O Bardo e o Pardal

Capítulo 10

- Tem certeza, meu querido?

- Foi o que me informaram. Espero, sinceramente, que seja verdade. Creio que você também, não?

- Não sei ao certo. Para ser honesta, não achei que ele fosse capaz... aliás, ainda não consigo acreditar que ele seja...

- Licahla! Entendo que tem suas preocupações e reservas em relação a Muldovar, mas criar imposições com o único propósito de impedi-lo de assumir o posto de vizir real é demais! Pensei que, ao colocar tal imposição para ele, estivesse realmente pensando no melhor para o reino de Onel...

- E eu estou pensando no melhor para o nosso reino, Markash! E impus essa condição porque acho essencial que uma pessoa tão importante quanto o vizir real seja capaz de demonstrar preocupação, apego, sentimentos por outrem. E não nego: eu, de fato, acho que Muldovar seja incapaz de amar alguém que não seja ele mesmo.

- Bem, minha querida... ao que parece, é o que vamos descobrir agora.


- Onde... onde é que eu estou?

- Ah. Até que enfim acordou.

- Lasho? É você?

- Que maravilha... só falta estar cego, para me dar ainda mais trabalho.

- Eu... não estou cego – tentou se levantar, mas seu corpo ainda se encontrava bastante fraco – É que... está escuro aqui.

- Não está tão escuro assim. Há uma vela acesa ao seu lado.

Era verdade, havia uma fonte de luz ali. Então, por que estava tão difícil enxergar? Piscou os olhos azuis algumas vezes... e percebeu que, aos poucos, ia conseguindo ver as coisas ao seu redor.

- Já me sinto melhor. – disse, fazendo um esforço imenso para erguer seu corpo e sentar-se na cama. Não queria mostrar-se tão fraco na frente de Lasho, apesar de sentir-se assim – Consigo enxergar agora.

- Que fantástico. – zombou Lasho – Fique aí; vou buscar algo para você comer. – e levantou-se para seguir as instruções que seu mestre havia lhe passado.

Ikki, meio que a contragosto, obedeceu a ordem do pajem. Mesmo que quisesse, não seria capaz de levantar-se da cama. Ainda estava meio tonto, a cabeça dolorida o impedia de ordenar as idéias...

Subitamente, uma lembrança o fez esquecer-se de toda dor que atormentava seu enfraquecido corpo. Assim, fazendo um esforço sobre-humano, conseguiu deixar sua cama e saiu cambaleando do quarto.

- Ei! Aonde pensa que vai? – repreendeu-o Lasho, que segurava o prato com comida em uma mão enquanto utilizava a outra para obstruir o caminho do moreno.

- Tenho que... ir ao celeiro... – respondeu Ikki, que mal possuía energia suficiente para manter-se em pé – Preciso... ver o Hyoga...

- Ah... – Lasho entendeu que era hora de começar a pôr o plano de Muldovar em ação – Ikki... venha comigo. – essa última frase fora pronunciada em um tom dócil, até mesmo amigável. E Lasho nunca falava com Ikki assim.

O moreno não encontrou forças para se opor ao pajem, que o trouxe de volta para sua cama. Em verdade, nem tentou fazer qualquer coisa nesse sentido. O modo como Lasho falara o tinha assustado.

- Olha... – e suspirou – Eu... nem sei como lhe falar isso...

Ikki, que normalmente teria uma resposta bastante agressiva para esse comentário, nada disse. Em parte pela fraqueza que dominava seu corpo, em parte pelo nervosismo em que o pajem o tinha colocado. Assim, o moreno apenas mantinha seus olhos azuis escuros muito abertos e presos à figura do homem a sua frente.

- Ikki... – falou Lasho, por fim – Eu sinto muito. Hyoga não sobreviveu. – e baixou os olhos.

- Como... como é? – a voz quase não saiu de sua garganta.

- Eu... sinto muito. – disse o pajem, mais uma vez.

O moreno não conseguia dizer nada, mas em seus olhos a angústia se fazia notável.

- Você... tem certeza disso? – perguntou Ikki, com a voz trêmula – Você... o viu? Porque, talvez... – falou, com a voz quase sumindo.

- Sim, Ikki. Eu o vi. Fui eu mesmo quem resgatou você. Tentei salvar Hyoga também, mas... não foi possível. – Lasho falava com uma sinceridade desconcertante.

O moreno não disse mais nada. Havia baixado o rosto e as madeixas de sua franja encobriam-lhe os olhos. Considerando assim que aquele assunto estava encerrado, Lasho levantou-se de sua cadeira e encaminhou-se para a mesa onde havia deixado o prato de comida. Contudo, o gesto não passou disso, pois foi interrompido por mais uma pergunta de Ikki:

- Como você sabia onde estávamos?

Lasho não esperava por essa pergunta agora. Muldovar havia lhe prevenido sobre todas as perguntas que Ikki lhe faria e tinha dito ao pajem que resposta dar a cada uma delas. O jovem criado, no entanto, esperava que o interrogatório ficasse para mais tarde. "Bom, mas é melhor assim. Livro-me logo disso.", pensou o rapaz.

- Naquela noite, o conde tinha ficado muito preocupado quando viu você deixando a cabana daquele jeito. Perguntou-me onde estava e eu respondi acreditar que você tivesse ido à vila. Fomos até lá e vimos os cavalos de vocês em frente a uma taverna. Procuramos pelos dois lá dentro, mas nada. Imaginamos que estivessem perto, já que estavam sem seus cavalos. Então, o conde e eu nos separamos para procurá-los. Eu tomei o caminho do bosque que havia ali, próximo à taverna, quando ouvi o barulho de gelo se partindo. E aí... bem... – respirou fundo, como se lhe pesasse contar aquela história – Corri para aquele lago o mais rápido que pude. Mas vocês já haviam afundado. Pensei em chamar o conde para me ajudar, mas até trazê-lo àquele lugar, seria tarde demais para salvar qualquer um de vocês. Por isso, tive de decidir rápido... Eu só conseguiria salvar um. E teve de ser você.

- Eu? Mas por que você...

- Por motivos óbvios, Ikki! – interrompeu-o Lasho – Por mais que simpatizasse com o forasteiro, você era muito mais importante! Você é o afilhado do meu mestre! O que mais eu poderia fazer?

Ikki calou-se diante da reação de Lasho.

- Mas não se preocupe... – continuou o pajem – Isso não muda nada entre nós. Continuo não gostando de você. Você, Ikki, continua sendo meu adversário. Aliás, mais um motivo para eu tê-lo salvo no lugar do viajante... Preciso de você vivo para que um dia eu possa vencê-lo e provar minha superioridade.

Ikki suspirou. Esse era o Lasho que ele conhecia.

- Por isso, você vai tratar de se recuperar o mais rápido possível. Muldovar encarregou-me de alimentá-lo e cuidar de sua recuperação e é isso que pretendo fazer.

Ao ouvir as palavras de Lasho sobre os cuidados que teria com sua saúde, lembrou-se de um fato com que até então não atinara:

- Céus! A mãe de Hyoga! – e fez um gesto de quem pretendia levantar-se novamente da cama.

- Nada disso! – falou Lasho, impedindo que Ikki se erguesse – Você não vai a lugar algum.

- Tenho que ir até o celeiro, Lasho! A mãe de Hyoga deve estar precisando de cuidados!

- Ela não está precisando de nada. É você quem tem de descansar agora.

Uma possibilidade passou então pela cabeça de Ikki. Sentindo o coração apertar-se ainda mais, perguntou em um fio de voz:

- Por favor... não me diga que ela também...

- Ela está viva. Pode ficar despreocupado.

Um sorriso de alívio despontou no rosto do moreno:

- Eu quero vê-la.

- Isso não será possível.

- Vai se cansar de tentar me impedir.

- Ela não está mais no celeiro, Ikki.

- Como assim? – o rapaz surpreendeu-se.

- Conde Muldovar tirou-a de lá.

- Por que ele fez isso?

- O conde só quer o seu bem, Ikki. E ele imaginou que você ficaria muito mal com a morte do forasteiro. Por isso, como forma de tentar amenizar sua dor, Muldovar decidiu que cuidaria da mãe de Hyoga. Então, ele a levou consigo para o castelo.

Ikki ficou estático. Não conseguia processar aquela informação.

- O conde disse que ela teria mais chances de sobreviver se ele a mantivesse por perto. E ele parecia muito determinado a não deixá-la morrer.

Ikki perdeu-se em seus pensamentos. Seria o conde realmente capaz de uma atitude tão humana como essa?

Olhou pela janela do seu quarto. Lá fora, percebia-se uma belíssima noite estrelada. E então lembrou-se da noite em que perdera seus pais.

Naquele dia, Ikki percebera que o conde, apesar de severo, também era capaz de agir de forma mais humana... Afinal, ele o tinha liberado dos treinos e dado a ele dinheiro para comprar um novo alaúde... E depois, ao perder seus pais, fora o conde quem se prontificara a cuidar dele. É; seu padrinho podia não ser a melhor pessoa do mundo, mas, pelo visto, não era das piores...

- Agora, chega de conversa. Você precisa se alimentar. – falou Lasho, interrompendo os pensamentos de Ikki e entregando a ele o prato com comida – Enquanto se alimenta, eu vou lá fora dar água aos cavalos.

- Lasho. – falou Ikki, a voz baixa e encarando o prato em suas mãos – Faz quanto tempo que...?

- Faz uma semana que o acidente ocorreu. – respondeu o pajem, para logo em seguida deixar o quarto.

Ikki mantinha um olhar vazio. Sete dias... havia já sete dias que Hyoga deixara de existir. O rapaz loiro não fazia mais parte de sua vida. Nunca mais encontraria aqueles olhos azuis novamente. Nunca mais veria aquele sorriso. Foi então que pareceu finalmente dar-se conta do que acontecera. Nunca mais veria Hyoga. Nunca mais.

E, sem se preocupar em enxugá-las, deixou que as lágrimas escorressem livres pelo seu rosto amargurado e já vazio de vida.


- Meu rei... Minha rainha... Vejo que receberam o meu recado.

- Sim, Muldovar. E, devo confessar... estamos ambos muito ansiosos. – falou o rei, em tom amigável. A rainha Licahla, por sua vez, não parecia muito receptiva ao que quer que o conde Muldovar estivesse pretendendo mostrar a eles.

Durante alguns dias, o conde se ausentara e a rainha imaginara que Muldovar houvesse desistido do cargo. Isso a alegrava, pois algo dentro dela lhe dizia que dar tamanho poder a um homem como aquele conde não seria certo. Contudo, não conseguia convencer seu marido disso, por não ter qualquer prova concreta contra Muldovar.

Entretanto, o conde retornara e pedira que os soberanos de Onel fossem avisados de que ele trazia algo que interessava a ambos, mas em especial à rainha. Licahla sentira-se perturbada com essa notícia. Não acreditava que aquele homem fosse capaz de atender, verdadeiramente, ao seu pedido. Não; devia ser um truque. E ela não se deixaria enganar facilmente.

- Pois bem, Majestade. Eu os chamei aqui porque tenho algo muito importante para mostrar-lhes. Imagino que tenham alguma ideia do que se trata, mas...

- Mostre-nos. – interrompeu Licahla, secamente.

- Claro, minha rainha. – respondeu o conde – Foi para isso mesmo que os chamei até meus aposentos. Por favor, entrem. – e abriu passagem para que Markash e Licahla pudessem entrar no quarto.

Assim que entraram, os soberanos de Onel foram encaminhados a um leito que havia sido colocado no quarto de Muldovar recentemente e, ao que parecia, provisoriamente. Sobre ele, estava deitada uma bela mulher.

- Quem... quem é esta? – perguntou o rei.

- Minha noiva. Natássia.

- Sua... noiva? – a rainha estava visivelmente surpresa.

- Sim. Majestades, peço-lhes que me perdoem. Sei que não esperavam que eu fosse o tipo de pessoa que guardasse segredos como esse. Contudo, não via outra saída. Natássia é a mulher por quem me apaixonei perdidamente em uma das várias visitas diplomáticas que o meu senhor, vez ou outra, me pedia para realizar em reinos vizinhos ou distantes. Porém, nunca comentei sobre esse assunto com qualquer pessoa porque sempre pensei que, dessa maneira, evitaria expor uma fraqueza minha. Natássia é o meu ponto fraco. Nunca tive qualquer receio na vida, mas assim que a conheci, passei a temer tudo o que pudesse acontecer a ela. Certamente tenho inimigos, mesmo fazendo o possível para não cultivá-los. E, se estes descobrissem que a melhor – e a única – forma de me atingir seria por meio dela... eu... oh, céus! Perdoem-me, Majestades! Se escondi esse segredo até dos meus senhores, é porque temia pela vida dela! Tudo o que fiz, sempre foi ... por ela!...

Algumas lágrimas escorriam pelo rosto de Muldovar, que tratou de cobrir o rosto com uma mão, parecendo embaraçado por estar naquela situação. E ele parecia mesmo fragilizado. A rainha estava desconcertada. Não sabia o que pensar; tampouco o que dizer.

- Mas a vida é muito irônica, não é mesmo? – prosseguiu o conde, após um breve silêncio – Fiz de tudo para protegê-la, omitindo de todos esse importante fato de minha vida pessoal, sempre pensando que isso seria o suficiente. Mas, como podem ver... não foi bem assim.

- O que ela tem, meu amigo? – perguntou o rei, colocando sua mão forte sobre o ombro de Muldovar, em um gesto solidário.

- Natássia sofre de uma gravíssima doença, Majestade. Eu tenho procurado alguma cura para ela, mas tem sido em vão. Não vou entrar em detalhes porque não desejo aborrecê-los, meus senhores. Para compreenderem minha difícil situação, basta que eu lhes diga que todos os meus conhecimentos de nada me servem agora...

- Se sempre acreditou que escondê-la da vista de todos era essencial para mantê-la em segurança... por que a trouxe aqui hoje? Mudou de ideia só porque eu disse que você jamais se tornaria o vizir-real, a não ser que me provasse ser capaz de amar? E acredita mesmo que o simples fato de me mostrar uma mulher, que você diz ser sua noiva, vai me provar tal coisa? – perguntou a rainha, secamente.

- Não vou mentir, minha rainha. – respondeu o conde, prontamente – Minha decisão de trazer Natássia para o castelo tem mesmo muito a ver com a imposição a mim feita. Contudo, não do modo como a senhora pensa.

Licahla cruzou os braços, demonstrando seu ceticismo. Mas Muldovar não parecia se intimidar com essa atitude. Em verdade, esperava que a rainha agisse assim. Ia tudo de acordo com o planejado:

- Natássia sofre desta grave doença há algum tempo. E eu venho visitando-a sempre que possível. Tentava passar com ela o máximo de tempo que eu pudesse, querendo acreditar que minha presença poderia ser, de alguma forma, útil. Além disso, pesquisava em meus livros sobre a doença, tentando encontrar qualquer coisa a que eu pudesse me agarrar, como um raio de esperança. Todavia, por mais que eu me esforçasse, as coisas não caminhavam da forma como eu desejava. Foi então em um período de grande angústia e ansiedade que a minha rainha revelou-me, por fim, o motivo de não me crer bom o suficiente para o cargo de vizir-real. Imaginem qual não foi minha surpresa ao saber que era porque a minha senhora achava-me uma pessoa tão fria que, por consequência, era incapaz de amar. Ora! Sei que Vossa Majestade percebeu minha atitude ao me revelar o que pensava. E não se enganou; eu realmente fiquei estupefato. Não podia crer que tantas atitudes tomadas por mim em nome do meu amor fizeram-me justamente ser visto como um ser insensível. Porque, sim, minha senhora. O que a fez acreditar que tenho um coração tão frio como o gelo foi justamente o fato de você nunca ter percebido em mim qualquer atitude que demonstrasse carinho, afeto, amor por outra pessoa. De fato, dou-lhe razão. A forma como agia dava mesmo essa impressão e alguém que realmente seja incapaz de ter tais sentimentos é, deveras, perigoso, uma vez que isso significaria que ele não se importa com qualquer outra pessoa. Porém, não é o meu caso. Minha frieza era aparente. Precisava fingir não ter sentimentos, pois assim pensava proteger Natássia. E fui bem sucedido, pelo visto. Minha rainha chegou a pensar que sou a pessoa mais insensível deste mundo. Mas não me importava o que achassem de mim, contanto que Natássia estivesse bem. Entretanto... foi quando me dei conta. A minha amada não estava bem. Pelo contrário; estava cada vez pior. E eu, para manter um segredo, mantinha-me longe dela, visitando-a de vez em quando, quando possível. Não, isso não estava certo. Algum dia, isso fez sentido para mim. Em alguma época, manter-me à distância de Natássia era um sinal de meu amor por ela. Não mais. Hoje, só consigo pensar em salvar a mulher que amo. E entendi que, para isso, devo mantê-la perto de mim todo o tempo. Por isso a trouxe para cá, minha rainha. Porque ainda afago uma leve esperança de que, quem sabe, dessa forma eu consiga encontrar algo que ajude a trazer de volta a saúde de Natássia. Assim quero crer, ao menos. Enfim... decidi trazê-la para cá, mas precisava do consentimento dos meus senhores. Não posso simplesmente trazer alguém para morar no castelo sem informá-los a respeito. Conheço meu lugar; sei que devo pedir-lhes permissão para tanto. Por isso, chamei-os aqui.

- Meu bom amigo. – começou Markash, após ouvir silenciosamente o discurso do conde – Natássia é mais que bem-vinda a meu castelo. Inclusive, creio que ela deva ter seus próprios aposentos, para que possa ficar mais confortável. Mandarei o quanto antes que alguns criados cuidem de tudo. Quanto ao que acaba de me relatar... Bem, eu sempre soube que era uma boa pessoa, Muldovar. Do contrário, não teria feito de você meu conselheiro. E fico feliz que tenha comprovado isso para mim. Tudo o que acaba de me dizer é a prova de que realmente não há melhor pessoa para ocupar o cargo de meu vizir-real.

- Meu senhor, não sabe como fico agradecido em ouvir essas palavras. – falou o conde, em um tom submisso que irritava Licahla – Mas gostaria de ressaltar que não era esse o meu objetivo ao lhe revelar toda essa história. Queria apenas compartilhar com meus senhores um segredo meu que me arrependo de ter guardado...

- Ótimo. – cortou a rainha – Porque eu ainda não concordei com a ideia de que Muldovar deva ser nomeado o vizir-real.

- Licahla! – bradou o rei – O que mais você quer ele faça? O que mais deseja que ele prove?

- Eu ainda não estou convencida disso tudo.

- E o que nosso bom amigo pode fazer para convencê-la de suas boas e reais intenções, minha querida?

- O seu bom amigo poderia começar despertando a mulher que ele chama de "noiva" para conversar conosco. Seria interessante que ela pudesse confirmar tudo o que ele acaba de dizer.

- Infelizmente, minha rainha... Isso não será possível. O estágio em que Natássia se encontra nessa doença é tão avançado que ela... – e suspirou - ... Ela já está desacordada há vários dias. Venho trabalhando, estudando, pesquisando muito e tenho conseguido que ela permaneça estável. Não tem melhorado, mas também não piora. Não há neste mundo nada que eu desejasse mais do que ver a minha amada desperta novamente. Mas...

- Nada que você desejasse mais? Nem mesmo ser nomeado o vizir-real? – soltou Licahla, um pouco agressiva.

- Licahla! – repreendeu-a o rei.

- Tudo bem, meu senhor. Entendo a desconfiança de minha rainha. Ela está certa. No lugar dela, eu também não acreditaria em minhas palavras. É por isso que digo: se eu tiver de ser nomeado vizir-real, será após a aprovação de sua esposa. Como eu disse... tenho agora uma única obsessão em mente. Salvar a vida de Natássia. Todo o resto agora pode esperar.

Markash olhou severamente para Licahla. Esta, no entanto, não se deixou abater pelo olhar duro do marido. Encarou Muldovar firmemente e lhe disse:

- Vejamos então o que irá acontecer a partir de agora. Não digo que seja impossível fazer com que eu mude de opinião. Mas que será difícil, disso pode ter certeza. Até porque tudo isso é muito conveniente para você. Incluindo o fato de que esta mulher não pode acordar para nos contar sua versão da história, além de não haver mais qualquer outra pessoa que poderia confirmar o que diz, já que, como você fala, a relação de vocês sempre foi escondida de todos... Enfim. Preciso ainda absorver todas essas informações apropriadamente. – e, tendo dito isto, deu as costas para os dois homens e deixou o quarto.

- Eu sinto muito, Muldovar. Licahla, às vezes, é muito teimosa.

- Não há problemas, Majestade. Como disse, eu a compreendo. E não estou preocupado. Tudo o que disse é verdade. E a verdade sempre aparece, não é mesmo? Sendo assim, estou tranquilo. Cedo ou tarde, a rainha descobrirá quem eu sou, de fato. – e sorriu.

- Está certo, então. Bem, não vou mais tomar o seu tempo, meu amigo. Vou deixá-lo a sós com sua noiva por agora. Logo, alguns criados virão aqui para levar Natássia a um quarto preparado especialmente para ela.

- Obrigado, Majestade. Boa noite. – despediu-se Muldovar, com uma reverência. Em seguida, após certificar-se de que o rei havia saído, foi até a porta para fechá-la e trancá-la à chave.

- Pode sair agora. – falou o conde, com sua habitual voz ríspida.

De uma parte bastante escura do quarto, uma vez que a claridade do ambiente era pouca, uma figura emergiu das sombras. Era Hyoga.

Continua...