- Quero os frascos das poções de vocês na minha mesa agora. – Snape dizia ao final de sua última aula do ano, para os alunos do quarto ano. – Esse é só o preparo básico da poção da dor induzida, que será retomada no quinto ano. Classe dispensada.

Os alunos estavam agitados com o final do ano letivo e com a última noite no castelo, com pressa, depositaram suas poções na mesa do professor.

Harry Potter estava pensativo e demorou para guardar seus materiais, ficando por último na sala com Snape.

- Sua poção não está na cor que deveria estar, Potter. – Snape disse mal olhando para a poção quando o aluno depositou-a na mesa.

- Tentarei melhorá-la quando retomarmos no quinto ano. – Harry disse com um sarcasmo desanimado, mas tomado por raiva de Snape que sempre implicava com ele.

Snape foi pego de surpresa com a audácia da resposta do garoto e desviou sua atenção dos trabalhos em suas mãos para encarar Harry como ele nunca havia feito antes. Snape viu, naquele momento, o filho da mulher que ele amava e não apenas do homem que fez de sua adolescência um inferno. Os olhos tristes de Harry, que havia passado por coisas horríveis nos últimos dias, tocaram Snape. Por um momento ele teve vontade de confortar o garoto, pois aqueles olhos o lembravam de quando Lily estava triste e ele não podia suportar encará-los daquele jeito.

- Potter, não é sua culpa o que aconteceu com Diggory. – Snape disse de repente, as palavras saltando de sua boca.

Harry ficou espantado com as palavras do seu menos adorado professor, só conseguiu concordar com a cabeça e sussurrar um 'obrigado'. E deixou a sala e Snape com seus pensamentos.

Ele sabia o quanto Harry Potter sofria por ser o garoto que sobreviveu, mas mesmo assim não conseguia ver o garoto sem pensar no seu pai, James Potter. Esse era o motivo dele tratar Harry, muitas vezes, com desprezo.

Snape se levantou e se dirigiu ao último jantar do ano letivo.

O Salão Principal, que por sinal tinha estado menos barulhento do que costumava ser em uma Festa de Despedida, ficou muito silencioso.

- O fim - disse Dumbledore olhando para todos - de mais um ano.

Ele fez uma pausa e seu olhar pousou na mesa da Lufa-Lufa. A mais silenciosa de todas antes do diretor se levantar, e continuava a ser a mais triste e de rostos mais pálidos do salão.

- Há muita coisa que eu gostaria de dizer a todos vocês esta noite, mas primeiro, quero lembrar a perda de uma excelente pessoa, que deveria estar sentado aqui - ele fez um gesto em direção à mesa da Lufa-Lufa - festejando conosco. Eu gostaria que todos os presentes, por favor, se levantassem e fizessem um brinde a Cedrico Diggory.

Todos obedeceram; os bancos se arrastaram e os alunos no salão se levantaram e ergueram seus cálices e ouviu-se um eco uníssono, alto, grave e ressonante: "Cedrico Diggory".

Snape parou pela primeira vez para lembrar do garoto que morrera nas mãos daquele que ele tinha que fingir ser seguidor. Era o tipo de pessoa que ele normalmente não admirava, centro das atenções, que busca popularidade, mas apesar de tudo, era uma ótima pessoa e aluno. Isso tudo deixava Snape furioso consigo mesmo por pensar que algum dia cogitou realmente estar do lado do Lorde das trevas.

- Cedrico era o aluno que exemplificava muitas das qualidades que distinguem a Casa da Lufa-Lufa - continuou Dumbledore. - Era um amigo bom e leal, uma pessoa aplicada, valorizava o jogo limpo. Sua morte nos afetou a todos, quer vocês o conhecessem bem ou não. Portanto, creio que vocês têm o direito de saber exatamente como aconteceu.

Snape sabia o que seria dito pelo diretor e ficou atento às reações das pessoas no salão.

- Cedrico Diggory foi morto por Lord Voldemort.

Um murmúrio de pânico varreu o Salão Principal. As pessoas olharam para Dumbledore incrédulas, horrorizadas. Ele parecia perfeitamente calmo ao observar os presentes até pararem de murmurar.

- O Ministro da Magia - continuou Dumbledore - não quer que eu lhes diga isto. É possível que alguns pais se horrorizem com o que acabo de fazer, ou porque não acreditam que Lord Voldemort tenha ressurgido ou porque acham que eu não deva lhes informar isto por serem demasiado jovens. Creio, no entanto, que a verdade é, em geral, preferível às mentiras, e qualquer tentativa de fingir que Cedrico Diggory morreu em conseqüência de um acidente ou de algum erro que cometeu é um insulto à sua memória.

Atordoados e temerosos, cada rosto no salão voltava-se para Dumbledore agora... Ou quase todos. Na mesa da Sonserina, Draco Malfoy cochichou alguma coisa para Crabbe e Goyle. Snape sentiu no estômago um espasmo nauseante e quente de raiva. Forçou-se a olhar para Dumbledore. Snape muitas vezes tinha que se forçar para se controlar. Sua vontade era sair gritando para aqueles, que assim como o ministro da magia, não acreditam em Dumbledore e dizer lhes que são tolos e que os comensais estão reunidos novamente.

- Há mais alguém que deve ser mencionado com relação à morte de Cedrico – continuou Dumbledore. - Estou me referindo, naturalmente, a Harry Potter.

Um murmúrio atravessou o salão e algumas cabeças se viraram em direção ao garoto antes de tornarem a fitar Dumbledore.

- Harry Potter conseguiu escapar de Lord Voldemort. E arriscou a própria vida para trazer o corpo de Cedrico de volta a Hogwarts. Ele demonstrou,sob todos os aspectos, uma bravura que poucos bruxos jamais demonstraram diante de Lord Voldemort e, por isso, eu o homenageio. O objetivo do Torneio Tribruxo era aprofundar e promover o entendimento no mundo mágico. À luz do que aconteceu, o ressurgimento de Lord Voldemort, esses laços se tornam mais importantes do que nunca. O olhar do diretor foi de Madame Maxime e Hagrid a Fleur Delacour e seus colegas de Beauxbatons, daí para Krum e os alunos de Durmstrang à mesa da Sonserina.

Snape seguiu o olhar do diretor e lembrou-se de Karkaroff, e o motivo real de sua ausência.

- Cada convidado neste salão - disse o diretor e seu olhar se demorou nos alunos de Durmstrang - será bem-vindo se algum dia quiser voltar para cá. Repito a todos, à luz do ressurgimento de Lord Voldemort, seremos tão fortes quanto formos unidos e tão fracos quanto formos desunidos. O talento de Lord Voldemort para disseminar a desarmonia e a inimizade é muito grande. Só podemos combatê-lo mostrando uma ligação igualmente forte de amizade e confiança. As diferenças de costumes e língua não significam nada se os nossos objetivos forem os mesmos e os nossos corações forem receptivos.

- Creio - e nunca tive tanta esperança de estar enganado - que estamos diante de tempos difíceis. Alguns de vocês, neste salão, já sofreram diretamente nas mãos de Lord Voldemort. As famílias de muitos já foram despedaçadas. Há apenas uma semana, um aluno foi levado do nosso meio. Lembrem-se de Cedrico Diggory. Lembrem-se, se chegar a hora de terem de escolher entre o que é certo e o que é fácil, lembrem-se do que aconteceu com um rapaz que era bom, generoso e corajoso, porque ele cruzou o caminho de Lord Voldemort. Lembrem-se de Cedrico Diggory. Aproveitem suas férias.

Enquanto o salão se esvaziava Snape refletia as palavras sempre sábias de Dumbledore. Palavras que ele conhecia muito bem, ele mesmo (e a vida que ele tinha planejado para si) foi despedaçado por Voldemort e pelas artes das trevas.

Depois que todos os alunos haviam deixado Hogwarts ele foi para os portões do castelo esperar Melvina que aparataria a qualquer momento lá para o jantar de fim de ano dos professores, o qual ele havia convidado ela para acompanhá-lo.

Snape estava de costas para o portão, olhando para as estrelas no céu que são tão bonitas ali fora quanto no teto enfeitiçado dentro da escola. Virou-se ao ouvir o 'pop' de Melvina aparatando.

- Boa noite. – Ele cumprimentou-a.

- Boa noite. – Melvina respondeu e seguiu Snape que começara a caminhar em silêncio em direção ao castelo. – Está tudo bem, Severus?

- Está. Só tive um dia um pouco cansativo. – Snape respondeu apertando o passo para evitar chegarem atrasados no jantar. – E você, teve um dia cheio no ministério? – ele perguntou odiando ser a pauta da conversa.

- Foi. Comecei a fazer aquelas pesquisas que te contei, ainda não deram resultado.

- É apenas o primeiro dia, Melvina. - Snape se divertiu ao ver a frustração dela.

- Mas quero resultados logo.

Chegando à sala que seria a festa, os dois entraram e todos os membros do corpo docente já estavam lá em confraternização. Quando os ex professores de Melvina a viram, tornaram suas atenções a ela, principalmente a professora Mcgonagall que sempre admirou a desenvoltura dela na escola.

Todos se divertiam no final da noite e esqueciam-se dos problemas que tinham. Melvina conversava com um grupo de professoras.

- Eu pretendo dedicar as minhas férias à Escócia, com um amigo.- Dizia a professora Hooch já um pouco afetada pela bebida que estava consumindo.

- Um amigo é? – Provocou a professora de Herbologia, Sprout.

- Só um amigo mesmo. – a outra respondeu ficando vermelha – A Escócia tem muita coisa pra visitar, Minerva?- perguntou para a professora sentada ao lado de Melvina, que era escocesa.

- Muitas coisas, Rolanda, ainda mais com companhia. – Ela respondeu entrando na brincadeira. E virando-se para Melvina perguntou baixinho: - E você, Melvina, onde vai passar as férias?

- Provavelmente em Londres mesmo. – Ela disse sorrindo, sem saber o que responder.

- E Severus?

- Ainda não conversamos sobre isso, Minerva. Mas acredito que ele vá ficar por aqui.

Quando Minerva percebeu que as outras professoras ainda faziam uma algazarra por causa do acompanhante secreto da professora Hooch e que Severus, que estava mais distante conversando com Dumbledore e os outros professores, não ouviria, perguntou:

- Como está indo seu casamento com Severus, minha querida? – Minerva perguntou atenciosamente, sem o tom sério que usava muitas vezes.

- Vai bem, Minerva, obrigada pela... preocupação. – Melvina respondeu sem jeito.

- Espero que Severus esteja te tratando bem. – Minerva voltou a usar seu tom sério na voz. – Ele pode ser meio ranzinza às vezes.

- É, eu sei disso. – Melvina sorriu para a mulher mais velha.

Ouviu-se o tilintar de taças e Dumbledore se levantou para fazer um discurso engraçado, no qual agradeceu a presença de Melvina que trouxe um ar juvenil à festa segundo ele.

Depois de Melvina se despedir atenciosamente de todos e de Severus esperar ela do lado de fora com Dumbledore. Eles saíram do castelo e aparataram em casa.

- Nos meus tempos de Hogwarts eu nunca imaginaria que os professores têm confraternizações divertidas desse jeito. – Melvina disse para Snape enquanto entrava no closet.

- Dumbledore tem o dom de fazer qualquer um ter um pouco de divertimento. – Snape respondeu antes de entrar no próprio closet.

Quando Snape retornou ao quarto, Melvina já estava sentada no seu lado da cama folheando a revista 'Poção hoje'. Snape sentou-se do lado dela e disse:

- Não quero interromper sua leitura, Melvina. Mas queria te avisar que terei que ficar aqui durante as férias. Não sei quais são os seus planos... – Ele disse olhando para ela que ainda folheava a revista, pensativa.

- Acho que ficarei aqui em Londres também... talvez eu saia alguns dias com meus amigos, mas nem todos eles tiram férias nessa época do ano.

- E a sua família? – Snape perguntou tentando conhecer melhor sua esposa que nunca havia falado de algum parente.

- Bom, meus amigos são praticamente a minha família. Meus pais morreram quando eu tinha nove anos. – Melvina parou para colocar a sua revista no criado-mudo e Snape esperou que ela continuasse a falar – Eles eram med-bruxos. Eu não sei se você lembra, mas houve uma explosão em St. Mungus e eles estavam lá.

- Eu lembro, foi descoberto depois que um paciente com problemas psicológicos provocou a explosão.

- Sim. Desde aquele dia fiquei com minha avó materna, mas ela já tinha certa idade e era meio doente. Ela acabou falecendo, faz dois anos.

- Eu sinto muito. – Snape disse sem saber o que falar nessas ocasiões. E Melvina deu um sorrisinho triste pra ele.

- Eu senti muito mais a morte da minha avó do que a dos meus pais. Acho que é porque eu era criança na época, e minha avó foi quem esteve comigo quando eu mais precisei.- Melvina dizia pensativa.- E você, Severus?

- Eu também não tenho família. – Snape disse seco, lembrando-se de como a palavra família nunca foi sinônimo de coisas boas para ele. – Sempre passei as férias aqui nessa casa e esse ano não será diferente, meus compromissos com os Comensais e com a Ordem não me deixam tirar folga.

- Ordem? – Melvina olhou para Snape com curiosidade.

Snape deu um suspiro e sentando-se mais reto na cama disse:

- O que Dumbledore contou para você quando foi explicar meu envolvimento com você-sabe-quem?

- Bom, ele me disse que você é um espião dele no lado dos comensais. Para ajudar Harry Potter.

- Melvina, a pessoa que Voldemort mais teme... – ela olhou-o com aqueles olhos azuis arregalados pelo espanto da pronuncia daquele nome - é Dumbledore. Quando Voldemort estava tomando conta do mundo bruxo há cerca de 15 anos, Dumbledore e muitos bruxos lutaram contra as forças do Lorde das Trevas. Criaram a Ordem da Fênix, para fazer resistência. Na antiga Ordem participavam, Dumbledore, Mcgonagall, Alastor Moody, Molly e Arthur Weasley e alguns jovens da época, inclusive os pais de Harry Potter. – Snape parou e olhou para Melvina que o escutava com muita atenção – No ultimo dia do torneio tribruxo, como eu já contei para você toda a história, Voldemort retornou. A primeira coisa que Dumbledore fez depois disso foi convocar as pessoas da Ordem e até agora, por baixo dos panos, ele continua recrutando pessoas. Ele acredita, e eu como um comensal da morte posso afirmar, que Voldemort está recrutando um exercito para tomar o mundo bruxo novamente.

- Você então é um espião para a Ordem desde aquela época? – Melvina perguntou enquanto digeria toda aquela história.

- Não exatamente, naquela época só Dumbledore sabia do meu envolvimento. Eu estou do lado de dele, mas sou um Comensal para tirar informações do lado das Trevas. Tenho responsabilidades dos dois lados; coisa a fazer para a ordem, e aparências e confiança a manter no outro lado.

- Isso é bastante arriscado, Severus. – Melvina disse pensativa. – Dumbledore pediu a você que se aliasse a você-sabe-quem?

- Não. – Severus disse a verdade – Eu já era um comensal quando ofereci minha ajuda a Dumbledore. É uma longa história, Melvina, hoje foi um dia cansativo e... desculpa, eu não perguntei quando você vai tirar suas férias. – Snape disse fugindo do assunto.

- Daqui a duas semanas só, mas como vou permanecer por aqui pretendo ficar dando uma olhada na minha pesquisa.

- Se tudo der certo, será muito útil o que você está fazendo.

- Espero que seja.- Melvina disse virando de lado para dormir. Mas aquela noite seu sono foi cheio de pesadelos. Ela não parava de pensar no que Snape dissera, que ele já era um comensal antes de começar a atuar do lado de Dumbledore. O que seria a 'longa história' que ele não quis contar a ela? E Snape ficou pensando em como ele nunca havia sabido dos pais de Melvina. Ela, assim como ele, não tinha família, e apesar de ter ótimos amigos, devia se sentir solitária muitas vezes.


Note: Olá queridos leitores! Espero que esteja tudo bem com vocês! Fiquei uns dias aproveitando a praia mas deu para escrever um pouquinho. Agora, depois de passar um carnaval bem nerd com meus amigos (só assistindo filmes, jogando Scotland Yard e falando muito de Harry Potter), estou de volta a minha rotina e espero atualizar a Fic com mais frequência. Estou adorando os reviews que tenho recebido, mandem mais, por favor! E continuem acompanhando! Beijos!