Aliança
Livro I: Sinais
"Harry se equivocava ao pensar que tudo ia bem. E o primeiro sinal foram os desaparecimentos."
Fanfiction de Helena Dax. Tradução autorizada pela autora.
Nota da Tradutora
Boa leitura!
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Capítulo X
Janeiro é um mês ruim
Três dias depois que os garotos voltaram a Hogwarts, mais pessoas desapareceram. Desta vez se tratava de um casal jovem que, ao que constava, haviam desaparecido no meio da noite depois de sair do Três Vassouras. A onda de pânico, contida a duras penas, transbordou finalmente. Haviam desaparecido seis pessoas já, em menos de cinco meses, e agora estava claro para qualquer um, fosse qual fosse o sexo ou a idade, que corriam o mesmo risco. Algumas vozes começaram a perguntar que o os aurores estavam fazendo, porque não haviam pistas, e Harry teve que se dedicar aos rumores da imprensa que, por sua vez, havia preferido se dedicar à investigação por si mesma.
Shacklebolt também começou a pressioná-lo para que encontrasse algo; outras vozes também estavam acusando-o de não estar atuando corretamente diante da crise. Mas tudo o que podiam fazer era reforçar as instruções que haviam dado depois que Emma Bell desapareceu: que não ficassem sozinhos em casa, que tivessem cuidado com desconhecidos, que se assegurassem de que os conhecidos eram realmente quem diziam ser, que reavisassem os feitiços de segurança. Kreacher já estava na casa de Andrômeda, quem havia colocado menos culpa emHarry do que ele havia temido num primeiro momento.
Então, ao final de uma semana, recebeu um informe da BIT* explicando que havia tido um ligeiro aumento no número de pessoas desaparecidas naquele trimestre no Mundo Trouxa. Harry, agarrando-se a única pista, por mais vaga que fosse, que haviam encontrado até então, se moveu dali sem perder tempo e falou com Roman White.
- Não é conclusivo porque os trouxas manejam quantias muito maiores que as nossas – lhe explicou -. E temos que levar em consideração que os pequenos picos como este são frequentes. Mas, é o melhor que temos até agora, Chefe. A média de desaparecimentos na Grã Bretanha durante o último trimestre nos dez últimos anos tem sido de quinze pessoas. Agora estamos falando de vinte e quatro.
Harry olhou as informações. Tinha uma sensação ruim no estômago. Se os responsáveis pelos desaparecimentos mágicos estivessem operando também no Mundo Trouxa, estavam enfrentando algo ainda muito pior do que pensavam. Mesmo que só dois ou três desses desaparecimentos extras fossem obras de magos sequestradores, os psicopatas não tinham por hábito procurar vítimas com tamanha frequência.
Se é que era um psicopata, uma hipótese cada vez mais fraca.
Não, devia se tratar de um grupo organizado. Mundungus Fletcher, quem por fim haviam localizado quase casualmente em um depósito de lixo de Knockturn Alley, havia jurado de mil maneiras diferentes que não havia ouvido absolutamente nada sobre os desaparecimentos. Não lhes restava mais alternativas que acreditar nele, mas Harry sabia que, em algum lugar, alguém tinha que saber algo.
- O que a polícia pensa disso?
- Dos vinte e quatro desaparecidos, ao menos catorze casos foram resolvidos antes do Natal, quando encontraram seus corpos ou descobriram que as desaparições eram voluntárias – respondeu White, enquanto desembrulhava um chocolate -. Das dez que ficaram três são delinquêntes habituais, de forma que a polícia acredita que fugiram para não serem presos pelo último crime que cometeram ou que foram assassinados por acerto de contas.
- Ainda restam sete.
- Sim, quatro mulheres e três homens. Mas os trouxas não os relacionaram ainda, se é que realmente têm relação. Por exemplo, duas das garotas são mais ou menos da mesma idade. Mas em um caso, acreditam que foi assassinada por um delinquente sexual e que mais cedo ou mais tarde vão encontrar o seu corpo, e no outro caso, que a garota pode ter caído nas mãos de uma rede de prostituição.
Harry assentiu, entrelaçando mentalmente todos os dados.
- Há algum desaparecimento trouxa que se enquadre aos nossos?
- Há três casos parecidos, ainda que seja difícil de saber com certeza. Eram pessoas que viviam sozinhas e poderiam ter sido sequestradas no interior de suas casas. Deixei assinalado para você os três homens, caso queria começar por aí.
Harry voltou a assentir e se foi com os papeis até o escritório que também tinha naquele departamento. Não o usava muito, e o único objeto pessoal que tinha ali era uma foto de Gina com as crianças. Mas só queria um lugar tranquilo em que ele pudesse ler e aquele escritório o proporcionava aquilo.
Primeiro começou pelos casos em que haviam encontrado as pessoas desaparecidas ou seus corpos. Um dos hackers da BIT havia entrado nos arquivos da polícia, de forma que tinha bastante informação. Os desaparecimentos voluntários foram rapidamente descartados, mas dedicou mais tempo a ler as informações das seis pessoas que haviam aparecido mortas. Em dois casos, os assassinos eram ex-maridos das vítimas, que as haviam matado e ocultado seus corpos. No outro, a vítima havia sido violentada antes de morrer; ainda não haviam encontrado seu agressor e Harry o colocou a parte por via das dúvidas. Dois homens, um deles de origem russa, haviam aparecido mortos depois que suas famílias denunciaram seus sumiços; a polícia pensava que eram obras das máfias criminosas que operavam no Reino Unido. A sexta informação era a de um homem que poderia ter se suicidado.
Depois de um copo de café, começou com a informação das pessoas que continuavam desaparecidas. Os três delinquentes desaparecidos foram ao monte da garota violada, pois tampouco queria descartá-los de todo. Nos sete casos restantes, havia de tudo. Harry colocou mais quatro no monte e ficou somente com três, os que mais se ajustavam ao que havia acontecido no Mundo Mágico. O primeiro era o de um ancião que vivia sozinho em uma casinha perto de Leicester; o segundo, de uma mulher de quarenta anos que também vivia sozinha em Glasgow e o terceiro, o de um vagabundo cujo sumiço havia sido denunciado por sua namorada, que também vivia no bar.
Os três pareciam ter as mesmas possibilidades, mas Harry não podia deixar de pensar especialmente no último. Parecia haver tantas diferenças entre as vítimas que dava a impressão de que estavam sendo escolhidas porque era mais fácil chegar até elas: quem quer que fosse que estivesse por trás disso, buscava quantidade, não qualidade.
Havia magos e bruxas solitários e antissociais que podiam desaparecer sem que ninguém desse falta até o fim de algum tempo, mas isso não queria dizer que estivessem em uma posição de debilidade, já que a maioria deles eram suspeitos, para não dizer paranoicos, e com um poder mágico muito respeitável. Mas no Mundo Mágico não existia essa quantidade de pessas invisíveis que existia no Mundo Trouxa, composto por indigentes, usuários de drogas sem remédios e imigrantes sem documentos e sem amigos.
E se ele buscava por trouxas que poderiam desaparecer com felicidade, iria exatamente até esse setor da população.
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Harry chamou dois homens da BIT para que investigassem o ancião e a mulher de quarenta anos e depois mandou avisar a Miriam Siegel. Miriam não era a melhor do departamento no que se referia a organização, mas Harry só procurava por gênios da informática para a BIT; também precisava de agentes que se movessem entre os trouxas fazendo se passar por policiais, agentes sociais ou jornalistas ou o que fosse necessário para investigar aquele Mundo sem levantar suspeitas. E Miriam, além de ser extremamente boa com Confundus e com os Obliviates, tinha iniciativa, era ágil na hora de inventar mentiras ou desculpas convincentes e não aceitava um "não" como resposta. Harry pensava que seu físico também ajudava, pois era agradável mesmo que um pouco duro; ninguém se colocaria na defensiva frente a um rosto assim e Miriam sabia se aproveitar desse erro.
Alguns minutos depois, a jovem se apresentou ante ele vestida, como todos, com roupa trouxa; quando Harry lhe disse que tinha uma missão para ela, seus olhos azuis brilharam com entrega.
- O que quiser, Chefe.
- Não vai ser muito agradável – lhe preveniu, mesmo que soubesse que Miriam não costumava se importar com essas coisas -. Temos razões para pensar que as pessoas que estão por trás dos desaparecimentos no Mundo Mágico também estão fazendo trouxas desaparecerem. Existe a possibilidade de que estejam buscando vítimas entre os mendigos de Londres e outras cidades grandes. Quero que investigue isso, que fale com eles e descubra se há rumores a respeito.
Ela assentiu.
- Quer me infiltre? Pode ser que seja mais fácil que falem comigo se pensarem que sou mais uma entre eles.
Muita gente pensava que Harry havia tido tudo a seu favor para se tornar o Chefe dos Aurores, mas se equivocavam. Robards havia se assegurado antes que ele sabia de duas coisas fundamentais: o sentido da responsabilidade nunca devia levá-lo a pensar que não tinha o direito de descansar ou de viver sua vida enquanto existissem casos sem solução, e seu trabalho implicava enviar agentes a situações potencialmente perigosas, inclusive mortais. Havia sido duas lições difíceis de aprender, mas finalmente as havia compreendido, ao menos o suficiente para que Robards pudesse se aposentar e nomeá-lo como seu sucessor. E a verdade era que ainda se sentia ligeiramente culpado quando metia seus agentes em algum perigo e dava graças frequentemente porque ainda podia dizer que não havia perdido nenhum auror sob seu comando.
- Se acha que é necessário, sim.
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Por alguma razão que não entendia, Draco ainda guardava uma recordação nítida da primeira vez que havia ido à feira de Salisbury com sua mãe. Não era um passeio habitual, pois normalmente eram os elfos os responsáveis pela compra da comida, mas de vez em quando, se fossem dar alguma festa, sua mãe se encarregava de todos os detalhes, e isso incluía assegurar-se de que tinham o melhor.
Draco tinha seis anos na época; havia estado outras vezes em Hogsmeade, no Beco Diagonal, inclusive no Ministério, com seu pai. Já sabia o que era estar em um lugar assim, abarrotado de pessoas que vestiam roupas de todas as formas e se moviam com pressa. Mas a feira havia lhe impressionado, talvez pela quantidade interminável de comida, ou pelas vozes dos homens e mulheres que vendiam a comida frente à barraca. Inclusive nessa idade, sabia que isso era algo muito vulgar, mas ainda assim tinha achado tudo irremediavelmente fascinante. E havia se emocionado mais ainda ao saber que parte da comida provinha de terras que eram de sua propriedade, terras que os Malfoy tinham arrendado há muitos séculos às famílias como os Bletchey, os Bole e os Dingle.
O mercado ocupava um larguíssimo e sinuoso quarteirão, invisível aos olhos dos trouxas, que ficava perto da catedral. Pela noite, permanecia deserto e silencioso, mas a partir das seis da manhã, com a chegada dos primeiros comerciantes, começava a ter vida. Primeiro faziam aparecer as barracas de madeira, as balanças, os ganchos para colocar a carne, as bandejas em que colocavam as frutas e as verduras. Depois era a vez dos produtos; barris de vinhos feitos por elfos e cerveja amanteigada, ovos, carne de todo o tipo, sacos de cereais, de ervilhas, de açúcar e de sal, queijos, barras de manteiga, maçãs, bananas, cebolas, cenouras, nabos, tomates, jarras de leite recém-ordenhado, favos de mel... Um pouco mais tarde, chegavam os donos das barracas de peixes que tinham acabado de comprar suas mercadorias no leilão: salmões, sardinhas, lagostas, camarões, carangueijos... Mas o Mundo Mágico também importava e exportava com seus homônimos do exterior. Essas barracas eram colocadas tradicionalmente ao final do quarteirão e ali podiam encontrar um ampla variedade de frutas e verduras, especiarias orientais, queijos e vinhos franceses e espanhóis...
Os primeiros compradores apareciam lá pelas sete da manhã e as oito era trabalhoso transitar entre as barracas. A atividade e o barulho se mantinham mais ou menos até a uma da tarde; em questão de uma hora já haviam desaparecido e pouco depois, os comerciantes já tinham tudo guardado e começavam a ir embora.
Mas agora, Draco estava muito longe de sentir prazer em suas visitas à feira. Nos meses posteriores a guerra, um bom número de feirantes havia se negado a atendê-lo; Draco estava disposto a se manter bem longe do Três Vassouras, da loja de Olivaras, dos produtos Weasley... Mas, essas pessoas que gerenciavam estes lugares não lhes haviam feito nada. Fora sua mãe quem havia surgido com a solução; os Malfoy haviam tido que "ceder" algumas terras como compensação pelos danos da guerra, mas ainda conservavam mais da metade... Entre outras coisas. Draco havia ido à feira, a todas as barracas onde não se fingiam não vê-lo para olhá-lo com desprezo e havia dado a cada um deles uma lista de todos os produtos que se produziam em suas terras ou chegavam por seus barcos, de todos os estabelecimentos e negócios que realmente lhe pertenciam ou nos que tinham verdadeira influência. Veto por veto, havia advertido, tentando não transparecer seu nervosismo, o medo que tinha de que tudo aquilo saísse do controle. Mas todos haviam aceitado.
Era curioso o quanto as consciências ficavam flexíveis ante a perspectiva de sérias incomodidades materiais.
Agora de vez em quando fazia uma visita para que se lembrassem do risco que corriam se decidissem seguir seus nobres ideais e não atender seus elfos domésticos quando eles iam fazer as compras de Malfoy Manor. Mas não ficava bem enquanto não saía dali; era um lugar mais claustrofóbico que o Beco ou Hogsmeade e a possibilidade de encontrar-se cara a cara com pessoas como Katie Bell ou sua tia Andrômeda, pessoas que ele não queria ver e que estava certo que tampouco queriam vê-lo, eram muitas.
Naquela manhã, Draco havia ficado ali com um de seus arrendatários e havia ido com Greg, em parte como apoio moral e em outra porque ele sim gostava de passear pela feira. Se lhe olhavam mal ou encontrava com alguém a quem tivesse torturado em Hogwarts não sentia absolutamente nada; sua profunda estupidez e falta de imaginação lhe blindavam contra esse tipo de remorsos.
Depois de falar com os Bole, que queriam pagar um mês atrasado de aluguel – não havia problema; os Malfoy não eram muito exigentes com o dinheiro e na realidade só exigiam que os tratassem com respeito – acompanhou Greg que queria comprar algumas coisas. Ele preferia deixar que os elfos fizessem isso, mas Greg era tão comilão que até comprar comida fazia com que seus olhos brilhassem de felicidade. A primeira lembrança que tinha era a de um menino grande, abarrotando-se de pasteis em uma velocidade nunca vista antes na festa de cinco anos de Pansy.
Depois da guerra, Greg tinha ficado três anos em Azkaban por ter tentado matar Potter na Sala Precisa e por torturar alunos de Hogwarts a mando de Snape e dos Carrow. Seu pai, com meia dúzia de assassinatos de trouxas em suas costas, havia sido condenado à prisão perpétua. Draco havia estado consciente daquilo, assim como sabia que a senhora Goyle estava meio transtornada de tristeza. Havia passado esses três anos pensando no que fazer com Greg quando ele saísse da prisão. Às vezes se lembrava de sua traição na Sala Precisa e se irritava com ele, mas tentava convencer a si mesmo de que devia ignorar aquilo e deixar que ele se instalasse na mansão com sua mãe meio louca. De qualquer forma aquilo havia sido imperdoável, e havia começado quando ele não tentou salvá-lo na Sala Precisa.
Então havia ido buscá-lo na saída da prisão, lhe havia ameaçado com tudo o que pensava fazer caso ele voltasse a traí-lo e se havia ocupado dele e de sua mãe desde então. Não importava o que sua cabeça lhe dissesse, Greg era parte de seu mundo. E os dois lados e sua própria cegueira lhe haviam tirado coisas demais que eram parte de seu mundo, não queria perder mais uma.
- Draco, porque pessoas estão desaparecendo?
- Não faço ideia.
- Millicente disse que as crianças estão a salvo em Hogwarts.
- Já te disse para confiar sempre no que ela te diz; é mais esperta que você.
Draco havia dado sua aprovação àquele enlace. Literalmente, já que quando Millicent havia decidido que ia se casar com Greg (porque mais ou menos, assim era como a coisa havia acontecido), era com ele que ela havia falado, consciente de que se ele se opusesse ao casamento, Greg se importaria. Mas Draco não tinha nada para objetar; na melhor das hipóteses, Greg era tão torpe que havia demorado para encontrar uma companheira. Depois da guerra, com sua situação e um sobrenome que valia menos ainda que o dos Malfoy, havia sido quase impossível. Millicent não era sua melhor opção, era sua única opção, e podia sentir-se afortunado por isso.
O casamento funcionava. Millicent também entendia bem o Greg e sabia como manejá-lo. Era enérgica, apreciava os homens corpulentos e bem alimentados e tinha um pouco mais de cérebro de orelha a orelha que ele, uma espécie de instinto prático que costumava andar sempre bem encaminhado.
- Ontem Diana nos escreveu – disse Greg enquanto observava avidamente como um dos açougueiros lhe pesava meia dúzia de salsichas -. Sabe o que jantaram na primeira noite? Chuletas de cordeiro com salsa de menta. A sala de menta de Hogwarts é a melhor que já comi.
- Fascinante.
- Sim, é uma salsa realmente fascinante – concordou Greg.
Draco colocou revirou os olhos mentalmente.
- Te juro, Greg, há vezes que não sei por que te aguento.
- Porque eu te dou razão sempre – respondeu Greg, com a confiança de quem já tinha tido aquela pequena conversa um milhão de vezes.
Draco fez uma careta, divertido.
- Sim, suponho que seja por isso. Anda, termine suas compras de uma vez e vamos embora.
Greg assentiu e pagou. Já haviam terminado ali e estavam a ponto de procurar um lugar com o mínimo de espaço para Desaparatar quando Draco se chocou com Daphne, a irmã de Astoria.
- Auch, Draco! – protestou.
- Oh, perdoe-me, Daphne.
Sua cunhada, de qualquer forma, estava de bom humor.
- Já está sabendo da última? O Wizengamot rechaçou a lei de espólio da Granger.
Draco sorriu abertamente, surpreendido. Aquela era a primeira vez que derrubavam um proposta de Granger, com exceção de sua campanha para a libertação dos elfos doméstico, um plano que ela havia tido que renunciar quando, obviamente, os elfos começaram a ter massivas crises histéricas ante a ideia de terem dias livres e receberem salários.
- Oh, isso é genial – disse Draco.- E veio em uma boa hora.
- Obrigada – disse ela, orgulhosa bem que o Wizengamot mostrou um pouco de bom senso. Ainda que, claro, a maioria das famílias antigas estivessem contra essa lei, pelo menos nesse caso.
Draco assentiu. Era uma boa notícia, uma excelente notícia. Draco se perguntou se seus pais já estavam sabendo: os dois haviam ficado bastante preocupados com aquela lei, temendo que fosse ser o primeiro passo para irem adiante e começar a aplicá-la de maneira retroativa. Mas esse perigo havia passado e, ainda melhor, aquela vadia sabe-tudo havia perdido.
- Vamos, convido vocês a tomar algo para comemorarmos.
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Dois dias depois, na primeira hora da manhã, um grupo encabeçado por Potter e dois aurores se apresentaram em Malfoy Manor para uma inspeção surpresa. As leis diziam que o Ministério tinha o direito de inspecionar quando quisesse a casa em que habitasse algum Marcado, decisão que incluía também pessoas como Greg, condenadas por crimes durante a guerra, ainda que nunca tivessem tido a Marca Negra.
Se depois da guerra os aurores haviam entrado em Malfoy Manor três ou quatro vezes ao ano, agora só o faziam uma. Fazia muito tempo que Draco não se via obrigado a passar por algo assim, porque nas últimas inspeções ele estava fora do país, e sentiu um gosto amargo e familiar quando teve que deixá-los entrar. Astoria havia levado Cassandra rapidamente à casa de seus pais, então tinha, ao menos como consolo, ter tirado sua filha de perto. Mas se naquele momento Potter e os seus tivessem explodido em mil pedaços haveria caído de joelhos e dado graças ao universo pelo presente.
Seus pais estavam mais acostumados que ele a esse tipo de coisa e olharam os aurores somente com uma expressão de ligeiro desgosto, como se fossem baratas que algum empregado se encarregaria a qualquer momento.
- Gobs, Patis – chamou sua mãe. Os elfos apareceram frente a ela e lhe fizeram uma pequena reverencia enquanto lançavam um desconfiado olhar de soslaio aos aurores -. Estaremos no Salão de Inverno. Os aurores vão inspecionar nossa casa. Vão com eles, ajudem-nos no que precisarem e assegurem-se de que não destruam nada deliberadamente.
Os aurores, inclusive Potter, franziram o cenho. Mas não podia protestar em voz alta; nos primeiros meses depois da guerra, os aurores haviam sido deliberadamente descuidados nas casas que inspecionavam e haviam deixado um rastro de objetos quebrados e móveis lascados.
- Nós não trabalhamos assim – protestou um deles, que parecia recém-saído da Academia, ofendido.
Potter lançou ao seu agente um olhar de advertência, mas Draco sabia que era tarde. Havia mordido o anzol e sua mãe não ia deixar escapar a oportunidade de pegar uma presa.
- Bem, o fizeram nos últimos dezenove anos, não? – disse, levantando uma sobrancelha -. O mundo sabe que as pessoas não mudam.
Potter voltou-se para ela com uma expressão dura e desgostosa.
- Sim, porque além disso é o mesmo que torturar e matar seres humanos, não é verdade?
Draco recebeu o golpe quase como uma bofetada e viu como seus pais também se tencionavam de raiva, mas ninguém disse nada. Não porque os tivessem deixado sem palavras – Draco podia notar como se mordiam a língua -, senão porque qualquer coisa que dissessem iria levar aquela discussão a um ponto que podia ser prejudicial a eles.
Seus pais, então, lhes ofereceu uma rígida e quase inapreciável inclinação de cabeça.
- Se nos dão licença, esperaremos no Salão de Inverno que terminem seu trabalho.
Draco imitou o melhor que pode o gesto de seu pai e se foi com eles para o Salão, onde tentaram manter uma aparência normal. Era difícil, os três estavam fervendo de raiva. Draco aproveitou para rapidamente escrever para Scorpius, sabendo que mais cedo ou mais tarde a notícia chegaria ao colégio. Já lhe haviam falado de todas as disposições legais que rodeavam os Marcados antes que ele fosse para Hogwarts, mas pelo o que Gabriel contava, às vezes haviam brincadeiras e brigas, e não queria que Scorpius se metesse em problemas.
A inspeção durou até depois do almoço; no final, Draco e Lucius tiveram que entregar suas varinhas para que eles as examinassem em busca de rastros de magia negra. Potter se encarregou da de seu pai. Draco lhe olhou dissimulada e ressentidamente enquanto outro auror fazia o mesmo com a sua. Porque tinha que dirigir todas as inspeções em Malfoy Manor? Que outra explicação poderia ter, exceto sua vontade de esfregar em sua cara o poder que ele tinha agora sobre eles?
Logicamente, não iriam encontrar nada. As varinhas com as quais praticavam alguns malefícios legalmente duvidosos estavam guardadas na sala onde costumavam treinar; também tinham um par de varinhas a mais escondidas pelo país. Quanto mais dura era a lição, mas imperdoável era não aprendê-la. Mas ainda assim, saber que podiam enganar um pouco os aurores a duras penas fazia com que essa humilhação fosse mais suportável.
Quando foram embora por fim, Draco sentia-se com vontade de um banho.
- Não sei o que é pior, isto ou ter que responder aos seus interrogatórios de merda cada vez que eles sentem vontade – resmungou seu pai, deixando-se cair em uma das poltronas.
Sua mãe meneou a cabeça.
- A autopiedade não nos vai levar a lugar algum. E nada dura para sempre.
Os aurores costumavam fazer as inspeções em dois ou três dias consecutivos, de forma que Lucius foi avisar aos demais e se inteirar sobre quem já havia recebido a visita de outro grupo. Astoria voltou com Cassandra pouco depois e Draco observou sua expressão com uma inquietude similar a que havia sentido quando Scorpius voltou de Hogwarts. O alívio de haver superado sua primeira prova ainda durava; sentia que era muito cedo para voltar a acontecer algo assim.
Como seu irmão, Cassandra havia aprendido tudo o que precisava saber sobre o passado familiar enquanto crescia. Sabia que sua família tinha inimigos e o porquê. Mas, assim como Scorpius, havia sido criada longe da Inglaterra e não sabia realmente o que isso significava. Até agora havia podido evitar que ela passasse por experiências desse tipo e Draco imaginava, não sem pesar, que devia estar um pouco afetada pelo que aconteceu. Não havia contado para ela ainda o que significava ser um Marcado: Draco sabia que Astoria e Daphne haviam aproveitado essa oportunidade para lhe contarem de forma conveniente a sua idade.
Seu pai havia lhe acusado em mais de uma ocasião de estar criando seus filhos em uma bolha, mas Draco pensava que a bolha estava na Inglaterra, uma bolha de ódio e ressentimento. Ele e Astoria haviam tomado a decisão certa: seus filhos sabiam que ser odiados pelo sobrenome ou pelas ações dos mais velhos não era o normal, que havia todo um mundo ali fora em que eram somente duas crianças a mais. E esse era um conhecimento poderoso. Valia a pena correr o risco de perdê-los em troco de dar-lhes essa proteção.
Porque era isso, no fundo, que preocupava e a seu pai também, que seus netos se voltassem contra ele. Draco era o primeiro a compartilhar de seu temor, mas não tinha a intenção de começar a educar seus filhos como pequenos Comensais. Scorpius estava respondendo bem; agora deveriam ter fé que Cassandra respondesse com aquela apaixonada, teimosa e fiel parcialidade que as mulheres Malfoy costumavam demonstrar por seus homens, eles merecendo ou não.
Cassandra foi lhe dar um abraço e depois olhou ao seu redor.
- E o meu avô? – perguntou, preocupada.
- Está falando pela Rede Flú.
- Porque não contou aos aurores que você e minha avó tentaram ajudar Harry Potter? – perguntou com incredulidade, como se lhe assombrasse o fato de que os mais velhos pudessem ser tão tontos.
- Eles sabem disso, Cassandra. Mas quando nos julgaram, o Winzegamot decidiu que nos... Nos vigiariam de vez em quando para terem certeza de que não estamos fazendo nada de errado. – No fundo, Draco pensava que o faziam simplesmente pra humilhá-los, mas essa era o tipo de opinião que Astoria e ele não queria que seus filhos ouvissem -. Não se preocupe, isso não tem nada a ver com você.
Cassandra franziu o cenho.
- E porque não lhes diz que se não nos deixarem em paz arruinaremos o Mundo Mágico?
Draco trocou um olhar com seus pais e sua mulher: aquilo era toda uma amostra de personalidade e não sabia muito bem se devia ficar orgulhoso ou preocupado. Possivelmente um pouco das duas coisas.
- Não é assim tão fácil, Cassandra. Para começar, essa ameaça colocaria contra a gente todo esse Mundo Mágico, definitivamente, e nos encontraríamos em uma situação ainda pior. Talvez algum Malfoy a utilize algum dia, mas espero que pese bem os prós e os contras e que seja por uma razão mais sólida que um simples incômodo como este.
- Para não falar – interveio Narcisa, com a voz ligeiramente pausada que usava de vez em quando para brincar – que seria muito injusto de nossa parte privá-los da experiência de ver uma casa decorada com tão bom gosto. Não imagina os lugares que alguns deles vivem, pobres criaturas.
Cassandra lhe sorriu, mas logo enrugou o nariz.
- Eles tocaram nas minhas coisas?
Draco sabia pelos elfos que, a exceção de alguns lugares concretos, como a biblioteca e os escritórios, haviam se limitado a usar um feitiço que reagia ante a magia negra.
- Não, mas pode subir se quiser ter certeza.
Draco assentiu, mesmo que não se sentisse muito melhor e ter sua mulher diante de si não ajudava. Astoria não merecia isso, merecia ser convidada para as melhores festas, ter abertas para si as portas das maiores casas, caminhar por qualquer lugar do Mundo Mágico de cabeça bem erguida.
- Algum dia as coisas vão mudar, te prometo.
- Se você diz – respondeu ela. – Mas, mesmo que não mude, terá valido a pena.
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Depois de terminar em Malfoy Manor, Harry e seus agentes passaram o resto da tarde inspecionado a casa dos Rowle e, posteriormente, a de Runcorn. Thorfinn Rowle havia sido um Comensal dos pés a cabeça, sentenciado a quinze anos de prisão; Albert Runcorn havia passado dois anos em Azkaban por sua entusiasmada colaboração com as leis anti-trouxas do governo de Voldemort e estava sujeito às mesmas condições que os Marcados. Harry pensava que, no geral, todas essas inspeções já haviam se convertido em uma perda de tempo, mas nos casos como os de Runcorn, sua crença era ainda maior. Runcorn era um tipo desagradável, disso ninguém tinha dúvida, mas nunca havia se dedicado a Magia Negra e Harry estava convencido de que não era nenhum risco para o Mundo Mágico.
Quando acabaram em Runcorn, voltaram ao Ministério para relatar as informações de suas três visitas. Harry queria inteirar-se também se o restante de seus agentes haviam encontrado algo em alguma das casas daquele dia; a resposta, como quase sempre, foi negativa.
- Bom, com um pouco de sorte, amanhã já teremos acabado com esseincômodo.
Então se despediu dos aurores que ainda rondavam pelo escritório e partiu ao Átrio para Desaparatar dali até a entrada de sua casa. Os dias de inspeção costumavam ser desabridos e desagradáveis; não eram precisamente bem recebidos. Inclusive nas casas onde se mostravam complacentes e colaboradores se notava um ressentimento nos olhos, impossível de ocultar completamente.
Harry abriu a porta de sua casa e se esforçou para deixar para trás todas as lembranças daquele dia. Assim que entrou viu Lily, que estava sentada no sofá lendo um dos quadrinhos trouxas de Albus. A garota se levantou rapidamente e foi abraçá-lo.
- Olá, papai.
- Olá, amor, como está?
A garota levantou os olhos para ele, um tanto preocupados.
- Bem, mas a mamãe está triste.
- Por quê? – perguntou Harry, olhando ao seu redor.
Lily deu de ombros. Gina não estava na sala, mas podia ouvir alguns barulhos vindos da cozinha e Harry foi para lá, supondo que já havia começado a fazer o chá. Gina pareceu ligeiramente surpreendida ao vê-lo entrar na cozinha.
- Hey, olá, não te ouvi chegar em casa.
Tinha os olhos ligeiramente vermelhos, como se tivesse estado chorando. Harry se aproximou para dar-lhe um beijo e lhe acariciou a bochecha.
- Está bem? – Gina o olhou como se soubesse muito bem o porquê da pergunta -. Esteve chorando.
- Ah, isso... – Gina tirou a importância com um gesto de mão e esboçou um pequeno sorriso que, apesar de tudo, era um pouco triste -. Não é nada, é culpa de minha mãe. Hoje era o aniversário de seus irmãos, Gideon e Fabia. Ela começou a falar deles, aí pensamos em Fred... E antes que pudéssemos nos dar conta as duas estavam chorando e lembrando-se de todas as suas travessuras.
Harry a abraçou, com pena. A morte de Fred havia sido um golpe duríssimo para toda a família, especialmente para George, Molly e Gina, e a alma de Harry se partia cada vez que se lembrava de George naqueles primeiros meses, mudo, apático, quando tudo o que parecia ser capaz de fazer era olhar-se no espelho com uma intensidade desgarradora.
- Sinto muito.
- Estou bem – disse ela, apoiando a cabeça em seu peito. Gina era baixinha, lhe chegava apenas até a barba -. É só isso... Sabe como é, às vezes dói tanto que é como se tivesse acontecido ontem.
- Eu sei.
- Estava tão cheio de vida, tinha tantas coisas para fazer... – Harry fechou os olhos, lutando para dominar seu próprio pesar. Gina lhe deu um último abraço e se separou dele, esboçando um sorriso resignado e decidido -. Venha, não quero voltar a chorar outra vez. Como foi seu dia? Hoje tinha inspeções para fazer, não é?
Harry não se importou dela querer esquecer aquele tema.
- Sim, foi um grande dia – disse, com sarcasmo.
- Encontraram algo?
- Não, claro que não. Imagino que a essas alturas nenhum deles seria tão idiota ao ponto de guardar objetos de magia negra em suas casas.
Gina deu de ombros enquanto voltava a fazer a janta.
- Bom, suponho que não se trata de pegá-los fazendo algo de errado, senão de vigiá-los para que saibam que os pegarão caso tentem. A metade deles voltaria a fazer coisa errada se não os trouxer em rédea curta, tenho certeza. – Então se deteve, esimesmada, durante uns segundos, e depois cravou seus olhos grandes e castanhos nele, com uma expressão triste e solene-. Não podemos deixar que voltem a nos fazer mal, Harry. Devemos isso a todos que morreram na guerra.
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Querido Scorpius,
Sei por Gabriel que as notícias das inspeções costumam chegar rapidamente a Hogwarts. Espero que isto não tenha lhe causado muitos problemas. Caso tenha acontecido, acredite, sinto muito. Mas também devo lhe pedir que mantenha a cabeça fria e que evite enfrentamentos. Não busque um castigo por isso, Scorpius. Não vale a pena. Nada dará mais raiva aos que se mentem contigo que ver-lhe continuar a diante e triunfar, e isso só o conseguirá se não cair em suas provocações.
Lembre-se também o que te disse durante o verão: não tem nada a ver com você. Mesmo que toda sua família tenha as mãos manchadas de sangue, e não é assim, sua irmã e você continuarão a ser inocentes e continuará tendo o direito de andar por aí com a cabeça erguida. Isso é algo que não deve esquecer nunca.
Nem equivocar-se e nem perder tem consequências agradáveis, Scorpius, e essa é a razão para ninguém gostar nem de um nem de outro. Mas comparado ao que nos poderia ter acontecido, isso é somente um inconveniente menor. Moléstias, lembra-se? Te garanto que aqui todos estamos bem, por isso não se preocupe conosco. Se Diana lhe perguntar, diga a ela que também estiveram hoje em sua casa e que tampouco houve algum problema. Imagino que amanhã ou depois também irão à casa do pai de seu tio Theodore e a do avô de Damon; com certeza seus pais lhes escreverão agora mesmo também lhes explicando o que estou lhe dizendo, mas de qualquer forma não tem motivos para inquietar-se.
Falando de algo mais agradável – mais ou menos -, me alegra saber que Longbottom não está fazendo mais comentários sobre a família de ninguém. De qualquer forma, já sabe o que te dissemos: se voltar a acontecer avise-nos imediatamente para que tomemos as medidas necessárias. Há mais coisas ainda que podemos tentar.
Bom, quero que esta carta chegue o quanto antes, para que eu não me preocupe mais. Todos lhe enviam lembranças.
Te amo,
Draco Malfoy.
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N/T:
* BIT – Alguns capítulos atrás, Capítulo 06 precisamente, não traduzi a sigla da Brigada de Investigação Trouxa. No original, Helena Dax usa o termo Muggle para se referir aos trouxas, o que justifica a sigla BIM, e acabou ficando assim na tradução. Por isso, quero pedir desculpas e dizer que, assim que eu consegui entender como funciona a edição de capítulo, vou consertar o erro. Perdoname.
E então? O que acharam dos capítulos?
Como de praxe, ainda estou sem beta – é.
Enfim, logo tem mais!
Até o próximo capítulo!
Abraços!
