Gabriel andava, acompanhado de Andrew e Sholk, para a quadra de quadribol. É claro que Minna não havia aparecido o dia inteiro, como era de se esperar. E o fato de ele já esperar não vê-la ou falar com ela só tornava as coisas piores. Mas chegando à entrada do campo, ele a viu falando com Janice. Ela estava com os cabelos soltos, balançando com o vento forte e usava um cachecol da Sonserina por cima da jaqueta de couro. Quando os viu, fez algo que tirou o chão de Gabriel: sorriu para eles.
Ela despediu-se de Janice e veio ao encontro deles.
- Bom dia. - ela ainda sorria, os cumprimentando em tom apologético.
- Ah, a senhorita lembrou que a gente existe. - Andrew revirou os olhos.
- Foi mal, Drew. Eu tava de TPM e sinto muito que isso tenha afetado vocês.
As reações dos rapazes foram mistas. Andrew se encolheu ao ouvir algo relacionado ao ciclo menstrual de uma garota, aceitando as desculpas imediatamente. Gabriel ergueu as sobrancelhas. Minna podia até ter dito que se tratava de TPM, mas ele sabia o que havia causado a sua separação. E, agora, ela iria tentar fingir que nada daquilo havia acontecido? Já Sholk olhou para os pés, tentando esconder um sorriso. Ele não precisava de mais explicações. Já tinha certeza sobre o que causara a mudança de humor da amiga.
- Então está tudo ok entre a gente? - Gabriel perguntou, esperando que Minna tivesse entendido a pergunta que se escondia por baixo da pergunta que ele havia feito.
- Tudo como sempre. - ela olhou Gabriel nos olhos, confiante. E ele percebeu que, infelizmente, para ela, entre eles tudo realmente estava 'como sempre'.
Nas arquibancadas, durante o jogo, Minna respondeu sorrindo e cordialmente tudo que lhe era perguntado. Mas seus olhos não saíam da partida. Gabriel achou aquilo muito estranho - a garota nunca fora tão interessada assim no esporte. Normalmente até levava um livro para ler durante os jogos. E, pior, quando a Sonserina marcava um gol ela não comemorava. Ficava com lábios crispados e com as mãos tensionadas, segurando o banco. Iodovin encarava suas juntas esbranquiçadas de tensão quando Potter capturou o Pomo e Minna soltou as mãos do banco, com os punhos cerrados, como se estivesse comemorando discretamente.
Minna estava torcendo pela Grifinória. E só havia um motivo pelo qual ela faria isso.
Ele olhou para o céu em busca de Olívio que comemorava com os gêmeos Weasley. Viu quando o olhar dele cruzou com o de Minna e ele piscou para ela. Uma piscadinha digna de um galã de filme adolescente americano, com um sorriso enviesado cheio de covinhas.
Agora tudo fazia sentido. Os dois estavam juntos. E Minna sorria, radiante.
Um sorriso que não era causado por Gabriel.
Ele sentiu um nó em sua garganta. Precisava sair dali. Empurrou Sholk para o lado e marchou rumo ao castelo, sentindo uma dor lancinante nos pulmões. Precisou parar para respirar. Era isso que alguém sentia quando era rejeitado? Trocado pelo bonitão da escola? Por alguém que não merecia nem beijar os pés da garota que se amava?
Amava?
Ele ficou ainda mais assustado com seus próprios pensamentos. Precisava parar de pensar nela agora. Precisava parar de pensar naquele beijo na frente da lareira. Nos gramados da Escócia, nas chuvas de outubro, nas chamas misteriosas. Mas tudo estava gravado em sua mente e agora passava diante de seus olhos como um filme.
Precisava esquecer.
Ou não.
Podia mudar o rumo da história. Afinal, tudo o que ele sabia que havia entre Minna e Olívio era uma faísca. Uma piscadela. Frágil. Poderia ser apagada. E então ele não precisaria esquecê-la. Se conformar com o papel de amigo. E então ele poderia beijá-la de novo. E de novo. E pra sempre. Afinal, ela o havia beijado, certo? Nem tudo estava perdido. Ele só precisava de um plano. Em vez de ir para a sala comunal, rumou para a biblioteca.
Minna ficou olhando para onde Gabriel estava, assustada. Um gosto amargo tomou sua boca.
- Será que ele ficou tão chateado assim por Sonserina ter perdido? - Andrew perguntou.
- Tenho certeza que logo ele irá melhorar. Não é? - Minna perguntou para Sholk que deu de ombros.
- Difícil saber Minna. - o sonserino soou preocupado, olhando para ela significativamente.
- Mas nós temos muito o que comemorar! - Andrew fez Minna rodar, como se estivessem dançando. - Afinal, vocês, cobrinhas, já perderam o campeonato.
- Não conte com isso. - Sholk muxoxou.
Nesse momento, Olívio pousou nas arquibancadas perto deles. Sorria, radiante. E o coração de Minna pareceu flutuar, todas as suas preocupações se esvaíram. Andrew levantou a mão em um hi-five, mas Olívio mal olhou para ele. Abraçou a sonserina com força, dando um beijo na testa da garota.
- Você foi incrível - Minna sussurrou, próxima a ele.
Quando se separou dela, Olívio viu Sholk com um sorriso de orelha à orelha e a expressão chocada de Andrew. Corou furiosamente enquanto Minna também sorria, levantando os ombros.
- Vo-vocês...
- Nós estamos só comemorando a primeira vitória do Olívio como capitão. - Minna exclamou, meio séria meio rindo.
- É Drew, só isso. Deixa de ser besta. - Wood concordou rindo.
- Se o pessoal da Grifinória... ou se a galera da Sonserina ficar sabendo...
Minna e Olívio se olharam, ainda sorrindo.
- Sabendo do que, Drew? Que eu abracei o Olívio? Poxa, todas as amigas fazem isso.
- A Min está certa. - Olívio passou o braço pelos ombros de Minna, a puxando pra si e apoiando o rosto em sua cabeça - Acho que todos os amigos também abraçam as amigas. Muito. O tempo todo. - a voz dele soava divertida. Sholk revirou os olhos rindo enquanto Andrew ainda estava boquiaberto.
- Aliás, - os olhos de Minna faiscaram para Olívio, enquanto ela o puxava pela mão em direção à saída do campo - acho que amigos merecem um tempo sozinhos no jardim, não?
Olívio sorriu e, deixando-se levar, acenou para os dois garotos que ficaram no campo. Andrew encarou Sholk.
- Você sabia disso o tempo todo?
- Praticamente.
- E não contou nada?
- O que eu ia contar, Andrew? Até ontem não tinha acontecido nada.
- Eu sempre achei que a Minna ia acabar com o Gabriel. - Andrew piscava com força, como se não acreditasse no que havia visto.
O sorriso de Sholk murchou.
- O Gabriel também achou isso.
Minna sorriu para Olívio enquanto o levava pela mão para perto da Floresta Negra. Olívio sentiu seu sorriso murchar lembrando da útlima vez que esteve na Floresta Negra com a garota.
- Não vamos entrar lá, não se preocupe - Minna pareceu ler seus pensamentos, ficando séria subitamente. - Mas não podemos arriscar, não podemos ser vistos.
- E posso saber porque não podemos ser vistos? - Olívio franziu as sobrancelhas. - Você tem vergonha de sair com o capitão da Grifinória? - ele riu, como se fosse algo impensável.
- E você não tem vergonha de ser tão convencido? - Minna parou de andar, para encarar Wood nos olhos - Olívio, temos que encarar a realidade. Você terminou o namoro agora com uma menina do seu time. Dias atrás. Ela iria ficar arrasada se soubesse que estamos juntos.
- E quem mais iria ficar arrasado, Min? Sei muito bem que você não se importa em nada com a Alícia. - a voz de Olívio soou ríspida.
- Do que você está falando? - Minna ficou assustada. Será que Sholk havia falado sobre Gabriel também?
- O Sholk me disse pra eu agir rápido, que eu teria concorrência e que a concorrência era mais forte que eu. O que você sabe sobre isso? - o capitão ergueu uma sobrancelha, questionador.
Minna engoliu em seco. Será que ela deveria contar sobre Gabriel? Se ela contasse, a amizade entre Wood e o sonserino estaria completamente arruinada - caso já não estivesse. Se ela contasse, precisaria escolher entre ficar com Olívio e continuar amiga de Iodovin. E que diabo Sholk tinha na cabeça pra dizer que 'a concorrência era mais forte'?
- Você conhece o Sholk, Olívio. Ele achou que eu estivesse interessada no Flint, pelo amor de Deus. Isso já dá uma medida da loucura dele.
Olívio percebeu que Minna não respondeu sua pergunta diretamente. Mas resolveu não insistir no assunto, não agora. Eles estavam juntos há menos de um dia, ele nem saberia dizer se estavam namorando de verdade. Não tinha direito nenhum de cobrar explicações dela. Então resolveu sorrir e encostar Minna em uma árvore para beijá-la, mais um daqueles beijos intensos.
- Eu ganho, Minna. Não sei quem é a concorrência, mas eu vou ganhar. - Olívio sussurrou enquanto beijava o pescoço da garota e ela sorriu, sabendo que ele nunca esteve mais certo em qualquer outra coisa.
Wood se surpreendeu quando Minna o afastou, com uma expressão assustada no rosto. Seguindo o olhar dela, ele viu o motivo. Um unicórnio, de um branco tão intenso que machucava os olhos, estava mancando na direção deles. De seu pescoço pingava uma substância viscosa e prateada. Sangue.
- Olívio, busque o Hagrid. - ela pediu. Enquanto o capitão obedeceu, prontamente, ela tentou se aproximar vagarosamente do animal, com passos cuidadosos para não assustá-lo. Ergueu a mão para tocar em seu nariz gelado. Assim que sua mão tocou o unicórnio, ela achou que tinha sido tomada por um choque. Não sabia se era uma visão real ou não, mas viu uma criatura negra, sem forma, se aproximar dela, ameaçadora, pronta para atacá-la. Tirou a varinha do bolso das vestes, pronta para se defender. E então o escuro se estendeu por toda a sua volta e tomou conta de sua consciência.
