não sabia que outra coisa fazer.
Middlethorpe levantou a bengala e apontou para o terraço.
-Será melhor que vá com ele.
Isabella o olhou, assentiu e se foi. O terraço estava iluminado por uns poucos spots na parede, assim estavam quase na penumbra e só viu o Edward ajudada pela luz da lua. Estava de pé, muito zangado, com os braços cruzados sobre o peito. Estava olhando o interminável prado que se estendia em frente do terraço, mas Isabella tinha sérias dúvidas de que visse além de sua própria raiva.
Avançou silenciosamente para ele, agradecendo a brisa fresca, porque dentro do salão o calor era asfixiante. Escutou algumas vozes e soube que não estavam sozinhos, entretanto não viu ninguém. Obviamente, outros convidados tinham preferido esconder-se em algum escuro e íntimo lugar. Ou, talvez, tinham descido pela escada e estavam sentados nos bancos que havia abaixo.
Enquanto se aproximava dele, Isabella pensou que poderia dizer algo como "foi muito mal educado com o duque" ou "por que está tão zangado com seu pai?" mas, ao final, decidiu que não era o momento de indagar os sentimentos do Edward assim, quando chegou a seu lado, apoiou-se no corrimão e disse:
-Tomara pudesse ver as estrelas.
Edward a olhou, primeiro com surpresa e depois com curiosidade.
-Em Londres não se vêem nunca - continuou ela, falando em voz baixa -. As luzes da cidade são muito brilhantes ou a névoa já está muito baixa. Ou, às vezes, o ar está muito poluído para ver através dele. - Encolheu os ombros e olhou ao céu, que estava tapado-. Esperava poder vê-las aqui mas, por desgraça, as nuvens não querem colaborar.
Ficaram calados um bom tempo. Então, Edward limpou a garganta e disse:
-Sabia que as estrelas são completamente diferentes no hemisfério sul?
Isabella não se deu conta de quão tensa estava até que sentiu que, ante essa pergunta, seu corpo relaxava. Edward estava tentando retomar a noite onde a tinham deixado, e ela estava encantada. Olhou-o, zombadora, e disse:
-Está brincando.
-Não. Olhe em um livro de astronomia.
-Hmmm.
-E o mais interessante - continuou Edward, cada vez mais relajado-, é que, embora não seja um perito em astronomia, e não o sou...
-E, obviamente - interrompeu-o Isabella, com um sorriso - eu tampouco.
Edward pegou sua mão e sorriu, e Isabella respirou satisfeita de ver que seus olhos tinham recuperado a alegria. Então, a satisfação se converteu em algo mais intenso: felicidade.
Felicidade porque tinha sido ela quem tinha apagado as sombras de seus olhos. Queria dissipá-las para sempre.
Se Edward a deixasse...
-Veria a diferença - disse ele. - E isso é o mais estranho. Nunca me preocupei em aprender as constelações mas, quando estava na África olhava ao céu e a noite era tão clara. Nunca tinha visto um céu assim.
Edward o observava, fascinada.
-Olhava ao céu - disse ele, agitando a cabeça-, e era estranho.
-Como pode ser estranho o céu?
Ele encolheu os ombros e levantou uma mão.
-Não sei. Mas o era. As estrelas não estavam em seu sitio.
-Suponho que eu gostaria de ver o céu do hemisfério sul - disse Isabella, melancólica-. Se fosse uma mulher exótica e atrevida, o tipo de mulher sobre a que os homens escrevem poesia, suponho que eu gostaria de viajar.
-Ah, é o tipo de mulher sobre quem os homens escrevem poesia - lhe recordou Edward, em um tom sarcástico-. O que acontece é que era uma poesia muito má.
Isabella riu.
-Não se ria de mim. Foi muito emocionante. Meu primeiro dia com seis pretendentes em casa e Neville Binsby me escreveu uma poesia.
-Sete pretendentes -disse ele - incluindo a mim.
-Sete incluindo a você. Mas você não conta.
-Me mata - disse ele, imitando ao Jasper-. Como me mata.
-Talvez devesse pensar em começar uma carreira no teatro.
-Talvez não - respondeu.
Isabella sorriu.
-Talvez não. Mas o que ia dizer lhe é que, embora seja uma garota inglesa muito aborrecida, não tenho nenhum desejo de ir a nenhum lugar. Aqui sou feliz.
Edward sacudiu a cabeça e uma estranha luz, quase elétrica, iluminou-lhe os olhos.
-Não é aborrecida. E - reduziu a voz a um suspiro emocional-, me alegro que seja feliz. Não conheci a muitas pessoas realmente felizes.
Isabella o olhou e, lentamente, deu-se conta de que Edward se aproximara dela. Duvidava que ele percebera , mas seu corpo tendia a aproximar-se do dela, e Isabella descobriu que não podia afastar o olhar dele.
-Edward? - sussurrou.
-Aqui há gente - disse ele, com a voz abafada.
Isabella se virou para os cantos do terraço. As vozes que se ouviam antes tinham desaparecido, mas também podia ser que os estivessem escutando. Diante de seus olhos, o jardim a estava chamando. Se estivessem em Londres, não poderiam ir além do terraço, porque não haveria lugar, mas lady Trowbridge se orgulhava de ser diferente e oferecia o baile anual em sua segunda residência no Hampstead Heath. Estava relativamente perto do Mayfair, mas poderia ter sido perfeitamente outro mundo. Elegantes casas rodeadas de grandes extensões verdes e, no jardim de lady Trowbridge, havia muitas árvores e flores, arbustos e sebes, Muitos lugares escuros onde um casal podia perder-se.
Isabella sentiu que algo selvagem se apoderava dela.
-Demos um passeio pelo jardim - disse, suavemente.
-Não podemos.
- Temos que fazê-lo.
-Não podemos.
O desespero na voz do Edward lhe disse tudo o que precisava saber. Queria-a. Desejava-a. Estava louco por ela.
Isabella teve a sensação de que seu coração tinha começado a cantar. A flauta mágica e dava saltos de alegria.
E pensou: E se o beijasse? O que aconteceria se entrassem no jardim, levantasse a rosto e deixasse que seus lábios tocassem os dela? Veria ele o muito que o queria? Veria o muito que poderia chegar a querê-la? E talvez, só talvez, veria como o faria feliz.
Então possivelmente deixaria de falar de como estava decidido a não passar pelo vicariato.
-Vou dar um passeio pelo jardim - disse ela-. Se quiser, pode me acompanhar.
Enquanto se afastava, lentamente para que ele pudesse segui-la, escutou-o amaldiçoar do mais profundo de sua alma, e logo escutou seus passos atrás dela.
-Isabella, isto é uma loucura - disse Edward, mas a voz rouca delatava que mais que convencê-la a ela, tentava convencer-se a si mesmo.
Ela não disse nada, só continuou entrando nas profundidades do jardim.
-Pelo amor de Deus, Isabella, Quer me escutar? - Pegou-a com força pelo pulso e a obrigou a olhá-la. - Fiz uma promessa a seu irmão -disse, selvagem -. Fiz-me uma promessa mesmo.
Ela esboçou o sorriso da mulher que se sabe desejada.
-Então, parta.
-Sabe que não posso fazê-lo. Não posso deixá-la sozinha no jardim. Alguém poderia tentar ultrapassar-se.
Isabella encolheu os ombros e tentou soltar-se de sua mão. Entretanto, os dedos do Edward a apertaram ainda mais. Assim, embora ela soubesse que não era sua intenção, não opôs resistência e se deixo levar pelo puxão, aproximando-se dele até que entre os dois só ficou um palmo.
A respiração do Edward se acelerou.
-Não o faça, Isabella.
Ela tentou dizer algo criativo, algo sedutor. Entretanto, a valentia lhe falhou no último momento. Nunca a tinham beijado e agora que tinha convidado ao Edward que fosse o primeiro, não sabia o que fazer.
A mão do Edward se afrouxou um pouco mas em seguida voltou a fechar-se com força sobre seu pulso, levando-a consigo atrás de uma grande sebe.
Sussurrou seu nome, acariciou-lhe a face.
Isabella abriu os olhos e separou os lábios.
E, afinal, foi inevitável.
