Nota: daqui pra frente, tudo que seja relacionado ao passado de Kevin é puramente especulativo.
Spider Monkey – Macaco Aranha (Simeon é o nome da raça)
Humangossaur – Enormossauro
Grey Matter – Massa Cinzenta
Capítulo 10 - Conversas
A nave pousou discretamente em uma grande geleira. Apenas o piloto e dois guardas ficaram dentro da espaçonave, enquanto os outros saíram e foram explorar o terreno. O planeta era extremamente diferente daquilo do Ben ou Kevin já haviam visto.
Plutão estava no momento em que sua órbita se afastava do Sol, isso tornava o planeta extremamente gelado, com temperaturas menores do que na Antártida. No momento em que desceram na nave e colocaram os pés no chão, perceberam que a gravidade era muito fraca e que poderiam usar isso ao seu favor, quando resgatassem os escravos.
Contudo, a ventania forte fez com que a caminhada até a base dos traficantes fosse penosa. O grupo teve que andar devagar e tomar cuidado com o terreno acidentado e pedregoso. Ao longe, podiam avistar o lugar onde eles agiam, uma mina que retirava metais preciosos das camadas mais profundas do solo.
-Como vamos fazer? –Ben perguntou para o Grão Mestre.
-Nos aproximar sem sermos notados. Quero discrição total! –o Encanador respondeu falando com todos os membros da equipe. –A prioridade são os escravos.
Então foram formados pequenos grupos, para que a área de atuação fosse maior. Os dois humanos estavam junto com os Spider Mokeys gêmeos e iriam ser responsáveis por libertar os escravos da ala norte.
Assim que o Grão Mestre fez o sinal positivo, o quarteto saiu correndo em direção à base. Sorte que suas roupas tinham dispositivos de camuflagem, o que lhes permitiu chegar perto dos guardas sem seres notados.
Kevin se aproximou de um guarda mais afastado e deu uma coronhada com sua arma a laser. Quando o estranho caiu sem sentidos no chão, ele pegou sua arma e o rádio transmissor. Isso ajudaria os Encanadores a se manterem informados sobre a posição dos traficantes.
Depois de passarem pelo portão, atravessaram o pátio e entraram no prédio. Havia guardas de várias raças alienígenas, inclusive humanos. Todos usavam a mesmo macacão que os protegia da alta radiação que as pedras preciosas emitiam, assim que eram extraídas.
O mesmo não acontecia com os escravos, eles usavam vestimentas normais, ficando expostos a todos os malefícios que o material podia irradiar. Parecia que o trabalho era divido em turnos e tinha uma pausa de algumas horas.
Isso era necessário para que o nível de radiação não ultrapasse um certo limite, que se fosse alcançado, até mesmo as roupas especiais não dariam conta de suportar. Isso facilitou o trabalho dos Encanadores.
Pelo que Ben pôde notar no Omnitrix, os outros grupos já tinham chegado aos seus destinos. Através dos comunicadores instalados nos capacetes, o Grão Mestre avisou que os escravos podiam ser retirados das celas.
Os quarto desceram até as partes mais baixas do complexo e foram até as celas. As portas eram trancadas com um dispositivo de nível seis. No momento em que Kevin tentava destravar as trancas, um alarme disparou loucamente.
Em questão de segundos, vários guardas fecharam o corredor de ambos os lados, impedindo que os intrusos escapassem. Ben não pensou duas vezes e se transformou em Humangossaur, indo para o lado direito do corredor, enquanto que os gêmeos Simeons cuidavam do lado esquerdo.
A porta deu um estalido e assim Kevin conseguiu entrar na cela. Notou que existia um grupo de aproximadamente cinqüenta pessoas, inclusive alienígenas entulhados em um espaço mínimo.
-Eu sou o Encanador Kevin Levin e vim com meu grupo para resgatar vocês. –falou em voz alta, mostrando o distintivo. –Peço que colaborem e não criem confusão na saída!
O moreno recebeu um sinal positivo do amigo, dizendo que o corredor estava livre e que os reféns podiam sair. Em pouco tempo, o grupo deixou a cela, sendo amparados pelos Spider Monkeys. Ainda na forma de Humangossaur, Ben abriu caminho pela base, quando estavam no pátio interno, onde a carga era distribuída para ser exportada de Plutão, Kevin voltou-se para o amigo:
-Leve eles para fora daqui, eu cuido dos guardas! –o moreno disse, pegando sua pistola de laser.
-Tem certeza? –Ben não queria ver o amigo correndo perigo.
-Some logo daqui! –ele berrou carregando a pistola, parecendo estressado.
-Nos vemos na nave, tome cuidado! -o mais novo saiu correndo com os gêmeos Simeons, dando cobertura aos escravos.
Kevin se escondeu atrás de uns caixotes de chumbo, atirando nos guardas. Quando menos esperava, percebeu que estava recendo apoio do Grão Mestre, que apareceu ao seu lado, também atirando.
-Eles estão fugindo, merda! –o humano reclamou, ao ver que alguns deles entravam em pequenas naves e se preparavam para sair voando.
-Não por muito tempo... –o Encanador apertou um botão vermelho em sua roupa.
De repente, aconteceu uma explosão tão forte que o chão tremeu, fazendo com que Kevin perdesse o equilíbrio e caísse no chão. Pelo visto, o Grão Mestre havia explodido a mina por dentro, acabando com todo o negócio extremamente lucrativo dos traficantes.
Com a reação em cadeia, o complexo industrial começou a ter uma série de pequenas explosões, comprometendo a estrutura do prédio. Antes que a situação ficasse pior, os dois deixaram o local, correndo o máximo que podiam na direção da nave.
Depois de escalarem as pedras, encontraram-na quase partindo. Kevin jogou-se no chão da nave, após ter subindo a rampa correndo. Apesar de estar sem fôlego, sentiu que havia completado sua missão e que ajudou as pessoas.
Tirou o capacete e procurou por Ben no meio daquela confusão de alienígenas, Encanadores e humanos. Reconheceu ao longe aquele cabelo castanho de costas.
-Está tudo bem? Fiquei preocupado, escutei umas explosões... –ele disse, ao virar-se e encontrar o amigo.
-O Grão Mestre explodiu a fábrica, agora dos traficantes vão levar muito tempo para poder reconstruir tudo. –passou a mão pelos cabelos negros suados, aquela roupa esquentava muito.
-Mas isso não resolve a situação... –refletiu, olhando ao redor. –Eles podem continuar seqüestrando seres inocentes.
-Ele disse que vai mobilizar os outros Encanadores para caçar os que sobraram e prender seu líder. –Kevin começou a andar pelos corredores da nave. –Será que eles têm um banheiro por aqui? Preciso tomar um banho.
-Não sei, vamos procurar por aí...
—X—
A nave pousou novamente na base dos Encanadores, que era uma estação especial no meio da Via Láctea. Eles não quiseram tomar nenhum planeta como base porque assim estariam favorecendo seu povo e a grande diferença dos Encanadores era que eles seriam totalmente imparciais.
Houve uma recepção para os membros da equipe libertária e para os escravos, assistência média de alto nível, por causa da radiação. Enquanto todos se divertiam com uma festa para comemorar o sucesso da missão, o Grão Mestre chamou Kevin e Ben para irem ao seu escritório.
-O que você queria falar conosco? –o dono do Onminitrix perguntou, sentindo o estômago roncar de fome.
-Queria agradecer pela colaboração de vocês hoje. –ele sentou-se na cadeira reclinável. –Foram cruciais para que tudo desse certo.
-Obrigado, Grão Mestre. –Ben sorriu. –Sem querer ser chato, mas posso voltar para a festa? Estou morrendo de fome...
-Claro! –deu uma risada. –Os Simeons irão levar vocês para a Terra quando quiserem.
-Obrigado... –Ben já estava perto da porta quando chamou Kevin, que parecia aéreo. –Você vem?
-Eu... –antes que pudesse responder, foi cortado pelo Grão Mestre.
-Gostaria de falar a sós com você, Levin.
-Estou esperando você lá fora... –Ben deixou a sala
Kevin encarou o Grão Mestre, sentindo a cabeça pesar e corpo fraco. Mesmo assim não queria mostrar nenhuma fraqueza diante dele.
-E então, o que você queria falar comigo? –levantou uma das sobrancelhas e cruzou os braços.
-Ela está aqui e quer falar você. –ele respondeu sério.
-Quem? –seu coração parecia disparar no peito.
-Sua mãe, Elena Levin.
-Ah é?! –as palavras do moreno eram debochadas, mas seu olhar denunciava sua surpresa. –Ela tinha que ter pensando nisso há dez anos.
Sem dizer mais nada, deixou a sala. Ben viu que o amigo se aproximava e abriu a boca para chamá-lo, mas ao perceber que estava mais pálido do que normal, correu para o seu lado.
Kevin desmaiou ali mesmo, no meio do salão cheio de pessoas. Ao segurá-lo pela nuca e colocar uma mão no tórax, tentando acordar o amigo, notou que o macacão especial que usava estava encharcado de sangue.
-SOCORRO! ALGUÉM NOS AJUDE!
Um Grey Matter que estava atendendo aos escravos, saiu correndo na direção dos humanos. Percebendo a gravidade da situação, pediu para que o jovem Encanador fosse mandado para a ala hospitalar da base.
Ben esperou do lado de fora da sala cirúrgica, com o coração apertado. Não sabia o que faria caso o amigo morresse. Ele sabia que tinha alguma coisa errada com o moreno. Podia ser que a situação com a Gwen o tenha deixado desse jeito, apesar de não falar, ele era uma pessoa muito sensível.
Ben tinha certeza que toda aquela pose de "rebelde sem causa" era apenas uma máscara para esconder o verdadeiro Kevin. Mas não podia obrigar o amigo a contar tudo o que se passava em sua mente, por isso esperava calmamente pelo dia em que ele se abriria.
Depois de alguns minutos de espera, o Grey Matter saiu da sala, parecendo preocupado.
-Então, como ele está? –o humano se levantou, sentindo um vácuo no lugar do estômago.
-Seu amigo precisa de uma transfusão de sangue imediatamente. –o alien respondeu, com as mãos cruzadas nas costas. –Por acaso seu sangue é compatível com O+?
-É sim, nossos sangues são iguais.
-Então venha comigo, precisamos prepará-lo.
Ben seguiu o pequeno alienígena até a sala de operação. Existiam duas macas, Kevin estava deitado na esquerda. O dono do Omnitrix não acreditou que ele pudesse ser seu amigo, extremamente pálido, com vários tubos nas narinas e na boca.
Ele trocou de roupa e se deitou na maca da direita, fechando os olhos. Não queria ver o que fariam, apenas queria se manter focalizado em ajudar Kevin. Sentiu que injetaram uma agulha em seu braço e que aos poucos o sangue saia.
Sentiu-se tonto e a fraqueza veio lentamente, mas sabia que era necessário todo aquele esforço para ver o moreno bem. Após alguns minutos, o acordaram dizendo que a transfusão fora um sucesso.
Dentro de algumas horas Kevin estaria pronto para sair dali e voltar para a Terra. Os minutos pareciam séculos enquanto Ben esperava pela alta do amigo. A única coisa boa era que agora recebia cuidados de várias enfermeiras, que sempre traziam comidas deliciosas.
Sem que tivesse esperando, o Grey Matter veio até o quarto, dizer que poderia levar Kevin de volta para a Terra. Contando que seguisse algumas recomendações que foram escritas e que deveriam ser seguidas a risca.
-O que aconteceu com ele exatamente? –Ben perguntou, colocando sua jaqueta verde e amarrando os cadarços do tênis.
-Levou um tiro e perdeu muito sangue por conta do ferimento. Mas felizmente não atingiu nenhum órgão vital. –o alien respondeu, entregando a lista de recomendações.
-Obrigado pela ajuda. –ele agradeceu, abaixando-se e pegando o Grey Matter com as mãos cuidadosamente.
-Eu é quem devo agradecer, vocês libertaram minha mãe, que trabalhava nas minas. –ele sorriu e pulou novamente para o chão. –Até mais, Ben Tennyson.
Com isso, o humano deixou o quarto e caminhou até o final do corredor. Encontrou Kevin colocando o gorro que lhe foi dado de presente e tentando se levantar da cama.
-Ei, nada de esforço! –Ben se aproximou, apoiando o amigo em seu ombro. –Você está debilitado.
-Há! Olha só quem fala... –ele comentou ironicamente, com um sorriso fraco no rosto. –Benjy...
Neste momento, o mais novo levantou o rosto e seus olhares se encontraram. O moreno sabia que dali em diante teria uma parte de Ben correndo pelo corpo e que seriam uma pessoa só.
Apesar de tudo que um dia fez contra ele no passado, Ben o perdoou e aceitou ser seu amigo como se nada daquilo tivesse acontecido. Por mais que Kevin não quisesse dizer em voz alta, sentia-se extremamente agradecido por ter alguém como Ben em sua vida.
-Obrigado, cara. –o moreno disse, seriamente. –Nunca vou esquecer o que você fez por mim.
-Que isso, sei que faria o mesmo. –ele sorriu, apesar de também estar sério.
Nunca em sua vida Ben teve tanta certeza disso. Podia contar com Kevin em qualquer momento, desde a situação mais difícil até nas melhores risadas.
-Vamos para casa. –o mais velho segurou com força no ombro do amigo, também oferecendo apoio.
Os gêmeos Simeons levaram os humanos de volta à Terra, teletransportando-os para o apartamento de Kevin.
A televisão ainda estava ligada, o jogo havia acabado há horas atrás e já estava anoitecendo. Apesar de terem viajado para outro planeta, a nave que usaram para retornar à Terra possuía um dispositivo de alto nível que fazia a conversão de anos-luz em rotação planetária. Ou seja, tinha se passado apenas algumas horas na Terra, enquanto que no espaço foram cerca de três dias.
-Está com fome? –Kevin perguntou, indo para a cozinha lentamente.
-É, um pouco e você? –Ben acompanhou o amigo, também andando devagar.
-Também. Vou pedir pizza. –ele pegou o telefone que tinha pendurado na parede e discou para a pizzaria.
Depois de comerem uma pizza gingante e beberem uma garrafa inteira de refrigerante, sentiam-se sonolentos e precisavam dormir urgentemente. Os últimos eventos tinham sugado todas as suas forças.
Quando Ben vestiu o conjunto de moletom que Kevin lhe emprestou, conseguiu sentir o cheiro de loção pós-barba que o amigo exalava, era um cheiro muito bom. Sentiu o rosto corar por pensar que isso era atraente.
Sem mais delongas, trocou de roupa e saiu do banheiro, que ficava na suíte do moreno. Ele já estava deitado na cama king size, com os olhos fechados, apesar de não estar dormindo.
-Se você contar pra alguém que nós dormimos na mesma cama, eu te mato Tennyson. –ele disse sonolento.
-Tudo bem, sigilo absoluto. –o mais novo se deitou, puxando as cobertas até as orelhas. –Boa noite.
-Pra você também...
Por mais que tentassem dormir, algo os mantinha despertos. Podia ser a adrenalina ainda correndo pelas veias, já que mal tinham completado a missão. Ben virou-se ficando de frente para o amigo.
-Kev? –chamou sussurrando.
-Fala... –ainda estava de olhos fechados.
-Tá dormindo?
-Se eu estivesse você teria me acordado, sorte sua que não estou conseguindo dormir. –ele retrucou, abrindo os olhos e encarando o amigo.
-É, também não consigo dormir... –Ben ajeitou as cobertas.
-Desembucha. Quando você faz essa cara é porque quer dizer alguma coisa. –o moreno exibiu um sorriso de vitória.
-Como você sabe tantas coisas sobre mim? Fico impressionado com isso. –ele franziu as sobrancelhas, incrédulo. –Por acaso você tem poderes telepáticos e não me contou?
-Você é transparente pra mim, Benjy. –o moreno deu uma risada e depois ficou sério. –O que você quer conversar?
-Você e a Gwen...
Foi só dizer esse nome que Kevin sentiu todas suas resistências indo abaixo, aquela situação ainda mexia com ele. Nunca quis tanto ficar com uma menina, tê-la ao seu lado e fazê-la feliz, porém eram diferentes demais.
Existiam certas barreiras que nunca poderiam ser transpassadas e o passado dele era uma delas. A descendente de Anodita nunca iria conseguir entender porque mesmo depois de todos os problemas que ele enfrentou, continuava no mesmo estilo de vida.
Enquanto que para ele, as coisas eram completamente diferentes. Antes, Kevin roubava e fazia o que bem entendia, sendo que agora apenas fazia pontes entre compradores e vendedores, algo muito distante do que um dia já fez.
-O que tem a gente? –cortou grosseiramente o amigo, fechando o rosto.
-Calma, Kev... –Ben levantou as sobrancelhas, surpreso pela atitude explosiva. –Só queria que você soubesse que independente do que acontecer entre vocês, vou sempre torcer para que sejam felizes, estando juntos ou não.
-É que esse assunto mexe comigo. –o moreno mudou de posição, fitando o teto. –Fico puto só de pensar que ela não confia em mim.
-Tenho certeza de se você der um tempo, Gwen vai pensar e refletir. –o mais novo continuou na mesma posição, olhando o perfil de Kevin.
-Preciso te contar uma coisa...
-O que foi? –ele sentiu o sangue gelar nas veias.
-Minha mãe está viva e quer falar comigo.
