Capítulo DEZ
-Não concordo. –Skye dizia, sentada no laboratório junto com Fitzsimmons- Vocês podem dizer o que quiserem dizer, eu ainda não acho que Coulson e May formem um casal pelo menos perto de harmonioso. Pelo amor de Deus, vocês conhecem ela, e ainda acham que isso que eles tem é minimamente...
-Skye. –Simmons interrompeu o discurso de indignação da outra com um gesto delicado de sua mão- Ouça, nós entendemos, acredito que todos nós entendemos, que você e o Agente Coulson tem uma bonita relação de "pai e filha", e que você ser protetora e ciumenta em relação a ele é completamente normal.
-Eu não estou com ciúmes, eu apenas acho que...
-Bom, não importa o que você acha. -Fitz disse, concentrado em tirar micro parafusos de algo que Skye não podia identificar o que era- Eles se gostam, talvez sempre tenham se gostado, e mesmo com as diferenças de personalidade, eles parecem estar mais do que bem juntos. Sem contar que você está esquecendo-se de considerar uma coisa. Ela voltou às missões de campo por ele.
-É verdade. –Simmons concordou- Você sabe melhor do que nós sabemos, Skye, sobre o que houve com ela em Bahrein e como ela saiu das missões de campo após isso. Ela voltar agora... bom, tem que haver um belo motivo.
-Ela pode ter curado o trauma. -Skye disse emburrada.
-E Ann. –Simmons disse encerrando a questão- Ann basicamente juntou os dois agora, e ela é filha dele, e algo como filha da Agente May também, se alguém os conhece bem, é ela e se ela diz que faz sentido, é porque faz.
-Veja isso... –Fitz largou o que estava fazendo e foi em busca de um tablet, que ele tinha guardado numa gaveta com trava eletrônica e um código de oito números para destravar- Esse é o registro do quarto do Agente Coulson. Sim, não façam essa cara, todos aqui sabem que há câmeras nos bunkers, não é como se eu bisbilhotasse vocês de propósito! Eu encontrei isso, porque não sei de vocês sabem, mas meu bunker é o único que divide ventilação com o quarto dele, e por duas noites seguidas, eu escutei gritos. Obviamente eu pensei em subir lá e perguntar o que estava havendo, oferecer ajuda... Mas esses gritos poderiam ser qualquer coisa, desde pesadelos, como era minha desconfiança, a... bem, sexo. Um tipo barulhento e brutal de sexo. Então ao invés de subir lá e talvez atrapalhar algo, eu busquei isso aqui e conferi o que se tratava.
-Fitz... –Simmons disse em repreensão- Não importa o que tenha ai, você não deve mostrar a ninguém.
-Não é nada pornográfico. –ele disse um pouco ofendido- O que é curioso, vejam bem, não se trata de um casal jovem ou algo assim. Mas o que eu quero mostrar a vocês é isso. –ele mexeu em alguns comandos e quando finalmente encontrou o que queria mostrar girou o tablet e deixou que elas observassem o quarto de Coulson.
A câmera ficava na parede de frente para a cama. O ângulo amplo deixava ver todo o quarto. Nessa noite, que havia sido alguns dias atrás, Coulson estava adormecido sozinho na cama. Havia alguém no sofá ao lado das janelinhas, segurando um celular, com se lesse ou jogasse alguma coisa. Era May, com as pernas estendidas e apoiadas num banquinho e um cobertor sobre elas.
-Eles não dormem na mesma cama? –Skye disse incrédula, olhando para Fitz e Simmons, que antes era contra verem aquilo, mas agora parecia intrigada pela cena.- Mas nós vimos antes, quero dizer, nos primeiros dias ele ir até o bunker dela e, bem, não podemos esperar que haja muito espaço pra que eles durmam separados lá.
-Ela talvez não quisesse incomoda-lo com a luz do celular. –ela disse apenas.
Na gravação, ela começou a cochilar, deixando o celular escorregar de sua mão. Ela não parecia muito confortável, mas nem por isso saiu dali e foi em busca de sua cama. De repente, Coulson desperta gritando e se debatendo, como se lutasse contra algo que o mantinha preso na cama. Skye percebeu que se ela estivesse deitada ao lado dele, teria sido agredida ou empurrada para fora da cama violentamente.
Em meio segundo, May estava de pé, parecia chamar por ele, mas não o tocava. Ele pareceu se acalmar um pouco e abriu os olhos. Ela cuidadosamente sentou-se na cama e colocou as mãos sobre os ombros dele. Ele então se sentou, passando os braços pelo tronco dela, agarrando-a com força e permanecendo daquele jeito por um longo instante. Não se podia ouvir o que eles diziam, mas ela sabia como lidar com ele. Segurava o rosto dele e falava de modo calmo, mantendo-o ciente de que tudo ficaria bem. Então ele a beijou e a abraçou e parecia muito mais confortável nos braços dela do que quando estava sozinho na cama.
May deitou-se junto dele e colocou a cabeça dele em seu colo, enquanto acariciava seus cabelos bem devagar. Fitz aumentou um pouco a velocidade, e quando ele estava adormecido de novo, ela cuidadosamente saiu da cama e voltou pro sofá, cobrindo-se com a manta, e pegando o celular do chão. Fitz acelerou de novo, e cerca de duas horas depois, Coulson despertou novamente, os gritos agora parecendo bem mais contidos, e ele olhava em volta, procurando por ela, que já estava ali, subindo novamente na cama para abraça-lo.
-Me diga agora que isso não faz sentido. –Fitz desafiou Skye, que parecia estar chocada com a situação de Coulson.
-Ele já tinha despertado com gritos antes? –ela perguntou.
-Não, apenas agora, após o que aquela máquina fez com ele. E eu estou muito grato que ele tenha May por perto, dessa forma.
-Quando ela dorme? –Skye perguntou- Se ela vela o sono dele toda a noite, quando ela descansa?
-No cockpit, eu acho. –Fitz disse- Quando ela está pilotando, ela pode apenas por em piloto automático e tirar alguns cochilos.
-Ela precisa de ajuda com isso. –Simmons disse- Eu posso sugerir um ansiolítico pro Coulson, e você, Skye, poderia revezar-se com ela.
-Eu?
-Bom, não seria eu. –Simmons disse- Eu também me importo muito com ele, mas você parece ser quase família. May está fazendo algo muito grande aqui, e não parece justo que nós deixemos que ela arque com isso sozinha.
-E se ela não quiser ajuda? –Skye perguntou.
-Bom, então pelo menos você vai parar de ser contra o romance dos dois? –Fitz perguntou- Porque se isso não é algo que faça sentido, eu não sei o que mais faria.
-Ok, vocês venceram. Ela não é a pessoa insensível que eu julgava antes. Ela ainda é um robô, mas um robô que ama o Coulson.
-E ele a ama de volta. -Simmons disse - É só olhar bem pra cara dele. E se você duvida, pergunte. Mas não atue como se fosse errado o que eles estão tentando construir. Pra mim, parece que esperou a vida inteira pra começar, e agora não parece justo que exista alguma torcida contra.
-Ok, tudo bem. –Skye murmurou um pouco envergonhada- Eu vou ficar na minha.
-Tony Stark acaba de ligar, senhor. –Ward entrou no escritório de Coulson, segurando um dos celulares globais que Fitz mantinha no cockpit- Ele pede que o senhor ligue de volta.
-É sobre Ann?
-Acredito que sim. –Ward entregou o telefone ao chefe.
-May está no cockpit? –ele perguntou.
-Não, ela está no quarto dela, eu acho. Eu pilotei o avião desde que acordei, ela não parecia em condições de passar mais um segundo sequer acordada.
-Bom, reúna o time. Eu vou precisar de uma reunião com vocês em meia hora.
-Sim senhor.
-Mas deixe May descansar. Eu contarei os detalhes a ela depois.
Ward concordou com um gesto de cabeça, e se retirou. Coulson verificou o numero que tinha que discar, e hesitou olhando para o celular. Imaginava o que Tony iria fazer quando soubesse que Ann não poderia sair da Geladeira tão cedo. Suspirou cansado, pensando em sua menina naquela situação, e discou. Do outro lado da linha, uma voz feminina atendeu.
-Srta. Potts? –ele perguntou estranhando, sentindo um solavanco ao falar com ela. Pepper Potts era uma boa amiga, que talvez ainda o julgasse morto desde New York. Ele não teve um bom pressentimento sobre aquele telefonema.
-É bom saber que você não esta morto. –ela comentou com a voz suave- Tony disse isso algumas vezes, mas eu só posso mesmo acreditar agora, ouvindo sua voz.
-Bom, é excelente falar com você. Talvez, quando eu esteja menos atarefado, possamos marcar alguma coisa. Tenho alguém que gostaria que você conhecesse.
-A violoncelista?
-Não. –ele novamente sentiu um solavanco no peito, dessa vez um pouco doloroso- Nós... bem, nenhum romance pode se sustentar quando um dos lados está morto.
-E você agora tem uma namorada nova? –ela comentou agradável- É bom saber que você não perdeu o jeito.
-Podemos chamar assim, embora eu me sinta como se fosse muito mais do que um simples namoro. –seguiu-se um pequeno silencio.
-Você gostava muito dela. Da Violoncelista.
-Tony ligou pro meu avião, e me pediu que ligasse de volta. –ele não queria falar de Audrey, não quando ele e May estavam construindo algo tão bom para ambos.
-Na verdade, eu liguei. Jarvis fez a ligação, para ser mais exata.
-No que eu posso ajudar?
-Tony descobriu que sua filha, Ann, foi presa por abandonar uma missão na Grécia.
-Quem disse isso a ele?
-Natasha, creio eu.
Aquela era uma situação complexa. Mais do que Tony querendo ir resgatar Ann. Era a nova noiva de Tony, ligando para tratar sobre a antiga noiva de Tony, por quem ele claramente ainda tinha sentimentos.
-Tony foi interceder por ela.
-Com o diretor Fury?
-Com Victoria Hand. –Pepper murmurou- Fez um par de ameaças, tentou forçar uma libertação e agora, bem, eu não sei se ele piorou ou não as coisas.
-Não há como ficar pior, exatamente. –ele respondeu- Eu não sei como a situação dela pioraria, pra ser franco.
-Você a viu?
-Sim, eu estive com ela três dias atrás.
-Eles disseram que você precisa autorizar que qualquer pessoa a visite.
-Eu mal pude vê-la, Pepper. Três minutos, através de um vidro blindado. Ela estava presa numa cadeira até pelo pescoço.
-Não autorize Tony a vê-la.
-O que?
-Eu lhe imploro, não permita.
-Porque eu faria isso?
-Ele não aguentaria vê-la nesse estado. Ele a ama, você sabe. Talvez não mais como... mulher, mas... Ele sabe que não pode entrar lá sozinho explodindo tudo. Ele acha que ela está apenas presa, ele não imagina como são as coisas na Geladeira. Eu não quero que ele entre em problemas por causa de algo que ele não pode consertar depois.
-É apenas isso, ou você ainda sente que eles...
-Também. Eu sinto que ela é uma ameaça ao nosso relacionamento. Ela não quer ser a Sra. Stark, eu sei. Mas ainda assim, ele... –ela hesitou- Eu preferiria que sua filha não fosse mais uma ameaça. Que ela seguisse seu caminho, deixando Tony em paz.
-Mas pelo que eu sei...
-Ann não o quis, isso pra ele é mais atrativo do que se ela já fosse sua esposa. O desafio, ter o que não parece ser permitido... Você conhece Tony. Seria sábio evitar que ele tomasse qualquer responsabilidade por ela.
Phill refletiu por um longo instante, em que ficou em silencio. Imaginou que aquela era uma situação incomum, que exigia uma medida incomum. Ele não aprovava, exatamente, que sua filha se evolvesse com um playboy como Tony Stark. Jamais aprovou, mas não podia negar que ele tinha belos sentimentos por ela e que ela correspondia. Não era o ideal pra ela, mas como uma agente da SHIELD, nada do que ele sonhava seria ideal pra ela.
-Srta. Potts, me desculpe, mas se Tony quiser vê-la, eu não saberia como impedir. O que eu usaria como justificativa? "Pepper me pediu que não permitisse, Tony." Acredito que isso causaria mais danos que reparos.
-Entendo.
-Além do que, por mais que eu acredite que eles estão melhor separados, eu não posso agir desse modo. Interferindo dessa forma. No inicio, quando eu ainda tinha alguma voz, poderia funcionar. Mas hoje, eles já estiveram juntos por tempo o bastante pra saber se querem seguir juntos ou não. Desculpe-me. –ele acrescentou, vendo May entrar no escritório de maneira quieta, e acenando pra que ela se sentasse na cadeira diante dele.
-Eu apenas espero que nenhum de nós se arrependa disso. –e ela desligou.
Phill suspirou, olhando pra Melinda, estendendo a mão para segurar a dela sobre a escrivaninha. Ela estava cansada e sonolenta, mas tentava de alguma forma parecer ativa.
-O que houve?
Phill contou detalhadamente o que aconteceu naquela ligação. Ao final, May não pode deixar de abrir um grande sorriso.
-Algumas coisas são como tem que ser, Phill. –ela murmurou- Tony Stark tem uma fraqueza muito grande. Ann. Ele a ama, não importa quanto tempo eles estejam separados.
-Ela escolheu não estar com ele.
-De todas as escolhas possíveis, essa foi a única em que eu não a apoiei. Ela seguiu num caminho de sofrimento sem ele, e vamos convir que sabíamos que seria assim. Uma história como a deles não é algo que simplesmente seja superado.
-Em todo caso, ele está usando sua influencia para tirá-la da prisão, o que é muito mais do que eu fiz. Talvez se eu o ajudar...
-Você não entende mesmo, não é?
-Não, eu de fato não entendo como você pode ser contra libertarmos nossa menina!
-Não se trata disso. Trata-se de ter Ann sendo contra sua libertação. Ela se sente culpada pela morte do colega, ela acredita que precisa pagar por isso! Não importa o que vocês façam, ela não vai simplesmente sair de lá.
-Você acha que ela se recusaria?
-Se você tivesse a morte de um colega na sua consciência, e você tivesse uma oportunidade de pagar por isso para ajudar a aliviar o peso da culpa, você se aproveitaria de uma libertação baseada apenas na influencia de um Avenger?
-Você tem razão. –ele disse após pensar por um longo momento- Você tem razão, ela não quer sair de lá. É preferível, inclusive, que ela encare isso de frente agora, pra que o preço a ser pago depois não seja muito alto.
-Você sabe agora o que deve fazer, não é? –ela afagou a mão dele.
-Sim. Quer dizer, acho que sim. Eu preciso dizer isso ao Tony antes que ele faça alguma idiotice.
