Kurt estava no carro, tentando ignorar seu coração bater mais forte. O que ele estava pensando? Ele e Blaine eram apenas amigos, não, pior, ele era seu médico e Kurt apenas um paciente. Por que um almoço comum poderia ser tão importante assim, a ponto de fazer seu coração quase saltar do peito?
– Você está quieto... - Blaine falou, em um tom mais baixo do que o de costume.
– É impressão. Pra que restaurante estamos indo? - Kurt mexia suas mãos em um rítmo que gritava que ele estava nervoso, porém rezava para que Blaine não percebesse.
– Na verdade, eu estou te levando pra minha casa. - O coração de Kurt parou naquela hora. - Eu faço um ótimo macarrão, sabia?
Kurt gargalhou um pouco ouvindo o tom irônico de Blaine e voltou a ficar em silêncio, logo sentiu o carro parando. Haviam chego? Suas mãos ainda se mexiam em um ritmo louco.
– Ei, calma. - Sentiu a mão de Blaine sob as suas. - Eu não estou te levando a nenhum lugar misterioso, aonde vou te assassinar e cortar em pedaços, ok? - Kurt assentiu.
Com a ajuda de Blaine, Kurt entrou na casa. O cheiro daquele lugar fez seu cérebro parar. Suas pernas não se mexiam mais e ele estava paralisado na porta. Sentiu então, uma lágrima descer por seu rosto.
– Kurt? O que aconteceu? - Blaine perguntou preocupado, capturando a mão do paciente. Kurt permaneceu mais alguns segundos calado, e outra lágrima escorria de seu rosto.
– Lírios. - Falou, ainda parado.
– Sim, o quê... - Então Blaine se lembrou. O médico se lembrou de ter sido chamado para um acidente, aonde teve que sair do hospital e seguir na ambulância. Se lembrou de chegar na rodovia e encontrar destroços de carros, e sangue por todo lugar. Se lembrou de socorrer um velho homem, que parecia não ter se machucado muito. Se lembrou também de socorrer um jovem garoto, cujo sangue se misturava com algumas flores pelo asfalto. - Kurt...
– Eu... - Sua voz era vaga. - Eu sei que faz mais de um mês, e que não deveria me sentir assim, mas... Eu ainda lembro da gritaria, lembro das pessoas perguntando se eu estava bem... Lembro da dor, do choro... - Kurt respirou, deixando outra lágrima cair. - E lembro de ver meu pai caído na rua, cheio de sangue...
Blaine sentiu um aperto no coração, ao ver Kurt ali, olhando para uma imensidão cheia de nada e se lembrando daquele dia horrível. Sentiu uma vontade maior que si de abraçar o castanho, e assim fez. Em poucos segundos, o rosto de Kurt se perdia na curva do pescoço do médico.
– Não fica assim, passou. - Ele se sentia ridículo falando isso para um rapaz crescido, porém não sabia o que fazer para melhorar. Suas mãos afagavam o cabelo castanho de Kurt, que estava mais agarrado a si do que qualquer outra coisa que já estivera em seu lugar.
– Eu pensei que iria o perder nesse dia, pensei que iria me perder esse dia. Foi horrível, Blaine... Horrível. - Kurt apertava mais o abraço. Não se importava de estar carente. Fazia muitos dias depois daquele terrível acontecido e até agora ele havia se mantido forte.
– Vem, senta aqui... - Blaine, por mais que fosse contra sua vontade, se separou do abraço pegando a mão de Kurt e o encaminhando até o sofá. - Eu vou fazer algo rápido pra gente comer, e você vai me contar, tudo bem?
Kurt não respondeu, então Blaine apertou sua mão mais forte. - Tudo bem, Kurtie? - O castanho assentiu com a cabeça e jogou sua cabeça para trás, encontrando o encosto do sofá, qual serviu de apoio para seus pensamentos.
Blaine não demorou muito com a comida. Nada mais complexo que espaguetti ao molho. Deixou os pratos sob a mesa de centro da sala, se sentou no sofá e capturou as mãos de Kurt novamente para si.
– Você pode começar quando quiser... - Blaine apertava as mãos frias do paciente. Kurt não chorava mais, porém seus olhos ainda estavam vermelhos. Uma pena, pois aqueles olhos azuis eram os mais lindos que Blaine ja havia visto.
– M-meu pai começou a namorar Carole tem um tempo. Ela foi morar com a gente junto com Finn, você o conhece, certo? - Blaine apertou a mão de Kurt, como forma de dizer que sim, então o castanho continuou. - Foi quando meu pai a pediu em casamento. Eu organizei a festa toda, a decoração, o buffet, até a banda que seria nosso grupo de coral, tudo. - "Kurt canta em um coral?" pensou Blaine. - E quando aconteceu o acidente, nós estávamos voltando da prova do terno. Paramos numa floricultura para comprar algumas flores para Carole, e aconteceu aquilo, foi muito... rapido. - Blaine apenas soltou da mão de Kurt para enxugar uma lágrima que caía sobre seu rosto. - Eu lembro de ter colocado um CD, e então eu ouvi uma buzina. Foi só o tempo de eu olhar para o lado, que fomos atingidos. Segundos, que pareciam uma vida inteira. Meu pai gritava, eu gritava, as pessoas que estavam perto gritavam... E chegou um momento que eu não conseguia mais gritar. Não sei quantas vezes o carro capotou, só sei que quando meu rosto tocou aquele asfalto quente... - Outra lágrima caía, e Blaine a enxugou. Kurt não havia mudado o tom até agora. Ele era um menino muito forte. - E-eu estava caído, olhando para meu pai sangrar. Eu queria levantar daquele chão, correr até ele e perguntar se ele estava bem, mas eu não conseguia, eu não tinha forças. Minha vista estava ficando embaçada, e ao mesmo tempo vermelha, e eu estava ficando tonto... A última coisa que me lembro de ouvir foi a ambulância, foi quando eu desmaiei. E minha última visão, a última imagem que eu vi, que vai ficar sempre comigo em minha cabeça é meu pai, caído no chão, sangrando, abrir os olhos e deixar uma lágrima escapar. E ao lado dele, os lírios de Carole.
Blaine tinha seus olhos marejados, e apertava a mão de Kurt mais forte do que antes. Ele queria mostrar para o castanho que estava ali com ele.
– Kurt, me desculpe... Se eu tivesse lembrado eu tiraria as flores, é que elas são minhas favoritas e...- Kurt o interrompeu.
– Não, tudo bem. Eu que ainda não tinha desabafado com ninguém. Eu realmente precisava disso, Blaine. Obrigado. - Sorriu, e Blaine também. Mesmo Kurt não podendo ver, ele sentiu o calor do sorriso de Blaine sob si. - O que mais machuca é pensar que meu pai poderia estar casado agora, talvez voltando de lua-de-mel. E que isso não aconteceu por minha causa.
– Não é sua causa, não é... - Blaine limpava outra lágrima que caía. - Eu tenho certeza que ele vai remarcar a data, e que você estará lá pra ele, você tem que estar. - As mãos de Kurt e Blaine estavam mais conectadas do que nunca.
– Ele já remarcou, aliás. Seria algo sobre algumas semanas... - Kurt soltou da mão de Blaine para limpar outra lágrima, a última.
– E você estará lá, firme e forte. Apoiando seu pai em um dos dias mais felizes de sua vida. Me promete?
– Prometo. - Kurt deu um sorriso pequeno.
As mãos ainda estavam dadas e ambos corações batiam forte. O vento entrava pela cortina, batendo no rosto dos dois jovens.
– Blaine... - Sussurrou.
– Diga, Kurt.
– Eu estou com fome... - Sussurrou, depois gargalhou. Blaine riu também, e soltou as mãos de Kurt.
Os amigos comeram aquela refeição felizes, e Blaine sentia que conhecia um pouco mais de Kurt.
