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CAPÍTULO DEZ

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- Escute Kikyou, eu não quero que me ligue mais, entendeu? – uma voz estridente berrou do outro lado da linha e teve que desviar o celular do ouvido durante uns segundos. – A mulher que atendeu o celular hoje de manhã tem nome, é Kagome e você não tem que saber se ela é ou não minha amante. Você se comportou como uma histérica quando a insultou! Estou farto dessa sua perseguição. Estou de saco cheio! – mais uns gritos histéricos. – E o que eu posso fazer se você ainda não entendeu que a nossa relação acabou faz tem…? Porra, Kikyou, não chore outra vez, por favor! – colocou a mão nos olhos, cansado.

Izayoi ouvia tudo muito atenta, tomando seu chá de ervas matinal. Que mulher tão maçadora…

- Se você voltar a ligar, Kikyou, não respondo por mim… você não tinha nada que insultar Kagome! Passou das marcas! … Não é ameaça nenhuma, considere-o um aviso! – desligou o celular e abafou um palavrão na xícara do café.

- Querido… - Izayoi pousou o chá e colocou a mão no antebraço do filho. – Acho que está na altura de marcar um encontro com essa Kikyou.

Inuyasha se engasgou. Desde que viera para aquele país, se engasgava muito frequentemente, pensou. – O quê? Endoideceu, mamãe?

- Não, mas se ela não é capaz de entender por telefone que você não quer mais nada com ela e que a vossa relação terminou, então é melhor explicar tudo pessoalmente. Talvez assim ela entenda e tudo se esclareça de uma vez.

- Mamãe, ela mora em Nova York, não vou até lá de propósito só para lhe dizer outra vez 'Vai para o raio que te parta!'. Ainda para mais, o casamento está à porta! Temos menos de duas semanas. – era impressão sua, ou aquelas palavras lhe pesaram mais no coração do que nos ouvidos?

- Como queira, filho, só acho que seria o melhor. – levou o copo aos lábios e o observou por baixo dos cílios. – O que tem a dizer sobre o casamento? Não acha que Miroku e Kagome fazem um casalinho bonito?

- Não. – respondeu, sério e sem pensar. – Quer dizer, não sei o que dizer acerca deles. Parecem um pouco distantes um do outro.

- O que quer dizer com isso?

- Sei lá, acho que Kagome não combina muito bem com meu irmão, acho que está… destinada a outro homem que não ele. Assim como ele merece outro tipo de mulher.

- Que mulher é capaz de servir para ele?

- Ah, não sei, mamãe, você faz cada pergunta! Mas penso que uma moça bonita e alegre era capaz de servir perfeitamente. – pensou em Sango.

- E… que homem escolheria para Kagome?

Inuyasha afastou o café dos lábios e ficou pensativo. Como poderia dizer que ele era o melhor espécime masculino para Kagome, sem o dizer de forma óbvia? – Bom, tinha que ser alto, forte para a proteger de outros machos, rico, bonito, não deveria deixá-la sozinha durante muito tempo e, sobretudo, deveria amá-la.

- Um homem possessivo?

- Sim, sem dúvida. Ela é muito… selvagem. Não digo que é assanhada, mas adora a sua própria liberdade. O homem que ela escolhesse teria que saber como dobrá-la de vez em quando, sem a mudar radicalmente.

Izayoi riu e lhe bateu carinhosamente na perna. – Se eu não te conhecesse tão bem diria que acabou de se descrever e oferecer para ser noivo dela!

Ele deu um sorriso amarelo. – Que ideia mais ridícula, mamãe.

- Izayoi! – InuTaisho apareceu no terraço onde estavam, com vista para toda a cidade. – Preciso que venha ao telefone, é Sakura.

- Aconteceu alguma coisa?

Ele sorriu de forma sexy, como seus filhos faziam tão bem. – Ao que parece, Kagome se recusa a escolher o vestido de casamento sem a sua ajuda e as mulheres já não sabem mais o que fazer. Eu só ouvia Hitomi gritando para que Kagome ficasse quieta.

Inuyasha escondeu o sorriso atrás do copo. Sempre a mesma indecisa…

- Já vou. – pousou a xícara e deu um beijinho em Inuyasha. – Até logo, filho.

- Até logo, mamãe.

Inuyasha viu a figura feminina e graciosa entrar pela porta de vidro e seu pai tomar o lugar onde ela esteve. – Então, macho, como vão as coisas com Kikyou?

- Aff… Pior era impossível.

- Explique-se. – espetou o garfo numa panqueca do prato que estava na mesinha e lhe deu uma forte dentada, com o cenho franzido e interessado na conversa.

- Ontem, Kagome se enganou e levou para casa o meu celular e eu fiquei com o dela. Tudo sem querer, claro. Hoje eu e Miroku passamos em casa dela de manhã para trocarmos os celulares e, ao que parece, Kikyou havia ligado mais duas vezes de manhã e Kagome atendeu a última chamada.

- Isso está ficando bom! – deitou o xarope no prato e mergulhou a panqueca, arrastando-a de um lado para o outro. – Houve algum tiro?

Inuyasha ignorou o comentário. – Kikyou a insultou de todas as maneiras, chamou nomes horríveis, dizendo que eu era dela e Kagome não tinha hipótese de me ter. A típica conversa de ex-amante obcecada… - fez um gesto de impaciência. - Bom, Kagome não gostou do que ouviu e devolveu cada insulto.

- E quem ganhou?

- Não foi uma competição de impropérios, papai, mas creio que foi Kagome, visto que Kikyou começou a chorar e desligou na cara dela.

InuTaisho sorriu com a boca cheia, fazendo uma bolinha na bochecha. – Não sabia que Kagome conhecia o nosso calão inglês assim tão bem.

- Nem eu. – riu.

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- Era só o que me faltava! – andava de um lado para o outro na pequena sala de provas, arrastando a cauda de um elegante vestido branco, ainda cheio de alfinetes. – Inuyasha me deixa com a cabeça em água toda a vez que está comigo e ainda tenho que aturar com uma mulherzinha toda coquete me dando lições acerca de um relacionamento!

- ! – Sango ria, sentada num pequeno sofá encostado ao espelho.

- Sério! Ela me chamou de tudo! Graças a deus que entendo bem inglês! Ela me enfureceu tanto que quase pulei dentro da linha para lhe arrancar o pescoço!

- Ahahahahahahah! – Sango limpou uma lágrima de riso. – O que eu não dava para ter estado com você! O que ela disse?

- Disse que era a noiva de Inuyasha, que eu era uma rafeira qualquer que ele utilizava para se satisfazer, que não faltava muito para ele se aborrecer comigo e me largar que nem lixo, … - contou pelos dedos e colocou uma mão na têmpora. - Sei lá, cada coisa mais absurda! Fiquei cega! Gritei tanto com ela pelo celular que começou a chorar e desligou na minha cara!

Sango riu mais forte ainda, quase caindo no chão e amarrando sua barriga. As lágrimas brotavam dos olhos só com a imagem de uma enraivecida Kagome saltando para dentro da linha e agarrando a chorona pelos cabelos.

- Sango, pára, não tem assim tanta piada! – colocou as mãos nas ancas, mas também ela estava perto do riso. Soubera-lhe pela vida gritar com uma namorada do homem que a magoava tanto.

- Você diz isso porque ainda não se deu conta que o ciúme puro está estampado no seu rosto!

O sorriso dela morreu. – Não diga isso nem de brincadeira.

- Porquê? Por favor, Kagome, você está tão na dele! E ele é tão sexy! Como você pode resistir a uma tentação dessas?

- Olha o que fala! O que aconteceu ao Miroku?

- Eu não o estou traindo, só estou comentando a aparência de Inuyasha. Pelo amor de deus! Ele está completamente gamado e você só lhe dá tampas! Um homem assim é raro!

- Ele só está brincando comigo, Sango. – sentou frente a frente com ela, noutro sofá. – Acha que um homem daqueles ia sentir alguma coisa por uma mulher como eu? Não temos nada a ver um com o outro!

- E eu e o Miroku temos? Eu fui uma sortuda por ele me ter escolhido! E sabe o que fiz? Aproveitei tudo o que me foi dado assim, ó… - estendeu as mãos. - … De bandeja.

- Não sei, Sango. – suspirou, derrotada. - Eu realmente não sei o que pensar, é tudo muito confuso, sabe? Eu tinha uma vida normal, eu pensava que era normal, e de repente, … Puft … tenho um casamento numa semana e meia e um futuro cunhado 'tudo de bom' se atirando a mim. É estranho para mim, nunca estive numa situação dessas…

- Escuta, existem oito mulheres no mundo para cada homem, Kagome, e lá fora, … - apontou para a porta. - … Existe um homem que vale por vinte e quatro, completamente apaixonado por você, lutando para te conquistar, e você vai deixá-lo fugir assim por entre os dedos? – se encostou no sofá, incrédula. – O que há de errado com você?

Kagome sorriu um pouco. – Vai dizer que preciso de óculos, não vai?

- Totalmente!

- Tente entender, Sango! – se ergueu, impaciente e nervosa, e deambulou outra vez pela salinha. – Minha vida deu uma cambalhota de trezentos e sessenta graus em muito pouco tem…

- Não se trata de sua vida! Trata-se de seu coração! – Sango se levantou e espetou um dedo no peito dela, para a parar e enfatizar melhor as palavras profundas. – Acha que esse casamento é uma coisa horrível? Eu não. Acho que foi a melhor coisa que podia ter acontecido, porque sem ele eu não teria conhecido Miroku e você não teria conhecido Inuyasha. Está destinado. Agora pense nisso, e dê uma chance a Inuyasha. Dê uma chance a você mesma de ser feliz!

- Meninas? – Izayoi bateu à porta e espreitou. – Cheguei! … Oh, meu deus! – entrou e foi seguida por Kaede, Sakura e Hitomi. – Você está linda nesse modelo!

Kagome sorriu, mas ainda tinha o pequeno discurso de Sango ecoando na cabeça. A amiga de vez em quando saía-se com cada frase mais profunda… - Obrigado.

- Bom, mas acho que ainda tem aí uns detalhes que têm que ser melhorados… - bateu com um dedo no queixo fino. – Senhoras! – chamou a atenção e arregaçou as mangas. – Mãos à obra!

O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O

Dois dias depois, Kagome estava arrumando o quarto e cantarolava uma musiquinha alegre. Fez a cama, colocou roupa suja para lavar, abriu um pouco a porta da varanda para arejar, abriu as cortinas e guardou algumas roupas dobradas.

Quando abriu a porta do armário, a música que cantava mudou automaticamente para uma música triste e lenta, muito melancólica.

Devagar, tocou o tecido bege do vestido que estava lá guardado, tocou as bolinhas de pérola incrustadas no decote, o tecido rugoso do véu. Uma lágrima lhe escapou quando pegou nos sapatinhos envernizados e se apercebeu que não sentia nada quando o fazia, ou quando tocava nas luvas chiques e refinadas. Quantas vezes em pequena não havia sonhado com um casamento feliz? Sonhara tantas vezes com um vestido branco, um véu muito comprido, convidados felizes, um noivo perfeito… Mas agora que isso se tornava forçosamente breve e real, decepcionava-se com o rumo que a sua vida levava. Queria tanto poder sentir a alegria estonteante de uma noiva quando escreve os nomes dos convidados nos convites! Toda aquela ansiedade de querer que o dia mais perfeito na vida de uma mulher chegue.

Mas não sentia nada, pensou, ao se sentar bruscamente na cama, cheia de lágrimas nos olhos. Tinha o vestido em mãos e era como se tivesse um buraco escuro e gigante dentro do peito. Sentia-se fria, insensível. Um objecto. Queria, precisava, sentir-se uma mulher. Queria ser quente e humana. E só havia uma possibilidade de isso acontecer.

Precisava se encontrar com o próprio fogo.

Pegou no celular e marcou um número. – Inuyasha?

- Alô? Oi, Kagome! O que há?

- Preciso me encontrar com você… Eu… preciso…

- Aconteceu alguma coisa?

- Preciso de você…! – murmurou. – Eu quero… eu quero você. Comigo. Agora… Eu me rendo. – fechou os olhos e sorriu.

- Kagome…

- As perguntas ficam para mais tarde, está bom? Posso me encontrar com você no seu apartamento?

- Agora?

- Sim, agora.

- Meu amor, eu estou sempre disponível para você… estarei lá te esperando.

- Obrigada. – desligou e pegou no casaco.

Sango não a tinha acusado de desperdiçar um homem que valia por vinte e quatro mulheres por ter medo de se render? Pois bem, …

Estava na hora de se perder nos braços daquele homem.

O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O

Inuyasha nem podia acreditar. Estava dirigindo para o apartamento que nem um louco. Queria chegar um pouco mais cedo para preparar um clima no quarto ou uma coisa mais romântica. Se ela não tivesse parecido tão desesperada para estar com ele, provavelmente teria contratado uma equipe de faxina, um cozinheiro francês, uma orquestra de violinos, comprado velas aromáticas e um valente ramo de cinquenta e cinco rosas brancas e vermelhas, … Teria feito de tudo para proporcionar a Kagome a noite mais espantosa de toda a sua vida. Mas sabia que ela não gostava que lhe oferecessem coisas caras, ela gostava de coisas simples e bonitas.

Sorriu enquanto dava a curva na rua do seu apartamento. – Essa noite ela é minha… - murmurou, sentindo a luz do crepúsculo lhe bater nos olhos. De repente, seu sorriso morreu. Um carro extremamente caro estava estacionado à sua porta com várias malas de pele à volta. - Não pode ser… - estacionou o carro à porta da garagem e saiu.

Espreitando pela porta de vidro de sua casa, estava uma mulher com uns saltos enormes e longos cabelos pretos.

Com um urso de pelúcia no colo.

- Inuyasha! Darling! – ela correu para ele e lhe deu um beijo nos lábios. – I missed you so much!

- Kikyou? O q-que está fazendo aqui? – perguntou em inglês, ainda atónito.

- Eu vim porque quero conhecer pessoalmente a sirigaita que me insultou pelo telefone. Como era…? Kafone?

Inuyasha a segurou pelos pulsos. – Só vou dizer isso uma vez: vai embora.

- Mas nem pensar! Também quero conhecer seus pais! Não acha que já é altura? Que raio de noivado você pensa que eu quero, hein? E não vai dar um beijinho em Fufa? – espetou com a cadela em seu nariz, que rosnou e mostrou os dentinhos pequenos. Inuyasha colocou as orelhas para trás em ameaça, mas nada disse. – Porque está assim tão estranho, amor?

- Já lhe disse, Kikyou, vai embora. Não há mais nada entre nós, nossa relação acabou!

Os olhos castanhos começaram a se humedecer. – Não… Você não pode estar falando sério! Você está mentindo! Eu te amo!

- Você ama o meu dinheiro! – gritou. – Deveria ter pensado nisso antes de me gastar uma conta inteira em produtos para cão! Deveria ter pensado nisso quando me deixou plantado naquele maldito restaurante para levar Naraku para o meu apartamento no centro de Londres e foi para a minha cama com ele! Deixei bem claro antes de partir de Nova York que o que quer que houve entre a gente tinha morrido nessa noite!

- Não! – Kikyou largou a cadelinha e se abraçou a ele chorando. – Não acabou! Inuyasha, você está só um pouco confuso! Eu também estava confusa na noite em que dormi com Naraku, mas depois eu entendi que é você quem eu quero, não me diga que está tudo acabado! – gritou, chorando mais ainda.

Inuyasha pensou em como era bom não ter vizinhos. Principalmente aquelas velhas enxeridas e coscuvilheiras que passam a vida com os óculos colados ao vidro da janela. – Pois, depois de saber que ele era péssimo na cama, um ladrão de jóias e um criminoso procurado, claro que veio chorar no meu ombro! Não vou ser seu cachorrinho doméstico, Kikyou! Aquele que deixa de reserva quando não tem o que quer! - tentou se soltar, irritado e cansando dela, mas ela se abraçou a ele pelo pescoço e o beijou com ardor. Inuyasha fechou os olhos e esperou que ela terminasse, se a fúria não era capaz de a fazer abrir os olhos, talvez a indiferença o fizesse.

- I-Inuyasha?

Se alguma vez Inuyasha quisera recuar no tempo, foi naquele instante. Kagome estava ofegante e corada, com os cabelos despenteados, olhando para eles embasbacada.

- Kagome! – o homem de cabelos prata se virou para ela e se livrou de Kikyou. – Não é o que está pensando, eu posso explicar!

- Kagome? – Kikyou ergueu a sobrancelha. – É essa a jararaca do celular? – riu com escárnio. – Ah, mas era só o que me faltava! Querida, agora que a gente se encontrou, que tal repetir tudo o que disse aqui, ó, bem na minha cara? Se é que tem coragem!

- Kikyou, pare de uma vez! – rosnou Inuyasha.

Kagome ainda estava parada no mesmo sítio. Ainda não entendia o que tinha feito de errado. Enquanto corria para lá, estivera tão certa que estar com Inuyasha era a melhor coisa a fazer, e de repente o vê aos beijos com uma mulher ridiculamente bonita e bem-feita. De certeza que era um castigo por estar agindo como uma rameira ao querer estar com outro homem que não o seu noivo, apesar de nada sentir por ele. – Eu… D-Desculpem, eu não queria… interromper…

- Agora você se desculpa, não é? – Kikyou botou as mãos nas ancas. – Não se lembrou disso quando tentava roubar meu noivo, pois não, sua pêga?

Kagome franziu o cenho. Não se lembrou disso quando tentava roubar meu noivo, pois não?

Roubar meu noivo…

Roubar…

Roubar meu namorado…

Roubar meu namorado Kouga…

Ela já ouvira uma coisa parecida antes. Há cinco anos atrás, quando Kouga começou a se interessar por ela e Ayame a ridicularizou em frente da escola inteira. Injustamente.

Naquela altura tinha sido parva por não se ter sabido defender à altura, mas hoje… Era diferente.

- Pode… repetir? – perguntou na língua de Kikyou.

- Não ouviu à primeira, meu bem? Além de oferecida, é surda?

Kagome nem piscou. Deu os três passos que as separavam e lhe deu um tapa com tanta força que sua mão ardeu e Kikyou virou o rosto com brutalidade. Inuyasha segurou o rosto de Kikyou por um momento, para ter a certeza que estava tudo bem como o bom médico que era, e depois afastou um pouco Kagome pelos ombros. – Kagome, não ligue ao que ela diz… Ela pensa que é minha noi… - parou de falar ao sentir a joelhada no meio das pernas. A largou de imediato e se segurou como pôde.

- Don't touch me. – murmurou. – And you… - falou para Kikyou, em inglês de novo. – You can keep with him, don't need to worry. It was my mistake thinking he was worthier than a pretty face.

Saiu pisando duro até à esquina, onde sua dignidade se perdeu e correu o mais que pôde até casa.

- Kikyou… - Inuyasha murmurou, se segurando ao carro. – Vê o que você fez? Acabou de destruir minha vida!

- Não importa, Inuzinho… Vem, vou te colocar gelo entre as pernas e depois vou buscar as malas e colocá-las no seu quarto.

Inuyasha se afastou dela. – Você vai mas é para um hotel se não quiser ficar dormindo à porta! Não minha casa você não fica! – entrou no carro e deu partida. Tinha que falar com Kagome antes que ela chegasse a casa, onde não poderiam dar bandeira à frente dos Higurashi.

O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O

Na tarde do dia seguinte, Kagome estava na mesa da sala escrevendo as moradas nos convites de casamento. Tinha olheiras. Não conseguira dormir por causa dele e odiava-se por isso. O 'pequeno' incidente à porta do apartamento dele a mentalizou de que nem toda a gente tem um final feliz.

No caso dela, nem sequer havia romance.

Estava decidida a se comportar como uma verdadeira noiva, pensou, ao enfiar um convite dentro do envelope e escrever o nome dos seus tios. Não ia dar mais cana a alguém que não a queria.

Sango chegou, a pedido dela, para a ajudar com a tarefa árdua. – Oi, Kagome! – pousou o casaco e se dirigiu a ela. – A ajuda chegou…! Mas o que diabos você tem na cara? – apontou, horrorizada. – Você não dormiu?

- Oi, Sango. Dormi, sim, só que pessimamente. – pegou outro envelope e, passados alguns instantes, suspirou. – Ontem fui ter com Inuyasha.

- Ah! – Sango se sentou na frente dela e se aproximou, sussurrando. – Então está explicado o porquê dessas olheiras! Eu sabia que você não ia resistir mais tempo a um homem daqueles!

- O problema é que o 'homem daqueles' estava se amarrando com outra na porta do apartamento dele. Note que eu havia pedido para nos encontrarmos lá. – avisou. – Foi muito vergonhoso para mim…

- Não posso! E você a conhecia?

- Sim… Era a chorona do celular. Kikyou.

- Ai, não acredito! – Sango colocou a mão na boca e olhou para os lados para ver se ninguém tinha ouvido seu gritinho de frustração. – Ele não fez isso! Não podia ter feito isso! Que filho da pu…!

- Pior que fez! – pousou a caneta com força para a interromper e encarou a amiga nos olhos. – Sango, eu tinha praticamente acabado de me declarar para ele! Ele me humilhou totalmente! Só te contei isso porque te quero avisar para que se abstenha de mencionar o nome dele na minha frente. Ontem eu tive que fugir por umas ruas escuras e estreitas para que ele não me seguisse de carro. Quase me pegou, mas consegui escapar. Ele aqui não era capaz de falar no que aconteceu, não na frente dos meus pais.

- Mas, Kagome, …

- Não o quero ver mais. - deu como encerrada a conversa e continuou sua tarefa.

Sango nada disse, apenas a ajudou e não falaram mais o resto da tarde, tirando algumas vezes que conversaram sobre coisas banais e breves.

O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O

Inuyasha caiu na cama com um saco de gelo no olho. Miroku entrou no quarto com um bife cru e frio na mão. – Tire esse saco, é melhor usar o bife tradicional.

- Que bife, qual quê, Miroku? Estou tão raivoso que o bife ia arder assim que me tocasse!

- Irmão, eu já fiz o que me pediu, o que me custou muito deixe-me dizer, mas agora quero saber porque está desse jeito!

Inuyasha suspirou e pensou na resposta. Ontem, Kagome lhe havia fugido porque conhecia melhor a cidade do que ele e se esgueirou pelas ruas estreitas onde seu carro não passava. Então passou a tarde toda malhando para deitar a raiva e a frustração para fora. Mas não tinha chegado. Por isso, naquela manhã, tinha ido procurar Miroku e lhe pediu, ordenou, que o esmurrasse até ficar inconsciente.

Um pouco estranho, mas muito eficaz.

Miroku se recusou, então Inuyasha usou um golpe baixo. Insultou Sango. Foi tiro e queda, quase literalmente, porque Miroku o socou com tanta força e tanta rapidez que quase não teve tempo para respirar decentemente.

- Kikyou voltou.

- O quê? Eu te bati por causa dela? Está brincando comigo, só pode!

- E Kagome a viu me beijando. – concluiu.

Miroku assobiou. – Bom, isso já é um motivo ligeiramente melhor.

- E ela tinha me ligado para nos encontrarmos em meu apartamento para passarmos a noite juntos.

Miroku piscou.

Uma, duas, três vezes.

- O… quê? – ergueu-se do sofá ao lado da cama e lhe deu um soco. Inuyasha rolou na cama, se contorcendo de dor. – Como foi capaz de fazer isso com a Noivinha?

- Obrigado, irmão… - agradeceu sinceramente pelo soco, ainda deitado e segurando o queixo. – Estava merecendo.

- Esse e muitos mais! Se eu soubesse a razão desde o início teria te batido com mais força! O que raios passou pela sua cabeça? Você nunca foi cruel assim com ninguém sem razão! Você me assegurou que amava Kagome, porra!

No fim da explosão, Miroku estava ofegante e Inuyasha deitado na cama a ver o sol através da janela do quarto. Um silêncio enorme se abateu no ambiente, nenhum queria falar. Miroku estava pensando no azar do irmão por ter a idiota da ex-noiva no seu pé, e Inuyasha pensava em como era um idiota por ter desperdiçado aquela oportunidade única na vida de estar com Kagome.

- Miroku, preciso que me leve a ver Kagome. – se sentou. - Eu tenho que…

- Ela não vai querer te ver nem pintado de ouro, irmão, sabe disso. – falou com seriedade.

- Sim, mas tenho que tentar falar com ela, pelo menos! Ela não sabe que eu não tenho mais nada com Kikyou, pode ter entendido tudo errado! Eu quero… - fechou a boca de repente, ao se dar conta como era crente. Kagome provavelmente nunca mais o iria querer ver na vida. Atirou-se para trás, caindo de costas na colcha novamente. – Estou perdido… - tapou os olhos com o braço.

Miroku se compadeceu pelo irmão, nunca o tinha visto tão cabisbaixo. Nem tão apaixonado. Pobrezinho, pensou, estava sofrendo por amor, seu primeiro amor. Miroku nunca se lembrava de o ter visto se enamorar. Sempre tivera muitas namoradas mas, regra geral, nunca as mencionava ou apresentava. Parece que sua amada o esteve esperando todos esses anos do outro lado do oceano e agora, por obra do maldito destino, não o queria.

Estavam ambos machucados por uma besteira. Era a mais pura e dolorosa realidade.

Ainda bem que não se passava o mesmo com ele e Sango, sorriu. Logo, deixou o irmão se lamentando e se arrastando como um inválido pela casa e foi ao encontro de sua amada. Precisava ter a certeza que algo tão ruim não acontecia com eles. Além disso, Inuyasha não se iria conseguir mexer durante dois dias devido à surra que levou, o melhor a fazer era deixá-lo sozinho a descansar o corpo.

E o coração.

O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O

Numa manhã, Kagome já havia enviado todos os convites e recebido a maioria das respostas. Todas positivas, claro. Ninguém iria perder o casamento de um dos filhos de InuTaisho. Mesmo que fosse do outro lado do mundo para alguns. Estava caminhando numa rua muito movimentada com os saltos altos a bater na calçada e os brincos compridos balançado e batendo no pescoço. Tinha sido obrigada a andar com aqueles sapatos para se habituar aos que levaria no dia do casamento, e a andar com aqueles brincos pesados porque seus furos das orelhas estavam quase fechados. Odiava andar de brincos, mas não podia negar que aqueles eram bonitos e vistosos.

Vistosos demais, pensou com desgosto ao se aperceber que era o centro das atenções masculinas da rua inteira. Fechou timidamente o casaco sobre o decote exagerado da camisa que Hitomi lhe emprestara. Porque se havia deixado levar? Ah, sim! Hitomi aprendera com Izayoi a Arte do Beicinho. Malditas mulheres manipuladoras! Sorriu, sentindo pena de seus companheiros… deviam sofrer da mesma frustração todos os dias.

Ao avistar um rabo-de-cavalo de cabelos longos e negros, sorriu. Ali estava ele. – Kouga! Kouga!

O homem se virou e sorriu abertamente. – Kagome! Que surpresa! O que está fazendo por estes lados? – abraçou-a e lhe beijou o rosto demoradamente. – Senti saudades!

Ela sorriu, acanhada. – Bom, eu queria te convidar… - tirou um envelope da bolsa e lho estendeu. – Para o meu casamento. É daqui a poucos dias.

- Puxa, Kagome, faz pouco mais de duas semanas que nos vimos no Monte e quando te vejo é para receber essa bomba? – franziu o cenho, abrindo o convite e lendo o nome do noivo.

- É, desculpe. Mas você já sabia que estava noiva desde os catorze… O que eu queria mesmo é que você fosse lá, gostava de ter sua companhia quan…

- Espere um minuto! – a fez se calar. – Seu noivo se chama Miroku? Como pode? O cara-de-cachorro é Inuyasha! Não me diga que ele se chama Miroku Maria Inuyasha? Ou Miroku da Conceição Inuyasha?

Kagome riu. – Não, não é o mesmo homem. Miroku era aquele que adormeceu com Shoji, lembra?

- Ah, sim, lembro. Meu deus, Kagome! Vocês nem se olhavam com…

- Com…?

- Você sabe,… como eu olho para você, ou aquele cachorrinho… da maneira que ele te olhava, eu diria que o cara-de-cachorro está gamado em você! Não Miroku!

- Err… Bom,… - porque será que todas as conversas que tinha com alguém, acabavam sempre por mencionar Inuyasha? – Ele e eu não temos nada um com o outro, se quer saber, e Miroku e eu não nos olhamos dessa forma porque é um casamento arranjado.

Pela primeira vez na vida, Kouga deixou o queixo cair. E tinha a certeza que, se não estivesse tão preso ao rosto, sua língua ia rolar até ao chão também.

- Casamento arranjado? – ela acenou positivamente. – Isso ainda existe? – outro aceno. – Como não me lembrei disso antes? Eu poderia ter feito isso com você! – bateu com a mão na testa. Kagome sorriu. – Que idiota! – murmurou para si, na brincadeira.

- Kouga, não brinque… - o repreendeu meigamente e ajeitou a bolsa no ombro. Tinha que se despachar, tinha medo de encontrar Inuyasha na rua. Desde aquele dia, há uma semana atrás, tinha conseguido o evitar perfeitamente, mas era mais fácil quando se estava em segurança, dentro de casa. – Bom, posso contar com você ou não?

- É preciso levar acompanhante? – fez uma careta.

- Não é obrigatório, mas ficava bonito. – deu um beijinho em seu rosto e lhe deu uma palmadinha suave no queixo. – Te vejo lá, então. Obrigado por ir, Kouga, significa muito para mim.

Kouga a beijou de surpresa nos lábios. Um beijo afoito, mas muito terno e doce. – Não. Obrigado eu por isso. Estou há cinco anos para te beijar.

- Kouga, não deveria… - colocou a mão nos lábios, envergonhada.

- Que foi? Ainda não é uma mulher casada. – ergueu o envelope e leu. – Ainda não é a… Senhora Tacho!

Kagome deu uma gargalhada, feliz por se dar conta que era a primeira naquela semana. – É Taisho!

Ele encolheu os ombros. – Fique contente por não ter dito Panela…

- Seu parvo…

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CONTINUA…

O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O.O