Capítulo Onze

Beautiful Day

- É nossa vez.

Ron olhou inexpressivamente para ela por alguns momentos.

- Nossa vez? Nossa vez no quê? – então, ele entendeu. – É nossa vez? – Hermione assentiu. Ron se soltou contra ela, seu rosto escondido no colo de Hermione, os braços ao redor da cintura dela.

Hermione piscou em surpresa. Qualquer que fosse a reação que esperava que Ron tivesse, essa não passara por sua mente. Os ombros dele começaram a tremer, e seus braços se apertaram ao redor da cintura dela.

- Ron? – ele balançou a cabeça, e ela acariciou sua nuca. – Ron? – chamou com incerteza. Quando ele finalmente ergueu os olhos, ela ficou sem fala. Ele estava rindo, enquanto lágrimas corriam por seu rosto.

Ron começou a gaguejar.

- M-m-mas como?

Hermione soltou uma risada engasgada, e secou uma lágrima no canto de seu olho.

- Ron, se você precisa perguntar como, temos muitos problemas a nossa frente.

Ron corou.

- Quero dizer, eu sei como aconteceu, mas quando...? Não fizemos nada desde... – parou de falar, seus olhos se arregalando. – Foi daquela vez?

- Tem que ser. – Hermione disse. – Estivemos muito ocupados nas semanas antes disso; mal tínhamos a energia para nos beijar quando chegávamos do trabalho.

Ron se apoiou nos joelhos, o rosto na altura do de Hermione.

- É nossa vez. – ele murmurou, antes de beijá-la, segurando seu rosto entre as mãos como se fosse um delicado pedaço de porcelana.

-x-

Hermione balançou os dedos dos pés descalços na grama. Estava esfriando, mas não estava pronta para entrar. Ron estava esticado ao seu lado sobre o cobertor, um pequeno sorriso brincando em seus lábios. Ela olhou para o céu de inicio de noite por entre as rosas.

- Você acha que papai sabe?

- Sim, acho. – Ron ergueu uma mão e arrancou uma rosa do galho a sua frente, oferecendo-a a sua esposa. – Ele provavelmente está reclamando que ainda somos muito novos.

Hermione pegou a rosa e sentiu seu cheiro.

- Eu sinto falta dele.

- Eu também. – Ron se apoiou no cotovelo. – Ele era a única pessoa que me vencia no xadrez, sabe.

Hermione sorriu.

- Perder de vez em quando é o que te mantém humilde, não é?

- Sim. Eu ainda estou me recuperando da partida que jogamos no seu aniversário. Qual foi? Dezenove?

- Esse mesmo. Você olhou para o papai como se ele tivesse crescido mais uma cabeça, derrubou seu rei e pediu por uma revanche.

- Achei que ia me molhar todo quando eu pedi permissão para me casar com você.

- Espere. – Hermione colocou uma mão sobre a boca de Ron. – Você pediu a permissão do meu pai para se casar comigo?

- É claro que pedi!

- Mas por quê?

Ron balançou a cabeça.

- Por que eu respeitava seu pai. Sua mãe, também. E não mesmo que eu ia fazer algo, como pedir em casamento sua única filha, sem a permissão deles. – Ron voltou a se deitar no cobertor. – Ficou bastante surpreso, também. Disse que não sabia por que eu estava falando com ele, desde que era você quem ia tomar a decisão final.

- Bastante arcaico se quer saber. – ela disse, jogando um pãozinho na cabeça dele.

Ron o pegou sem olhar e bufou, cortando-o em pedaços e comendo.

- Foi o que sua mãe disse. – Ron enfiou o resto do pão em sua boca. – Explicou bastante sobre você, mulher

- Como é? – Hermione perguntou astutamente.

- Todos esses defeitos na sua personalidade. – Ron riu. Estava com dificuldade em manter uma expressão séria. – Muito independente. – desistiu e, deitado de lado e encolhido, apertando o estômago, explodiu em risadas.

Hermione ofegou e começou a jogar uvas em Ron.

- Muito independente, é?

Ron, ainda rindo, segurou seus pulsos e a puxou, de modo que ela estava deitada sobre seu peito.

- Graças a Merlin por isso, também. Uma das coisas que eu amo em você. – colocou um cacho atrás de orelha dela. – Se nós tivermos uma garota, espero que ela seja como você.

Hermione beijou a ponta do nariz de Ron.

- Então, você quer que ela seja uma sabe tudo insuportável?

- Sim. Acontece que eu gosto de sabe tudo insuportável.

- E você quer que ela soque o nariz de alguém como Malfoy?

- A coisa mais brilhante que você já fez. Se eu não te amava antes disso, certamente a amei depois.

- Lisonjeiro. – Hermione sorriu afetadamente. – Se você acha que é assim que vai tirar minha calcinha, bem, funcionou.

- Minha intenção o tempo todo. – Ron jurou solenemente. – Contamos a todos no domingo? – perguntou, mudando de assunto.

- Bem mais fácil do que contar um por um. Demoraria semanas.

- Quando está planejando em contar a Jane?

- Pensei em contar sábado à tarde.

Pensativamente, Ron correu um dedo sobre a aliança de casamento de Hermione.

- Por que não a convidamos para ir ao almoço de domingo? Ela não vai a um desde antes... Antes... – Ron mordeu o lábio. Ele não queria estragar o clima.

- De o papai morrer? – Hermione terminou delicadamente. – Não tem problema em dizer. Não dizer não vai fazer doer menos.

- É. – Ron virou a palma dela e a beijou. – Eu queria que ele pudesse ver isso.

- Por que acha que ele não pode?

- Hermione?

- Ron?

- Eu amo você.

- Eu amo você, também. – Hermione se inclinou e beijou Ron.

-x-

Ron estava deitado na cama, olhando para o teto.

Eles iam ter um bebê.

Não tinha achado que seria tão aterrorizante.

No espaço de poucas horas, tinha passado de euforia para medo. Um bebê. Era incrível como algo tão pequeno podia fazê-lo se sentir tão amedrontado. Não era como se nunca houvesse estado perto de bebês. Todos tinham ficado de babá para Victoire, Isabella, Parker, Maddie ou James por, pelo menos, algumas horas. Mas até mesmo Ron tinha que admitir para si mesmo que Harry estava certo. Não era o mesmo ter um bebê com você o tempo todo. Tão impotentes e indefesos. Dependentes de você para tudo. Ron suava frio só de pensar nisso.

Pior ainda — e se fosse uma garota?

Isso fazia o estômago de Ron doer.

Que diabos ele sabia sobre garotas? Claro, tinha passado a maior parte de sua infância com Ginny, mas Ginny não tinha sido uma garota. Ela preferia caçar os gnomos do jardim a brincar com bonecas; jogava Quadribol com mais intensidade do qualquer outra pessoa que Ron conhecia, com a exceção de Oliver Wood e Harry. Ginny não era do tipo chorão e era mais durona do que a maioria, se não todos, dos seus irmãos, o próprio Ron incluso. Ela sequer gostava de rosa. Ela dizia que a cor a fazia querer vomitar quando criança. Ron fechou os olhos. Sabia que ultimamente Hermione gostava de provocá-lo dizendo que seu alcance emocional era maior que uma colher de chá, mas para ser honesto, garotas ainda o desconsertavam.

Virou-se e pousou uma mão sobre o estômago de Hermione.

- Vou dar meu melhor para não te estragar muito. – Ron murmurou. – Apenas faça uma coisa por mim, certo? Quando crescer, pode não zombar demais do seu velho por ele gostar dos Cannons?

-x-

- Por que está sorrindo? – George jogou uma caixa de feitiços de Devaneio em Ron.

- O quer dizer?

- Você está com esse, eu não sei, meio sorriso no rosto o dia todo. Tipo o gato com o canário.

- Só está um dia lindo hoje, George.

George olhou pela janela da frente e bufou. Estava chovendo pesadamente, o que começara um pouco depois de abrirem a loja.

- Você acha isso bonito? Também podemos fechar mais cedo hoje. Está pior do que parado o dia todo.

- Por que você e Katie não vão jantar lá em casa hoje, então?

- Tem certeza?

- Sim. Leve os meninos.

- Oh, agora eu sei que você pirou. Se quer passar a noite com dois pirralhos brigões.

- Vou colocar um feitiço para amortecer todas as quinas e feitiços para repelir crianças das coisas frágeis.

- Tem certeza de que quer passar por todo esse trabalho?

- George, não é grande coisa. Vá em frente, pergunte a Katie.

George cerrou os olhos para seu irmão mais novo.

- O que deu em você? Ultimamente, você tem estado quase que anti social.

- É um bom dia, só isso. – Ron gesticulou para George ir, então George deu de ombros e virou, desaparecendo com um pop.

Ron mal conseguia se conter. Ele queria ir ao topo de Westminster Abby¹ e gritar a Londres toda que ia ser pai.

Mas tinha que esperar até domingo. Era como tentar esperar pelo Natal.

George reapareceu, uma expressão de alivio e preocupação em seu rosto.

- Katie está de acordo. Ela só está feliz que não tem que tentar fazer algo para o jantar hoje, mesmo que tudo o que você sirva seja pastéis de abóbora. – George franziu o cenho. – O que espero que não seja seu plano.

Ron girou os olhos.

- É claro que não. – apontou um dedo para o próprio peito. – É de mim que você está falando.

- Oh, certo. Lapso momentâneo de atenção. – George pegou algumas caixas de Feitiço de Devaneio. – Tem certeza de que Hermione está de acordo? Ela parece um pouco doente, ultimamente.

- Oh, ela está bem. – Ron escondeu um sorriso, enquanto jogava um punhado de lixo para o mini puffes. – Ela está bem.

-x-

Katie colocou a pesada bolsa de couro no chão ao lado da porta do apartamento.

- Tem certeza de que não tem problema? – perguntou, tentando segurar firmemente o pulso de Jacob. – Não, Jacob. Nós não agarramos o gato. – disse a seu filho, enquanto ele tentava segurar o rabo peludo de Bichento.

- Não tem problema. – Hermione olhou para Bichento, equilibrado no braço do sofá. Ele tinha passado vários anos sendo carregado e acariciado, primeiro por Teddy, e depois por toda a lista de netos Weasley, e se transformava em um enorme tapete laranja perto das crianças, permitindo que elas fizessem o que quisessem, menos puxar seu bigode. – E Bichento gosta da atenção. – acariciou a parte de baixo do queixo do gato. – Não gosta, Bichento? – Bichento ergueu a cabeça, os olhos se cerrando, e ronronou profundamente.

Hermione se ajoelhou no chão e ofereceu uma mão a Jacob, que se soltou de sua mãe e foi até Hermione, os olhos azuis fixos em Bichento. Ergueu uma mão para acariciar o gato, e riu gostosamente quando Bichento lambeu sua mão. Não querendo ser deixado para trás por seu gêmeo, Fred soltou seu dragão de pelúcia e correu para investigar o que Jacob estava fazendo. Preguiçosamente, Bichento saiu do sofá e perambulou pela sala, com os meninos o seguindo de perto. Ele parava às vezes para oh-tão-casualmente lamber uma pata, e esperar até os meninos o acariciarem algumas vezes, antes de se levantar e caminhar lentamente ao redor da sala.

Hermione notou o leve franzir ansioso de cenho de Katie.

- Está tudo bem. Victoire costumava colocar vestidos e bonés nele, e ele só ficava deitado e a deixava fazer isso.

- Oh, não estou preocupada com Bichento. Tenho certeza de que ele sabe se cuidar. – Katie afastou a preocupação de Hermione sobre o gato. – Só não tenho certeza de que devíamos estar aqui, invadindo sua noite dessa maneira.

- De verdade, não tem problema. As coisas têm estado calmas por aqui ultimamente. – Hermione disse.

- Como está sua mãe?

- Bem. Ela irá ao almoço de domingo. – Hermione ficou em silêncio, observando os meninos brincar com o gato. Sentiu lágrimas cutucarem suas pálpebras. Ainda não parecia real saber que a cena acontecendo a sua frente iria, de fato, virar realidade logo. Todas as semanas e meses de espera. Finalmente tinham acabado.

- Terra para Hermione... – Katie acenou uma mão em frente aos olhos distraídos de Hermione.

- O quê...?

- Você foi a algum lugar por um minuto.

- Apenas pensando. – Hermione apontou para os meninos esparramados sobre o estômago de Bichento, esfregando os rostos no pelo macio. – Estou ansiosa por algo assim...

- Ha! – Katie bufou. – Você não quer dois ao mesmo tempo, acredite. Oh, todos dizem que você é sortuda por passar por tudo isso uma vez só, mas esquecem de mencionar que é o dobro de fraldas, o dobro do choro, o dobro de insanidade, o dobro de amamentação. – as esquinas da boca de Katie se ergueram em um sorriso suave. – Eu não trocaria por nada. Especialmente quando eles estão rindo dessa maneira. Ou quando eles resmungam um para o outro e você jura que estão planejando o caos, mas um deles te olha com o sorriso mais doce, e é a coisa mais linda que você já viu.

Katie se remexeu, contemplando seus filhos.

"Mas você percebe como eles são bastante diferentes, mesmo que sejam idênticos. Jacob odeia cochilar, e vai relutar até o fim. Fred dorme o dia todo se você deixar. O jeito que sorriem é diferente. Jacob mergulha nas coisas de cabeça e Fred fica para trás, para primeiro ver o que acontece a Jacob." Katie olhou para Hermione, sentada ao seu lado. "Por melhor que seja, você ainda fica grata quando eles vão dormir. E eles parecem tão adoráveis e inocentes em seu berço, e isso te faz querer outro." Katie suspirou, um olhar sonhador em seu rosto. "Aí, um deles acorda gritando e isso some." ela sorriu tristemente e se inclinou para mais perto de Hermione. "Mas vou te contar um segredo. George, ele é o maior marshmallow quando se trata dos meninos. Eu juro que ele daria a lua para cada um deles se ele pudesse."

-x-

Hermione estava sentada a mesa, observando Ron cortar tomates. De vez em quando, tirava um pedaço da pilha que ele ia misturar na salada.

- Pare com isso. – ele disse distraidamente.

- Parar com o quê? – perguntou inocentemente.

- Roubar meus tomates.

- Tudo bem. – respondeu, jogando o cabelo por sobre o ombro. E pegou um pedaço de cenoura, sorrindo atrevidamente para Ron. Olhou para fora pela janela. Estavam planejando comer o almoço do lado de fora, e a maior parte da família estava no jardim. – Então, como vamos fazer isso?

Ron deixou a faca de lado, e juntou os tomates em sua mão.

- Eu não sei. – admitiu. – Estava pensando nisso noite passada. – Ron colocou os tomates sobre um monte de alface. – Talvez devêssemos simplesmente contar. Nada daquela besteira de "ei, nós temos um anúncio a fazer".

- Então, você está pensando em algo como, "ei, Harry, pode me passar a salada de batata e, aliás, Hermione e eu vamos ter um bebê?" Ficou maluco? – Hermione olhou feio para Ron.

- Bem, é mais fácil do que tentar achar uma brecha na conversa daquela multidão! – Ron apontou para a janela aberta. Uma janela que nenhum dos dois percebeu estar completamente aberta, e que a família toda conseguia ouvir a conversa acalorada. – Se tivéssemos que esperar por um bom momento para contar que você está grávida, ele já vai estar embarcando para Hogwarts!

- Como você sabe que vai ser um "ele", Ronald Weasley? Pode ser um "ela", sabe!

- Eu sei! – Ron gritou. Eles tinham afastando as cadeiras e agora estavam em pé, os narizes quase se tocando.

- E por que não deveríamos fazer algo grande disso? – lágrimas de raiva se formaram nos cantos dos olhos de Hermione. – Nós finalmente podemos contar a toda maldita família que vamos ter um bebê!

As palavras caíram no silêncio pesado. Até mesmo as crianças foram silenciadas pelos gritos. Um silêncio que só foi quebrado pela fraca pergunta de Bill:

- O que você disse?

Lentamente, as cabeças de Ron e Hermione se viraram para encarar a janela. Todas as pessoas, desde Arthur até James, incluindo Andrômeda e Teddy, estavam paradas na janela, sem fala, as bocas abertas.

Ron ajeitou os ombros e segurou a mão de Hermione.

- Vamos ter um bebê.

Continua...

¹ Uma das igrejas mais importantes de Londres, com 69m de altura.

N/T: Obrigada pelos comentários.

Tradução do título do capítulo: um lindo dia.

Até semana que vem. (: