Capítulo X

Kagome e Sesshomaru encontravam-se sozinhos à mesa do desjejum, na manhã seguinte.

— O que você tem a me dizer sobre Naraku Dorchester? — perguntou Sesshomaru assim que o copeiro se afastou.

Kagome parou de espalhar manteiga numa torrada e olhou para o marido.

— Dorchester? Há um cavalheiro com esse nome que mora lá no vilarejo.

— Tive um encontro muito desagradável com esse "cavalheiro" ontem à noite, no salão de jogos.

— Não sabia que ele se encontrava em Londres. — Kagome se remexeu na cadeira. — Eu o conheço desde criança. Por alguma razão, ele cismou comigo. Quando eu era mais jovem, ele tentou me cortejar. Mas eu namorava Kouga e recusei suas atenções.

— Sua recusa o enfureceu?

— Nunca percebi. Ele sempre teve uma legião de mulheres interessadas nele. Além de ser o homem mais rico do vilarejo, o fidalgo é bonito, e sabe ser cativante. — Acredito que nem tenha percebido minha indiferença. Está habituado a ser venerado pelas mulheres.

— Por você não?

— Não. Nunca me senti à vontade perto dele, embora não saiba explicar o motivo. Muitas pessoas, incluindo meus pais, consideram o fidalgo digno de admiração. Depois da morte de Kouga, eles alimentaram a esperança de que eu aceitasse a corte de Dorchester, mas eu sempre soube que isso jamais aconteceria.

— Por causa de meu irmão?

— Em parte. Apesar de mal se conhecerem, Inuyasha foi à única pessoa a partilhar minha aversão pelo fidalgo. Uma das razões para ele me pedir em casamento foi para me proteger de Dorchester.

Sesshomaru fitou-a com apreensão.

— Aconteceu alguma coisa? Você foi desrespeitada ou ameaçada?

— Oh, não!

O coração de Kagome bateu mais forte. A preocupação de Sesshomaru tocou-a fundo, amenizando suas desconfianças com relação às suas atitudes sempre formais e distantes. — Inuyasha não gostava do fidalgo. Ele me aconselhou a ficar alerta e cautelosa sempre que Dorchester estivesse por perto e a nunca ficar sozinha com ele.

Sesshomaru franziu o cenho.

— Você devia ter me contado antes. Kagome sorriu e encolheu os ombros.

— Não achei necessário. O fidalgo não significa nada para mim.

— Ele não pensa assim. Espantada, Kagome arregalou os olhos.

— Como você sabe disso?

Depois de lançar um olhar discreto ao criado que voltara com o bule de café fresco, Sesshomaru voltou-se novamente para Kagome.

— Ele fez um comentário sobre vocês se conhecerem a um longo tempo.

— É mesmo?

— Sim. A atitude dele foi possessiva e beligerante. Ficou muito aborrecido por eu não ter lembrado o nome dele, e tentou começar uma briga.

Kagome respirou fundo.

— Certamente ele pensou que você era Inuyasha.

— Foi o que imaginei. Minha ignorância dos fatos me deixou em desvantagem, e gostaria que isso não voltasse a acontecer no futuro.

— Sinto muito. Nunca pensei em preveni-lo. — Ela deixou a torrada no prato. — Eu tinha ouvido falar das viagens ocasionais do fidalgo a Londres, mas jamais imaginei encontrá-lo aqui. Estou realmente surpresa com a presença dele no baile do duque. Francamente, nunca soube que ele freqüentasse os círculos aristocráticos.

— Como ele entrou na mansão do duque é realmente um mistério. Foi minha irmã quem organizou a recepção, e ela me garantiu que Dorchester não estava entre os convidados. Ele deve ter ido ao baile acompanhando alguém.

— É provável. Bonito e elegante como é, ele se adaptaria bem ao papel.

— Você já disse isso. Mais de uma vez.

A expressão de Sesshomaru era calma, mas seus olhos faiscavam. Se não soubesse da verdade, Kagome diria que ele estava com ciúme. Ficaram em silêncio por um instante enquanto o criado retirava os pratos da mesa. Só depois, Kagome disse:

— Agora que ele está em Londres, há grande possibilidade de nos encontrarmos com o fidalgo novamente.

— Receio que esteja certa. — Sesshomaru encarou-a com expressão séria. — Se alguém descobrir a verdade sobre o nosso casamento, ele seria capaz de usar a informação para nos causar problemas?

— O fidalgo é muito considerado em nossa pequena comunidade, embora eu sempre tenha questionado seu verdadeiro caráter. Não tenho provas, mas acredito que seja um homem capaz de grandes maldades.

— Então, vamos proteger nossa privacidade e esperar que Dorchester tenha outros interesses ocupando sua mente. — Sesshomaru limpou o canto dos lábios com o guardanapo. — Meu irmão sempre teve uma intuição aguçada, e por isso desconfiou do caráter do fidalgo. E após nosso breve encontro, sou obrigado a concordar com Inuyasha. Reforçando o conselho dele, exijo que evite Dorchester e, se não tiver como impedir a proximidade dele, tenha o cuidado de nunca ficarem a sós.

A precaução parecia excessiva, mas Kagome concordou com um gesto de cabeça. Ela não gostava do fidalgo, e evitar a companhia dele não seria nenhum sacrifício.

— Quais são seus planos para hoje? — Sesshomaru forçou um sorriso para disfarçar a preocupação.

— Concordei em acompanhar sua mãe até Bond Street à tarde. — Kagome sorriu timidamente. — Prometi refrear o impulso de comprar tudo.

— Apesar de admirar seu bom senso, não quero lhe negar o prazer de comprar. Você precisa de um guarda-roupa digno de sua nova condição social.

— Sua generosidade é muito apreciada, mas asseguro que tenho mais vestidos do que oportunidades para usá-los.

Sesshomaru ergueu uma sobrancelha.

— Você tem permissão para comprar tudo que quiser. Entretanto, devo insistir que tenha muito cuidado quando sair de casa.

Era uma ordem e, pelo tom incisivo, Sesshomaru deixava claro que esperava ser obedecido.

— Espero que você também fique alerta. — Kagome inclinou graciosamente a cabeça. — Afinal, Dorchester aproximou-se de você, não de mim.

— Sei cuidar de mim mesmo — retrucou Sesshomaru.

— Sei disso. Entretanto, prefiro que não enfrente a necessidade de defender-se, verbal ou fisicamente. — Kagome não resistiu à tentação de tocar-lhe o rosto. — Espero que tenha um dia agradável, milorde.

— Sesshomaru — ele a corrigiu. Os olhos dourados a fitavam com carinho. — Na privacidade, quero que me chame de Sesshomaru. Gosto de ouvir meu nome saindo de seus lábios.

— Sesshomaru — Kagome repetiu com voz enrouquecida, perturbada com a intensidade do olhar dele. Olhou ao redor e ao ver que não havia criados por perto, levantou-se e contornou o rosto dele com a ponta do dedo. — O som do seu nome é a única coisa que lhe ocorre ao olhar para a minha boca? Com efeito, Sesshomaru!

Pelo sorriso, Kagome percebeu que ele entendera sua intenção. Sem nenhum comentário, Sesshomaru inclinou-se e beijou-a de leve nos lábios.

A pressão do beijo aumentou, e Kagome enlaçou-o pelo pescoço. Encostou o corpo no dele e estremeceu ao sentir sua ereção. Com um suspiro resignado, Sesshomaru se afastou.

— Até mais tarde — ele murmurou, saindo da sala de refeições.

Kagome voltou a se sentar, corada e arfante, exultante com o efeito que provocara em Sesshomaru Taisho.

— Hoje não estamos recebendo visitas, fidalgo — Kikyou anunciou. — Meu pai e minha irmã não estão em casa.

Naraku baixou os olhos, escondendo o brilho da excitação que mal conseguia controlar.

— Que falta de sorte! Eles vão demorar?

— Receio que sim.

A pulsação dele disparou.

Se Kikyou não quisesse recebê-lo, teria mandando um criado com a resposta. Em vez disso, ela mesma o informava que estava sozinha.

A oportunidade não poderia ser melhor. Depois de ter ouvido comentários interessantes naquela manhã, Naraku tentara pensar num modo de encontrá-la a sós. Agora nem haveria necessidade de elaborar um plano. A oportunidade se apresentara naturalmente!

— Só peço alguns minutos do seu tempo, srta. Manning. — Contemplou-a com seu sorriso mais encantador e acrescentou num fio de voz: — Você não pode dispensar um ou dois minutos a um amigo querido?

Kikyou mordiscou o lábio, hesitante. Naraku aguardava. Sabia que ela recebera uma educação rígida, mas fazia tempo que ele estava preparando o terreno, e as barreiras da disciplina começavam a ruir.

Ele tivera o cuidado de vestir roupas novas, caras e elegantes. Fez uma pose casual no hall de entrada, confiando em sua boa aparência de fidalgo inglês. Depois de avaliá-lo dos pés à cabeça, Kikyou finalmente se decidiu.

— Vamos conversar na biblioteca. Apenas por alguns minutos.

Naraku inclinou a cabeça, concordando. Com um sorriso triunfante nos lábios, ele a seguiu a uma distância respeitosa, notando que não havia criados transitando naquela ala da casa.

Naraku entrou na biblioteca e ordenou:

— Feche a porta à chave.

— Por quê?

— Não quero que seus criados interrompam nossa conversa.

— Por que você veio Naraku? — Kikyou perguntou, depois de trancar a porta. — O que você quer?

— Respostas sobre o seu passado.

Ela ergueu ligeiramente as sobrancelhas.

— Meu passado? Como assim?

— Descobri algo muito interessante durante o café-da-manhã, no Tattersall.

— A meu respeito? Que vulgaridade ter participado de tal discussão.

— Asseguro-lhe que somente os cavalheiros muito finos presenciaram a conversa, minha querida. Pelo menos cinco, e todos demonstraram considerável interesse. — Ele riu do constrangimento de Kikyou. — Naturalmente, eu pretendia encerrar a discussão no momento em que seu nome foi mencionado, mas a conversa tornou-se muito esclarecedora.

— Não sei do que você está falando.

— Verdade? Bem, você não imagina minha surpresa ao saber que todos esperavam pelo anúncio de seu noivado com lorde Taisho. Mas depois surgiu uma esposa na vida dele e seu compromisso virou fumaça, minha querida.

— Está com ciúme?

— Nem um pouco.

— Não importa. Meu envolvimento com lorde Taisho acabou e certamente, este assunto não lhe diz respeito.

— Está enganada. Tudo que envolve lorde Taisho me interessa.

Kikyou ficou lívida.

— O quê?

Naraku riu, divertido com a expressão de perplexidade no rosto dela.

— Vim para Londres à procura de Taisho e de sua esposa. Na minha segunda noite na cidade, deparei com você, antiga noiva do lorde, escondendo-se no jardim. Foi coincidência? Ou destino?

— Foi pura falta de sorte, fidalgo.

— Acho que foi destino, apesar de você dizer que não sabia nada sobre Taisho. — Ele baixou o tom de voz, tentando esconder a fúria. — Explique-se.

— Não tenho que explicar nada, muito menos a milorde.

— Peço-lhe para reconsiderar.

Percebendo a alteração de humor do fidalgo, Kikyou correu para a porta, mas Naraku foi mais rápido. Agarrando-a pela cintura, impediu-a de fugir. Sentou-a sobre a escrivaninha e prendeu as pernas dela entre as suas.

Furiosa, ela começou a esmurrá-lo no peito.

— Solte-me imediatamente!

— Não enquanto eu não estiver pronto.

Num movimento rápido, segurou firmemente as mãos dela nas costas, e com a mão livre segurou-lhe um seio. Kikyou gritou.

— Você brincou comigo! — Naraku esbravejou. — Namoricos com nobres, noivados secretos, fingindo ser uma grande dama. Aposto que nem é mais virgem!

— Como se atreve a dizer tal infâmia?

Kikyou começou a lutar e Naraku ria. Sua excitação crescia, e ele se deliciava ao ver como suas palavras a humilhavam.

— Está com medo? — A voz dele soou sarcástica. — Deveria estar. Foi tolice mentir para mim. Sua mentira me enfureceu. Agora vou castigá-la por ter me enganado.

Ele a beijou com voracidade, exigindo uma resposta. Kikyou resistiu e ele mordeu-lhe o lábio até ela gritar de dor. Sua língua invadiu a boca de Kikyou e, aos poucos, a resistência dela foi cedendo. Naraku sentiu os mamilos dela se enrijecerem e, segurando-a pelo pulso, guiou-lhe a mão até o volume entre suas pernas.

Kikyou tentou afastar a mão, porém Naraku pressionou-a com força sobre a protuberância rígida sob o tecido da calça. Ao sentir Kikyou tremer e se debater, o cheiro do medo misturado à excitação sexual invadiu as narinas de Naraku. Ele era um homem que aperfeiçoara a arte do tormento, e aquela era exatamente o tipo de situação que estimulava seu apetite depravado. Decidindo que simplesmente deveria possuí-la, o fidalgo jogou-a no chão.

Minutos depois, o fidalgo começava a se recompor, fechando os botões da calça. Sua respiração ainda estava ofegante. O ar estava denso, com a fragrância de luxúria e violência.

Naraku olhou mais uma vez para a mulher prostrada no tapete. Por entre as pernas ainda entreabertas, ele viu uma mancha de sangue na parte interna das coxas.

— Nada mau para uma virgem — ele comentou rindo. — Mas espero que melhore, com o tempo.

Kikyou olhou para ele, e então suspirou e sorriu. Havia alguma coisa diferente, extraordinária, nos olhos dela. Cauteloso Naraku afastou-se. Em seguida, para enorme surpresa do fidalgo, ela abriu mais as pernas, num convite claro. Movendo os quadris de modo provocante, ela disse:

— Para melhorar, terei de praticar. Vamos repetir? Ainda não estou satisfeita com nossa atividade matinal.