Disclaimer: Saint Seiya não me pertence. Direitos autorais à Masami Kurumada e cia.
N/A.: Olá, gente. Antes da leitura, quero fazer algumas considerações. Primeiramente, a parte que está em itálico são lembranças-flashbacks. Nos capítulos anteriores os nomes de Kamus e Miro estavam escritos com K e R. Porém adquiri um vício (com shots) de escrevê-los com C e L respectivamente. Sendo assim, a partir deste capítulo estes nomes serão escritos "Milo" e "Camus". Quando terminar a fic, eu retornarei os primeiros capítulos para a edição e deixar tudo organizado. O restante falo após a história. Boa leitura!
xXx
La décision.
Atenas, Grécia
Em uma mansão localizada ao final de um bairro nobre, um belo homem de cabelos loiros e compridos estava sentado em um confortável sofá na biblioteca. Lia o Athens News, concentrado.
- Meia noite e já está de volta? Que houve, Kanon? – Sentou ao lado do irmão, roubando um pequeno beijo dos lábios dele.
- Indisposto. Aproveito para me atualizar. – respondeu simplesmente.
- Está assim há quase duas semanas. Desde que deixamos Londres, você age estranhamente, até viajou só por alguns dias sem me informar. Por quanto tempo pretende me esconder o que tens feito?
Kanon sorriu, observando o irmão por um minuto. Guardou o jornal pondo-o sobre a mesinha ao lado do sofá.
- Saga... Não achou suspeito aquele menino na residência de Camus? – perguntou analisando as feições do irmão.
- Camus disse ser um empregado e o menino o tratou muito formal. É possível que o ruivo tenha dito a verdade. Preferir um humano para trabalhar é uma opção dele, nós mesmos já fizemos isso por um tempo por conveniência. Acha que aquele humano pode ser importante para ele?
- Penso que sim. Camus pareceu um pouco apreensivo quando ele foi buscar o cão. – deitou do sofá com a cabeça no colo do irmão. Saga começou a afagar-lhe os cabelos.
- Talvez por sermos vampiros. Quem gostaria de ter uma bagunça na própria casa?
- Aquele menino me pareceu familiar. Não sei de onde, mas me pareceu. – ignorou o comentário do irmão.
- E ficará paranoico com isso agora? – ergueu uma sobrancelha. Kanon não era de se interessar tanto por coisas sem grande importância e isso incluía os humanos.
- Não... Mas resolvi tirar a prova. Se for apenas um empregado, Camus irá substituí-lo rapidamente sem maiores problemas.
- Enviou alguém para matar o menino? Kanon, não precisamos de conflitos entre os clãs...
- Acalme-se, meu irmão. Obviamente que Camus vai suspeitar de nós, mas se ele não tiver provas, nada pode fazer. – Saga ergueu uma sobrancelha em sinal que Kanon prosseguisse com as explicações. – Quando saí sem lhe avisar, fui até a Ucrânia visitar nosso velho amigo Alberich. E em meio as conversas, comentamos sobre os outros clãs e eu disse inocentemente sobre a surpresa que tivemos na casa de Camus.
- Entendo... Se seu plano der certo, Alberich fará algo a respeito. E se suas suspeitas estiverem corretas, causará uma séria briga entre os irmãos. Plano ardiloso, embora pouco fundamentado.
Kanon sorriu. Saga conhecia aquele sorriso, ele já tinha as respostas de seu plano.
- Alberich enviou três inúteis até Londres, dois deles recém-transformados e Seiya. – Saga sabia que Seiya tinha aproximadamente 50 anos. O trio era mais que o suficiente para eliminar um mortal, mas certamente não teriam chances com o ruivo. – Ontem a noite, apenas um retornou. Seiya. E gravemente ferido. Aparentemente, Alberich se aborreceu com as notícias e o matou. – riu.
- E como soube de tudo?
- Fontes. E há um lobisomem com Camus também. – deu de ombros e beijou o irmão, acariciando o rosto dele. – Agora é acompanhar o desenrolar dos fatos. É questão de tempo para que o conflito se inicie e com um pouco de sorte, os dois se matem. Um de nós será o novo rei.
- Você sabe da vontade de Shion... Camus inclusive herdou o clã dele.
- Eu só permitiria isso se ele conquistasse meu respeito. Até lá... Tentemos acompanhar o jogo. – sorriu divertido. - Talvez tenhamos a oportunidade de deixá-lo ainda mais interessante.
oOoOoOo
- Átila! - Milo acordou assustado, sentando bruscamente na cama ofegando.
Constatou que estava em sua cama e com lágrimas nos olhos, que enxugou rapidamente com as costas das mãos. Estava com uma das roupas que usava para dormir e não a que usou para sair com Átila. Seria um sonho?
Sentiu que estava sendo observado e lançou o olhar na direção, encontrando Camus sentado em uma poltrona, no quarto. Calça preta, camisa creme, cabelos soltos... Elegante como sempre.
- Finalmente acordou. Quase meio dia. – Milo olhou para as janelas. O quarto estava escuro, e constatou serem as pesadas cortinas que estavam fechadas.
Retornou os olhos para o ruivo que se mantinha imóvel. Os olhos de Camus eram da cor avermelhada de costume.
- Não era um sonho, não é? – achou por bem perguntar. Sua cabeça ainda estava girando.
- Não. Tudo o que viu era real. – observou Milo se encolher na cama e abraçar os joelhos junto ao peito.
- Átila morreu?
- Sim. Tentando lhe proteger.
Uma lágrima silenciosa deixou os olhos do loiro e foi novamente enxugada. Camus apenas o observava atentamente.
- Ele não teria morrido se eu não tivesse ido por ali... – suspirou – Queria ter me despedido... Fenrir deve estar chateado comigo.
- Não. Átila fez o que devia fazer. Era dever dele lhe proteger. – Milo voltou a fitar o ruivo. – E você era o alvo, não importando o caminho que tomasse.
- Obrigado. Eu queria ter dito ontem, mas não conseguia. Obrigado por ter me salvado.
- Não agradeça, Milo. Sua situação está mais delicada do que pode imaginar. – embora o ruivo continuasse a falar no tom calmo, Milo não sentia a indiferença costumeira que Camus costumava dispensar-lhe. Embora também não houvesse amor.
- Como assim? – falou confuso.
- Temos nossa lei que deve ser seguida. Você sabe de nosso segredo. É proibido para humanos, qualquer um que descubra nossa existência deve morrer. – explicava calmamente, vendo Milo se encolher pouco mais sentado na cama, mas não demonstrando qualquer ânsia por fuga.
- Então me salvou para me matar? – o grego questionou.
- É o que devo fazer.
- Se é assim, faça.
- Não vai tentar fugir? Sequer pedir para continuar vivo? – o ruivo estranhava o comportamento dele. Sabia que ele estava assustado, mas não exatamente com medo.
- Se não tivesse me encontrado, eu já estaria morto. Também sei que seria inútil tentar fugir. E você tem que seguir essa lei, não é? Eu não tenho nada a perder, sou apenas um órfão que você encontrou ao acaso na rua.
Camus passou um tempo calado, observando-o. Levantou do sofá e foi até a cama, sentando na beirada, próximo ao grego. Milo não tentou se afastar. Apenas observava-o ainda encolhido, abraçando os joelhos.
- Olhe em meus olhos, Milo. – o loiro obedeceu. Era desconfortante para Camus ver aquela pureza mesclada com dor e medo – Você juraria lealdade a mim? Seguiria ao meu lado e lutaria por minhas causas? Guardaria segredo de tudo o que é proibido para os humanos? – Camus sustentava o olhar sério sobre ele, tentando analisá-lo.
Milo parecia agora mais confuso que assustado, ainda sustentando o olhar de Camus.
- Sim, juro. Já sou leal ao senhor e a Fenrir. Mas... O que é tudo isso? Vai... Me transformar?
- Claro que não. Mas está ciente que com este juramento, você será de minha propriedade?
Propriedade? Milo tentava entender o que ele queria dizer com isso. Iria tratá-lo como algum objeto? A ideia era desagradável, mas... Devia a ele. E sem desviar os olhos dos de Camus, sentia de alguma forma que ele esperava uma resposta positiva. Isso poderia ser importante para ele. Já estava para morrer, não é? Então porque negar? De qualquer forma, nunca planejaria tentar contar a alguém que tinha visto vampiros. Não só pelo pedido de Camus quanto... Quem acreditaria afinal?
- Sim... – o loiro concordou.
oOoOoOo
Milo recebeu um tapinha na cabeça, que chamou sua atenção para Fenrir, fazendo-o deixar as lembranças de lado.
- Preste atenção, não tempos tempo a perder! – Fenrir o repreendeu.
- Me desculpe. – olhou brevemente para ele e voltou sua atenção para o livro, voltando a fazer sua lição.
Milo já estava há um ano com Fenrir na França, porém, longe de Paris que era a cidade que o grego queria conhecer. Estavam em uma casa pequena e humilde de campo. Longe de tudo, discreto, mas aconchegante tinha que admitir. A cidade mais próxima era Laon, que ficava no departamento de Aisne. Mesmo não sendo uma cidade grande e exuberante quanto imaginava ser Paris, o loiro se encantou com ela por suas construções medievais que, segundo Fenrir, datavam do século XII e XIII¹.
Milo havia partido de Londres com Fenrir logo após o incidente com os vampiros desconhecidos. Ainda lembrava do choque que levou ao saber – ou seria aceitar? – que o animal que se assemelhava a um lobo imenso nas sombras, de olhos dourados, era seu amigo Fenrir. A constatação impactante foi confirmada por Camus e por um corte no rosto de Fenrir que iniciava acima da sobrancelha direita e se estendia até a maçã do rosto. Por sorte não atingira o globo ocular e ele não perdera a visão. Seu amigo havia lhe explicado que a cicatriz não desapareceria pelo ferimento ter sido causado pela garra de um vampiro, que funcionava tanto quanto a prata.
Agora, restava apenas uma fina e discreta cicatriz, que se destacava mais apenas quando ele estava sob a forma do lobo cinzento.
Sim, depois que Milo tomara conhecimento da existência de vampiros e lobisomens, não fazia mais sentido se esconder do grego. Embora Fenrir conseguisse manter a consciência e até se transformar quando necessário, essa transformação era inevitável em noites de lua cheia e Milo tinha que se habituar a isto. Era problemático pela falta de comunicação no início e por Milo ter o impulso de querer tratá-lo como um cão de estimação, mas logo superaram os problemas.
Fenrir evitava ao máximo deixar o loiro sozinho. Era agora seu professor, amigo e mestre. Camus lhe encarregara de ensiná-lo as matérias de escola como matemática, gramática, francês, física, química, geografia, história, além de ensiná-lo a dirigir, etiqueta e prepará-lo fisicamente. Com a lista imensa, a agenda era apertada e eles trabalhavam duro de domingo a domingo. Fenrir era exigente e estabelecia metas, o grego tinha de dar um jeito de cumpri-las.
Embora se sentisse exausto ao final de praticamente todos os dias, Milo ia se deitar satisfeito pelos bons desempenhos que conseguia e por saber que toda aquela cobrança era para sua segurança. Sabia que para acompanhá-los tinha de estudar e ser culto, além de aprender a se portar com elegância. E Fenrir lhe explicara que antes do treinamento de como lutar, precisava de condicionamento físico e por isso os treinos pesados, as incontáveis flexões e abdominais, além da corrida matinal. Já estava até se habituando ao corpo constantemente dolorido. Também lhe fora explicado que tinha que aprender a dirigir e a cavalgar para sua independência e em caso de necessidade, como uma fuga, poder se virar. Por hora, teria de aprender a controlar um carro.
Já passava das onze da noite e Milo se espreguiçou, entregando o caderno para que Fenrir corrigisse a atividade, este lhe sorrindo ao final.
- Muito bem, terminamos por hoje. – sorriu. – Aceita um chocolate quente? – a noite estava um pouco fria e Milo concordou, acompanhando-o até a pequenina cozinha.
- Fenrir... Quando ele virá? – bocejou.
- Quando puder. – olhou para o grego – Milo, você já tem quinze anos e está bem grandinho para entender. Ele ficou para nos proteger. Só poderá vir quando achar seguro, você em especial é um alvo fácil ainda.
- Eu sei... – falou cabisbaixo – Não queria trazer tantos problemas para vocês.
- Mas isso tudo não é culpa sua. E se estamos fazendo isso é porque gostamos de você. – sorriu e entregou a Milo uma caneca com o chocolate quente. – Gosto que esteja conosco, mas infelizmente para isso você precisa ser preparado. Muito bem preparado.
- Mas... Não bastaria eu saber usar uma arma?
- Não, Milo. – sentou ao lado do grego – As coisas não são tão simples quanto imagina. E ele quer te dar esse treinamento pessoalmente, sou responsável apenas para prepará-lo fisicamente.
- Mas que treinamento é esse, afinal, que estou seguindo às cegas?
- Ele não falou? – sorriu – Você será um caçador. – era estranho pensar que estava ajudando alguém a se tornar seu predador.
- Caçador? – repetiu, erguendo uma sobrancelha.
- Quando ele vier iremos lhe explicar tudo com calma. Mas agora o que você precisa ter é preparo físico. Entenda, Milo... Para enfrentar seres como nós, você precisa atingir o limite humano em tudo. O máximo de resistência, habilidade e força, trabalhar reflexo e concentração. Mas não faça essa cara, estamos no caminho certo. – sorriu.
O grego olhava para seu amigo visivelmente cansado e recebeu um afago nos cachos.
- Amanhã será noite de lua cheia. Vamos parar as atividades mais cedo para que possa descansar um pouco. Que tal? – Fenrir disse e contentou-se com o sorriso agradecido do loiro. – Agora vá deitar. Deixo você dormir até as sete. – falou divertido e o grego suspirou.
- Vou escovar os dentes. – foi para o banheiro, cuidando de sua higiene usando um copo com água. Nessas horas e no banho sentia falta da água encanada. De fato estavam isolados.
Voltou para seu quarto, que ficava ao lado do de Fenrir para maior segurança, praticamente se arrastando. Sentou na cama e suspirou. Sabia que não seria fácil sua nova vida, mas não imaginou que seria tão difícil. Mas havia feito um juramento, não era? E sabia que Camus e Fenrir estavam se arriscando ao protegê-lo, indo contra as leis de suas raças. Estava determinado a ir até o fim com tudo o que lhe fosse proposto.
Suspirou.
Abriu a gaveta do pequeno criado-mudo que se encontrava ao lado da cama e pegou a adaga que guardava ali. Gostava muito dela e a considerava como seu pequeno tesouro. Olhava para ela e acabou sorrindo.
oOo
Milo concordou com a proposta de Camus e o observou levantar e seguir até a cômoda.
Estremeceu ao vê-lo pegar uma adaga que estava sobre esta. Ainda embainhada, Camus a jogou ao lado de Milo, na cama.
- Senhor...? – Estava confuso e curioso. A bainha e o punho eram elegantemente trabalhados com ouro negro e prata como armas elaboradas com o intuito decorativo.
- Pegue. – Milo obedeceu e foi uma surpresa o peso da arma. Era mais leve do que aparentava. Avaliando melhor, notou ser a mesma que o viu usar tão habilmente na noite anterior. Desembainhou parte da lâmina prateada, vendo o quanto brilhava. Havia cravada nela alguma inscrição em um idioma que desconhecia próximo à lâmina, em uma tonalidade que parecia prata pura. – Cuidado, é afiada. – Camus o alertou e Milo com cuidado tornou a embainha-la. Não seria sensato de sua parte ter um corte ao lado de um vampiro. - É sua. – o ruivo ditou.
- Minha? – agora Milo sentia-se perdido. O que estava acontecendo, afinal? E percebeu a forma como o ruivo olhou para a arma ante de lhe entregar. Parecia ser muito especial para ele. – Mas... Não posso aceitar. E...
- Encare como os presentes de aniversário que não lhe dei e que possivelmente não darei. – sentia a confusão de Milo – Não vou transformá-lo e tão pouco matá-lo. Não terá de morrer enquanto tiver em mente seu juramento.
- Mas... É uma arma. E eu tenho apenas treze anos. O que o senhor quer que eu faça com isso?
- Mês que vem fará quatorze. Mantenha-a sempre próxima a você e se defenda. Preste atenção no que direi, Milo. É fundamental que saiba. Ontem à noite havia mais um vampiro. Fenrir tentou pegá-lo, mas ele conseguiu escapar e estou com poucos subordinados em Londres para a busca. É questão de tempo até que o clã que o enviou descubra que fracassaram e que você sabe o segredo.
- Virão atrás do senhor... Vai se prejudicar por minha causa. – Camus imaginava como ele pensava dessa forma quando estava tentando lhe dizer que a vida dele é que estava em perigo.
- Não deve se preocupar comigo, mas você não pode ficar mais aqui. Arrume uma mala com o que lhe é fundamental e não esqueça essa adaga. Desça para almoçar e esteja arrumado, pois irá viajar com Fenrir em seguida. Ele receberá instruções do que fazer com você. Tudo o que ele disser você deve obedecer sem questionar. Ele irá lhe ensinar tudo o que precisa saber. Você receberá também um treinamento especial quando estiver pronto, essa adaga não pode ser inútil em sua mão.
oOo
Milo voltou a si com as batidas na porta e a entrada de Fenrir.
- Boa noite, Mi...- parou a fala ao por os olhos sobre a arma nas mãos do grego. – Onde conseguiu isso?
- Camus me deu antes de viajarmos. Ele disse que preciso estudar e me tornar forte para saber usá-la. – sorriu e voltou a guardar a adaga no móvel. – Mas por hora, não tenho habilidade para usá-la... E você está sempre comigo, então me sinto seguro.
Fenrir acabou sorrindo com o comentário do loiro. Mesmo depois de tanto tempo juntos, ainda considerava bizarro um humano alegar que se sente seguro ao lado de um lobisomem ou vampiro. Também estava surpreso por aquela arma estar nas mãos do grego. Era a favorita de Camus e este sempre a mantinha por perto quando acreditava que poderia enfrentar outros vampiros.
- Claro que te protejo. Acalme-se que Camus quer te ensinar como usá-la ele mesmo. – bagunçou os cachos loiros.
- Ele está demorando. – falou aborrecido. Além de sempre ser deixado de lado pelo ruivo, Fenrir disse que ele só conheceria a história toda na presença do outro.
- Eu já disse que ele virá quando puder. Enquanto isso, continue se esforçando. - sorriu. – Agora descanse, amanhã teremos um longo dia. Boa noite. – e saiu ao ouvir a resposta do mais novo, tomando o cuidado de deixar a porta encostada. Estaria atento a qualquer ruído e presença naquele quarto, não podia baixar a guarda um dia sequer.
Milo desligou o abajur e deitou. Ao menos aquela casa tinha um pequeno gerador. Fechou os olhos. Seu amigo estava certo, o dia seria longo e exaustivo. O cansaço fez com que adormecesse rapidamente.
Passava das quatro da manhã e a casa estava totalmente escura. Milo estava enrolado em seu cobertor em um sono profundo, sem perceber que alguém entrou em seu quarto. Um par de olhos prateados aproximando-se, uma mão a tocá-lo levemente como que para não acordá-lo.
oOoOo
Uma noite abafada e a lua nova já estava alta. Um rapaz de cabelos e olhos azuis escuros estava deitado do lado de fora de uma cabana, na grama. Observava as estrelas e a lua, relaxando o corpo dolorido após uma longa noite de trabalho. Amanheceria dentro de umas duas horas.
- Estava caçando? – perguntou, sabendo que havia mais alguém ali. Sorria.
- Sim, Daros. Vai tentar me destruir, como fez com os outros? – saia de em meio as árvores ali próximas, podo-se de pé ao lado do moreno.
- Não. Você é diferente, Camus. – olhou para o rapaz ruivo e sorriu, indicando que sentasse.
O outro atendeu ao pedido um minuto depois, observando-o desconfiado.
- Diferente? – Estava sentado de frente para o outro, analizando-o atentamente.
- Sim. Por sua cara de desagrado, deve ter se alimentado de algum animal. – sorriu, constatando a indignação nos olhos avermelhados. – Estava te esperando.
O ruivo ergueu uma sobrancelha, não contendo a curiosidade. Era fato que sempre que podia o seguia de longe e em alguns momentos se aventurava a se aproximar. Era frustrante não conseguir se afastar daquele humano. Sabia que era arriscado manter contato com um caçador, ainda mais quando se apegava a ele.
Daros o observou atentamente por um tempo, quase como se pudesse lê-lo, o que apenas tornava Camus mais arisco.
O moreno, ainda deitado, levou uma mão ao cinto. Ao tocar em uma adaga, o ruivo saltou rapidamente para trás, afastando-se. Um ato tão rápido que mesmo Daros mal pode acompanhar. Sob o olhar agora prateado do ruivo, ele pegou uma adaga embainhada decorado com prata sobre o couro negro. Segurou na bainha, oferecendo o punho à Camus.
- Pegue. Um presente. – Daros incentivou.
- Como pode dar uma arma a seu inimigo? – olhava atentamente no fundo dos olhos azuis, constatando que não havia qualquer intenção de luta. Na realidade, em nenhum momento sentiu-se ameaçado, mas não gostava de confiar apenas em seus instintos.
- Não o considero como inimigo e quero que esta adaga represente isso. Não é uma arma qualquer, é uma adaga de caçador, Dohko disse que pertenceu ao meu pai. – sorriu – Quero que ela demonstre que podemos conviver em paz.
Camus aproximou-se cauteloso e pegou a adaga, analisando-a. Era de fato magnífica, além de elegante e muito leve. Olhou para o rapaz, que agora estava sentado lhe observando com um sorriso.
- Realmente acha que isso é possível? – ergueu uma sobrancelha, os olhos retornando a cor avermelhada deixaram a arma para voltar a fitar o rapaz.
- Acho. Você sabe que continuarei caçando e ajudando Dohko, mas também sabe que fazemos isso para eliminar apenas os seres malignos. – olhou para a casa – Os dois vampiros que eliminei hoje atacaram esta casa. Moravam aí apenas uma mulher e três crianças.
- Vampiros se alimentam de sangue humano. Sabe disso. Este fato já torna todos malignos e não sou a exceção. – falava com sua calma habitual.
- Você evitou essa noite. – sorriu – E penso que deve haver algum modo de se alimentarem sem trazer a morte... Selecionar como vítimas pessoas cruéis... ou mesmo usar o sangue animal.
- Você olha o lado dos seres que protege e não o dos que caça. Não pode imaginar o quanto é difícil parar uma vez que se prova o sangue da vítima escolhida, assim como é horrível o sabor do sangue animal.
- É, talvez esteja certo. Mas ainda assim sei que és diferente e quero confiar em ti. Gosto de você, Camus. Shion, seu rei, consegue se entender com meu mestre Dohko, porque nós dois não podemos fazer o mesmo?Não quero mais essa desconfiança entre nós.
Camus parecia examiná-lo.
Daros sustentava o olhar. Sabia que havia se arriscado ao oferecer uma arma daquela a um vampiro de quase 200 anos como Camus. Mas queria confiar no que seus instintos e coração lhe diziam e demonstrar que confiava nele.
- Eu aceito criar este laço com você. Confiança e respeito. No entanto, não posso aceitar. – estendeu a adaga de volta, ato que fez Daros sorrir ainda mais.
O gesto de tentar devolve-la mostrava que o ruivo ainda guardava sentimentos humanos, por querer respeitar ser uma herança de seu pai.
- Por favor, aceite. Ficaria feliz se cuidasse dela.
Camus deixou que a arma caísse na grama ao lado de Daros e voltou a caminhar em direção às árvores por onde chegara.
- Já vai amanhecer. E quem tem que cuidar de sua herança é você. – e desapareceu.
Daros sorriu com o gesto do outro e tornou a guardar sua adaga como ele pedira.
Camus voltava rapidamente para seu abrigo, imerso em pensamentos. Sabia que era um erro ter se apaixonado por um humano, ainda mais este sendo um caçador. Agora era tarde demais. Sem que percebessem, o laço entre eles já havia sido criado antes mesmo daquela conversa.
Continua...
oOoOoOo
N/A continuação.: Gente, espero que este capítulo tenha agradado. Por questão de tamanho, resolvi publicar logo esta parte enquanto sigo para a próxima. Ele não foi betado, então, qualquer coisa ou sugestões para organização é só falar. Críticas construtivas também sempre serão bem vindas. A Parte que fala do passado com Daros eu escrevi com uma fonte diferente do restante da fic, para diferenciar. Não sei como apareceu aqui no fanfiction.
Por que eu coloquei Alberich como o meio-irmão de Camus? Bem... quando comecei a história, não existia Dégel. E como sempre digo, quero seguir o roteiro original. E um até lembra vagamente o outro, vai... Ambos são ruivos! XD
Cortando o assunto para não me estender muito... Quero mandar um beijo especial para: Setsune, Kamy Jaganshi, Camus Aquario, Anjelita Malfoy, Shakinha, Paola Scorpio, Suellen-san e Theka Tsukishiro. Muito obrigada pelo apoio, incentivo, reviews e por não terem me abandonado e a minha fic.
Aos que aparecerem aqui e lerem esta nota, lembrem-se de deixar reviews! Elas incentivam os autores a continuarem seu trabalho.
Bjins a todos!
Perséfone-san
05-03-2012.
