OBS: Por este capítulo ter ficado um tanto grande demais, resolvi dividi-lo em dois!

o.O.o

"Ás vezes, uma só hora é a representação de uma vida inteira!"

o.O.o

Para Miro, viver significava ver. A visão era limitada por uma fronteira dupla: a luz intensa, que cega e a escuridão total. Os extremos delimitavam a fronteira pela qual a vida terminava e a paixão pelo extremismo era um desejo de morte disfarçado.

Da mesma maneira em que era atraído pela luz era também atraído pela escuridão. Considerava apagar a luz para fazer amor algo desnecessário, por isso sempre deixava uma pequena luz acesa no quarto. No entanto, no momento da penetração, fechava os olhos. A volúpia que o invadia exigia a escuridão. Uma escuridão pura, absoluta, sem imagens, sem fins nem fronteiras. O infinito que cada um trazia dentro de si. Se alguém procura o infinito, saiba que basta apenas fechar os olhos.

- Já fiz vinte quadros e tenho mais uns quinze encomendados!

Dizia ele, jogado em cima do sofá, as pernas atiradas sobre o espaldar da poltrona, o ante braço direito sobre os olhos cerrados, a mão esquerda para fora, rente ao chão, segurando entre seus dedos lânguidos os últimos resquícios do cigarro que fumara.

- Acho que teria sucesso se abrisse meu próprio ateliê! – completou – Tenho tudo que preciso, só necessito de dinheiro!

- Acho que este mês de janeiro, com a semana de Arte, te renderá bons empréstimos! Assim não ficará tão dependente da universidade!

Afrodite, acomodado numa desconfortável cadeira, a única disponível em todo o ambiente, apertou o sobretudo em volta do corpo, embora não estivesse nevando.

- Ele telefonou? – perguntou, após um minuto de silêncio.

- Não! – respondeu Miro, na mesma posição – E espero que não o faça!

- Não fale assim! – reprovou o sueco – Todos vocês têm uma parcela de culpa no que aconteceu!

- Em que está trabalhando agora? – interrogou Miro, de súbito, mudando o rumo da conversa.

- Em alguns projetos inacabados! – murmurou o outro – Deixarei boa parte para finalizar quando retornar de Nápoles, em fevereiro!

Miro não o ouvia. Não estava interessado em saber da carreira do amigo. Não estava interessado em saber coisa alguma. Sua força estava trancafiada em seu interior. Já a de Camus estava voltada unicamente para o externo. Com as pessoas que amava era fraco e esta fraqueza se chamava sentimentalismo. Sim, aquele francês, por mais que quisesse esconder, era sentimental.

Camus jamais lhe daria ordens. Nunca o mandaria, como Saga fizera em outros tempos, que ele ficasse inteiramente nu em cima de um espelho. Não que ele não tivesse sensualidade, mas Camus não tinha força para lhe comandar. E havia coisas que só se podiam ser conseguidas através da violência.

- Está em minha hora! – anunciou Afrodite, erguendo-se da cadeira – Tem certeza de que não quer vir passar o natal conosco?

- Não! – respondeu o grego, sem destapar os olhos, um pé balançando de um lado para o outro – Darei uma volta de bicicleta mais tarde!

- Você é único! – sorriu Afrodite – Quem passa a noite de natal a andar de bicicleta por ai?

O rapaz, contudo, continuou em suas reflexões melancólicas. E se ele tivesse um homem que lhe desse ordens? Que o dominasse? Quanto tempo o suportaria? Concluiu, então, que homem algum lhe convinha, nem forte nem fraco. Compreendera duas coisas: A primeira, que amar é renunciar a força; e a segunda, que, com essa teoria, Camus acabara de entrar em sua vida para sempre.

o.O.o

As horas passavam e ele não sabia o que fazer. Durante dez anos de sua vida, havia dormido na mesma cama que Marie. Se voltasse a viver com ela, seria necessário que se deitasse ao seu lado como antes? Poderiam, sem dúvidas, viver em quartos separados! Mas não seria este um gesto por demais ostensivo? Não poderia ser interpretado como uma manifestação de hostilidade? Queria continuar amigo de sua mulher, mas voltar a dormir ao seu lado não era possível! Podia até ouvir as suas perguntas irônicas: "Não prefere a cama de Miro?". Terminou optando por se refugiar no escritório.

Bruscamente, em um período de tempo incrivelmente curto, todos os elementos de sua vida haviam mudado. Há pouco tempo morava num grande apartamento bruguês, com uma empregada, uma esposa e um filho e, agora, ei-lo sem nada, visitando um conjugado na cinzenta Lyon, onde seu jovem amante habitava. Não precisava, pelo menos, visitar hotéis pelo mundo afora. Podia dormir com ele em seu próprio apartamento, na sua própria cama, na presença de seus quadros, com o cinzeiro em cima da mesa de cabeceira. Sempre imaginara que seu destino era ser admirado e não admirar.

- Atrapalho?

A voz discreta de Marie o tirou de seus devaneios. Não trazia a expressão séria da manhã, mas um rosto fresco e radiante. A doçura voltara a habitar nos seus límpidos olhos azuis. Camus sorriu. A sua visita não era desagradável. Sua bondade fazia com que ele a acolhesse com alegria e sentisse por ela um amor paternal que, aliás, jamais pudera satisfazer. Ela já havia entrado e fechado a porta.

Fazia algum tempo, desde aquela manhã, que deixara a porta aberta enquanto escrevia em seu escritório. Só naquele instante, porém, a armadilha funcionou. Tentando disfarçar seu embaraço em visitá-lo sem ser convidada, embaraço esse expresso mediante um arrastar de pés, a jovem francesa decidiu-se, após andar para cá e para lá, acomodar-se na confortável poltrona defronte da escrivaninha.

Ela sempre preferira o irreal ao real. Assim como se sentia melhor em seus sonhos que vivendo na realidade, estava mais feliz com Camus transformado em um Deus invisível do que quando estava com ele, percorrendo o mundo, tremendo a cada passo que ele dava. Camus lhe presenteara, sem saber, com a súbita liberdade da mulher que vive só, enfeitara-a com a aura da sedução. Marie, de repente, tornara-se atraente para os homens. Um dos sócios de seu pai, jovem e bonito, apaixonara-se por ela.

- Esteve sem sono esta noite? – indagou, querendo desfazer o silêncio.

- Um pouco! – ele tentou sorrir, olhando-a sem levantar o rosto.

- Não sabia que tinha problemas para dormir! – volveu ela; Camus a encarou.

- Você não sabe quanta!

Houve um curto silêncio. Ao final de um minuto, ela esgueirou-se, com sua graciosidade natural, deu a volta na escrivaninha e quedou-se de pé, ao lado da cadeira onde um sufocante homem buscava refúgio. Parecia que havia se interessado pelos rabiscos horrendos com os quais ele preenchera uma folha de papel.

- Quando nos divorciamos, nada mudará! – disse Camus, encarando-a com ternura – Não vais perder nada! Deixo tudo para ti!

Ela balançou a cabeça com um sorriso singelo nos lábios.

- Para mim o dinheiro não importa! – respondeu.

- Então, o que é que importa?

- O amor!

- O amor? – espantou-se Camus; Marie sorriu.

- O amor é um combate e eu lutarei por muito tempo, até o fim!

- O amor é um combate? – sussurrou Camus, tentando compreender aquelas palavras – Marie...- ele a considerou - ...Eu não tenho a menor vontade de lutar!

De repente, ela teve a certeza que poderia beijá-lo com total impunidade, de que ele deixaria que o fizesse, mesmo depois de tudo, e até fecharia os olhos. Talvez seus sentidos femininos tenham captado, inconscientemente, uma levíssima mudança na respiração de Camus, porque agora ele não estava mais olhando seus rabiscos infantis, mas esperando com serena impaciência que sua fascinante esposa fizesse aquilo que, de fato, estava morrendo de vontade de fazer.

Os olhos dele, vívidos, azuis, revirados eram, sem contestação, únicos e Camus os classificou entre os padrões de beleza nivelados ao mundo moderno, europeu. Ela controlou-se e após piscar algumas vezes, disse:

- Sabe, Camus...- ela prorrompeu, antes de deixar o recinto -...Se houvesse dois homens como você, o mundo não seria suficientemente grande para comportá-los!

Ele a olhou.

- A lâmpada que tens, agora, em tuas mãos, não é tua! – ela continuou – A canção que cantas não foi composta por ti! Ainda que possuas a lâmpada, não és a luz! E ainda que sejas a lira, não és quem a toca!

o.O.o

Durante sua longa viagem de volta à França, Saga sentiu-se mal com a idéia de que seu primeiro encontro com Miro houvesse sido o resultado de acasos improváveis. Mas será que um acontecimento não se tornava mais importante quando dependia de um número maior de circunstancias fortuitas?

Só o acaso pode ser interpretado como mensagem. Somente o acaso tinha voz. A sua presença naquele bar, no centro de Atenas, há quatro anos foi, para Miro, a manifestação de um acaso total. Lembrava-se que estava sozinho na mesa, diante de um livro aberto. Levantou seus orbes verdes e sorriu para ele:

- Um conhaque, por favor!

Miro lhe atendera o pedido, aumentando o volume do som que, naquele momento, havia reconhecido de imediato, tocava a sexta sinfonia de Beethoven. Enquanto era servido pelo "garçom", esforçava-se para decifrar aquele acaso: Como era possível que, no mesmo instante em que se preparava para ser servido por aquele desconhecido que lhe agradara, estivesse ouvindo a sua sinfonia predileta?

O acaso tem suas mágicas. Para que um amor seja inesquecível, é preciso que os acasos se juntem desde o primeiro instante. Saga recordou-se que pedira a conta, fechara o livro e notara que Miro, que o espreitava de longe, ficara interessado em saber o que ele estivera a ler.

- Você pode colocar na conta do hotel? – perguntara-lhe Saga, ajeitando o sobretudo.

- Claro! Qual o número do seu quarto?

Puxando de dentro do bolso do casaco, Saga mostrou-lhe uma chave presa a uma placa de madeira em que havia o número 6 escrito em vermelho. Miro não pôde deixar de perceber a aliança que lhe rodeava o dedo anular.

- Que estranho! – comentou – Você está no número 6!

- O que existe de estranho nisso? – Saga franziu o cenho.

Miro lembrou-se de que, no tempo em que morava com seus pais, em Esparta, o número da casa era 6. Mas respondeu outra coisa e não podemos deixar de admirar a sua astúcia.

- Você está no quarto número 6 e eu termino meu serviço às 6:00!

- E eu pego o trem às 7:00! – retrucou Saga.

Miro não soube o que dizer. Entregou a nota para que assinasse e levou-a até a recepção. Quando voltou, lê já havia ido embora. Teria compreendido seu discreto recado? Quando terminou o expediente e estava prestes a sair do bar, sentiu-se nervoso. Em frente, no meio de uma praça suja, de vegetação sombria e esparsa, que para ele sempre havia sido um oásis de beleza, Saga estava sentado em um banco de onde podia ver a entrada do estabelecimento.

Era exatamente o mesmo banco onde ele próprio, todas as manhãs, sentava-se, com um livro aberto sobre os joelhos. Compreendeu, então, que aquele desconhecido lhe estava predestinado. Saga o chamou, convidando-o para sentar-se ao seu lado. Um pouco mais tarde, naquela noite, Miro o acompanhou á estação e no momento de deixá-lo, Saga entregou-lhe seu endereço:

- Se um dia você voltar à Esparta...

- Aceita mais alguma coisa, senhor?

Um dos garçons do decrépito restaurante no centro de Lyon aproximou-se de sua mesa com seu avental sujo e ensebado. Saga o fitou. A vida era engraçada! Sua composição simétrica, onde seu desfecho já era visível no início, podia parecer pueril, mas somente com a condição de que não significasse uma coisa artificial. Porque ávida humana era feita de encontros, embora houvesse tantos desencontros pela vida.

Era como uma partitura. O homem, guiado pela beleza, transpunha o acaso para fazer dele um acontecimento que, em seguida, fará parte da sinfonia de sua vida. Voltará a ele, repetindo-o, modificando-o, desenvolvendo-o. O homem, inconscientemente, compunha sua vida segundo as leis do acaso, mesmo nos instantes de desespero.

O acaso não pode, portanto, ser censurado por seu fascínio, por seus encontros, como o encontro de Miro, Saga, o bar e o livro, ou de Miro, Camus, o bar e o cigarro...Mas podemos, com razão, censurar o homem por ser cego a esses acasos, privando, assim, a vida de sua dimensão de beleza.

- Não! Obrigado! – respondeu por fim.

Repassava essas desgraçadas memórias não para revivê-las no infinito vazio que seria, agora, a sua vida, mas para separar a dose de céu e de inferno que existe no estranho mundo enlouquecedor da paixão. E diante daquele pequeno universo, fulgurando em fantasmas, Saga alisou os cabelos salpicados de água, a chuva miúda crepitando lá fora. Talvez interesse a alguém saber que ele era capaz de derramar torrentes de lágrimas durante toda a outra tempestade exterior.

o.O.o

Os olhos grandes, movendo-se sob longas pestanas pendentes, que lhes emprestavam uma expressão quase melancólica, só eram visíveis quando os cílios se elevavam, deixando a mostra um olhar sério e pueril, se é que se pode chamar de olhos aquilo que eram dois orbes estranhos, espantados, como jamais haviam sido em qualquer outro momento de sua vida.

- Camus, você está bem?

O baile de natal havia principiado. Marie, após ajeitar os cabelos louros, presos em uma tiara, diante do imenso espelho do salão iluminado e cheio de gente, acercou-se do marido que, por um breve instante, lhe pareceu anuviar-se, como se fosse desmaiar. Sua feição pálida estava retraída com preocupação.

- Está tudo bem, Marie! – suspirou ele, um aperto lhe confrangendo o peito – Uma dor e cabeça, só!

- Por um momento...- ela tentou ler-lhe na face, visivelmente perturbada, o motivo daquele súbito mal estar -...Achei que fosses cair aqui mesmo!

Camus não lhe respondeu. Nem ele próprio saberia explicar seus sentimentos. Era um anseio vago misturado a uma profunda comoção que, repentinamente, se lhe fixara na alma, perfurando, de forma contundente, o seu âmago. Arrepiou-se ao reconhecer, invadindo o ambiente, a música que, não se sabe de onde, soara na sala: a sexta sinfonia de Beethoven.

- Quem pôs esta canção? – perguntou á esposa, parecendo nervoso.

- Fui eu! – ela contraiu os olhos.

- Tire essa música, Marie! – esbravejou.

- Você gosta tanto de Beethoven! Eu não compreendo...

- É lúgubre demais para essa noite!

Marie o viu afastar-se, abismada. O que foram aqueles olhos que, de forma tão nefasta, lhe haviam ordenado, suplicado, para que removesse aquela trilha? Como poderiam ser humanos aqueles orbes acinzentados que nunca, outrora, vira, de tal forma sobrecarregados? Aqueles olhos azuis, muito grandes, que pareciam lampejar a cada volta não estariam com um brilho...sobrenatural?

o.O.o

O cemitério de Lyon parecia um jardim. Os túmulos eram cobertos de relvas e de flores vivas. Monumentos humildes ficavam escondidos no meio da verde folhagem. À noite, mas precisamente àquela hora, 6 horas da noite, o cemitério ficava cheio de pequenas velas acesas, como se os mortos estivessem dando seu próprio baile natalino. Por mais cruel que fosse a vida, o cemitério possuía sempre a mesma serenidade. Quando se sentia triste, gostava de pegar sua bicicleta para passear pela cidade. E esse cemitério campestre, num fundo azulado de colinas, era tão belo quanto uma cantiga de ninar.

O drama da sua vida podia ser explicado pela metáfora do peso, o fardo sobre seus ombros. Miro carregava o seu fardo, suportando-o. Lutava com ele, ganhava e perdia. O que acontecia com ele? Nada! Deixara Saga porque quis! Ele o perseguira depois disso? Quisera se vingar? Não! O seu drama não era um peso, mas uma leveza. O que carregava sobre os ombros não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser.

O QUE VOCÊ SERÁ QUANDO CRESCER?

PARA ONDE VOCÊ IRÁ QUANDO SEU TEMPO TIVER ACABADO?

O QUE VOCÊ DIRÁ QUANDO TUDO SAIR ERRADO?

O QUE FARÁ QUANDO ESTIVER SE SENTINDO SOZINHO?

As rodas da sua bicicleta deslizavam, suaves, sobre as molhadas ruas de Lyon...

Até aquele momento, a traição sempre o excitara. A idéia de uma nova estrada a se abrir e a aventura sempre nova que a traição que lhe dava, enchiam-no de ânsia. Mas o que continuaria quando essa viagem terminasse? É possível trair um amigo, os pais, o marido, a esposa, a pátria...

- Mas o que sobrará para trair quando não me restar mais amigos, pais, maridos, esposas ou pátrias?

Miro sentiu o vazio em torno de si.

- Será esse vazio o objetivo de minhas traições?

Até aquele momento, ele não tivera consciência disso, pois o que sempre buscara estivera velado. Aquilo que dava sentido aos seus atos, lhe era sempre desconhecido. Ele ignorava o real objetivo de seu desejo de trair.

- É a traição e não a fidelidade o que me seduz!

EXISTE UM LONGO CAMINHO

AS LUZES ESTÃO ACESAS

NÃO DESISTA! NÃO OLHE PARA TRÁS!

EXISTE ALGUÉM LÁ FORA, EM ALGUM LUGAR

TODOS PROCURAM RESPOSTAS

TODOS QUEREM UM AMIGO

TODOS PRECISAMOS DE UMA ESTRELA QUE NOS GUIE

ENTÃO, ESTA NOITE, FAÇAMOS UM PEDIDO

NUNCA FIZEMOS UM PEDIDO ANTES!

A palavra "fidelidade" lembrava-lhe de seu pai puritano que, por lazer, pintava quadros aos domingos. Aos 14 anos, lembrou-se que se apaixonara por um rapaz de sua mesma idade. Mas seus pais tiveram temor e o proibira de sair de casa, sozinho, durante um ano inteiro. Em um dia, muito feliz, lhe havia mostrado algumas pinturas de Van Gogh. Como ele não possuía ainda a liberdade para amar um homem, apaixonou-se pela Arte. Depois da maioridade, partira para Atenas com a impressão reconfortante de que, finalmente, poderia trair sua família.

A traição...Sempre lhe haviam dito que era a coisa mais abominável que se podia conceber! Mas o que era trair? Trair era sair da ordem e partir rumo ao desconhecido! E Miro não conhecia nada mais belo que partir para o desconhecido!

A bicicleta continuava sua vagância, em um ritmo mais acelerado, sob a fina chuva que caía na cidade de Lyon...

Então, numa tarde ensolarada, recebera a notícia de que sua mãe, devido a algumas complicações, havia morrido e seu pai, esmagado de desgosto, cometera suicídio horas depois. O remorso tomara conta dele! Mas uma vez, estivera possuído pelo desejo de trair, trair sua traição inicial. A primeira traição é sempre irreparável e irreversível. Ela provoca, numa reação em cadeia, outras traições que nos fazem, aos poucos, distanciarmo-nos do motivo da primeira traição.

TODOS DESEJAM SER FELIZ

TODOS POSSUEM SEUS SEGREDOS

TODOS PROCURAM UMA COMPANHIA

TODOS PRECISAM DE UM TEMPO

TODOS NÓS PRECISAMOS DE UMA ESTRELA QUE NOS PROTEJA

FAÇAMOS UM PEDIDO ESTA NOITE

NUNCA FIZEMOS UM PEDIDO ANTES!

- Tudo é efêmero! – suspirou – Tudo no universo é passageiro! Mas é tão estranho pensar na vida sem, ao mesmo tempo, tomar consciência de que, um dia, deixaremos de existir!

A bicicleta caminhava sozinha, desviando-se de alguns carros...

- Mas também é impossível pensar na morte e não ver que a vida é algo incrivelmente fantástico!

Virando em uma esquina, por uma das aléias do cemitério, viu que mais adiante havia um enterro. Era preciso contornar muitos túmulos para chegar á vala aberta. Seus olhos se fixaram sobre a pedra que havia sido retirada para a entrada do caixão. De repente, essa pedra o encheu de medo e afastou-se depressa dali.

- Por que fiquei tão amedrontado?

Naquele momento, abriu-se ante ele um abismo de incompreensão. Naquele dia, no cemitério de Lyon, ele finalmente entendera. Lamentou ter traído seus pais, a Polímnia, a Marie...Talvez se tivesse ficado em Esparta, seus pais ainda estivessem vivos...Talvez se não tivesse saído às 6 de seu serviço, Saga se teria cansado de esperar...Talvez se tivesse esperado mais alguns minutos para entrar naquele bar, não houvesse encontrado Camus...Ou talvez, se tivesse sido menos egoísta, se houvesse permanecido com Saga, pouco a pouco as palavras de um seriam compreendidas pelo outro, lentamente, como amantes...

- Mas é tarde demais!

Sim, era tarde demais e Miro sabia que não podia continuar na França, que deveria ir mais longe, ainda mais longe, muito mais longe, porque se permanecesse ali, ficaria preso sobre uma pedra, como um cadáver. E um homem que não pode deixar de trair, não suporta a idéia de ser arrancado de seu caminho.

- Se fico, há um caminhar no meu permanecer! Se parto, há um permanecer em meu caminhar!

Fechou os olhos, sentindo a chuva lhe resvalar sobre o rosto. Talvez existisse um planeta em que se nascesse uma terceira vez. Ou talvez um em que a espécie humana fosse imortal. Era essa idéia que ele queria ter do Eterno. Pois a vida só acontecia uma vez e jamais se pode saber qual será a melhor ou a pior decisão. Só se pode decidir uma única vez!

Seu peito dilatou-se. Uma imensa e estranha liberdade lhe adentrou na alma, profunda e irrevogavelmente. Não se lembrava de haver sentido, em qualquer outro momento, uma paz tão doce, tão austera, tão inebriante...E embalou-se com essa doce sensação de felicidade, que jamais sentira. À beira do abismo, no espaço encantado dos carros indo e vindo...

De repente, teve a certeza de que acabara de encontrar a solução para todos os seus enigmas, a chave de todo o mistério, o verdadeiro valor de cada pequena partícula que compunha aquele complicado universo, repleto de asteróides e estrelas. Encontrara, em meio as trevas que havia sido sua vida, o paraíso: Um mundo onde poderia amar Camus sem ser importunado pelo fantasma agressivo da traição.

Abriu os olhos, mas já era tarde. Subitamente, a vida se lhe exibiu por completo com todas as suas angústias, todas as suas dores, todas as suas alegrias e todas as suas traições, com uma claridade absoluta, iluminando todas as páginas que haviam permanecido na escuridão.

Depois crepitou, estremeceu, tremeluziu, enfraqueceu-se e apagou-se para sempre!

SEMPRE HAVERÁ MOMENTOS EM QUE VOCÊ FICARÁ TRISTE

MAS VOCÊ NÃO DEVE SE DEIXAR VENCER

NÃO SE DESILUDA!

NÃO, NÃO ESPERE DEMAIS!

PORQUE SE TENS ALGO A BUSCAR

PRECISAS SEGUIR NA SUA DIREÇÃO

PERCORRER UMA PARTE DO CAMINHO

NÃO É O MESMO QUE TOMAR O CAMINHO ERRADO

FAÇAMOS, ESTA NOITE, UM PEDIDO PARA UMA ESTRELA

NUNCA FIZEMOS UM PEDIDO ANTES!

o.O.o Continua o.O.o