10-Reconhecimento

-Desisto! Diz aí, aonde é que você está me levando, Cláu? - perguntei a minha irmã mais velha enquanto íamos em seu carro pelas ruas de Florianópolis.

Estávamos no centro, e distante da nossa casa, isso eu tinha certeza, afinal, Floripa não havia mudado muito no último ano para que eu não a reconheça, mesmo depois de dois meses de demência.

-Já estamos chegando. - Cláudia sorria enquanto saía de uma avenida movimentada. Não me pergunte o nome, nunca gravo nome de ruas. Sei da nossa casa em Angelina e só decorei a da casa na praia, após seis anos de veraneio.

Mas algo no rosto da Cláudia, me dizia que eu iria gostar da surpresa, era raro ela não saber de algo que me agradasse. Eu era tão simples, que meus gostos podiam se tornar um livro. No rádio, tocava uma música nova da Madonna, e meus pés, quase que imperceptíveis, se moviam de acordo com a batida gostosa. Subitamente me veio uma vontade enorme de ir a uma festa.

-Preciso de uma festa. - comentei com Clá arregalou os olhos enquanto concordava com a cabeça. Minha necessidade por uma relação social era tanta, que eu sentia em minha própria voz. As pessoas nem deviam mais lembrar do meu rosto.

De repente, Cláudia entrou em um estacionamento e eu abri um sorriso, enquanto reconhecia o lugar. Ela olhou para mim após desligar o carro e em seu rosto, o ânimo era palpável.

-Pelo menos você esta em clima de festa. - ela cantarolou, saindo do carro.

-Eu estava precisando meeesmo disso. - concordei.

-Nem me fale! - e eu senti que o que ela realmente queria dizer era "Eu nem tenho mais coragem de sair com você assim!".

Ríamos mutuamente, enquanto atravessávamos o estacionamento do salão. Era uma quarta-feira, e o salão da Helen, parecia estar com pouco movimento. Bastou entrarmos no hall para eu confirmar isso. Ana, a recepcionista estava lendo uma revista, e quando nos viu, sua expressão foi de alívio, tipo "ufaa, as moscas não serão nossas únicas clientes hoje!".

-Olá meninas, tudo bom? - perguntou ela, jogando seu cabelo artificialmente ruivo, mas que combinava com seus olhos, para trás.

-Tudo. -respondemos juntas. -Aninha...- continuou Cláudia sozinha. A menina já segurava uma caneta e uma comanda, esperando as ordens da minha irmã. -Pra mim é pé e mão, e hidratação. - A caneta corria pelo papel.

-Uhum. - murmurou a menina, para que Cláudia continuasse.

-E para a Lúcia... bem... - ela me olhou da cabeça aos pés. Ana fez o mesmo, em seu rosto havia pesar. -Bom... coloca aí!! - falou Cláudia de repente, fazendo a garota prestar atenção na comanda. - Pé, mão, massagem relaxante, depilação, ah!, hã, de tudo ta? - seus lábios ficaram em linha reta enquanto ela dava ênfase a essa parte.

-Claro, claro! - concordou Ana rapidamente.

-Deixa eu ver... ah, sim, tinta, corte, escova progressiva,hidratação, limpeza de pele, tirar a sobrancelha...

-Hãã... bom, não acha melhor colocar "Geral"? - interrompeu a garota, torcendo o nariz. Eu ia responder que não. Não era necessário tanto assim, ou era? Mas antes que eu pudesse se quer pensar em responder, Cláudia sorriu e concordou.

-Ótimo! - falou a recepcionista alegre. Era óbvio que o lucro do dia seria graças a mim e a minha irmã. -Eu já volto meninas, só vou preparar as gurias para receberem vocês!

Minha irmã deu um sorriso caloroso, enquanto me puxava para o sofá da recepção.

-Tu tem dinheiro pra pagar tudo isso? - perguntei a Cláudia, quando tive certeza que a recepcionista já estava longe.

-Fica tranqüila, nós temos um "paitrocínio"! - explicou-me, pegando uma carteira grande e marrom. Ela estava com pelo menos,uns 5 cm de largura. Meus olhos se arregalaram de espanto.

-V-você ta me dizendo que o nosso pai deu todo esse dinheiro pra nós virmos no salão de beleza? - indaguei apontando para a carteira.

-Na verdade... - falou ela com indiferença, como se estivesse me dizendo onde comprara o sapato que usava. -... foi ele que deu a idéia.

Há! Ótimo! Meu pai quase tinha um surto quando pedíamos dinheiro para ele, independente para o que fosse. Era sempre um sermão de pelo menos meia hora, para nos explicar que o dinheiro dele era fruto do seu árduo trabalho, e que não devia ser gasto em bobagens. Agora ele além de dar a idéia, o que não deixa de ser inédito, mas ainda assim nem tanto assustador, ele nos embolsa para gastarmos no salão!

Das duas uma: ou ele tinha ganhado na loteria e enlouquecido, ou eu estava simplesmente terrível e intragável. Eu não precisava nem pensar na resposta.

Bufei comigo mesma com esse pensamento. Mas que saco! A integrante da família que mais ia ao salão era eu, sempre foi assim! Certa vez eu tinha ganho uma hidratação por mês, durante um ano num salão, por ser a cliente com maior freqüência. Eu era a fútil na família! Desde quando meu pai dizia quando eu devia ir ao salão?

Eu estava numa situação deplorável. Qualquer garota que se preste, jamais chegaria ao ponto em que seu pai pedisse para ela ir ao salão. "Olha filha, vai lá e faz tudo o que for necessário, porque se não, não poderei dar a festa que quero este fim-de-semana, aqui em casa!"

Deus me livre! Mas Ele não me livrou. E agora estou aqui... sentada, a pedido de meu pai, para sair desse poço de desleixo!

Ofeguei por um momento e me áudia me espiava pelo canto do olho, enquanto fingia ler uma revista, eu nem prestei atenção em seu olhar "Será que ela vai fugir?"

É claro que eu podia ter evitado essa situação ridícula. Cláudia me convidara vááárias vezes para ir ao salão com ela, tantas vezes, que eu nem me lembrava da metade. Mas eu estava no vácuo, fora de ar. Então foi a mesma coisa que nada. Era provável que eu a xingara em todos os convites feitos, até porque eu só queria ficar sonhando, um detalhe importante, eu gostava de ficar no vácuo.

Ela por sua vez, se cansou de tanta irritação e desistiu, assistindo pesarosa, a minha queda no mundo do abandono.

Mas muita coisa mudara nesta última semana, pensei satisfeita comigo mesma, enquanto seguia a menina responsável pela depilação até a sua sala. Eu podia dizer com a boca cheia que algo mudara em mim. Por dentro, eu sentia a limpeza sendo feita. Já havia conseguido o número da casa de Seth, mas ainda não havia coragem suficiente para fazer a ligação. Ela estava ainda na adolescência, não era adulta o bastante para eu tomar essa iniciativa.

É óbvio, que a minha hesitação em ligar, estava totalmente relacionada com o fato de eu estar com medo da resposta dele. Eu queria ligar, e não queria mais ficar longe dele, precisava dele comigo, mas eu sabia que seria dar um tiro no escuro. Só idéia de ligar para lá, ouvir a voz dele me dizendo que ou ele já estava com outra, ou que não gostava mais de mim, se é que um dia ele chegou a gostar, me dava calafrios. Imagina se isso se concretiza? Eu não quero ficar um ano inteiro no vácuo.

Entretanto, essa sensação ia morrendo aos poucos, ao mesmo tempo que alimentava minha vontade de estar com ele, em seus braços quentes,me protegendo de qualquer coisa. Sorri, enquanto tirava a calcinha para começar a tortura. A menina, uma moreninha baixinha e de feições delicadas, no seu crachá estava escrito Alina, me olhava com desconfiança. Nenhuma mulher fica feliz quando vai se depilar com cera. Reprimi o sorriso enquanto me deitava.

A mudança já era tão perceptível, que meu próprio pai notara. Sim, vamos dar os créditos a nossa conversa ao pé da orelha, na sala, após a meia-noite, e as duas cervejas que acabamos em um segundo. Depois daquela conversa, certamente eu comecei a me relacionar melhor, a escutar melhor. Até o sol eu andei evitando nesses últimos dias (Ta bom! Os créditos dessa vai pra Sophia que me chamou de Vera Fischer.). Mas, certamente meu pai, achara que a mudança ficaria completa com uma mudança geral no visual. Pelo menos, um sonho meu se realizava no meio de toda essa bagunça: ficar o dia inteiro no salão de beleza, com tudo o que tem direito, relaxando e aproveitan... AIIIII!!! MAS QUE CERA FILHA-DA-PUTA!!!

-Senhor Jesus!!! Eu sou um gênio!!! - falou Cláudia arregalando seus olhos cor de mel e abrindo um enorme sorriso.

-Ah...deixa eu ver, deixaaa!!! - implorei ansiosa pelo novo visual. Fazia tempo que eu não mudava, e tinha um certo receio por ter deixado Cláudia, junto com Helen, a cabeleireira, escolherem tudo. Desde o corte até a tinta. Helen, por ser principalmente uma cabeleireira nada tradicional e eclética ao extremo. Ela não veria nada de ruim em cortar meu cabelo na nuca e pinta-lo de roxo. E Cláudia, bem... por não ver a hora de eu parecer uma pessoa decente e poder sair comigo na rua novamente.

-Um minuto, já estou acabando a escova! - retrucou Helen, mantendo-me de costas para o espelho. Ela me olhava com uma certa admiração. Como quando um artista acaba sua obra de arte e fica esperando que todos dissessem elogios de 'perfeito' para cima. Isso me deixaria completamente histérica se não fosse Cláudia ali do lado contendo a Helen.

Uma hora, enquanto elas escolhiam a cor, eu a ouvi dizendo: "E o que você acha desse tom azulado?". Na hora meu coração parou. O que? Azul? Eu não ia para o carnaval! Mas como eu disse, Cláudia estava ali, e além de seu gosto combinar com o meu, seu bom senso era bem maior que o de Helen, e gentilmente ela respondeu que azul não combinaria com meus olhos. Helen não desistiu: "Quem sabe verde?". Eu tomei partido fuzilando-a com os olhos, e de repente, seu interesse por cores do arco-íris sumiram no mesmo instante.

Devia ser umas oito horas da noite, pelos meus cálculos. Pois da TV, já podia-se ouvir a voz da Fátima Bernardes e do William Bonner. Eu mal havia sentido o tempo, aliás, qualquer mulher perderia a noção de tempo tendo um dia tão relaxante como este.

Depois da depilação, que sem dúvida nenhuma, foi a pior parte, fui tirar a sobrancelha, se é que aquelas duas taturanas podiam ser chamadas de sobrancelha, mas enfim, após, a tortura, fui para a massagem relaxante, na qual eu babei enquanto dormia. Nessa hora, já se passava do meio-dia e Cláudia havia comprado vários pratos de saladas para nós. Olhei para ela incrédula, enquanto pegava o prato da salada de pepino. "Alma magra Lúcia, vamos!", falou ela totalmente profissional. Bufei, revirando os olhos. Eu odiava quando baixava a nutricionista nela.

Após o descanso do meio-dia, era a vez das tintas. Sentei em uma cadeira enquanto uma fazia a minha mão, outra o meu pé, e uma terceira passava um creme de menta no meu rosto para a limpeza de pele. Quando as manicuras acabaram, a menina da limpeza, enxaguava meu rosto depois de quatro máscaras. Havia muita pele morta pelo bronzeado exagerado. Nessa hora eu consegui dar uma espiada no espelho e levei um susto, era como se tivessem tirado uma cobertura de lama do meu rosto. Corei de vergonha.

Aí veio o corte, e a minha única exigência foi não deixar meu cabelo curto. Eu não tinha um rosto simetricamente delicado para um corte desse tipo. No início, Helen meio que se decepcionou, mas acabou concordando, depois dizer várias vezes que poderia fazer o corte da Rihanna de olhos fechados.

Por último, e eu já não sabia dizer mais o que era, veio as tintas no cabelo. Não prestei atenção realmente o que ela fazia, afinal, eu não entendia nada de coloração para cabelo. Só sei que me toquei quando ela acabou a coloração e fez a minha escova progressiva. Depois disso veio uma hidratação e a escova comum.

É claro, que eu não podia dizer: "Ai meu Deus! O que elas estão fazendo comigo?", até porque eu queria estar bonita. Se eu o visse novamente, eu queria estar deslumbrante, como na noite em que saímos no Rio de Janeiro, que eu fiquei quase a tarde inteira me arrumando. Era cabelo, maquiagem, mil e uma coisas. Mas no fim, valeu a pena.

Eu podia fazer um filme perfeito da minha visão desse dia. Ele me esperando no saguão do hotel, e de repente, eu entro triunfante. Claro, que a maioria da minha cara "pronta pra matar" se desmoronou, quando meus olhos encontraram ele. Incomparavelmente, ele estava muito melhor que eu. E eu nem precisava fazer algum esforço para provar isso. Todas as minhas amigas solteiras me disseram, que se não fosse por mim, elas já teriam chegado nele. Sorte delas que eram minhas amigas, porque quando elas me falaram isso, eu juro por Deus, minha vontade era de voar no pescoço delas e mantê-las o mais longe o possível de Seth.

O ciúme, nunca fora algo que me dominasse, mas nesse dia eu realmente fiquei com medo pelas minhas amigas. E o pior, é que eu nem sabia explicar o porque. Na realidade, havia muitas coisas em relação ao Seth que eu não conseguia explicar. Por exemplo: quando nos vimos pela primeira vez, vez essa que eu quase desabei em meus próprios joelhos, mas deixando isso especificamente de lado, a facilidade com que eu deixei ele ir almoçar comigo chegou a ser ridícula. Para alguém de fora, ou até para mim mesma antes de conhece-lo, era mais simples eu pegar um placa escrito "Estou desesperada por um namorado" e colocar na cabeça.

Sério, eu nem estava arrumada! Não era um bom momento para sentarmos a sós e ele me olhar minuciosamente. Se o meu plano era conquistá-lo, eu deveria ter negado o seu convite e ter marcado com ele à noite, na qual eu poderia estar bem melhor apresentável. Mas não, eu simplesmente... sei lá... precisava dele no meu lado. Como uma pessoa que esta se afogando e de repente, encontra um tubo de oxigênio. Tipo... ele era essencial para mim, assim como eu era para ele. Eu sentia isso.

Estava no modo como ele me olhava, tão gentil, tão amável que eu ficava em êxtase, e tinha que me conscientizar a parar de sorrir tanto. Estava no modo que ele falava comigo, tão paciencioso, tão doce. Estava no modo que ele me beijava, tão suave no início, como se estivesse me ensinando, e tão envolvente, quando me apertava contra o seu corpo. Bom, enfim, tudo nele era "tão". Não havia diminutivos. Depois do nosso beijo, eu posso dizer com toda a certeza que, absolutamente, tudo nele é superlativo. Hehehe...

Eram coisas que casais juntos à anos faziam, e não um que se conhecia a apenas um dia. Era como se a nossa história já estivesse escrita, o roteiro já estava pronto, e nós que éramos os atores, só estivéssemos gravando agora, mas ao mesmo tempo, não precisava de ensaio... entende? Aiii, era muita confusão! Eu jamais conseguiria explicar! Me tranqüilizava o fato de que, para essas coisas, não havia explicação.

Dúvidas, dúvidas e mais dúvidas... todas sem respostas. Sem uma luz no fim do túnel. "Mais um motivo para ver ele!", falou a minha coragem, de repente, sem nenhum aviso prévio e me assustando. "O que você está fazendo aqui?", perguntei incrédula, ao ver que ela já estava uma adolescente maior, quase uma adulta jovem. "Ora, vamos sua boba, só estou aqui e assim, por sua causa! Se você não arriscar nunca vai saber!", respondeu ela num sorriso debochado.

Eu ia continuar a conversa, mas a voz estridente de Helen, me tirou da minha própria cabeça. Era a primeira vez que ela me chamava, falei para mim mesma orgulhosa, para provar que eu estava fora do transe.

-Estou pronta?- perguntei ansiosa. Meu coração galopava em meu peito.

-Espera um pouquinho... -murmurou ela passando a mão nos meus cabelos e arrumando-os. -Hum... uma arrumadinha aqui eee... pronto princesa Lúcia, a senhorita está pronta! - falou Helen num rompante, girando a cadeira de modo que eu ficasse frente a frente com o espelho.

Fui reconhecendo-me aos poucos. Não era nada novo. Eu só havia voltado a ser normal. A ser eu mesma.

Em meu rosto havia cor novamente e as minhas sobrancelhas estava bem desenhadas, me dando um olhar mais intenso. Os cabelos estavam levemente repicados, fazendo com que a escova deixasse as pontas discretamente viradas para fora, dando um ar natural. Na raiz, ele continuava o mesmo, um castanho escuro, como chocolate amargo, mas nas pontas ele havia sido clareado num tom médio à claro de castanho. Era técnica californiana. Eu já havia feito, por isso conhecia o efeito degrade no meu cabelo.

Eu sorri, e a Lúcia do espelho também.

-É bom estar de volta. - falei para ela. Mas foi Cláudia quem respondeu.

-Nem me diga! -falou levantando as mãos. -Você estava em estado de calamidade pública!- e riu para mim. - É sim Lúcia... é bom ter você de volta.

-Ca-hã!- pigarreou Helen, achando de repente suas unhas algo interessantíssimo.

-Helen... -falei me levantando e pegando suas mãos. - Eu me amei, você foi maravilhosa! Eu jamais conseguiria isso sem você! -Ela me fitou com seus olhos azuis trincados, quase que me radiografando. Sabia que ela estava esperando por qualquer sinal de mentira. Mas não havia. Eu realmente havia gostado. - Obrigada por me deixar linda novamente!

-É... a gente faz o que pode!- retrucou ela dando de ombros. Eu e Cláudia rimos.

-Sério, muito obrigada mesmo Helen! - afirmei mais uma vez.

-Esta bem menina, já entendi! Agora vai se não o bofe vai pensar que tu não vai mais! - falou ela se afastando. Meu olhar se apagou e não passou despercebido por Helen. -Ué, que foi? Tá solteira, querida?

-Não Helen... -intrometeu-se Cláudia, me cuidando. - É que a Lúcia está apaixonada por um cara lá dos Estados Unidos, que ela conheceu no Rio de Janeiro. - encarei minha irmã, reprimindo-a. Ela, por sua vez, pareceu nem ligar. - Ele até agora não ligou para ela, e era por isso que ela estava daquele jeito pavoroso quando chegamos aqui.

-Sim, e daí? Porque ela não ligou para ele? - falou Helen erguendo uma sobrancelha e encarando a minha irmã. Note que eu estava com elas, sim?

-Não sei... pergunte à ela! - respondeu Cláudia apontando para mim. Helen me encarou, esperando pela resposta, mas logo virei a cara. Ela era prática demais! Seus fundamentos eram todos baseados em "você pode morrer ainda hoje, não deixe para amanhã!". Mas seria muita falta de educação, mesmo com ela, ignora-la.

-É que... e-ele pode não gostar de mim, sabe? Já estar em outra, o-ou não querer mais saber de mim... - admiti fracamente. Eu nunca tinha dito em voz alta,e materializar meus pensamentos pessimistas, era pior do que eu imaginava. O golpe no peito era dobrado.

-Então é isso? É por medo que você não liga para ele? - minha respiração parou por meio segundo. Eu sabia que ela falaria o que eu devia, mas não queria ouvir. Aquilo que era o certo sobre toda essa confusão.

-É. - sibilei baixinho. Eu queria me enterrar no chão, sentia os vários olhares sobre mim, da minha irmã, das funcionárias e até de uma ou outra cliente que estava ali. Minha vida amorosa, em um segundo, decorrente de uma pergunta feminista corriqueira, havia se virado em uma novela de grande audiência. Mas ao contrário do que eu esperava, Helen não chamou mais a atenção para mim. Ela simplesmente veio até o meu lado, colocou uma mão no meu queixo e me fez encara-la. Não era fácil, na verdade, era muito similar a um réu culpado encarando o juiz.

-Minha querida... você é tão linda, não há quem não goste de você. - sua voz era gentil, diferente de seu olhar. -Tenho certeza que esse cara sente o mesmo. Mas se você está em dúvida, fale com ele. Só assim você sairá dessa angústia. - Eu pisquei e deixei uma lágrima rolar pelo meu rosto. Uiii que raiva! Eu odiava chorar na frente dos outros! -Veja bem... isso estava influenciando no seu físico, guria! - ela me balançou de leve pelos ombros. -E se você falar com ele e ele disser que sente o mesmo que você, ou que tinha outro problema e por isso não te ligou antes, mas que te ama, hein? - Fiquei sem respostas. Eu não havia pensado nessa possibilidade. Era bom ver que existia outro caminho. Minha coragem se agarrou a esse argumento firmemente. -Reflita Lúcia, e pense bem na vida que você pode estar perdendo.

Sorri em agradecimento, enquanto limpava minhas lágrimas. Cláudia de repente ficou com pressa, e Helen correu para trás do balcão para acertar tudo.

Depois de esvaziar metade da carteira de meu pai e de nos despedirmos das meninas, eu e Cláudia seguimos para o centro de Florianópolis.

Mas já era noite, e os carros pareciam chover no centro. Após ficarmos dez minutos tentando entrar em uma avenida congestionada, Cláudia bufou e se virou para mim:

-Abre o vidro e faz a tua parte!

-Quê? - perguntei erguendo as sobrancelhas.

-Aiii Lú, pede brecha pro próximo carro de gurizada que passar! Ou você não se lembra mais como se faz isso? - ela me fitava maliciosa. Soltei uma gargalhada quando me lembrei das várias vezes em que eu paquerava no trânsito. Cláudia dirigia e eu era responsável pela nossa passagem. Isso até em fila de festas dava certo.

Cláudia tinha um pequeno sorriso em seu rosto enquanto olhava para frente. No mesmo instante ela falou:

-Ali, ta vindo um lotado de gurisada! - Cláudia apontava para um Golf verde. -Vai, aproveita!

Eu abri o vidro, dei uma mexida nos meus cabelos e inclinei levemente a cabeça para fora. Assim que o carro se aproximou e os meninos me avistaram, abri meu melhor sorriso. Eles sorriram de volta abobados. Pedi com o dedo a brecha e o motorista concordou com a cabeça dando uma piscadela. Fiz um sinal de positivo e dei um tchauzinho.

Cláudia ria frouxo quando voltei com a cabeça para dentro do carro.

-Há! Pelo menos o dinheiro do salão foi bem investido! - e nós duas caímos na gargalhada, quando vimos os meninos do Golf, buzinando e dando sinal de luz, logo atrás de nós.

Fiquei observando minha irmã, enquanto ela sorria. Eu podia ver nitidamente o quanto ela estava feliz. Como uma criança que ganha seu tão sonhado presente. E isso, obviamente, me deixava feliz também. Afinal, se eu não era feliz por mim, eu poderia ser feliz pela minha família, eu deveria ser pelo menos por eles. Eles foram a minha razão para viver durante esses dois meses vazios. E foram eles que me fizeram reerguer, me fizeram respirar novamente. Mas quem dera, que o sorriso que eu dei, o sorriso que eles me ajudaram a renascer, fosse para outra pessoa...