Stairway to Heaven

Por: Naki

 

Capítulo X – Responsabilidades

Shaoran não conseguia pensar em nada certo. A emoção dominava sua razão. O único pensamento que lhe ocorria era na verdade o desejo íntimo de seu coração, ele a queria... Queria tocar aqueles lábios que pareciam ter o sabor mais doce de todos os que já tivera provado... Queria beijá-la...

Sakura enlaçou-se mais ao pescoço de Li e seus rostos já estavam praticamente encostados. E foi sentindo a respiração de Sakura e o toque de seus pequenos dedos em seus cabelos que Shaoran entregou-se a emoção...

Aproximou-se mais dela. Estava quase tocando seus lábios quando uma musiquinha começou a tocar alto. Sakura rapidamente deslizou para trás afastando-se de Li. Ele fez o mesmo quando sentiu Sakura retirando as mãos que antes estavam entrelaçadas aos seus cabelos e agora estavam tocando seu peito num intuito de mantê-lo há alguns centímetros dela.

"É meu celular..." - disse Sakura ainda ofegante pela emoção que percorria seu corpo recusando-se a abandoná-la.

"Então vá atender!" - disse Li irritado pela interrupção.

Sakura apenas assentiu. Deslizou pelo gelo indo até a saída da pista onde pegou sua bolsa. "Alô!" - dizia ao atender o celular.

Shaoran jogava a cabeça para trás soltando o ar forte. Passou suas mãos pelos cabelos não acreditando no que acabara de acontecer. "Eu ia beijá-la... Que loucura!" - dizia baixinho para si. Só agora o jovem se dava conta de como deixara envolver-se por Sakura. Ele nunca tinha sido envolvido assim por ninguém. Não poderia negar que já tivesse se encantado com muitas mulheres bonitas, mas era sempre ele quem as envolvia com seu charme e seu galanteio. Mas agora... Agora tinha sido diferente. Ele deixara-se envolver de forma tão intensa que pela primeira vez em sua vida perdera sua razão. Li havia permitido que os desejos íntimos de seu coração viessem à tona. "Ela está sob os meus cuidados... Sou responsável por ela... Deus! O que eu ia fazer! Eu estou perdendo o juízo..."

"O quê?" - dizia Sakura alterada ao telefone, o que acabou por chamar a atenção de Li. Sua voz estava aflita - "Eu... Quero ir aí!" - dizia balançando a mão livre nervosa - "Não papai... Eu dou um jeito! Pego um ônibus e depois um táxi... sei lá! Mas não vou esperar até amanhã pra chegar aí!"

Shaoran ouviu as palavras de Sakura e começou a deslizar em direção a saída da pista de patinação. Ao chegar lá Sakura o fitou após desligar o telefone. Estava com uma expressão assustada. "O que aconteceu, Sakura?"

"A Nakuru... A mulher do meu irmão foi para o hospital!" - disse nervosa ainda balançando suas mãos no ar.

"Hospital? O que aconteceu com ela?"

"Estourou a bolsa dela..." - começou a dizer. Shaoran logo fez uma expressão de que não estava entendendo nada e Sakura explicou - "Ela esta esperando um bebê! A bolsa dela estourou mas ela ainda não chegou ao nono mês... Vão fazer uma cesárea de emergência e... e... E eu vou ir pra lá agora." - disse por fim decidida.

Sakura tirava os patins rapidamente. Queria sair dali o quanto antes. Seu pai estava tão aflito ao telefone... Seu sobrinho... Estava temendo pela vida dele. E se estivesse acontecendo algo grave e seu pai para não assustá-la não lhe contou? E se Nakuru estivesse correndo perigo? Como estaria seu irmão? Eram tantas as dúvidas em sua cabeça que Sakura nem ao menos teve tempo para lembrar o que por pouco não havia acontecido... Se não tivessem sido interrompidos estariam agora desfrutando do sabor de um beijo...

Li a observava tenso. Sakura estava muito nervosa e aquilo estava deixando-o preocupado. Começou a tirar os seus patins também. Sakura já começava a caminhar para a saída do ginásio de patinação quando Li a segurou pelo braço.

"Aonde você pensa que vai?" - perguntou sério.

"Eu vou pra Tomoeda! Vou ficar lá até ter certeza que tudo está bem!" - disse Sakura tentando soltar-se de Li.

"Não, você não vai!" - disse Li firme.

"Vou sim! Não vou ficar aqui e..."

"É perigoso, Sakura..." - disse Li num tom que mostrava claramente a sua preocupação, mas Sakura estava tão nervosa que não o percebeu – "Não vou permitir essa loucura! Já está muito tarde para você ir sozinha."

"Eu vou! Não vou ficar aqui! E não adianta tentar me impedir!" - disse Sakura soltando seu braço das mãos de Li.

"Então eu vou com você!"

Ao ouvir as últimas palavras de Li, Sakura se virou e o fitou séria. "Vai comigo?" - disse sem compreender.

"Vamos!" - disse Li já caminhando para saída do ginásio com os patins em suas mãos - "Não deve ter ônibus pra lá esta hora e também não iria deixá-la ir pra rodoviária sozinha! Eu te levo de carro."

Os dois saíram do ginásio e Li abriu o carro com o controle do alarme. "Entra!" - disse para Sakura que ainda o fitava incrédula enquanto jogava seus patins no banco de trás do carro. Realmente ela poderia ouvir tudo dele, menos que a levaria para Tomoeda em plena quinta feira a noite. Sakura entrou no carro e colocou o cinto.

"Obrigada!" - disse Sakura timidamente.

"Tudo bem..." - disse Li sem ao certo saber o que lhe dizer. Pegou o celular e discou um número. - "Wei?"

Li dirigia rápido. Já fazia alguns minutos que deixara Tóquio rumo a Tomoeda com Sakura. Avisara Wei sobre a situação e lhe pediu que fizesse o mesmo ao professor Toshiyuki comunicando que amanhã Sakura não iria às aulas. O som estava ligado e a música não era lá muito agradável aos ouvidos de Sakura. Li estava escutando um de seus cds de rock.

Sakura ainda estava nervosa com a situação. Li a observava com o canto dos olhos. Aproveitava-se da distração dela com a dada situação e começava a avaliar o que a pouco acontecera entre os dois. "É como se eu tivesse perdido o senso da realidade..." - pensava - "Eu sempre tive tudo sob o meu perfeito controle e hoje... Hoje simplesmente me deixei levar por um desejo."

Sim, Li admitia para si mesmo que desejava Sakura. Ela era linda, tinha os olhos mais lindo e intensos de todos o que poderiam existir, e seu corpo! Tocá-la e senti-la tão próxima a si sem dúvidas havia feito Li perder a noção do limite. Ele tinha limites e obrigações com ela. Sakura estava sob seus cuidados e sob seu treinamento. Shaoran balançava a cabeça tentando evitar pensar novamente sobre o que tinha acontecido. "Que erro eu estaria cometendo... Por Deus fomos interrompidos à tempo..." - pensava culpando-se intimamente pelo que poderia ter feito se o celular não tivesse tocado - "Ela é uma criança ainda... Xiao Lang como pôde aproveitar-se de uma menina?"

Sakura mantinha as mãos no peito tentando assim controlar a angústia de seu coração. Segurava as lágrimas que começavam a querer brotar em seus olhos. A preocupação tirava o brilho tão característico das esmeraldas de seus olhos. Observava através do vidro ao seu lado a noite que encobria a estrada, estava tudo escuro. Escuro e vazio... O que causava um certo desespero a jovem.

Li já não aguentava mais aquele silêncio. Após o seu 'obrigada' ainda no estacionamento do ginásio de patinação ele não havia ouvido um murmúrio sequer da boca de Sakura. "Que boca..." - lembrava-se que quase havia tocado aqueles lábios tão rosados - "Esqueça isso, Xiao Lang... Esqueça isso..." - pensava como se quisesse colocar juízo em seus pensamentos.

"Está tudo bem, Sakura?" - disse na esperança de fazê-la falar mas recebeu apenas um assentimento como resposta. Suspirou. Não aguentava vê-la angustiada como estava. Preferiria mil vezes brigar com ela do que vê-la daquele jeito. E era o que faria. - "Pois não parece." - disse irônico.

Sakura se virou para ele e antes que pudesse dizer qualquer coisa ele continuou - "Acho que é por causa do seu péssimo gosto musical..."

"O quê?" - perguntou Sakura ainda sem entender aquela conversa.

"Parece que não está apreciando o som..."

"Não é isso..." - disse Sakura sem graça. Não conseguia entender aonde Li estava querendo chegar.

"Sabe, Sakura... O rock é o único estilo decente de música. Além da música clássica, é claro! Afinal esta não tem letra alguma que possa vir a estragá-la" - disse dando um olhar de relance como se mostrasse ser o dono da verdade. - "O que admiro nas músicas são as letras que as compõem.  No rock temos excelentes poetas. O resto dos estilos musicais não tem uma letra que preste! Tudo lixo que ferem as gramáticas e a literatura de suas línguas nativas! Letras esdrúxulas que acabam estragando até belas melodias! Deveriam ser proibidas de chegarem aos nossos ouvidos, isso sim!"

"Não está sendo um pouco extremista?" - perguntava Sakura.

"Extremista?" - disse com uma expressão de pouco caso - "Diz isso porque no mínimo não entende inglês e não consegue entender a letra da música." - disse apontando pro rádio do carro que tocava uma música de uma banda inglesa - "Se entendesse veria que são muito boas."

"Tá... Posso até não saber inglês... Mas já que gosta tanto assim das letras então leia livros de poesia e pare de reclamar das músicas!" - disse Sakura também com pouco caso.

" As letras fazem parte da música." - disse retrucando a ironia de Sakura em sua frase anterior.

"Eu sei disso... Mas se ouvisse outro tipo de som veria que também existem belíssimas letras em outros estilos musicais."

"Como qual por exemplo?" - perguntou Li com uma expressão de quem não estava lá gostando muito daquela argumentação.

"Gosto de um som mais romântico!"

"Ah... mas isso também é rock! Sempre tem a famosa 'lentinha' em todas as bandas..." - disse Li como se triunfasse provando sua teoria.

"Em sei! Mas estou me referindo à cantores românticos que não tem bandas de rock!" - disse Sakura com o mesmo ar triunfante de Li, mostrando agora que a teoria que ele havia provado a pouco estava errada.

"São cantores frustados que gostariam de ter uma banda e não conseguiram ou tiveram uma que acabou por se desfazer, seguindo carreira solo."

"Não é verdade!" - disse Sakura. Os dois já estavam discutindo seus gostos musicais.

"É sim... Isso que você gosta é puro rock! Mas precisamente um estilo chamado rock ballad... mas como disse, não deixa de ser rock!" - disse Li debochando.

"Que seja!" - soltou o ar resolvendo não insistir nesta parte, mas não iria desistir de contra argumentar - "Gosto de outros estilos também... Como new age."

"Hummm... Esse entra a parte como o blues e o jazz. Tem muitas músicas nestes estilos que são instrumentais e lembram um pouco de clássico. Fora isso as letras são voltadas pra algo diferente e além do mais, o som é tão único e característico que faz com que as músicas sejam muito boas para se ouvir."

"Então..." - disse Sakura como se estivesse provando estar certa.

"Então o quê?" - disse Shaoran não entendendo o seu tom.

"Você gosta de outros estilos sim! E não é apenas o rock que tem letras de boa qualidade!"

"Já disse que estes estilos entram a parte." - disse Li um tanto irritado por essa colocação de Sakura.

"Ai... Não vou ficar aqui discutindo gostos musicais com você!" - disse Sakura - "E pra seu governo, eu gosto de algumas músicas de rock. Só não é o meu estilo favorito."

"Ah... Então a cara estranha que você fez foi apenas por não gostar desta banda... Quer dizer que a senhorita gosta de rock. Vamos ver se gosta desta banda..." - disse mudando com o controle localizado em seu volante o cd da disqueteira - "E pensar que eu a adoro..." - disse Li baixinho para si referindo-se a banda que tocava anteriormente. Tinha um certo lamento na voz. Sem perceber, Li havia ficado chateado por saber que Sakura não tinha os mesmo gostos que ele. Pelo menos parte dos gostos referentes à estilos musicais...

Uma música começava a tocar e Li aumentava um pouco o som. Faria Sakura amar esta música ou odiá-la. Ele sinceramente esperava que fosse a primeira opção pois tratava-se de uma de suas músicas favoritas e que, de certo modo, diziam um pouco de sua vida... Apesar dele nunca admitir isso...

I have climbed the highest mountains

Eu já escalei as montanhas mais altas

I have run through the fields

Eu já corri através dos campos

Only to be with you

Só para estar com você

Only to be with you

Só para estar com você

"Eu conheço esta música..." - disse Sakura pra a surpresa de Shaoran.

"Gosta dela?" - perguntou Shaoran ansioso pela resposta.

"Ah-ham" - disse Sakura assentindo. Tal assentimento acabou por fazer surgir um lindo sorriso no rosto de Li, o que deixou Sakura levemente perturbada. "Seus olhos ficam com um brilho tão lindo quando sorri... Ele deveria sorrir mais vezes...." - pensou quando retribuía o sorriso.

I have run I have crawled

Eu corri, eu rastejei

I have scaled these city walls

Eu escalei essas paredes da cidade

Only to be with you

Só para estar com você

But  I still haven't found

Mas eu ainda não encontrei

What I'm looking for

O que eu estou procurando

"Sabe o que ela diz?" - perguntou Shaoran.

"Sei sim... É muito linda..."

"É sim..."

But  I still haven't found

Mas eu ainda não encontrei

What I'm looking for

O que eu estou procurando

I have kissed honey lips

Eu beijei doces lábios

Felt the healing in her fingertips

Eu senti a cura na ponta dos dedos dela

It burned like fire

Isso queimou como fogo

This burning disere

Esse desejo ardente

Li começou a cantar a música e aumentou ainda mais o som, fazendo Sakura rir com aquela atitude. Ele tinha uma linda voz, e cantava num inglês perfeito.

"Você já estudou inglês?" - gritou Sakura para se fazer ouvir. Shaoran assentiu e continuou cantando.

I have spoke with the tongue of angels

Eu já falei com a língua dos anjos

I have held the hand of the devil

Eu já segurei a mão do diabo

It was warm in the nigth

Estava calor pela noite

It was cold as a stone

Estava frio como uma pedra

But  I still haven't found

Mas eu ainda não encontrei

What I'm looking for

O que eu estou procurando

"E você? Já estudou?" - perguntou parando de cantar e abaixando um pouco o som.

"Muito pouco..." - respondeu Sakura.

But  I still haven't found

Mas eu ainda não encontrei

What I'm looking for

O que eu estou procurando

"Então como sabe o que a letra diz? Já viu a tradução dela?"

"Digamos que quase isso..."

"Como assim?" - perguntou Shaoran sem entender.

Sakura apenas sorriu. Encostou a cabeça no banco do carro e fechou os olhos como se recordasse alguma lembrança boa. Shaoran a fitava mas não pelo tempo que gostaria, afinal estava dirigindo e tinha que ficar atento a estrada.

I believe in the Kingdom Come

Eu acredito que a realeza venha

Then all the colours will bleed into one

Então todas as cores irão sangrar como uma

But yes I'm still running

Mas sim, eu ainda estou correndo

You broke the bonds

Você quebrou as ligações

You loosed the chains

Você afrouxou as correntes

You carried the cross

Você carregou a cruz

And my shame

E minha vergonha

You know I believe it

Você sabe que eu acredito nisso

But  I still haven't found

Mas eu ainda não encontrei

What I'm looking for

O que eu estou procurando

But  I still haven't found

Mas eu ainda não encontrei

What I'm looking for

O que eu estou procurando

Quando a música se encerrou Sakura abriu os olhos e fitou Li. "Quer saber como sei o que a música diz?"

"Se não quisesse não teria perguntado." - disse em deboche.

"Não seja bobo!" - disse Sakura dando um leve soquinho no braço direito de Li.

"Hei... Não acha que está muito abusadinha, não?" - disse Li brincando.

Sakura apenas sorriu. "Quer que eu te conte ou não?"

"Vai... Fala logo!" - disse Li abaixando ainda mais o som.

"Uma autora de que gosto muito utilizou-a no final de uma de suas histórias."

"Sei..." - disse Li como se demostrasse nenhum interesse.

"Esta música descreve em parte o que o personagem passou. Ele foi ao inferno para poder conseguir voltar para o seu grande amor." - disse Sakura que não se intimidara como a falta inicial de interesse de Shaoran.

"Ao inferno? Por quê?" - disse Li já apresentando interesse.

"Por alguns motivos não muito bem explicados brechas se formam entre os mundos. E brechas do inferno surgiam no nosso mundo, permitindo a passagem de demônios os quais ele e a namorada combatiam, pois os dois tinham magia. E em um grande combate ele foi morto. Ele viu tudo o que seu amor estava sofrendo e então decidiu abrir mão do paraíso para ir ao inferno... Lá ele poderia encontrar uma destas brechas e passar, assim voltando para o seu mundo e para o seu amor."

"Depois quando digo pro Eriol que o amor nos enfraquece e nos faz cometer besteiras ele não acredita..." - disse Li para si próprio não acreditando na atitude do personagem.

"Como?" - perguntou Sakura sem entender.

"Nada... Me diga, ele consegue voltar?"

"Sim, uns dois anos depois... E é tão emocionante que ele volta no dia em que ela iria se casar com outro..." - disse Sakura se lembrando empolgada desta passagem da história.

"Tá vendo! O amor fez do coitado do personagem um idiota! Ele abre mão do paraíso para voltar para o seu 'suposto grande amor'..." - disse fazendo aspas no ar ironizando - "... e ela simplesmente o esquece e já ia se casar com outro!"

"Não!!!" - disse Sakura - "Ela não o esqueceu! Mas acreditava que ele estava morto... Todos diziam para ela continuar sua vida. Ela sofreu muito e..."

"E o que mais nosso herói foi capaz de fazer por ela, heim?" - disse Li irritado com a tamanha bobagem que julgava ter o personagem cometido

"Ele acabou voltando para o inferno. Teve que fazer isso para impedir que mais demônios atravessassem as tais brechas. Ele havia se tornado um demônio ao ir para o inferno e a sua presença na Terra estava causando um desequilíbrio entre os mundos. Ele fez isso pra proteger todos que amava e também o nosso mundo..." - disse Sakura ao se lembrar do triste destino do personagem.

"Que ótimo! Ele ainda faz isso pra salvar a humanidade! Cara patético esse, não?"

"Não fale isso! Você não leu os livros e não sabe de nada!" - disse Sakura irritada - "E pra seu conhecimento a menina foi atrás dele no inferno para assim traze-lo de volta. E ele se fez de durão, passou por cima de tudo o que sentia por ela. Queria a segurança dela longe daquele lugar horrível cheio de sangue e sofrimento. Fingiu que não a amava mais só para fazer com que ela desistisse dele e assim voltasse pro seu mundo."

"Ele fez isso mesmo, é? Que idiota! E aposto que tolinha voltou! Ah... Dai-me paciência! Que gosto literário terrível você tem, heim Sakura?"

"Esta história é muito famosa e lida em todo mundo. A autora já começou a escrever o terceiro livro da série! E pra terminar essa conversa e te mostrar que pelo amor tudo vale a pena, não... Ela não voltou! Ficou lá no inferno apesar dele tratá-la muito mal. Ela disse olhando nos olhos dele que só voltaria pro seu mundo se ele fosse com ela. E que mesmo que ele a mandasse embora ela não iria, pois não poderia viver longe de quem tanto amava. Ele era muito orgulhoso e não admitia que no fundo ele a amava mais que tudo."

"Oh... que lindo!" - disse Li debochando mas Sakura fingiu que não ouviu e continuou.

"No final do segundo livro, quando a última brecha foi destruída, ele vê que ela não a atravessou, mas sim ficou ali com ele. Ele se emociona com isso e acaba confessando que nunca a esqueceu, e que só fez tudo aquilo pois não achava justo ela ficar ali com ele, longe da família e de seu mundo. Só que já era tarde demais... Ele estava muito ferido por causa do combate. Eles acabam morrendo juntos, um ao lado do outro, jurando que se tivessem a chance de ter uma outra vida, que viveriam só para se encontrarem novamente. Porque eles se amavam..."

"Oh... que final tragicamente romântico..." - disse com o mesmo ar de deboche.

"Eles ficam juntos porque é isso que o amor nos ensina!" - diz Sakura revoltada pela insensibilidade demostrada por Li.

"O que tudo isso te ensina, Sakura?" - disse Li olhando-a nos olhos - "Até que ponto você iria por amor?"

"Faria tudo por amor. Iria ao inferno sim se fosse esta a única possibilidade para ficar junto de quem amo." - respondeu Sakura surpreendendo Li - "Talvez você não saiba o que este livro quis nos ensinar e nem mesmo esta música que você diz que tanto gosta. Acho que nunca prestou atenção nela o suficiente! A música e o livro nos ensinam a maior e a mais importante lição de amor. Que para encontrarmos e ficarmos juntos do nosso amor tudo é válido! Que todos os sacrifícios e buscas valem a pena, porque no final você estará com quem ama. Só quando estamos juntos de quem amamos somos completos, Li."

"Olha..."

"Não fale nada! Qualquer que for seu argumento, não importa! Não mudará minha opinião! Se você não é capaz de fazer nenhum sacrifício por amor é porque é um insensível que não ama nada na sua vida..." - disse Sakura interrompendo Li e virando-se para o lado. Tal atitude mostrava que aquele assunto estava encerrado.

Li desligou o rádio enquanto soltou um longo suspiro. Sua intenção era provocá-la somente para que deixasse o nervosismo, mas Li acabou provocando-a demais. Agora Sakura estava irritada e ainda achando que ele era um insensível. "Não sou um insensível..." - pensou - "Só não me entrego aos males do amor... É tão mais fácil quando amamos de forma consciente. Tolos são os que mergulham de cabeça nos mares da paixão. Perdem o próprio respeito e o orgulho. Perdem o seu amor próprio e o amor pela sua própria vida."

Talvez Li estivesse certo em alguns pontos. O amor por vezes nos faz perder o juízo. Mas o que é amar senão afogar-se neste mar só para ser salvo pelos braços de quem amamos? Li com certeza sabia disso. Só não tinha encontrado alguém que o fizesse nadar pelos imensos e turbulentos oceanos para um pouco mais adiante encontrar o sorriso que o salvaria... Talvez não tivesse encontrado realmente, talvez tivesse e só não queria acreditar que o oceano no qual mergulhara era esverdeado. Li já tinha tudo o que era necessário para se aventurar neste oceano, só bastava soltar a corda que o prendia a terra... O seu orgulho...

"Por favor... quero notícias de Kinomoto Nakuru." - disse Sakura apoiada ao balcão do hospital.

"Ela está no quarto. Mas o horário de visitas é só até às dez horas querida. Sinto muito." - disse a recepcionista do hospital.

"Mas..." - Sakura não acreditava no que acabava de ouvir.

"Tente o celular de novo, Sakura!" - dizia Li se aproximando de Sakura.

"Eu já tentei várias vezes e só cai na caixa postal!" - Sakura estava começando a ficar nervosa. Tinha chegado ao hospital já fazia quase meia hora mas não conseguia notícia alguma, apenas que a cirurgia tinha terminado e que Nakuru estava no quarto.

A viagem de Li e Sakura tinha terminado em um clima pesado. Após a discussão iniciada por uma simples música tinham ficado em silêncio o resto do percurso. Trocaram algumas poucas palavras assim que chegaram à Tomoeda, quando Li lhe perguntou aonde ficava o hospital. Minutos depois já estavam no hospital e desde então Sakura tentava obter notícias sem sucesso.

"Vamos subir." - disse Li.

"O quê?" - perguntou Sakura sem entender - "Não podemos! Não ouviu a moça dizendo que..."

Li começou a caminhar em direção ao elevador. Sakura o seguiu não entendendo a atitude de seu treinador. O que ele pretendia? Não deixariam que ele subisse. Li aproximou-se do elevador e o chamou. Sakura estava logo atrás dele.

"Sr.!" - chamava a recepcionista que atendeu Sakura ao notá-lo próximo ao elevador - "O Sr. não pode subir sem autorização."

Li simplesmente levantou um crachá. Era do hospital. A recepcionista sorriu sem graça. O elevador chegou e antes que a recepcionista pudesse verificar qualquer coisa em seus papéis ou mesmo adverti-lo quanto a Sakura estar sem crachá, ele empurrou sua aprendiz para dentro do elevador e subiu.

"Você é maluco?" - dizia Sakura assustada com a atitude de Li - "Aonde conseguiu isso?" - disse referindo-se ao crachá que ele acabara de colocar.

"Enquanto você ficava argumentando com uma das recepcionistas sem resultado eu usei um método mais eficaz com a outra. Toma!" - disse entregando um outro crachá para Sakura.

"Como você conseguiu?" - perguntou Sakura surpresa.

"Charme!" - foi a única resposta de Li antes do elevador abrir. Estavam no berçário do hospital.

Sakura já ia dizer algo para Li quando avistou seu pai e seu irmão grudados no vidro do berçário. "Touya!" - chamou Sakura que correu na direção do irmão.

"Sakura, veja!" - dizia Touya apontando para a direção de um bebê - "Veja seu sobrinho!"

"Ele já nasceu..." - disse Sakura com lágrimas nos olhos que indicavam toda sua emoção.

"Hoshio* é lindo, não é querida?" - disse Fujitaka se aproximando e colocando a mão sobre o ombro da filha.

"Hoshio... Vocês já escolheram o nome...." - disse Sakura ainda fitando o belo sobrinho.

"Nakuru quem escolheu...." - disse Touya ainda fitando o filho.

"É um lindo nome... E Nakuru, como está?" - disse Sakura notando sua falta de atenção. Tinha ficado tão encantada ao ver o sobrinho que se esqueceu de perguntar sobre o estado da cunhada.

"Ela está ótima. Esta dormindo..." - disse Touya.

"Que bom... Estava tão preocupada..."

"Obrigado por traze-la!" - disse Fujitaka ao se aproximar de Li. Shaoran tinha ficado um pouco afastado. Não gostaria de interromper um momento tão familiar.

"Não foi nada. Não poderia ter deixado-a vir sozinha e..." - disse Li sem graça.

Fujitaka apenas sorriu colocando a mão sobre o ombro do rapaz. "Desculpe-me ter duvidado das suas responsabilidades, meu jovem. Hoje vejo que deixo minha filha em excelentes mãos. Mãos extremamente responsáveis. Sua atitude deu-me esta confiança, Li. Obrigado!" - disse Fujitaka.

Li sentiu-se péssimo ao ouvir tais palavras do pai de Sakura. Fujitaka estava dizendo-lhe o quanto confiava nele, o quanto acreditava estar deixando sua filha em mãos responsáveis. Mãos que a pouco acariciaram sua filha e quase a envolveram num beijo. Agora Shaoran sentia-se culpado por ter feito isso. Ao ver Fujitaka se afastar e afagar os cabelos da filha viu o quanto aquele homem a amava. Estava deixando a sua jóia mais preciosa sob seus cuidados. Não poderia decepcioná-lo...

"Vamos, Sakura." - disse Fujitaka.

"Ah... deixa eu ficar olhando o Hoshio só mais um pouquinho..." - disse Sakura manhosa.

"O horário de visitas já se encerrou, meu bem... Foi gentileza da enfermeira nos deixar aqui. Vamos!"

"Está bem..."

"Touya!" - chamou Fujitaka a atenção de seu filho.

"Sim, pai."

"Nós já vamos." - disse Fujitaka.

"Eu vou com vocês. Aproveito o elevador e vou para o quarto ficar com a Nakuru."

Os três começaram a caminhar e pararam próximos Li. Touya o fitou cumprimentando-o com o olhar. "Você trouxe a Sakura?" - perguntou Touya. Li apenas assentiu. Touya sorriu em agradecimento.

Fujitaka chamou o elevador e este logo chegou ao andar solicitado. Todos entraram e Touya apertou o andar térreo e outro dois andares abaixo do qual estavam.

"Até amanhã!"- disse Touya enquanto o elevador abria suas portas no andar dos quartos.

"Amanhã cedo a gente volta! Deixe um beijo com a Nakuru!" - disse Sakura abraçando o irmão.

Touya sorriu enquanto a porta do elevador se fechava. Sentia-se feliz, emocionado. Tinha uma família como sempre desejava. Estava casado com o grande amor de sua vida, e agora, da união deste amor havia nascido o fruto mais bonito que poderia existir, um filho. Caminhou até a porta do quarto 705, onde Nakuru estava descansando após a cirurgia. Tudo tinha ocorrido muito bem, e em alguns dias eles estariam juntos, em casa, pai, mãe e filho.

"Touya... é você?" - perguntou Nakuru suavemente. Ela estava deitada, sonolenta.

"Sou eu meu amor..." - disse Touya baixinho se aproximando de Nakuru.  A esposa sorriu e o fitou com os olhos molhados. Retribuindo o puro gesto da esposa, Touya acariciou os cabelos longos da esposa e a beijou na testa.

"Você viu nosso filho?"

"Ele é a coisa mais linda que já vi na minha vida. Eu te amo, Naki."

"Eu também te amo..." - disse Nakuru pouco antes de sentir os lábios de Touya sobre os seus.

"Aonde você vai, Li?" - perguntava Sakura.

"Vou voltar para Tóquio, para onde mais iria?" - disse Li sorrindo devido a pergunta tola de Sakura.

"Mas já é muito tarde..." - disse Sakura com um ar levemente dengoso, o que fez Li sorrir ainda mais.

"Estou acostumado, Sakura. Nos vemos segunda..." - disse Li apressado já começando a caminhar em direção ao seu carro.

"Espere, rapaz..." - chamou Fujitaka docemente - "Porque não fica conosco esta noite? Poderia dormir no quarto de Touya. Realmente já está tarde..."

"É..." - concordou Sakura.

"Não quero incomodá-los..." - disse Li sem graça.

"Ora, rapaz... Que eu saiba minha filha fica em sua casa a maior parte da semana. Se alguém aqui o incomoda e abusa da sua hospitalidade, este alguém somos nós."

Shaoran não pôde evitar de sorrir com o comentário. Realmente Sakura o incomodava em alguns momentos. Mas não podia negar que a presença dela em sua casa era agradável. Já não conseguia mais imaginar sua casa sem a alegria que ela sempre exibia. Sem seus resmungos, seus sorrisos, suas risadas, seu olhar...

"Por favor, Li!" - disse Sakura - "Amanhã cedo você volta para Tóquio!"

"O que me diz, rapaz? Aceita nosso convite?" - perguntou Fujitaka.

"Agradeço o convite, mas tenho alguns papéis que ainda preciso revisar em casa para a reunião de amanhã. Realmente eu preciso ir. Boa noite."

"Se realmente precisa ir... Então, boa noite e obrigado mais uma vez." - disse Fujitaka.

"Até mais, Li." - disse Sakura - "Nos vemos na segunda!"

Shaoran entrou em seu carro sem olhar para trás e logo partiu. Conferiu o horário em seu relógio, meia noite e meia. Ligou o som no intuito de espairecer sua mente que estava confusa e perturbada. Mas antes que tivesse tempo de esvair os pensamentos que consumiam-lhe a alma, a melodia que começou a tocar pareceu prendê-lo aos pensamentos que tanto tentava esquecer. A melodia estava descrevendo perfeitamente os seus próprios sentimentos.

With or withou you

Com ou sem você

With or without you

Com ou sem você

I can't live

Eu não posso viver

With or without you

Com ou sem você

Por mais que evitasse, por mais que a culpa infringisse as leis do coração e o fizesse abrir mão de suas próprias emoções, não havia mais jeito. Li já não conseguia imaginar sua vida sem Sakura. Mesmo esforçando-se ao máximo para não se render aos sentimentos que tanto pulsavam dentro de si, mesmo afirmando à todos que a convivência com ela era terrível no intuito de se auto enganar, Li não poderia mais esconder os sentimentos de seu próprio coração. Poderia enganar a tudo e à todos, menos ao seu próprio coração. E Sakura já o havia conquistado, e Li sabia disso...

And you give yourself away

E você se entrega

And you give yourself away

E você se entrega

And you give

E você  entrega

And you give

E você entrega

And you give yourself away

E você se entrega

"Eu não posso..." - disse com lamento como se discordasse do que o cantor dizia. - "Eu apenas não posso..."

"Hoje vejo que deixo minha filha em excelentes mãos. Mãos extremamente responsáveis..." - as palavras de Fujitaka ecoavam em sua mente e o faziam se lembrar de outras que eternamente viveriam em suas memórias.

"Não me decepcione, Xiao…Não me decepcione meu filho..."

"Serei o que era de tua vontade que eu fosse, meu pai." - disse Li olhando a estrada que corria sobre o carro com os olhos frios e distantes. - "Dei-lhe minha palavra e irei cumpri-la." Mais uma vez Li deixaria seus sonhos e desejos mais profundos de lado. Passaria por cima de seus sentimentos para cumprir sua palavra. Uma palavra dada há sete anos e que infelizmente não poderia mais ser revertida...

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Hoshio*: Segundo um site de nomes japonês hoshi significa estrela. O 'o' quando pronunciado de forma longa significa grande, quando pronunciado de forma curta significa pequeno. Escolhi a segunda opção. Logo, o significado do nosso Hoshio, filho de Nakuru e Touya é 'Pequena Estrela'

Músicas: I still haven't found what I'm looking for – U2

                With or without you – U2

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Olá...

Tudo bem com vocês?

Vocês não estão querendo me matar, né?

*Naki se escondendo de alguns possíveis objetos cortantes, pedras e afins que alguns fãs podem estar querendo jogar*

Não fiquem bravos vai... Não saiu beijo desta vez... Quem sabe em uma próxima... Se bem que com o andar da carruagem, quer dizer, com o andar dos pensamentos de Li... Iiiiiii.... Será que ainda rola? (hehehehe)

*Naki se escondendo de uma pedra lançada por um fã que quer logo ver um beijo entre este casal*

Mas teve um bom motivo para a interrupção deste beijo! E um motivo lindo! Nasceu o bebê da Nakuru!!! Imagino o Hoshio tão fofo!!!

Alguns até colocaram nos reviews que imaginavam que uma interrupção fosse acontecer... Pois então... Aconteceu! Hehe

O único que sabia disso com certeza era o Felipe, né Fê? Ele é meu beta-reader e sempre sabe de tudo antes, por favor não o invejem!  ^-~ Você bem que tentou colocar o review de número 100, o primeiro do capítulo 9, né amigo? Mas...o seu foi o número 101!

A premiada, que me deu a honra do meu 100o review foi a Bruna!!! Linda, obrigada!!!

Agradeço a todos que me mandaram reviews!!! De verdade!!! Inclusive aqueles que me mandaram um pela primeira vez!!! Muuuuuuuito obrigada!

Prometi à Kath Klein, em um review que postei para ela, que lhe faria uma surpresinha... Linda, aqui está ela! Uma homenagem à essa autora de fanfics que tanto admiro.

Este capítulo é dedicado para ela, por nos escrever tão bela obra intitulada de "Os Feiticeiros" e para a Bruna, que deu-me a honra do meu 100o review na fanfiction num mesmo fanfic!!!

Lindas, obrigada!!!

Quem ainda não leu este fic da Kath Klein, leiam! Vale a pena! Espero que com esta 'palhinha' que dei aqui neste capítulo tenha convencido muitos a lerem esta saga que já está na terceira temporada!

Não pensem que foi apenas uma homenagem... Quando li o fic achei-o perfeito para a cena do carro! Já imaginava usar esta mesma música, só uni duas coisas em busca da perfeição!

E ah, não parou por aí esta conversa do Shao com a Sakurinha... hehe. Digamos que ela ainda será terminada no momento certo. Por enquanto a Sakura só deu um 'tapinha' no Li, mostrando suas opiniões sobre o amor... Lindas por sinal, não?

É isso!

Espero que tenham gostado do capítulo!!!

E para quem está esperando mais de E&T...

Pra quem está se perguntando se a Sakura não vai se dar conta do que quase aconteceu entre ela e o Li... Aguardem semana que vem o Capítulo XI!!! Surpresas e muita emoção!!!

Beijos

Naki