Cena 3.9

Depois de sair da sala, Carter foi direto pra recepção.

JOHN: Hei Frank, você viu a Abby?

FRANK: Ela está no intervalo.

JOHN: Obrigado. – ele respondeu saindo de lá.

Quando ele saiu de lá, deu de cara com ela encostada num poste, fumando. Ele balançou a cabeça e se aproximou.

JOHN: Hei. – ela olhou pra ele.

ABBY: Hei. – ela respondeu olhando pra frente, já prevendo o que ele ia falar.

JOHN: Eu achei que você tinha parado.

ABBY: Eu parei.

JOHN: Então o que é isso?

ABBY: Isso? – ela indagou mostrando o cigarro. Ele abaixou a cabeça e a encarou novamente em resposta – Eu não sei. Não tava nem com vontade. – ela respondeu sem encará-lo – Talvez seja um ritual.

JOHN: Como assim? – ele indagou olhando pra ela, que o encarou rapidamente.

ABBY: Eu sempre fico nesse estado quando não estou me sentindo bem. Talvez seja um modo de me sentir ainda pior... continuando com meus hábitos asquerosos. – ela falou dando um sorriso. Carter mal esperou ela terminar, tirou o cigarro da boca dela e jogou no chão, apagando-o. Abby olhou pra ele incrédula.

JOHN: Eu não vou deixar você fazer isso com si mesma de novo. – ele afirmou olhando pra ela, que passou a olhar pra frente.

ABBY: E quem é você pra fazer isso? – Abby indagou. Ele olhou pra ela – Obrigada, mas eu não preciso de um super-herói agora. – ela disse dando um sorriso e o encarando. Carter abaixou a cabeça decepcionado, e hesitou um pouco antes de responder.

JOHN: Eu não sou e nem quero ser um super-herói. Eu estou sendo seu amigo. – ela olhou pra ele – E também o cara que quer ficar com você. – ele finalmente falou e ela ficou paralisada olhando pra ele. Os dois ficaram naquele estado durante alguns segundos – Ele acordou. Pablo. – ele afirmou – Por que você não fala com ele? Ele gostaria de te ver e isso te faria bem. – ele disse olhando pra ela.

ABBY: John...

JOHN: Não vamos falar sobre isso agora, ok? – ele pediu a encarando – Como eu disse antes, nessa situação, eu sou seu amigo acima de tudo.

ABBY: Meu melhor amigo. – ela afirmou sorrindo.

JOHN: Talvez um dia eu consiga ser algo mais... algo que eu quero ser mais que isso. Talvez um dia você acredite em mim, mesmo eu sabendo o quanto é difícil. – ele falou e olhou pra ela. Abby hesitou um pouco antes de colocar a mão direita num lado do rosto dele. Carter virou um pouco o olho e consequentemente o rosto, olhando pra sua mão. Ele voltou a olhá-la e colocou sua mão sobre a dela, a tirando dali e a segurando.

JOHN: Vamos. – ele pediu olhando pra ela. Abby acenou e os dois saíram dali lado a lado e de mãos dadas.

Cena 4.0

Os dois foram até o quarto do menino e Carter decidiu esperar do lado de fora. Ele observou Abby entrar lentamente no quarto, se aproximar do garoto e segurar sua mão sorrindo. O menino a acompanhava com os olhos.

ABBY: Oi. – ela falou baixinho – Você lembra de mim?

PABLO: Dra. Lockhart – ele respondeu. Ela fez uma careta.

ABBY: É melhor você me chamar só de Abby. Lockhart parece muito velha. – ele sorriu. – Como você está se sentindo?

PABLO: Bem. – ele respondeu.

ABBY: Tem certeza?

PABLO: Tenho.

ABBY: Ok. Isso é muito bom, porque tem uma pessoinha lá embaixo que não pára de perguntar por você. - os dois se olharam – Ela é menor que você, tem cabelo preto encaracolado... – o garoto sorriu – Quase que obriga os enfermeiros a trazerem ela aqui.

PABLO: Você pode falar pra ela que eu estou bem? – ele indagou.

ABBY: Claro. – ela respondeu sorrindo.

PABLO: Eu queria ver a Patricia. – ele afirmou olhando pra Abby.

ABBY: Eu sei, querido. Mas agora não dá porque você ainda tá em recuperação, mas eu prometo que assim que você melhorar, eu trago ela aqui, tudo bem?

PABLO: Ok. – ele balançou a cabeça. Os dois ficaram em silêncio.

PABLO: Eu vou perder minha perna? – ele perguntou com medo.

ABBY: Não, não. – ela respondeu rapidamente balançando a cabeça. – Vai dar tudo certo. Você e a sua irmã ainda vão brigar e discutir durante muito tempo. – ela afirmou o fazendo sorrir.

PABLO: E os meus pais? – os dois se olharam – Eles parecem triste.

ABBY: Eles estão muito abalados, mas é só porque os pegou de surpresa. Agora que eles sabem que vocês estão bem, eles vão se acalmar. – ela assegurou – Eles estão muito felizes porque vocês estão vivos. – ele ficou em silêncio.

ABBY: Pablo... – ela sentou numa cadeira – O que exatamente aconteceu com vocês? – ele abaixou a cabeça – Quem estava dirigindo? – ele ficou calado – Pablo, por favor. Eu não posso ajudar vocês sem saber o que houve. – ela afirmou olhando pra ele. O garoto hesitou um pouco.

PABLO: Foi eu quem tava dirigindo. – ele respondeu sem encará-la – Eu a obriguei a entrar no carro. – Abby balançou a cabeça confusa.

ABBY: Por que você fez isso? – ela perguntou calmamente. Ele começou a chorar. – Ok, ok, você não precisa falar mais nada, eu prometo que não vou mais...

PABLO: Ela bateu na Patty. – Abby o encarou.

ABBY: Quem?

PABLO: A Sra. Lutterman. – Abby fez uma cara de confusão – Ela é a babá. – ele explicou.

ABBY: Ela bateu em vocês? – ela indagou incrédula.

PABLO: Ela estava com raiva da minha irmã. – ele respondeu.

Alguns minutos depois...

MÃE: Ela bateu neles?! – ela perguntou indignada, enquanto ela, Carter, Abby, o marido e a assistente social conversavam no corredor do E.R.

JOHN: Eles já tinham reclamado de algo assim? – ele perguntou pra mulher.

MÃE: Não, ela sempre foi muito bozinha com eles. Até mesmo quando eu ficava brava, ela defendia os dois. Mas... – ela parou de falar.

ASSISTENTE: Aconteceu alguma coisa com ela nesses últimos dias que mexeu com seu humor ou algo parecido?

PAI: Ela terminou com o noivo, eu acho. – Os três encararam o marido – Eles viviam brigando. Teve uma vez que ela chegou em casa com o olho roxo. Minha mulher perguntou porquê, mas ela não quis admitir. Há alguns meses, ela começou a ter problema com dinheiro, sempre o culpando por estar desempregado. Ela disse que ele só trazia dívidas pra ela e resolveu acabar o noivado.

ASSISTENTE: Quando isso aconteceu? – ele indagou.

PAI: Anteontem. – a assistente, e os dois se olharam.

MÃE: O Pablo pegou o carro pra fugir dela? – ela indagou tentando entender.

ABBY: Ele sentiu que a irmã estava sendo ameaçada e tentou salvá-la. Ele estava protegendo-a. – ela afirmou.

MÃE: Oh, Deus. – o marido a abraçou.

ASSISTENTE: Ok. Eu vou falar com Patricia pra ver se ela conta sua versão e depois procuro vocês. Talvez fosse melhor se você a levasse pra comer alguma coisa na cafeteria. – ela sugeriu pro marido.

PAI: Obrigado. – ele agradeceu o conselho.

MÃE: Eu não quero sair de perto deles... – ela falou baixinho abraçada com o marido.

PAI: Ok, ok. – ele respondeu a confortando. A assistente entrou na sala e Carter e Abby se afastaram de lá. Os dois chegaram à recepção e ela foi logo se apoiando numa bancada, cobrindo o rosto com as mãos.

JOHN: Você está bem? – ele perguntou preocupado parando ao lado dela. Ela olhou pra ele.

ABBY: Tentando ficar. – ela respondeu ainda com a mão no cabelo.

CHUNNY: Abby, Carter! – ela gritou do corredor – O garoto, Pablo, sofreu uma parada. – Abby olhou pra ele e saiu correndo. Os dois foram direto pela escada, desconsiderando enfrentar a fila do elevador.

Sala de Cirurgia

ABBY: O que aconteceu? – ela indagou ao entrar na sala junto com ele e dar de cara com uma residente que examinava o menino e dois enfermeiros.

MÉDICA: Ele teve uma parada. – ela informou um pouco desesperada.

ABBY: 200mg de Ativan.

JOHN: Preparar o desfibrilador e carregar em 90. – ele pediu – Iniciar ressuscitação.

ABBY: O que diabos vocês fizeram?! – ela indagou olhando pra médica enquanto fazia a massagem.

MÉDICA: O que?

ABBY: Ele estava ótimo há 5 minutos atrás. – ela afirmou ironicamente.

JOHN: Abby. – ele pediu olhando pra ela.

MÉDICA: Eu não fiz nada! Só estava examinando o garoto.

ABBY: É, sei. – ela respondeu ainda mais sarcástica. A residente olhou pra ela revoltada e se retirou da sala.

ENFERMEIRO: Pás carregadas. – ele avisou.

ENFERMEIRA: Nós perdemos o pulso! – ela informou quando o monitor disparou.

JOHN: Afastem-se. – ele pediu dando o choque.

ENFERMEIRA: Ainda fibrilando.

JOHN: Outra de 90. Afastem-se. – ele deu outro choque.

ENFERMEIRA: Sinus. – ela falou olhando pra Carter.

JOHN: Oxigenação a 90, - ele pediu – Cadê o RX?

ENFERMEIRO: Aqui. – ele lhe entregou o exame. Carter ficou algum tempo parado o examinando.

ABBY: O que foi? – Abby perguntou olhando a expressão dele.

JOHN: Ele tem uma hemorragia na altura do peito. – ele respondeu olhando pra ela, que fechou os olhos inconformada.

JOHN: Você. – ele apontou pra enfermeira – Chame o Dubenko aqui. Agora! – ela saiu correndo até o telefone – Lâmina 2.

ABBY: O que você vai fazer? – ela indagou.

JOHN: Uma incisão. Se continuar com a hemorragia, ele pode morrer. É a única chance que ele tem. – Carter olhou pra ela esperando um consentimento. Ela hesitou um pouco.

ABBY: Tudo bem, faça. – ela respondeu balançando a cabeça.

JOHN: Certo. Tubo 3.0. – ele pediu enquanto fazia um pequeno corte no menino próximo ao local da hemorragia.

ABBY: 50cc de soro e 1l de O positivo.

ENFERMEIRO: Pressão em 8/6.

JOHN: Fio de corte e sucção pra Abby. – ele pediu posicionando o tubo.

ENFERMEIRO: Aqui. – ele deu os instrumentos pra ela.

JOHN: Eu quero que você fique segurando esse tubo aqui enquanto eu tento encaixar o fio no lugar certo, tudo bem?

ABBY: Certo.

JOHN: Ok... Vamos. – eles iniciaram o processo. Carter movia a mão lentamente enquanto Abby o ajudava olhando pro garoto às vezes.

JOHN: Não... – ele afirmou se posicionando melhor e tentando encaixar o fio.

ENFERMEIRO: Batimentos em 52. – ele avisou encarando o monitor. Abby olhou pra Carter.

JOHN: Quase... Vamos, Pablo...

ABBY: 1mg de morfina. – ela pediu pro enfermeiro.

JOHN: Aí, aí, aí. – ele afirmou parando os movimentos – Pinça e Sucção. – Abby lhe deu os instrumentos. Carter colocou o começo do fio dentro do aparelho de sucção, puxando o sangue. – Ele precisa disso durante 1 minuto e... pronto. Desligue a motor. – o enfermeiro obedeceu – Ok, eu terminei.

ENFERMEIRA: Batimentos subindo.

DUBENKO: O que aconteceu com o garoto? – ele indagou aparecendo na sala.

JOHN: Hemorragia interna. Vocês não devem ter visto durante a cirurgia. – ele respondeu. Dubenko o encarou durante alguns segundos.

DUBENKO: Como está a pressão? – ele perguntou pro enfermeiro.

ENFERMEIRO: 8/6. – ele respondeu.

DUBENKO: A hemorragia já foi controlada? – ele afirmou olhando pro que Carter fizera.

JOHN: Já.

DUBENKO: Ok... Preparar o desfibrilador.

JOHN: O que?!

DUBENKO: Carregar em 120.

JOHN: Espera aí. – ele exclamou – O que você está fazendo? – o cirurgião o encarou.

DUBENKO: Se o incidente tiver mesmo ocorrido durante a cirurgia como você disse, a essa hora o pulmão e o cérebro já devem estar cheios de sangue. Se nós não bombearmos o coração, esse garoto pode morrer. – ele explicou pacientemente. Carter o encarou e Abby ficou olhando pra ele.

ENFERMEIRO: O desfibrilador está pronto. – avisou o enfermeiro.

DUBENKO: Eu posso dar o choque ou você ainda tem alguma pergunta? – ele indagou olhando pra Carter, que não respondeu.

DUBENKO: Ótimo. 1mg de Epinefrina.

JOHN: Você acha que pode salvá-lo? – ele perguntou olhando pra Dubenko.

DUBENKO: Talvez seja tarde demais, mas eu posso tentar. – ele respondeu. Carter acenou com a cabeça.

ENFERMEIRA: Nós perdemos o pulso. – informou a mulher quando o monitor disparou.

DUBENKO: Começar massagem. – ele pediu. –Viu o que eu falei? – ele perguntou olhando pra Carter, que mais uma vez o encarou calado.

DUBENKO: Ok. Afastem-se. – ele deu o choque.

ENFERMEIRA: Ainda fibrilando.

DUBENKO: É... isso não vai adiantar. Lâmina 10 e Shiley 15. – enquanto ele falava, Abby chegou mais perto do menino, segurando sua mão e passando a outra no seu cabelo.

ABBY: Vai dar tudo certo. – Carter ficou observando tudo - Vai dar tudo certo. – ela repetiu tentando ter certeza daquilo também.

DUBENKO: Dra. Lockhart. – pediu Dubenko. Ela se afastou e ele começou o procedimento. – Afastador.

ENFERMEIRO: Batimentos em 60. – ele avisou olhando o monitor.

JOHN: 200mg de Ativan e 50cc de soro. – ele pediu pra enfermeira.

ABBY: 1mg ampola de epinefrina.

DUBENKO: Preparar pás internas e carregar em 60. – Carter olhou pra Abby e, em seguida, pro cirurgião.

DUBENKO: Ok. Afastem-se. – ele deu o choque.

ENFERMEIRO: Batimentos caindo. - ele informou.

DUBENKO: Outra de 60. – ele pediu pacientemente – Afastem-se. – ele deu outro choque.

ENFERMEIRA: Ainda fibrilando. – os 5 se olharam.

DUBENKO: Quanto tempo? – ele indagou.

ENFERMEIRA: 47 minutos. – ela respondeu. Abby olhou pra Carter desesperada.

JOHN: Talvez se aumentássemos a carga... – ele tentou.

DUBENKO: Não vai adiantar. Vocês podem declarar se quiser. – ele afirmou. Abby virou o rosto inconformada.

JOHN: Não. – ele respondeu balançando a cabeça e olhando pra ela – Nós não vamos desistir. – os dois se olharam – Carregar em 90. – ele pediu pra enfermeira - Abby, a massagem. – ele disse olhando pra ela. Os dois se encararam durante alguns segundos.

ABBY: 1mg de etomidate e 100 de sux. – ela pediu fazendo o que ele pedira.

ENFERMEIRA: Pás carregadas. – ela informou olhando pra ele sem acreditar muito na sua tentativa.

DUBENKO: Dr. Carter, isso é inútil. – ele falou calmamente.

JOHN: Ok. Afastem-se. – ele deu o choque.

ENFERMEIRA: Nada. – ela informou. Ele e Abby se olharam.

ABBY: Continuando ressuscitação. – ela afirmou continuando o procedimento.

JOHN: Certo. Carregar em 120. Vamos, Pablo!

DUBENKO: Parem. – ele pediu novamente falando no tom normal.

JOHN: Afastem-se! – ele deu o choque.

ENFERMEIRA: Sem pulso. – ela informou olhando pra ele.

ABBY: O que mais nós podemos tentar? – ela perguntou já sabendo a resposta.

DUBENKO: Parem. - reafirmou o cirurgião – Vocês não podem fazer mais nada. Esse garoto está morto. Se continuarem com isso, a única coisa que vocês farão será machucá-lo ainda mais. Então... Parem. – ele mandou olhando pros 2, que desviaram os olhares. – Hora da morte: 18:3...

ABBY: Nós podemos tentar doses altas. – ela afirmou o interrompendo – Ou qualquer outra coisa. – ela disse olhando pra Dubenko, e em seguida, pra Carter que balançou a cabeça negativamente. – Não! Eu não vou aceitar isso! – ela começou a gritar com raiva ABBY: Você é chefe da cirurgia, faça alguma coisa! – ela mandava encarando Dubenko, que não respondeu, só a olhava – Carter... – ela praticamente implorava com a voz embargada

JOHN: Eu sinto muito. – ela olhou incrédula pra ele, lhe pedindo ajuda com o olhar. Mas pra sua decepção, ele apenas abaixou a cabeça. Dubenko aproveitou o silêncio para cobrir o garoto com o plástico. Diante da cena, Abby virou o rosto, tirou a luva e o avental, e os jogou no chão, saindo da sala inconformada. Carter encarou Dubenko durante alguns segundos, e acabou fazendo o mesmo.

Sala dos Médicos

Depois de deixar a sala, Carter jogou o avental no meio do corredor da cirurgia, descendo as escadas em seguida e indo atrás dela no E.R.

JOHN: Hei. – ele falou entrando na sala. Abby olhou-o rapidamente, e ele aproveitou pra se aproximar um pouco.

JOHN: Você está bem? – ele indagou preocupado.

ABBY: Ele tinha nove anos e me pediu pra ajudar a irmã. – ela afirmou ainda sem olhá-lo – Pelo menos ela eu consegui ajudar. – Abby deu um sorriso irônico.

JOHN: Hei, não diga isso. Não foi sua culpa o que aconteceu.

ABBY: Ele confiou em mim. Ambos confiaram.

JOHN: Abby...

ABBY: Eu disse pra eles que tudo ia ficar bem e agora... O que eu vou falar pra menina?

JOHN: Você não precisa falar nada.

ABBY: Com que cara eu vou dizer praqueles pais que o filhinho deles... morreu? Eu fiz eles acreditarem que eu ia conseguir salvar os dois... – ela deixou uma lágrima cair – Eu os fiz... – Carter a puxou para um abraço, impedindo-a de continuar.

JOHN: Você não pode se culpar. Nada do que houve foi sua culpa. Eles vieram aqui atrás de ajuda e nós ajudamos. Ninguém teria conseguido impedir que isso acontecesse... Você não fez nada errado, muito pelo contrário, você ainda lhe deu mais algumas horas de vida, e eu tenho certeza que tanto ele quanto os pais são gratos por isso. – ele afirmou passando a mão no seu cabelo – E a menina... ela está bem. Se você quiser contar pra ela, você pode, mas se não... você não precisa.

ABBY: Eu não quero mentir pra ela.

JOHN: Você não tem que mentir.

ABBY: Nem quero esconder também.

JOHN: Eu sei, eu sei. – ele a segurou ainda mais forte – Você vai saber o que fazer. – ele afirmou a confortando. - Nós vamos dar um jeito.

ABBY: Nós vamos? – ela indagou. Ele hesitou um pouco.

JOHN: É, nós vamos. – ele afirmou balançando a cabeça e a encarando. Ela ficou em silêncio durante algum tempo, colocando ambas as mãos ao redor do corpo dele logo em seguida, e ficando naquela posição durante algum tempo. Os dois se abraçaram fortemente, com ele sempre tendo uma mão no seu rosto, e outra na dela.

CHUNNY: Abby. – A enfermeira entrou na sala e os dois se soltaram. – Os pais querem saber o que aconteceu. – ela avisou. Abby balançou cabeça positivamente.

ABBY: Eu já vou.

CHUNNY: Ok. – ela saiu da sala. Abby deu alguns passos em direção à porta.

JOHN: Hei. – ele segurou a mão dela. Os dois se olharam, e ela apertou ainda mais sua mão em resposta. Ele sorriu um pouco e saiu de lá junto com ela.

Trauma 3

Assim que eles chegaram perto da sala, puderam ver os pais do lado de fora andando de um lado pro outro, apreensivos.

MÃE: Doutora. - ela afirmou assim que viu os dois chegarem.

ABBY: Oi. – ela respondeu com a voz diferente. A mãe a encarou durante algum tempo.

MÃE: O que aconteceu? O que vocês estão escondendo de mim?

ABBY: O Pablo teve uma dificuldade depois da cirurgia. Ele teve uma hemorragia interna e nós tivemos que dar choques pra fazê-lo voltar. – o pai segurou a mão da mulher desesperado – Mas infelizmente, nada adiantou.

MÃE: Do que você tá falando? – ela indagou tentando não se convencer do que tinha acontecido.

ABBY: Eu sinto muito. – ela falou sem encará-la.

MÃE: Não! – a mulher começou a gritar – Não! Por que você está me dizendo isso?! É tudo mentira! Diga-me que é mentira... – ela segurou Carter pela camisa e começou a chorar – Por favor... – ele olhou pra ela e abaixou a cabeça.

JOHN: Nós fizemos o melhor que podíamos, mas ele não respondeu.

MÃE: Não... – ela implorou se agachando no chão e abraçando seu próprio corpo tentando transmitir segurança.

PAI: Ele... – o pai tentou falar – Morreu? – ele indagou confuso.

JOHN: Eu sinto muito. – ele falou com a voz baixa. O pai deixou uma lágrima cair, mas logo se controlou tentando ajudar a mulher.

PAI: Nosso menininho... – ele suplicou a abraçando no chão também. Sem agüentar ver aquela cena, Abby saiu de lá. Carter a observou e foi atrás dando privacidade ao casal.

ABBY: Eu não posso. – ela afirmou assim que o percebeu atrás dela.

JOHN: Não pode? – ele indagou confuso.

ABBY: Eu não sei como falar pra ela... – ela afirmou o fazendo entender.

JOHN: Você não vai. Eu falarei. – ele afirmou seguramente. Abby olhou pra ele. – Tenta melhorar. Eu vou falar com a menina. – ele afirmou limpando o rosto dela. Ela ficou calada e ele saiu em direção à porta.

ABBY: John... – ele se virou dando um sorriso pra ela em sinal de aprovação e lhe oferecendo a mão.

Trauma 3

Assim que os dois entraram juntos na sala, a menina ficou observando-os com o olhar e rindo.

PATRICIA: Deu certo?! – ela perguntou sorrindo ainda mais.

JOHN: O que? – ele indagou confuso.

PATRICIA: Você contou pra ela?! – Abby olhou pra Carter sem entender.

JOHN: Mais ou menos... Mas isso eu vou ter que te falar depois. – ele afirmou piscando pra ela e se sentando num banquinho perto dela, segurando sua mão e lhe dando um sorriso, logo retribuído. Os dois ficaram em silêncio e Abby aproveitou pra se aproximar.

ABBY: Como você está se sentindo? – ela perguntou dando um sorriso.

PATRICIA: Bem... – ela respondeu sem parecer muito sincera – Quando eu vou mudar pra outro quarto?

JOHN: Você não gosta desse?

PATRICIA: Não é isso, é que... Parece pior do que realmente é. – ela explicou o fazendo sorrir.

JOHN: Se esse é o caso, então eu prometo que hoje mesmo eu arranjo o melhor quarto desse hospital... só pra você.

PATRICIA: Jura?! – ela indagou empolgada.

JOHN: Juro. – ele respondeu com uma voz diferente.

PATRICIA: Mas tem que ser um com duas camas... pra mim e pro meu irmão. – ela afirmou pensativa. Carter a olhou tentando sorrir, enquanto Abby se aproximou mais um pouco alisando o cabelo dela. A menina os olhou durante algum tempo sem entender.

ABBY: Patricia, nós... – ela tentou falar, mas parou quando sentiu a voz embargar. A garota a encarou durante alguns segundos, deixando uma lágrima cair logo em seguida.

JOHN: Querida, o Pablo estava muito doente... – ele tentou explicar. – Nós tentamos, mas não conseguimos ajudá-lo como fizemos com você... – ele falou olhando pra ela com uma cara péssima. Patricia olhou pro teto balançando a cabeça positivamente.

PATRICIA: Doeu? – Carter olhou pra ela – Quando ele foi pro céu? – ele ficou calado – Foi um anjo que levou ele? Porque ele merece, ele é um irmão perfeito. – ela afirmou finalmente o encarando. Carter hesitou um pouco.

JOHN: Sim... ele foi levado por um anjo. – respondeu sorrindo.

PATRICIA: Você viu? – ela indagou curiosa. Ele a encarou.

JOHN: Ele era lindo... Com uma luz ao seu redor, um vestido branco e cabelo loiro...

PATRICIA: Era encaracolado? – Carter sorriu.

JOHN: Era. – ele respondeu finalmente. A menina sorriu em resposta e voltou a encarar o teto.

PATRICIA: Era o Gabriel. – ela afirmou sorrindo. John aproveitou pra olhar pra Abby, que observava a menina com um olhar triste Os três ficaram daquele jeito durante uns três minutos antes da garota finalmente quebrá-lo.

PATRICIA: Eu posso vê-lo? – Carter olhou pra Abby e em seguida pra ela.

JOHN: Tem certeza? – ela acenou com a cabeça. – Tudo bem, vamos. – ele se levantou, desligou os monitores e a pegou no colo.

Sala de Cirurgia

07h14min da noite

Ele a levou no colo até a sala, sendo acompanhado por Abby. Quando chegaram ao local, ele colocou a menina no chão e ficou mais afastado indicando que ela fizesse o que era necessário. Patricia se aproximou aos poucos do irmão, observando o saco que cobria o corpo dele. Carter olhou pra Abby que acenou com a cabeça. Ele se aproximou e tirou o saco. A menina sorriu à imagem do irmão "dormindo" e chegou mais perto segurando sua mão. Carter se afastou indo pro lado de Abby. Os três passaram mais de 8 minutos daquele jeito, antes da menina finalmente começar a chorar e vir na direção deles. Carter se agachou a abraçando. Abby o assistiu pegá-la no colo e os dois se sentarem numa cadeira. Ela se aproximou dos dois passando a mão no rosto da menina.

ABBY: Tá tudo bem. – ela afirmou olhando pra garota. – Chorar faz bem.

PATRICIA: Eu tô com saudade dele! – ela respondeu se desesperando mais um pouco.

ABBY: Eu sei, meu amor, eu sei. – ela disse alisando o cabelo da garota. Patricia desceu do colo dele e a abraçou. Carter e Abby se olharam e ela ficou lá, consolando a garota.

Recepção

Mais tarde...

Como havia prometido, Carter conseguiu a transferência da menina para um quarto no andar de cima. Os pais do menino pareceram se conformar mais depois de terem uma conversa com a filha. Assim que viu que não agüentava mais aquela situação, Abby foi embora (não sem antes ter uma conversa com a menina, claro).

JOHN: Hei, Susan, você viu a Abby?

SUSAN: Ela já foi. – ela respondeu olhando pra ele – Eu tô preocupada com ela. Não sei, mas ela me pareceu tão triste hoje.

JOHN: Foi o caso que nós atendemos. As duas crianças, o menino morreu.

SUSAN: Oh... – Susan fez uma cara de tristeza. Carter a encarou durante algum tempo.

JOHN: Hei, você pode me cobrir até o fim do turno? Por favor, faltam só duas horas.

SUSAN: Carter...

JOHN: Eu venho amanhã no seu lugar. – ele tentou;

SUSAN: Pode ir! – ela afirmou sem hesitar e sorrindo. Ele fez uma cara de "interesseira" pra ela e saiu correndo de lá.

Casa de Abby

09h40min da noite

Música de Fundo: I'll be there for you (Bon Jovi)

Cena 4.1

Ela tava sentada encolhida no sofá quando ouviu alguém bater na porta. Esperou algum tempo, na esperança de que a pessoa desistisse, mas quando ouviu a voz dele a chamando, ela resolveu abrir. Os dois se encararam assim que ela apareceu na porta.

JOHN: Oi. – ele foi o primeiro a falar.

ABBY: Oi. – ela respondeu sem ânimo.

JOHN: Tá tudo bem?

ABBY: Tá, por quê?

JOHN: Nada. Só acho isso bom. – ela respirou fundo.

ABBY: O que você quer Carter?

JOHN: Nada.

ABBY: O que você veio fazer aqui?

JOHN: Eu não posso falar.

ABBY: Carter...

JOHN: Só posso fazer. – ela olhou pra ele confusa. – Vem aqui. – ele a puxou pela mão, impedindo que ela se negasse. Abby estranhou um pouco o caminho que ele fazia, mas antes que pudesse perguntar alguma coisa, ele saiu falando.

JOHN: Deita. – ele afirmou apontando a cama.

ABBY: O que?!

JOHN: Deita. – ele repetiu.

ABBY: Carter, o que...

JOHN: Faça o que eu tô pedindo. – ela olhou pra ele – Confia em mim. Por favor. – ela o encarou durante algum tempo.

ABBY: John, o meu dia não foi dos melhores, e honestamente...

JOHN: Por favor. – ele pediu a interrompendo. Abby hesitou um pouco, mas como sabia que ele não ia desistir, acabou obedecendo. Ela deitou e virou de lado, evitando encará-lo. Alguns segundos depois, sentiu um peso sobre a cama e ele a abraçar por trás. Quando ela ia se virar, mais uma vez ele se manifestou antes.

JOHN: Eu vim aqui como seu amigo. Eu vou te proteger do mundo todo. Nenhum sofrimento vai chegar em você sem antes passar por mim. Eu não vou deixar que nada te aconteça, Abby. – ele afirmou enquanto ela fechou os olhos deixando uma lágrima cair. – Vai dar tudo certo. – ele falou baixinho quase num sussurro.

ABBY: Como você pode saber disso? – ela perguntou num tom quase mais baixo que o dele. Carter respirou fundo.

JOHN: Eu sei. – ele assegurou a segurando ainda mais forte. Ela não respondeu, apenas balançou a cabeça positivamente. Carter colocou uma mão sobre o ombro dela, apertando um pouco indicando que estaria ali pro que der e viesse.

ABBY: Obrigada. – foi a única coisa que ela falou. Ele continuou em silêncio com a mão no seu ombro, descendo delicadamente pelo braço e subindo em seguida. Os dois fecharam os olhos e dormiram.

2:47 da madrugada

Segunda-feira

Ainda estava escuro quando ele abriu os olhos com dificuldade sentindo uma mão alisando seu cabelo. Quando finalmente conseguiu enxergar direito, ele viu que ela o encarava sorrindo.

JOHN: O que foi? – ele perguntou preocupado.

ABBY: Nada... eu só estava pensando. – ela respondeu sem deixar de encará-lo.

JOHN: Eu devo perguntar no que ou deixo passar? – ele indagou olhando pra ela.

ABBY: Deixar passar... – ela respondeu virando os olhos e sorrindo. Carter a observou durante algum tempo. Abby parecia confusa, pensativa.

JOHN: Hei. – ela olhou pra ele – O que é? – ele indagou preocupado novamente. Ela hesitou um pouco, olhando pro teto, pro lado e finalmente pra ele. Os dois ficaram se encarando antes dela quebrar o silêncio.

ABBY: Por que você voltou? – ela indagou – O que aconteceu? – ela perguntou olhando nos olhos dele. Carter se mexeu um pouco.

JOHN: Você quer saber o que aconteceu? – ela acenou.

ABBY: Eu preciso. – Carter a encarou durante algum tempo. - "Você aconteceu, Chicago aconteceu" – ele pensou. Ele demorou um tempo pra responder.

JOHN: As coisas mudaram. – Carter afirmou passando a encarar o teto. – Quando nós estávamos aqui tudo era ótimo, perfeito. Mas aí... aí nós fomos embora. Eu não sei como explicar. Não era igual. Eu só... – ele parou de falar – Eu senti que tinha deixado algo aqui. Nós estávamos lá, mas minha cabeça tava longe, eu não me sentia completo, não me sentia feliz. Faltava alguma coisa. Uma coisa que eu deixei aqui e voltei pra buscar. – ele deu um sorriso tímido – Eu estou preso a essa coisa e não sei como fugir. Não sei exatamente sem tem uma saída. – ela o ouvia atenta – A Kem descobriu antes de mim. – ele olhou pra ela – Eu não sei se conseguiria viver sem essa coisa. Aqui. Eu precisava estar aqui. Eu sentia falta dela. Eu precisava dela. – ele afirmou a encarando. Abby o olhou e acabou por dar um sorriso, afundando a cabeça no peito dele.

ABBY: Obrigada por ter voltado. – ela disse baixinho. Ele respirou fundo.

JOHN: Obrigado por ter me dado um motivo. – ela sorriu e fechou os olhos, o abraçando e dormindo com o rosto no seu peito.