Perdidamente apaixonada. Essa era Ino Yamanaka, a grande executiva de propaganda e marketing da Sarutobi & Bailey.

Fechou os olhos úmidos, numa vã tentativa de fugir da dura realidade que se instalava de maneira racional em sua mente.

Enveredara por veredas e caminhos que jamais antes ousara pisar. Quebrara todas as promessas, todos os compromissos para consigo mesma. Fizera de seu coração um lindo presente e o en tregara a Gaara No Sabaku. Seu peito se apertava, e as lágrimas teimavam em cair.

Gaara, num charmoso erguer de sobrancelhas, fitou-a com fas cinante satisfação. Ino gostaria de poder recordar se já fora olhada daquele jeito por algum homem. Nunca, nunca antes.

— Ei! O que há? Está chorando? — Gaara ficou sério de re pente. — Por acaso eu a machuquei?

"Sim. Você abriu uma ferida incurável, mas não da maneira como imagina." E pior, Ino não podia culpá-lo por nada. Gaara fora muito honesto e muito claro quanto a sua posição, desde o começo.

Ino piscou algumas vezes e deu-lhe um frágil sorriso.

— Não, nada disso.

— Tem certeza?

— Tenho.

Estavam lado a lado sobre a relva macia. Gaara deslizou a mão pelo belo quadril arredondado e a trouxe com facilidade para seu colo. De imediato, Ino ficou ereta. E Gaara deslumbrou-se com a beleza do corpo feminino.

— Ino, nem sei dizer o quanto você é bonita, bem-feita. Uma obra de arte.

No entanto, ela não se sentia assim. De fato era a mesma Ino Yamanaka de todos os dias, uma mulher para quem o amor e a se xualidade andavam de mãos dadas. Não compreendia, nem acei tava nenhuma outra linguagem.

Contudo, dessa vez teria de abrir mão do valor que lhe era mais caro, mais autêntico. Não para seu bem, mas para o de Gaara. Comprometera-se a não levar a sério o que viesse a acontecer entre eles. E no que lhe dizia respeito, estava disposta a cumprir a palavra empenhada, pelo menos na aparência. Amava-o, do fundo da alma. Assim, buscou impor-se um sorriso descompromissado para ofe recer a ele.

— Obrigada, sr. No Sabaku por cumprir o que diz.

Gaara não compreendeu de imediato. Descuidado, continuou a tamborilar os dedos pelos lindos quadris de Ino.

— Que palavras?

— Eu não sabia mesmo o que estava perdendo ao me negar a você. Foi tudo maravilhoso.

Ele ronronou como um gato feliz.

— Mocinha, saiba que chegou a espantar os pássaros de seus ninhos.

— Espantei você?

— Não muito. Você me levou à loucura, isso sim. É fantástica, Ino.

Veio inteira para mim. Eu também, agradeço.

Ino se deitou sobre o tórax largo, aconchegando-se como que em busca de proteção.

— Você é um selvagem, No Sabaku.

— Sou? Pois saiba que é por sua causa.

Ino reteve um soluço na garganta. Tudo o que esperava e desejava ter com Gaara nunca seria possível. Mas tivera aquela noite, e ela seria memorável. Já que não teria seu amor pelo resto da vida, teria ao menos as boas memórias para lhe acompanhar. Uma pequena compensação, mas melhor do que nada.

— Gaara?— Roçou a boca nos lábios fortes e sensuais e tremeu por um segundo.

— Sente frio, doçura?

O querer justificava todos os meios a serem utilizados. Não era a primeira vez que Gaara a chamava de "doçura". Mas os senti mentos e as razões de Ino haviam ganho maior dimensão, tor naram-se outros. Muito mais do que ele pretendera dizer.

— Não, querido. A noite está gostosa.

— Então, por que treme?

— Eu... gosto de sentir suas mãos em mim.

— Isso é bom. Saiba que meus planos são os mais terríveis. Não tenho a menor intenção de tirar nenhum dedo de sua pele, hoje.

"Hoje..." Já que Ino estava a ponto de se partir em pedaços e chorar, o que não desejava ver testemunhado, beijou-o com sofreguidão, para guardar o sabor dele para sempre. O corpo de Gaara respondeu de imediato, as mãos se apertando em volta da cintura dela.

Ino não desejava mais se afastar. Queria estar nele, queria-o em si.

Gaara fez uma tentativa infrutífera para separá-los.

— Não, meu querido. Fique deitado.

— Não sei...

— Temeroso de perder o domínio?

— Talvez um pouco.

Ino surpreendeu-se com aquilo. Mas em um segundo recor dou tudo o que Gaara lhe segredara naquela noite.

— Fique assim, Gaara. Eu lhe peço. Deixe que eu o ame des ta vez.

— Que seja assim então.

Ao acordar, Ino se viu deitada em uma cama enorme. A luz clara da manhã entrava pelas janelas, como a cumprimentá-la, ba nhando o quarto em tons de amarelo e vermelho. Espreguiçou, e cada músculo protestou. Prazerosa dor, lembrança da noite passada.

A fragrância de Gaara estava por toda a parte, trazendo-lhe bem-estar. Céus! Adorava o perfume que dele emanava.

Rolou para o outro lado, mas esse se achava vazio. Um quê de desapontamento veio-lhe ao coração. Logo o espantou, porém. Acabara de viver os momentos mais sensacionais de sua vida.

Afofou o travesseiro de Gaara, inalando-lhe o aroma. Recostou-se sobre a gostosa maciez, os braços apoiando a nuca, e reviveu cada incrível momento da véspera.

Fizeram amor muitas vezes. O tempo quase deixou de existir, como que suspenso, imóvel no ar. Sentira-se querida, quase ado rada. E então, em algum momento, o cansaço a abateu, e o sono veio, avassalador. Gaara sorriu antes de tomá-la no conforto de seus braços e deitar-lhe a cabeça no ombro, seus dedos a alisar-lhe os cabelos, em ritmo gentil e suave, até que adormecesse.

Em algum instante, deve tê-la carregado no colo para dentro da casa, porque Ino não se recordava de haver caminhado.

Então, claro como o céu da noite que os envolvera, lembrou-se de ter sussurrado ao ouvido dele, antes de cair em sono profundo:

— Gaara?

— Hum?

— Eu te amo.

"Oh, não!" Ino cobriu os olhos com as mãos. "Não devia... Eu não podia!" Mas já o tinha feito.

Uma fria atmosfera envolveu o aposento no momento de sua declaração, que a fez achegar-se mais a Gaara.

Dissera que o amava. Não era à toa que deixara a própria cama. Sentindo-se culpada, imaginou se Gaara estaria em outro quarto.

Com o coração aos pulos, empurrou os lençóis e saiu do leito. Para seu horror, percebeu que estava nua. Lançou um olhar rápido ao redor, mas nem sinal de suas roupas. Onde estariam?

Correu até o banheiro, lavou o rosto e escovou os dentes, es perando que Gaara não se importasse por haver pegado uma es cova nova que encontrara nas gavetas de artigos de higiene.

De volta ao dormitório, tentava imaginar o que fazer. Não po deria esperá-lo ali, nua, deitada outra vez entre os lençóis. Na verdade, o que mais desejava era sair daquela mansão e evitar enfren tá-lo. E isso era algo que, decerto, acabaria acontecendo.

Bem, o que Gaara No Sabaku esperava? Como poderia contar com sua indiferença depois do modo como se uniram, entregan do-se sem reservas um ao outro? Ninguém, ninguém mesmo a tivera como aquele homem.

Mordendo o lábio, dirigiu-se para o closet e o abriu. O que encontrou, na verdade, era uma sala de vestir, com armários, cabides, prateleiras e espelhos por toda a parte. Via-se também uma poltrona e mesa de canto.

Vasculhou o interior de algumas portas, e logo descobriu que Gaara No Sabaku tinha trajes suficientes para abrir uma loja.

Com um sorriso estranho, Ino escolheu a primeira camisa branca que achou e a vestiu. As mangas chegavam-lhe abaixo das mãos, e o comprimento era quase de um vestido. Enrolou-as por sobre os braços e saiu, incontinenti, para um largo corredor até a escadaria que conduzia ao hall de entrada. Caminhava, cuidadosa, à procura de Gaara. E nenhum rastro do dono da casa.

Com toda a cautela, desceu os degraus, relutante, por alguma razão, sem fazer algum tipo de barulho. Ino quase se esgueirava fugidia naquele momento. Ao chegar ao andar térreo, o aroma delicioso de café fresco a alcançou, e seu apetite despertou. O que não daria por uma barra de chocolate...

Corajosa, aprumou-se. Empinou o queixo, endireitou a coluna, recompôs a autoconfiança e seguiu o cheiro tão apreciado.

Parou à soleira da cozinha. Gaara encontrava-se à mesa de car valho, e olhava para a caneca em sua mão. Parecia não ter dormido por um minuto sequer. Os cabelos se achavam em adorável desor dem, como se uma mulher os tivesse despenteado; o que era fato, por sinal. A barba, por fazer, emprestava-lhe um ar fatigado, e pequenas linhas, talvez de apreensão, marcavam-lhe a testa.

Sim, sem dúvida ela dissera que o amava.

Não conseguia visualizar o que Gaara vestia, pois o rosto e o tórax desnudo eram as únicas partes expostas de sua anatomia. Banhado pelo sol da manhã, Gaara No Sabaku, mesmo desarruma do, continuava lindo e atraente.

— Bom dia — : Ino o cumprimentou em estudado tom de alegria, tentando não demonstrar o que lhe ia no coração aos frangalhos.

Talvez se fingisse ter se esquecido e agisse com a naturalidade habitual ambos conseguissem ignorar o que fora dito.

Deus, ela também, precisava de uma xícara de café!

Gaara ergueu a cabeça como se Ino o houvesse assustado. Notou que ela usava sua camisa, e depois correu o olhar pelo ambiente.

— Você... dormiu bem?

Ela caminhou descuidada, fingindo interesse pelos utensílios, desconsiderando o movimento nervoso da musculatura do queixo dele.

— Nem me lembro direito. Creio que sim. Ao que tudo indica, fui parar em outro planeta. — Segurou as pontas da camisa. — Desculpe-me por isto, mas é que não consegui achar minhas roupas.

Gaara tornou a fitá-la, sem emoção alguma no rosto.

— Eu as coloquei para lavar. Estão na secadora, agora.

— Nesse caso, devo lhe agradecer.

— Não foi nada.

Sentando-se na cadeira mais próxima a ele, Ino indagou, displicente:

— E você?

— O quê?

— Como dormiu?

— Não estava cansado.

Ino decidiu deixar por isso mesmo. Que grande mentiroso ele era!

— Posso me servir de café? — E Ino estendeu a mão para o bule fumegante.

Gaara deu um pulo àquele seu movimento, o que magoou Ino, que se esforçou para não chorar. Ele estava com os nervos à flor da pele, isso era evidente, e não sabia como lidar com sua inesperada declaração de amor. Infelizmente, ela sabia como pro ceder. E a tristeza ameaçava despedaçá-la.

Gaara usava apenas a cueca, o que lhe dava um certo ar extra vagante.

Ele pôs café na xícara para Ino e indicou com um gesto o açúcar e o creme, dispostos na bandejinha. Ino, por sua vez, adicionou generosa porção de ambos a sua bebida, fechou os olhos e tomou um gole.

Gaara começou a caminhar, calado, pela espaçosa cozinha, pa recendo incapaz de se manter ao lado dela.

Ino descansou a xícara no pires e respirou fundo. Era hora de se chegar ao ponto. Que estranho amanhecer para tão deliciosa noite!

— Obrigada por ter me levado para a cama.

Gaara olhava pela janela acima do vasto balcão da pia.

— Por nada.

— Gaara?

— Sim?

— Por favor, venha aqui.

Embora relutante, ele lhe obedeceu. Sentou-se, mas não a en carou. Os cabelos caíam-lhe, teimosos, sobre a testa, e impaciente empurrou-os para trás.

— Gaara?

— Sim?

— Olhe para mim. Ele assim o fez.

— Você é sempre charmoso desse jeito pela manhã?

— Como disse? — Gaara piscou várias vezes.

— Está arrependido por ontem?

— Como pode fazer uma pergunta dessas?

— É muito fácil, já que está me tratando como se eu tivesse algum tipo de doença contagiosa.

— Não estou!

— Olhe para você, Gaara. Tem medo até de me encarar. Se eu fizesse algum movimento aqui, no lugar onde estou, garanto que daria um salto e sairia correndo para longe.

Gaara levou a cabeça para trás e massageou as têmporas.

— Não é você, Ino.

— Então o que é?

Gaara bebeu mais um pouco do café antes de responder. Uma tática, quem sabe, para buscar a resposta correta, pôr os pensa mentos em ordem. Enfim, ofereceu:

— Mais café?

— Não, obrigada. Gaara respirou fundo.

— Lembra-se de eu tê-la carregado para o quarto? Ocorreu-lhe mentir, mas Ino sabia que essa não era uma boa maneira de se construir nenhuma relação de confiança. A verdade não iria ajudá-la muito também, mas pelo menos não enganaria a si mesma, nem a ele.

— Sim, eu me lembro de fragmentos, alguns pedaços...

— E do que me falou? Recorda?

— Sim. — Baixou o olhar. — Desculpe-me.

— "Desculpe-me"? Isso que dizer que não foi proposital? Gaara soou tão esperançoso que Ino tinha vontade de lhe atirar um objeto pesado na cabeça. Ao olhá-lo, viu, de fato, a es perança brilhar em seu semblante. Aquilo era revoltante.

— Desculpe-me, mais uma vez. Gostaria de dizer o que você espera ouvir, Gaara, mas não posso. Não conseguiria.

Ele apertou as têmporas, como em desespero.

— Deus, Ino! O que quer que eu diga? Ela se levantou, decidida.

— Não tem de dizer coisa alguma. Eu compreendo, talvez até mais do que você, o que isso significa.

— E o que significa?

— Olhava-a, assustado.

— Que tivemos uma boa e gostosa noite à moda antiga.

— O quê?!

— Quer dizer, Sr. Descompromissado, que a diversão entre nós acabou.

— Mas por quê?! — Rápido, deixou seu lugar e a segurou pelos ombros.

— Eu gostaria muito de dar o que você deseja, de preen cher todas as suas expectativas, mas não posso. No entanto, isso não quer dizer que nós... não possamos apreciar a companhia um do outro, enquanto durar.

Ino queria gritar e chorar. Entretanto, dignidade era a única coisa que ainda lhe restava. Por isso, riu da proposta dele.

— Ah, Gaara, você é um homem e tanto!

Trazendo-a para mais perto, ele lhe disse, bem próximo ao rosto:

— Você pareceu mesmo gostar muito de mim, ontem.

— Não me refiro ao aspecto físico. Falo sobre o emocional.

— E fez um movimento, na tentativa de se libertar dele. — Dei xe-me ir.

— Diga que não gosta de estar bem junto assim?

— Adoro, meu querido. Mais do que deveria, para ser franca. Agora, solte-me.

Gaara não a soltou.

— Diga que não se divertiu em meus braços. Vamos, diga que não se divertiu!

Ino fitou o teto e suspirou.

— Está bem. Amei cada segundo. Vi estrelas. Cheguei perto do céu. Sente-se melhor, agora?

— Então, por que desistir?

O coração machucado de Ino latejava de dor por não ter escolha. Necessitava desesperadamente evitar mais perdas e mais tristeza, ou nunca se recuperaria.

Deveria também admitir com toda clara racionalidade que aque la situação fora causada por Gaara, que sempre se mostrara ho nesto, esclarecendo seus limites desde o princípio. Fora ela quem mentira. Ino mentiu para Gaara e para si mesma. Pensou que poderia lidar só com o desejo, e deixar a emoção à parte. No en tanto, não, não conseguia, não seria capaz. E nenhum dos dois merecia uma cena de cobranças no futuro.

— Gaara, suas normas sofreram alguma mudança depois do que aconteceu entre nós?

Ele a olhou como que buscasse algo indefinido. Mas quando Ino viu retornar a mesma expressão impassível e dura de sem pre, compreendeu tudo, antes mesmo de ouvi-lo dizer:

— Não, doçura. As regras não mudaram. Quase com revolta, Ino se soltou dele.

— E isso é tudo o que precisa, não é?

— Você sabia muito bem como teria de ser, Ino.

— Tomou-lhe o braço.

— Mas ainda assim fizemos amor. O que há de dife rente agora?

— Você não fez amor comigo, Gaara. Teve sexo comigo, is so sim.

— Que seja. De qualquer modo, estava ciente das condições.

— Certo. Eu sabia. Não é sua culpa se não posso conviver com suas determinações.

— E por que não?

— Porque, seu tolo, eu te amo! Eu amo você!

— Ah, que coisa! — Gaara lamentava causar-lhe sofrimento. — De todo modo, não estou pronto para desistir de você.

— A escolha não é sua.

— Vamos jantar e conversar.

— Não.

— Almoço?

— Não.

— E por que não?

Ino cruzou os braços, retomando a dignidade já bastante abalada.

— Também tenho o meu código de honra, Gaara. E não pre tendo perder meu tempo com alguém que pense de modo tão di verso do meu.

— E que código é esse?

— Quero um homem que me respeite.

— Eu a respeito.

— Que seja romântico.

— Estou tentando aprender!

— Que faça amor comigo. Gaara calou-se.

— Desejo compromisso, casamento, crianças... Tudo isso, Gaara.

O rosto dele ficou branco como uma folha de papel.

— Almejo para mim o "...e viveram felizes para sempre". E não abrirei mão disso por nada!

— Ino?

— Não! Fique quieto, sim? Onde fica a secadora? Com certeza minhas roupas já estão secas a esta altura. — E começou a andar na direção apontada.

— Ino?

Ela parou, mas não olhou para trás.

— O quê?

— Só para que saiba e guarde com atenção: se eu pudesse amar uma mulher desse jeito que você descreveu... seria você.

Bonita declaração. Bem ao estilo de Gaara.

— Que belo sedutor você é, sr. Gaara No Sabaku.