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IX

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As barracas do parque de diversões haviam sido abertas no terreno baldio ao lado da feira do condado dois dias antes e as pessoas chegavam para tentar a sorte na roda da fortuna, no boliche e no jogo de argolas. Os dois observavam um trenzinho elétrico com um vagão cheio de crianças rindo, que seguia por trilhos de bitola estreita num trajeto em forma de oito. A neve caía de um céu tão claro que era impossível olhá-lo sem cerrar os olhos.

Shisui tentou pegar a mão dele. Itachi não a afastou, mas tão pouco retribuiu o aperto.

- Desculpe – Shisui disse. – Desculpe minha... grosseria ontem à noite. Não foi muito legal da minha parte. Nada legal da minha parte.

O trenzinho diminuiu a velocidade até parar, e seus passageiros desceram com estardalhaço. Itachi observou em silêncio o vagão ser carregado com uma nova leva de crianças.

- Você me pegou desprevenido, e eu sei que isso não é desculpa, porém espero que compreenda o meu lado.

- Compreendo e o perdôo por ontem. Sempre o perdoarei, Shisui, não importa o que faça – Itachi começava a beliscar a barra do casaco, que começava a ficar puída e onde logo surgiria um buraco. – E compreendo que também lhe devo um pedido de perdão. Eu não devia... ter dito o que disse.

Uma súbita vergonha fez o coração de Shisui ribombar, e mal ousava responder Itachi olho no olho.

- Quanto a isso... – começou.

- Detesto saber que não posso lhe oferecer o mesmo que ela. – Ele olhava a criançada no trenzinho com um olhar sério, quase assassino. – E detesto que ela fique com você. Desse jeito. Quando isso acontece, sinto vontade de bater na sua cara e também de vomitar.

Não havia nada de romântico naquilo – muito pelo contrário, era cruel e mesquinho, nada que se pudesse esperar de uma pessoa tão boa como Itachi, que nunca havia passado pela fase de arrancar asas de moscas ou de chamuscar o rabo de cachorros para fazê-los correr.

Mas todo mundo têm um lado negro, e o dele havia aflorado naquele momento. De certa forma, era até bom vê-lo daquele jeito. Tornava-o humano. Uma lembrança de que ele era apenas um garoto assim como Shisui, com dúvidas e desejos e tudo o mais o que ser um garoto implicava.

- Após você partir ontem, esqueci que gosto dela, e sinceramente desejei que... – Apertou tanto os lábios que eles praticamente desapareceram, e por um segundo seu rosto deixou de ser bonito, nem mesmo atraente. Estava retorcido num esgar horrível, ao mesmo tempo magoado e compulsivo. Então o segundo passou. – Desculpe. Desculpe, eu não deveria estar falando essas coisas.

Voltou a ser apenas Itachi, aquele que conhecera a vida inteira. Apenas Itachi, assustado e confuso com aquele súbito acesso de fúria assassina.

- Não, não. – Shisui o pegou pelos ombros. – Escute, Itachi, se quisermos... se você quiser... nós vamos fazer. Eu prometo. Só que não agora. Agora é... cedo. Muito cedo para nós.

Seus olhos cinzentos o fitavam com algo que poderia ser tristeza.

- Está sendo sincero?

- Estou.

- E você?

Shisui piscou.

- Eu o quê?

- Você quer?

Não hesitou em responder. Apertou seus ombros.

- Sim – disse. – Sim. Por Deus, Itachi é claro que quero.

Beijaram-se sob a neve, tocando o rosto um do outro, e Shisui envolveu sua cintura, trazendo-o para mais perto.

- Sh– mmn... – Itachi afastou-se um pouco. – Tem gente aqui.

- Então vem comigo.

Pegou-o pela mão e o levou à roda-gigante. Uma volta era cinco centavos, e quando já estavam bem altos lá em cima, Shisui o atacou, praticamente em cima dele. Não parou nem mesmo quando voltaram à altura do chão; o rosto de Itachi estava escondido e poderia se passar por uma menina aos olhos de qualquer um, com todo aquele cabelo preso no costumeiro rabo-de-cavalo. Foram levados de novo para o alto, e Shisui encaixou a boca em seu pescoço, sugando e lambendo. Segurou sua nuca, sentindo a curva delicada de seu crânio, logo abaixo dos cabelos fartos, e Itachi pousou o rosto na concavidade de seu ombro, expirando pequenos suspiros.

Com os rostos corados e de mãos dadas, detiveram-se um pouco na feira do condado. A cada ano, faziam içar um carro imprestável para uma plataforma, deixavam uma marreta ao lado e cada um podia dar três marretadas por 25 centavos. A ideia era acabar com o carro e todo mundo a levava a sério. O Honda Civic estava praticamente demolido, e Shisui conseguiu arrancar o espelho lateral com duas tacadas. Com a outra, estilhaçou o que restava do para-brisa.

- Olha só – ele disse, jogando o espelho para cima e pegando-o novamente com uma mão. – Espólio de guerra.

- Eu diria espólio de um ataque covarde a um carro indefeso.

Shisui riu e chutou o espelho. Ele saiu voando a uma velocidade suicida, desaparecendo na distância.

- Belo chute.

- É, meu treinador disse que eu nunca deveria ter largado o futebol. – Ele mirava a direção aonde o espelho havia caído. – Itachi.

- O quê?

- Olha lá.

Saiu correndo pela rua, entrando na praça coberta de branco. Havia montes de neve acumulada sobre os bancos e nos canteiros arborizados. Algumas árvores já haviam perdido completamente a folhagem, mas não o arbusto em que a peça do automóvel havia pousado. O pedaço de lataria estava afundado até a metade na camada neve, o espelho uma confusa teia de aranha em rachaduras.

Shisui inclinou-se, os quadris para cima, olhando de lado para ele.

- Puta que pariu, você tá vendo isso? – exclamou, admirando sua obra acidental. O espelho preso ali, perfeitamente na vertical, parecendo uma guimba de cigarro naqueles vasos de areia que costumam ficar do lado dos elevadores nos saguões de hotel. – Nem tentando eu conseguiria fazer isso! Nem...

Então Itachi o chutou no traseiro e ele caiu de cara na neve solta e recém-caída, fazendo-a voejar à sua volta com um palavrão de surpresa. Ouviu o riso dele.

- Desculpe – Itachi diz em meio às risadas. – Desculpe, Shisui, mas a sua posição era muito convidativa.

- Porra, cara. – Contudo, está gargalhando também. – Me ajuda a levantar.

Itachi estende a mão e Shisui a agarra, puxando-o para baixo. Itachi solta um grito em meio às risadas, e por um momento eles ficam deitados na neve que cai. Shisui está coberto dela; até seus cílios estão pesados. Teria beijado Itachi naquela hora, daquele jeito que os casais fazem na televisão, rolando na neve, se não fossem todas as pessoas transitando por ali. Era algo que podia fazer com Anko, não com ele, mas Shisui estava disposto a abrir mão de muita coisa, e arriscar-se é algo que os adolescentes fazem toda hora.

- Como está o pulso? – perguntou.

Itachi estendeu a mão. Shisui a pegou e, atento ao estalo de algum pequeno osso, virou-a gentilmente em ambas as direções.

Não ouviu nada e o pulso girava livremente, embora houvesse inchado como um pneu. Enquanto Itachi o observava, o rosto branco como o de um mímico, ele levou a mão aos lábios e beijou-a por trás, sobre o delicado traçado das veias.

- Haja o que houver, estaremos juntos – disse.

Itachi sorriu-lhe, e Shisui pensou Sempre juntos. Não poderia ser de outro jeito.

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Nos portões de entrada do orfanato, Itachi falou:

- As férias estão acabando.

- E os exames estão chegando, sim. – Shisui fechou a cara. – Mal posso esperar para essa droga de ginásio terminar. Então será a liberdade.

- E o que você vai fazer?

- Quê?

- Depois que terminar o ginásio – Itachi disse, paciente. – Com certeza você vai ganhar uma bolsa numa universidade por causa do basquete, não?

Shisui pensou sobre isso. Os pensamentos que tinha sobre o futuro eram nebulosos, e sempre que começavam a tomar alguma profundidade, ele os empurrava de volta para baixo, sentindo algo próximo ao medo. Queria que o ginásio terminasse, isso era verdade. Não suportava mais estudar. Em contrapartida, não sabia o que faria quando terminasse. Itachi estava certo, ele podia ganhar uma bolsa esportiva para alguma universidade, provavelmente ganharia, mas era isso o que realmente desejava? Queria mesmo tornar a ouvir o bater das portas dos armários nos corredores, o cheiro seco de poeira de giz nas salas de aula, o som das máquinas de escrever na ala do secretariado, a voz monótona e exigente de algum reitor fazendo os comunicados do fim do dia, por sabe-se lá quantos anos mais?

Não, não tinha certeza.

- É, talvez sim – disse, evasivo. – Ou talvez eu pegue um carro e vá sair rodando por aí, fazendo um bico aqui e ali.

Itachi sorriu, divertido, mas também havia desconfiança em seu sorriso.

- Não está falando sério, está?

- Claro que estou – Shisui declarou. – Obviamente que também o sequestrarei e iremos para a Califórnia, aquelas terras douradas de sol.

Itachi rolou os olhos para ele, aparentemente decidindo que estava brincando. Shisui, contudo, pensou se não seria realmente bom fazer isso. Apenas eles dois, indo de uma cidade à outra, sem nunca assentarem-se definitivamente em algum lugar. Dirigindo por aí, ganhando o suficiente para manterem-se numa boa, apenas eles e um carro para fazerem amor no banco de trás.

Sim, sonhar é muito bom, mas vamos começar a ser um pouco mais realistas, certo, chapa?

Isso nunca aconteceria, e ele sabia disso. Itachi era extremamente inteligente (vaga na universidade ainda no sétimo ano!), de certo estava destinado a algo maior, algum campus da Ivy League, e pedir para ele desistir daquilo em prol do relacionamento deles eram algo que Shisui não poderia jamais fazer.

- Ou, se nada mais der certo, viro stripper. Anko vive dizendo que ganharia uma grana preta se tentasse.

Itachi deu-lhe um murro no ombro.

- Você não presta, Shisui.

Mostrou a ele seu sorriso mais encantador – caramba, Itachi, como eu te adoro –, torcendo para que não deixasse transparecer o quão inquieto de fato estava. Mas Itachi sorriu de volta e então tudo estava bem novamente. Por enquanto.

Nenhum dos dois reparou em Nan Melda que, apesar da neve, saíra para ver o canteiro, onde se preservavam as últimas beterrabas e espinafres. A mulher ficou parada, o frio envolvendo-lhe os tornozelos nus acima dos chinelos e a picando com vontade, através do casaco caseiro, meio escondida atrás de um grande espantalho com um gorro de Natal plantado na cabeça de aniagem. Seus olhos passaram de um garoto a outro, agitando-se nervosos como pássaros numa gaiola.

Uma forte pontada de suspeita chegou sorrateira ao coração de Melda. Lembrou-se de quando Itachi tivera febre e ela entrara no quarto dos dois para conferir sua temperatura e os encontrara abraçados daquele jeito íntimo, não como dois amigos partilhando um laço de irmãos, mas como... como...

(amantes)

- Ocê tá é loca – Melda murmurou para si mesma, mas sua mão continuou apertando o cabo do facão. Caindo de joelhos no solo lamacento do jardim, ela começou abruptamente a desenterrar as beterrabas, atirando os talos com folhas para o lado da casa com movimentos rápidos, precisos. – Num teim nada entre eles. Eu ia sabê. Muleques dessa idade têim tanta discriçaum quanto... quanto bebuns num bar.

Mas o modo como tinham sorrido. O modo como tinham sorrido um para o outro.

- Perfeitamente normar – ela sussurrou, cortando e se livrando das folhas. Sem perceber, cortou um maço de talos de uma beterraba quase pela metade. Falar sozinha era um hábito que só adquirira recentemente, à medida em que eles saíam com mais frequência e o estresse de lidar com sua paranoia aumentava. – As pessoa sorri umas pras ôtras, só issu.

O mesmo quanto à maneira como a cabeça de Itachi inclinara-se para o lado, ligeiramente de banda, quando Shisui falara algo que ela não fora capaz de ouvir, e também como os dois estavam cobertos de neve de cima a baixo, como se houvessem rolado em farinha. E no entanto...

O olhar nos olhos dele... e o olhar do outro.

Absurdo, é claro. Mas...

Mas você viu mais alguma coisa.

Sim, talvez. Por um momento, achara que Shisui ia beijá-lo quando Itachi pendeu a cabeça para o lado daquele jeito, quase como se pedindo para que ele o beijasse.

E se Shisui fizesse isso de fato? Simples assim, apenas agachar-se ligeiramente e encostar sua boca na do garoto à frente?

O que ela, Melda, faria?

Observou os garotos entrarem no orfanato, esquecida das beterrabas. Havia algo, certamente havia. Um monte de coisinhas que, somadas, formavam uma baita erupção que precisava ser coçada.

E planejava por um fim a ela antes que suas reflexões se mostrassem reais.