Capítulo 11 – Tudo errado
As lagrimas escorriam por sua face enquanto a tristeza dentro de si despedaçava todos os sonhos anteriormente formados, sentia o coração se rasgar em mil pedaços e o corpo tremer com a gélida brisa que anunciava a chegada do outono. Hermione encontrava-se no topo de uma pequena colina, os braços abraçavam as pernas, fazendo a garota parecer muito menor do que realmente é, os últimos raios de sol atingiam seu rosto e refletiam em suas lagrimas, tudo parecia tão surreal para a garota.
A ultima conversa que tivera com Harry ecoava em sua mente, juntamente com a certeza de que todos os momentos que viveram juntos pertenciam ao passado, aquele sentimento tão forte e puro teve seu fim da mesma maneira que nasceu, explosivo e desconcertante.
O maior medo de Hermione sempre foi ser ferida por alguém próximo a ela e por este motivo ela evitou um envolvimento com Rony e não prolongou o romance com Krum, mas Harry nunca apresentou ameaça, ele sempre foi seu melhor amigo e quem melhor a entendia. Desde suas mais remotas lembranças ela se lembrava de Harry como o garoto que sempre precisava de ajuda e ela sempre foi a garota inteligente que estava disposta a ajudá-lo.
O sentimento que surgiu entre eles nasceu sem aviso e por isso mesmo não permitiu que Hermione o controlasse, tudo havia sido feito por instinto e paixão e nunca por sua grande amiga, a razão.
A noite avançava rápido sobre a terra e a temperatura caia rapidamente tornando tudo mais sombrio e amedrontador, Hermione sentia-se frágil e sem rumo, ela não sabia o que fazer ou onde procurar abrigo, mas reconheceu rapidamente o lugar onde estava. Podia ver com perfeição a pequena residência da família Weasley acomodada ao pé da colina, algo em torno de duzentos metros de distancia do lugar em que estava, ela não pensou ao certo para onde deveria ir ao desaparatar, tudo o que queria era sentir-se livre da presença de Harry.
Ela não sentia a menor vontade de encontrar alguém nas condições em que estava, queria ficar sozinha e tentar curar a ferida que sangrava dentro de seu peito e para seu alivio não havia nenhuma luz acesa na casa. Hermione desceu rapidamente a colina, era acompanhada pelo farfalhar das arvores e os pios das corujas, passou com cuidado pelo portão de entrada e vagarosamente dirigia-se para a porta principal, observava tudo ao seu redor a procura de alguém ou alguma coisa e cada barulho que ouvia fazia seu coração disparar em um ritmo alucinante.
A porta da frente estava destrancada e com cuidado Hermione adentrou a casa, tudo estava muito escuro e silencioso, algo um tanto quanto estranho para a residência dos Weasleys.
- Lumos – A luz irrompeu da varinha da garota e iluminou a sala.
A sala estava como Hermione se lembrava, nada estava fora do lugar. Ela percorreu todos os objetos com os olhos e deteve-se sobre um em particular, o intrigante "relógio" da família. Todos os ponteiros marcavam "Perigo mortal" menos um, o ponteiro de Molly, este se encontrava aparentemente sem vida e isso fez com que ela se lembrasse o porque de não haver ninguém na casa, os Weasleys e a Ordem haviam sofrido um ataque e os sobreviventes foram forçados a fugir.
Hermione sentiu a tristeza se apossar de seu corpo novamente e desabou sobre o pequeno sofá, recomeçando a chorar. As mãos estavam sobre seu rosto e a luz da varinha iluminava a parede oposta, seus pensamentos formavam um turbilhão em sua mente e ela não conseguia parar de pensar que tudo estava errado.
--------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Os olhos de Harry estavam completamente encantados pela Horcruxe, agora que estava sozinho o garoto poderia satisfazer seu desejo, ele poderia ter a taça novamente em seus braços e sentir o poder que ela emanava.
Sentou-se novamente e esticou os braços para pegar o objeto, segundos depois ele estava, novamente, sobre um estado entorpecido, a energia corria novamente em suas veias e todo seu corpo parecia corresponder ao poder emanado pela Horcruxe.
A dor na cicatriz aumentava gradativamente, mas a sensação provocada pela Horcruxe superava sua dor, Harry sentia-se mais forte e poderoso e esta sensação provocava um enorme sentimento de satisfação em seu interior.
Para sua surpresa a sensação provocada pelo objeto começou a se esvair e a dor se mostrava cada vez mais presente, sua cicatriz nunca havia doido daquela maneira e naquela intensidade, tudo ficou embaçado e em poucos segundos ele desmaiou.
"Harry encontrava-se no topo de uma pequena colina, estranhamente o lugar parecia extremamente familiar, o por do sol marcava o horizonte e tudo estava silencioso. Em largas passadas ele se dirigia para um pequeno agrupamento de arvores, enquanto suas pernas o carregavam para o bosque ele pode perceber o quão pálido ele estava, sua pele era marcado por um branco doentio e em contraste suas vestes eram negras como a noite.
Em poucos instantes ele já estava penetrando no emaranhado de arvores, os pássaros cantavam suas ultimas melodias antes de se recolher enquanto pequenos cervos procuravam algo para comer; ele caminhava decididamente em direção ao interior do bosque.
O bosque não era grande e nem tão denso quanto ele imaginou e, portanto, não tardou até que chega-se, para sua surpresa, em um lago, o mesmo lago aonde ele havia buscado a Horcruxe que a poucos momentos atrás estivera em seu colo. Um homem encontrava-se a beira do lago, estava sentado e se assustou com a chegada do desconhecido.
- Olá. – O homem fez um aceno com a cabeça ao pronunciar as palavras, mas não obteve resposta.
Harry mantinha-se estático e olhando diretamente para a figura a sua frente, a qual apresentava sinais de desconforto provocado pelos olhares penetrantes do corpo encarnado pelo garoto.
Já de pé e preparado para se retirar o homem começou sua caminhada em direção as arvores, mas antes de entrar de volta no bosque rumando para a saída ele foi atingido por um jato de luz e caiu ao chão. Só agora Harry percebeu a varinha que estava em sua mão, o homem debatia-se contra suas amarras invisíveis enquanto o menino aproximava-se.
Finalmente parando a frente do homem Harry pode perceber que já havia visto aquela figura antes, este era Tom Riddle, o pai de Voldemort.
O medo nos olhos de Tom era sufocante, apesar de toda a situação algo dentro de Harry parecia estar completamente satisfeito, a varinha estava novamente apontada para o homem, ele contorcia-se e produzia grunhidos que provavelmente eram palavras de misericórdia, mesmo não entendendo o que estava acontecendo ele parecia saber que seu fim estava próximo. Rejeitando os olhares de suplica, Harry produziu um jato de luz verde de sua varinha, no momento seguinte havia apenas um cadáver a sua frente."
----------------------------------------------------------------------------------------------------------
A cabeça de Harry estava latejando quando acordou na manhã seguinte, a noite anterior não estava clara em sua memória, ele lembrava-se apenas de vagos momentos, os quais mais pareciam pequenas peças de um grande quebra-cabeça, com exceção de seu sonho.
O sol já estava alto no céu e pequenos feixes de luz penetravam por alguns buracos na cortina e acertavam diretamente o rosto de Harry, ele sentia-se suado e extremamente cansado, sua pele estava mais pálida do que nunca e seu estomago roncava ruidosamente, tudo isso contribuía para aumentar a dor de cabeça que o incomodava.
Endireitou-se no sofá e concentrou-se para lembrar o que havia ocorrido, alguns flashs da briga que tivera com Hermione passavam por sua mente, mas a imagem que persistia em aparecer era a da Horcruxe. O garoto procurou pelo objeto e o encontrou caído ao chão, seu brilho havia desaparecido e ele aparentava estar velho e sujo agora, aos olhos do garoto aquele era uma taça completamente diferente da que estivera em seu colo na noite passada.
Ele tomou o objeto em suas mãos, mas não sentiu nada, o desconforto que esta lhe causou nos primeiros dias não estava mais lá, juntamente com a obsessão que o dominou na noite anterior.
Harry rumou para o quarto e percebeu que todas as coisas de Hermione ainda estavam lá e a cama estava desarrumada, a imagem da garota desaparatando repetia-se em sua mente, mas ela não era o foco de suas preocupações. Ele vasculhava cada canto do cômodo, mas não conseguia achar o pequeno espelho mágico, por fim o achou jogado em baixo da cama junto a alguns livros da garota.
- Lupin? – O espelho estava posicionado diretamente a frente do rosto do garoto, refletindo seus marcantes olhos verdes.
Harry não obtinha respostas do espelho, apesar de ter chamado por diversas vezes Lupin e outros membros da Ordem. A frustração e a apatia dominavam a mente do garoto, enquanto o latejar de sua cabeça dominava seu corpo, ele precisava de ajuda para tentar entender o que havia acontecido, mas não havia ninguém por perto para ajudá-lo.
--------------------------------------------------------------------------------------------------------------
O sol brilhava com força do lado de fora da casa, o contato dos raios de sol com o cabelo da garota produziam um efeito maravilhoso, a paisagem refletia um momento digno de uma pintura, mas as lagrimas que escorriam por sua bela face acabavam com o encanto.
O sofrimento era reprimido com força em seu interior em quanto ela fazia força para não chorar, nos últimos tempos tudo havia saído terrivelmente errado e não parecia que algum dia tudo poderia voltar ao normal. Gina sabia que Dumbledor nunca havia prometido um futuro belo e sem cicatrizes, mas ele havia dito que acreditava na vitória de Harry, ela só gostaria de saber a que preço eles obteriam aquela vitória.
Gina estava mais bela do que nunca, seus longos cabelos vermelhos prendiam a atenção de todos que a olhassem e seu corpo se desenvolvia com perfeição em todos os detalhes, tornando-se quase tão chamativo quanto seus cabelos, ela já não mais parecia uma garota, seu corpo era o de uma belíssima mulher.
A falta que ela sentia da mãe se intensificava a cada dia e sua teoria de que a mãe sempre foi a pedra fundamental da família havia se provado certa. Molly era quem mantinha todos unidos e todos motivados, mas agora ela não estava lá e todos pareciam estar perdidos. Seus irmãos estão cada dia mais cabisbaixos, trocam poucas palavras entre si e mantêm o mínimo de convivência possível com as outras pessoas, enquanto isso seu pai precisa de toda a ajuda possível, por estar cego e também por enfrenta uma grave depressão.
Gina é a única que tenta reunir a família, mas a presença de todos na mesma sala parece incomodar uns aos outros. No começo essas pequenas "reuniões" ocorriam algumas vezes por semana, mas por causa do gradativo aumento de tempo que a garota se vê obrigada a cuidar do pai esses momentos se tornaram muito raros ultimamente.
Os poucos momentos em que se vê sozinha são quando algum dos irmãos se propõe a cuidar de Arthur ou quando a cunhada aceita o posto, nesses raros momentos Gina aproveita para se sentar no quintal da nova casa de Gui. Sua mente voa durante estes períodos e na maioria das vezes seus pensamentos recaem sobre Harry, já fazia muito tempo que ela não via o amado, mas a imagem do garoto é a salvação em seus diversos momentos de agonia. As noticias mais recentes que tivera dele haviam sido trazidas por Rony, sendo que não eram muitas e quando Gina ousava perguntar o garoto se recusava em falar sobre o amigo, agora ela já não sabia nada do que acontecia com Harry, nem mesmo se ele estava vivo.
Todas as vezes que teve a oportunidade de falar com Lupin ela perguntou sobre o garoto, mas só obteve respostas vagas e nenhuma novidade concreta, todo seu mundo encontrava-se desmoronando e a única coluna que a mantinha em pé era o amor que sentia por Harry, algo que ela sentia ser impossível de ser abalado ou destruído.
- Oi. – a voz sedosa de Fleur trouxe Gina de volta para a realidade e a garota limitou-se a balançar a cabeça. – Não chore. – Havia um pequeno sorriso no rosto cansado de Fleur, algo incomum nos habitantes da casa.
- Eu não estou chorando. – A voz de Gina estava mais forte do que o usual, mas era carregada de um encanto próprio.
- Então deve ter um pouco de orvalho se formando em seu rosto. – O sorriso continuava no rosto de Fleur enquanto Gina tentava enxugar a face rapidamente.
- Já disse que não estive chorando. – Gina odiava ser vista quando estava nesse estado.
- Eu acredito em você. – Fleur sentou-se a frente da garota e esticou uma das mãos para ajeitar uma mexa do cabelo.
- Por que você está aqui fora? – Gina evitava o olhar diretamente no olho de Fleur.
- Eu te vi aqui sozinha e achei que você estivesse precisando de companhia, pelo menos eu estou.
- Eu já estava indo lá para dentro. – Gina se levantou e bateu as mãos nas costas da calça para tentar limpar a terra em excesso.
- Por que você se faz de forte quando o certo é ser apenas uma garota? – O sorriso dava lugar a uma feição séria e preocupada no rosto de Fleur.
- Eu não me faço de forte. – Gina parecia estar ofendida com as palavras de Fleur.
- Se faz sim, nossa família está se desmantelando, seu pai chora todas as noites e mesmo assim você foi a única que eu não vi chorar, até hoje, ou pedir consolo – Gina não havia percebido que tudo estava tão evidente assim para a cunhada.
- Eu... Eu... – As palavras não saiam dos lábios de Gina e ela sentia sua tristeza reprimida lutar fortemente contra sua jaula.
- Gina entenda que todos devemos pedir ajuda quando precisamos e que você não precisa assumir o papel de Molly. – Algumas lagrimas brotavam nos olhos de Fleur e ela parecia estar tão ferida quanto a garota.
- Eu.. sei, mas tudo está tão errado... tão errado. – Gina estava sentada novamente e mantinha as mãos pressionadas contra o rosto, as lagrimas escorriam por entre seus dedos.
- Eu entendo você, nunca planejei um começo de casamento dessa maneira e nunca pensei que teria que viver tudo isso, não é só você que sente falta do passado. – As lagrimas escorriam por suas bochechas e as duas compartilhavam de um choro melancólico.
- Não é só da minha mãe e da minha vida que eu sinto falta...
- Também não é só da minha vida e futuro promissor que eu sinto falta, Gui quase não fala comigo e sinto a distancia entre nós aumentar a cada dia que passa.
- Será que algum dia nós vamos ver o fim de todo esse mal? – Gina buscava algum sinal de esperança nos olhos de Fleur enquanto tentava encontrar a esperança dentro de si mesma.
- Eu não sei, mas eu jurei estar preparada para fazer tudo que for necessário para salvar quem eu amo, assim como sua mãe fez, ela salvou o seu pai. – Gina não sabia ao certo como sua mãe havia morrido, mas Lupin e Fleur, as duas únicas pessoas a assistir o assassinato com exceção de seu pai, disseram que Molly havia salvado a vida de Arthur.
- O problema é que eu estou disposta a fazer a mesma coisa, só que pela única pessoa que todos tem certeza que será o homem a enfrentar Voldemort de frente, sendo que até mesmo Rony duvida do destino de Harry. – Mais algumas lagrimas brotaram nos olhos da garota ao pensar novamente em Harry. - As vezes eu acho que sou a única que acredita que ele vai sobreviver.
- Se isso te acalma eu também acredito na sobrevivência de Harry. Eu preciso acreditar nisso – Fleur mantinha seus olhos mirando fixamente os olhos de Gina - Não sei se você sabe, mas Harry é o ultimo fio de esperança que sobrou para muitas pessoas. – Seu olhar era triste, mas tentava acreditar que tudo vai terminar bem.
- Eu sei... Talvez um dia tudo fique bem, talvez um dia eu reencontre Harry. – Gina não mais desviava o olhar, pela primeira vez em muito tempo ela se sentiu segura novamente para demonstrar suas emoções. - Talvez.
As duas compartilhavam de um sentimento puro e triste, seus dois amores pareciam estar fora de seus alcances e nenhuma das duas sabia se tudo voltaria a ser como era antes.
Elas permaneceram no jardim durante uma boa parte da tarde, ficavam em silencio aproveitando o decorrer do dia enquanto pensavam em tudo que haviam compartilhado.
Apesar de todo o choro aquela tarde havia feito maravilhas para Gina, ela estava fortalecida para encarar todas as provações pelas quais passaria e acreditava mais do que nunca em seu amor por Harry, mesmo sabendo que até aquele momento tudo havia dado errado.
