SURPRESAS DO CORAÇÃO
Capítulo 10 – O GOSTO AMARGO DA MAÇA
Dor. Muita dor. Todo o seu corpo latejava. Muito pior do que o ataque daquele hipogrifo desmiolado. Talvez não pior que a manhã posterior a sua festa de quinze anos quando os amigos de seu pai decidiram que ele tinha idade suficiente para beber com eles. Possivelmente nada como aquilo poderia voltar a acontecer, principalmente porque aquela tinha sido a primeira vez que tomava firewisk, ou qualquer coisa alcoólica. Suspirou massageando a cabeça. Daquela vez tinha sido acordado com os resmungos inconformados de sua mãe lamentando pela maneira como seu pai havia deixado seu precioso bebê chegar em casa. Draco desconfiava que seu pai não tivesse ficado num estado muito sóbrio tão pouco.
- Pai... – resmungou sentindo os olhos arderem.
Maravilha. Além de acordar de ressaca, ainda acordava emotivo. A claridade do dia machucava seus olhos mesmo com eles fechados. Passou o braço pelo rosto inconsciente. O gosto de palha na boca começava a incomodar assim como a garganta ressecada. Porque diabos tinha aceitado beber tanto na noite anterior? Um pequeno sorriso se formou no canto da boca. Até que aquele trouxa era engraçado. Mal se lembrava de como tinha voltado para o quarto e pelo estado em que se encontrava havia simplesmente desmaiado na cama.
Maravilha Malfoy! Seus antepassados devem estar se revirando no tumulo depois de você ter passado a noite enchendo a cara e conversando... Por Merlin! Conversando com um trouxa! Sorte seu pai não estar ali para ver tal cena lamentável. Não, seu pai não estava ali. Possivelmente ainda estava preso em Azkaban. Se seu pai estivesse livre e ao seu lado, ele não estaria nessa casa trouxa convivendo com esses seres inferiores.
Suspirou finalmente abrindo os olhos, mas evitando movimentos bruscos. Merlin! Porque esse teto tinha que gira tanto? Quem tinha colocado um feitiço nele? Onde estava o maldito elfo domestico com sua poção de ressaca? Onde estava sua mãe com sua voz melodiosa dizendo que tudo iria ficar bem? Onde estava a porcaria do seu quarto com seu cheiro e suas coisas?
Lágrimas.
Era tão patético. Levou um susto ao sentir uma mão quente e macia secá-las. Levantou-se apressado xingando-se mentalmente pela dor que sentiu pelo movimento rápido demais.
- Idiota! – mais ouviu que conseguiu ver Elisabeth ao seu lado – Tome isso!
- O que você está fazendo aqui? – sua voz saiu rouca e pastosa, um gosto amargo na boca – Que porcaria é essa?
- Eu trouxe você pro quarto quando desabou no meio da escada. – a garota falava baixo e tentou acariciar seus cabelos, mas ele se esquivou como um animal encurralado. Uma nova onda de dor atravessou sua mente. Elisabeth suspirou parecendo desanimada. – Isso é remédio para sua ressaca, vai te fazer bem.
Olhou desconfiado para a pequena bolinha em sua mão imaginando como aquela coisinha insignificante poderia ajudá-lo ou se havia alguma armadilha por trás daquele gesto. Elisabeth era irritantemente grifinória em sua maioria. Ou talvez lufa-lufa. Corvinal seria demais para ela e nunca uma sonserina. Jamais. Nenhum sonserino lhe traria para a cama e muito menos apareceria com um remédio, só se fosse ganhar alguma coisa com isso.
Estreitou os olhos para a garota a sua frente.
- Toma! – ela lhe empurrou um copo com água.
Sua cabeça latejava e seu corpo doía. Nada poderia piorar ou poderia. Olhou para os olhos azuis que o fitavam intensamente observando cada mínimo movimento seu e se dando por vencido, tomou aquela estranha coisa. Não tinha o mesmo efeito calmamente de uma poção, mas de alguma forma ele sabia que estaria melhor logo.
- Preciso de um banho! – resmungou numa careta.
- Concordo! Você fede a bebida! – viu Elisabeth rir se encaminhando para a porta do quarto – Vá a cozinha depois.
- Por quê?
- Você precisa de uma boa dose de café. – percebeu que sua cabeça não doía tanto quando a balançou concordando – E estou preparando uma sobremesa para hoje.
Elisabeth saiu o deixando apenas com seus pensamentos, mas primeiro ele realmente precisava de um banho. Um Malfoy não poderia se apresentar num estado tão lastimável a sociedade, mesmo que fossem apenas aqueles trouxas estranhos e os repugnantes grifinórios. Na verdade um Malfoy não deveria chegar a ficar num estado tão lastimável em nenhum momento de sua vida.
Draco Malfoy deveria ser uma vergonha para as gerações Malfoy.
Quando chegou à cozinha com os cabelos claros molhados e com a dor de cabeça controlada, sua xícara de café estava posta na mesa junto à garrafa de café. Elisabeth estava do outro lado do balcão colocando alguns ingredientes numa vasilha de plástico marfim.
- Três xícaras de farinha... – a garota sussurrou perdida em seus próprios pensamentos enquanto ele a observava atentamente sentado e tomando seu café forte, puro e amargo – Confere!
- Duas xícaras de açúcar... – jogou o conteúdo das duas xícaras no vasilhame – Confere!
- Quatro colheres de margarina... – ele quase riu da cara de nojo de Elisabeth ao jogar as quatro colheres no recipiente – Confere!
- Amasse tudo... – a garota olhou assustada para suas mãos – Amassar com as mãos? Isso não me parece...
Inevitavelmente ele riu chamando a atenção de Elisabeth para si, mas era impossível não rir com uma cena tão patética a sua frente. Era totalmente obvio que aquela trouxa nunca tinha feito nenhum tipo de sobremesa na vida.
- Não ria... – ela rosnou séria.
- Você nunca fez isso. – ele apontou tomando um gole de seu café, os olhos cinzentos faiscando.
A garota ficou vermelha e se voltou para a vasilha no balcão.
Draco se levantou, ele não deveria fazer aquilo. Seu pai o deserdaria se ao menos imaginasse, mas de qualquer maneira seu pai o deserdaria se soubesse da sua atual situação. A verdade é que seu pai não estava ali, e ele sentia muita falta de sua mãe, contudo aquilo era segredo. Ninguém além de Narcisa Malfoy sabia disso. Seu pai nunca desconfiou. Segurou o cordão em seu pescoço e chegou perto da pia.
Elisabeth, que ainda encarava a vasilha, prendeu a respiração ao sentir os braços dele passaram por sua cintura em direção a massa, ele junto suas mãos fazendo-a sentir a consistência dos ingredientes. Eles estavam preparando a sobremesa juntos. Amassando, misturando os ingredientes, até obterem uma massa uniforme.
Draco Malfoy, o perfeito puro sangue sabia cozinhar. Nada muito complexo, mas desde muito novo ele seguia Narcisa até a cozinha onde a mesma preparava suas receitas, para sua mãe, uma sobremesa bem feita deveria conter amor e dedicação, coisa que os inúteis elfos domésticos não tinham. Ele sempre achou divertido se ver em meio a farinha e diversos outros ingredientes, era um dos poucos momentos em que Draco se sentia apenas um garotinho normal com sua mãe.
Sentia tanta falta de sua mãe e do seu sorriso doce.
Queria seu pai novamente ali, passando a mão em sua cabeça e dizendo que ele iria conseguir, que era um Malfoy e um Malfoy nunca perdia.
Queria sua vida de volta.
Draco respirou fundo e sentiu o desconforto tomar conta de seu ser ao se dar conta de seus atos. Elisabeth estava tão próxima de si, que ele podia sentir a aroma de flores que desprendia dos cabelos loiros, a pele macia da mão, sua própria respiração arrepiando os pelos finos do pescoço delicado. Merlin! Ele estava realmente enlouquecendo. Separou-se dela tendo consciência que seu rosto deveria estar vermelho, teve a decência de manter sua face elevada, mas não teria coragem de encarar os belos olhos azuis da garota.
- Eu preciso ir. – disse incerto saindo da cozinha por mais que tentasse manter sua voz firme.
Correu para o quarto com o coração disparado. Não entendia suas reações nem o que estava acontecendo consigo. Apoiou-se na pia lavando as mãos. Deveria ter deixado um rastro de farinha pelo caminho, mas dane-se, ele não se importava com quem deveria limpar. Aquela casa tinha criados para esse tipo de serviço e ali ele não seria repreendido por sua mãe.
Narcisa.
Sua mãe que o havia traído. Que o havia jogado naquela situação. O que diria sua bela e linda mãe se contasse como o seu perfeitinho filho puro sangue andava se comportando perto de uma trouxa qualquer? Será que ela continuaria com aquele sorriso suave no rosto? Queria poder esfregar nisso naquele nariz tão empinado quanto o seu que tinha causado toda essa confusão no seu interior.
Sentia falta de sua mãe.
Sentia falta de seu pai.
Ele iria acabar enlouquecendo só de tentar entender a si mesmo.
Respirou fundo.
O cheiro de maça impregnado nele. Nunca achou uma simples maça poderia ter um gosto tão amargo como naquele instante.
OoOoOoO
Nota da Autora:
Nossa! Eu completamente me esqueci dessa fic... Pior que eu gosto dela... Eu tinha esse capítulo pronto há séculos, mas sempre achava que deveria ser maior... Bem, tirando o capítulo final, eu não tenho nenhum outro pronto, então continuo sem previsão de quando vou postar alguma coisa aqui por enquanto... Beijinhos...
Obs: Agradecimento especial a Lótus por ter me dado coragem de finalmente revisar o capítulo e atualizar essa estória...
