SO1E11 Hairography
- Anda logo, Noah! - dizia Sophia, batendo forte na porta do banheiro. Ela tinha que chegar na escola e ele ainda estava lá dentro, fazendo Deus sabe o quê. Ela também sabia o que era, mas fingia que não sabia já que era o melhor a se fazer. - Vamos chegar atrasados. De novo!
- Não enche - ele gritou, sem fôlego.
- Agrh! - grunhia ela com raiva, saindo de lá e indo para a cozinha, onde sua mãe preparava a comida para levar para o trabalho. - Eu preciso de um carro!
- E eu de um milhão de dólares - respondeu a mãe, resmungando. - Nenhuma dessas coisas vão acontecer. A única razão do seu irmão ter um carro é porque ele trabalhou para comprá-lo.
- Ele não estava trabalhando e sim... - "traçando as coroas que estavam entediadas" era o que ela queria dizer. Mas sabia que não podia. Droga, porque tinha que se importar com o irmão? - Esquece. Mas eu ainda preciso de um carro.
- Porque você não pede pro seu namoradinho vir te buscar - disse Puck, apenas enrolado com uma toalha molhando a casa inteira.
A mãe dela quase derrubou a marmita no chão quando escutou aquilo. Sophia olhou com raiva para o irmão e o rapaz olhou confuso de volta para elas.
- O que foi?
- Namorado?! - disse a mulher, encarando a filha.
- Mãe, eu... eu... - gaguejava a garota.
- Como você começa a namorar sem contar pra sua própria mãe? Sem me apresentar o rapaz? Ele é judeu? É de boa família? Tem um carro? Tem dinheiro? Eu não sei. Não sei porque você não me apresentou. E precisei do meu filho idiota que está molhando a casa inteira deixar escapar para eu descobrir! - a mulher estava vermelha de raiva. - Você talvez não tenha um pai por perto para te colocar limites, mas você tem uma mãe brava o suficiente para fazer isso. Esse rapaz virá jantar na nossa casa na quinta e, se eu não aprová-lo, você vai terminar esse namoro, nem que eu tenho que colocar seu irmão para te seguir 24h por dia.
- Do jeito que ele é idiota, depois de 3h vai achar que o dia acabou e voltar pra cá - ela gritou de volta.
- Não fala assim dele! - gritou a mãe.
- Eu pensei que o dia tivesse 26 horas... - disse ele, confuso.
- Coloca uma roupa! - gritou a irmã.
- Vai! - gritou a mãe.
- Por que de repente está todo mundo gritando comigo?!
Sr. Schue murmurava no palco enquanto Ryan e Sophia sussurravam para que ninguém ouvisse. Ele ajeitava as meninas de uma escola que competiria com eles nas Seletivas, mas nenhum dos dois se importavam frente a notícia estarrecedora.
- Como assim ela quer me conhecer? - disse o garoto assustado. - E vai me aprovar? Por quê?
- Ela acha que tem que assumir o papel do meu pai porque ele foi embora. Tipo, há dois anos atrás ela teve a conversa sobre sexo com meu irmão, sem saber que ele tinha transado com metade da escola. Odeio quando ela faz isso!
- É só que... Não tem mesmo jeito de eu escapar disso?
- Acho que não. Ela disse que vai colocar Puck pra me perseguir e, apesar de saber que poderia enrolá-lo no momento que eu quisesse, seria muito chato precisar disso. Então, vamos apenas conhecê-la e terminar com isso logo.
- Não acho que vá ser tão fácil. Quero dizer, e se ela não me aprovar? Não conseguiria terminar com você... - disse, carinhoso.
- Nem eu. Por isso vamos ter que mentir - ela riu enquanto as garotas começavam a dançar.
I don't think you ready for this jelly
I don't think you ready for this jelly
I don't think you ready for this
Cause my body's too bootylicious for ya babe
Os gleeks começaram a sair do auditório, meio intimidados pela apresentação. Dava pra ver pela expressão do Sr. Schue que ele estava preocupado também. Enquanto Ryan levantava, sentiu a mão da prima em seu ombro e logo entendeu o que era. Quando todos saíram, ambos se sentaram com o professor.
- Sr. Schue, você parece preocupado - disse Rachel.
- Quê? Não! Quer dizer... Elas foram ótimas, mas também somos - tentou se explicar.
- Sr. Schue, posso? - apontando para o lugar ao lado dele. Ele concordou que sim e ela se sentou, com Ryan indo para o outro lado.
- O que estavam fazendo era só para chamar atenção - disse o rapaz.
- Se chama "cabelografia" - disse ela.
- O quê? - perguntou o homem.
- "Cabelografia". Todo aquele movimento de cabelos era só pra disfarçar que não são boas dançarinas e os vocais não são tão bons - disse Ryan.
- Confia na gente. Não devemos nos preocupar - disse a garota, confiante.
No dia seguinte, o professor chegou animado na sala de aula.
- Beleza, gente. Pensei um pouco ontem à noite, acho que encontrei um novo número pras Seletivas. Vamos fazer a música tema de Hair. Esse musical iniciou uma revolução.
- Já usavam moicanos naquela época? Como nos anos 20 ou sei lá - perguntou Puck.
- Você nunca viu nas fotos de época? Fazia o maior sucesso em Londres - disse Ryan, pensando em como alguém podia ser burro desse jeito.
- Sr. Schue, se vamos fazer uma música sobre Hair não devíamos ter mais cabelo? - disse Finn.
- Estou um passo a sua frente. Aqui estão suas perucas - jogou uma bolsa com várias perucas dentro e os alunos foram todos alvoroçados pegar as suas.
Rachel se levantou, puxando Ryan. O rapaz olhou para ela impaciente.
- Eu tenho mais o que fazer, sabia?
- Cala a boca! - disse, antes de chegar perto do professor. - Sr. Schuester, o que está fazendo? Já somos bons do nosso jeito não precisamos de "cabelografia". Isso é só uma distração.
- E nós falamos com o senhor ontem sobre isso. É feio ignorar a opinião dos outros desse jeito, sabia? - Ryan comentou.
- Tenho que ser honesto - o professor suspirou. - As garotas do Jane Addams me assustaram um pouco. E estou preocupado com nossa chance nas Seletivas. Temos que usar tudo, se quisermos ganhar - olhou para trás, onde os alunos estavam já vestindo suas perucas. - Estão ótimos, galera.
Na casa de Ryan, bem depois do ensaio, ele olhava vários ternos de apresentações anteriores de piano para saber qual vestiria no jantar com a mãe de Sophia. Aquilo estava fazendo ele surtar completamente. Ele nunca tinha conhecido a mãe de uma namorada, já que nunca tinha namorado. E nem ao menos podia conversar com seu pai sobre isso sem todo o discurso de que ele era especial e não tinha tempo para garotas. Então a única pessoa que ele podia mesmo falar estava lá, o que não ajudava muito.
- Sr. Schue está deliberadamente tentando nos destruir, não é possível - tagarelava Rachel. - Ele sabe muito bem que "cabelografia" só serve para esconder os defeitos de um grupo e, se ele está fazendo isso, quer dizer que não somos tão bons assim, o que é totalmente uma mentira e...
- Você pelo menos respira enquanto fala? - disse o garoto. - Eu te chamei porque preciso de ajuda!
- Ah, qual é, Ryan? Você é o genro que toda sogra pediu. Você estuda, é judeu, tem uma carreira de sucesso pela frente e ainda não transou com a filha dela, o que te dá um ponto em resistência.
- Rachel! - disse ele, ficando vermelho.
- O quê? Você não fez mesmo! - disse ela, como se não tivesse nada a ver. - Não tem problemas ser virgem, sabia?
- Meu problema é minha prima ficar falando sobre isso... - disse ele. - Eu estou aterrorizado com o que pode acontecer amanhã. E se ela não gostar de mim? E se proibir a Sophia de falar comigo? E se eu passar uma vergonha tão grande que a família dela nunca vai esquecer e quando estivermos casados e...
- Casados?! - disse ela, assustado.
- Eu disse isso em voz alta? - o garoto se sentou ao lado dela.
- Vocês vão se casar?
- Em um futuro bem distante - assegurou ele. - É só que... Sabe quando você encontra aquela pessoa e não consegue mais respirar longe dela, só a ideia de ficar sem já faz sua vida toda perder o sentido? Não sou mais ninguém sem a Sophia. Eu não era ninguém sem a Sophia.
- Uau - suspirou Rachel. - Você gosta mesmo dessa garota...
- Sim...
No dia seguinte, Ryan mexia em seu armário quando viu as cheerleaders passando em sua frente direto para o ensaio com Sue. Do meio delas veio Sophia lhe dar um beijo de bom dia.
- Nervoso por hoje? - disse ela.
- Muito.
- Não fique. Já gritei com minha mãe umas 20 vezes ontem, então qualquer um que falar baixo enquanto estiver com ela vai ser extremamente agradável - ela sorriu e só aquilo fez ele acalmar todos seus medos.
- Ok - disse, quase sem fôlego. Foi quando os dois viram Rachel com um vestido preto super provocante indo falar com Finn.
- O que diabos... - disse Sophia. - O que houve com ela?
- Não tenho ideia.
Ela foi para o ensaio e ele seguiu a prima.
- O que é isso? - perguntou, ao encontrá-la.
- Ficou legal? - ela sorria orgulhosa.
- Sim, mas... Cadê a minha prima que usava aquelas roupas estranhas, mas que ela realmente gostava?
- Pessoas podem mudar - disse ela. - E eu mudei - saiu caminhando, confiante.
Ryan apenas balançou a cabeça - Eu não tenho tempo pra isso...
Ryan estava na porta da casa dos Puckermans. Ele respirou fundo. Usava um terno preto bem elegante que seu pai gostava. Teve que se trocar na casa de Rachel para que ele não desconfiasse de nada. Ficou um tempo do lado de fora tentando se recompor, quando alguns vizinhos repararam e começaram a estranhar. Sorte a sua que Sophia tinha saído naquele exato momento.
- Oh, meu Deus - gritou ela, tomando um susto. - O que você está fazendo aqui?
- Tentando respirar - dizia ele.
- Você está tão nervoso assim?
- Sim!
- Minha mãe não morde. Ela só gosta de gritar ás vezes. E você sabe que, não importa o que ela diga, não vou te deixar.
- Mesmo? - perguntou, inseguro.
- Mesmo, porque eu te amo. Já te disse isso, lembra?
- Sim. Eu te amo também - disse antes de entrar com ela de mãos dadas.
Lá dentro, se surpreendeu ao ver Puck com uma camisa social bem alinhada arrumando a mesa que eles iriam comer.
- Cadê a sua mãe? - ele perguntou.
- Trabalhando... - disse Puck. - E eu tenho que ficar usando essa coisa ridícula.
- Por que você não deixou para colocar só quando ela chegar? - perguntou Ryan.
- Eu teria pensado nisso uma hora... - disse Puck, mal humorado.
Eles sentaram e esperaram por horas, vendo os filmes judeus da coleção da mãe de Sophia. Aparentemente ela tinha ficado presa no trabalho e não chegaria para o jantar. Puck, é claro, aproveitou para sair e eles ficaram lá mais um tempinho.
- Sinto muito você não ter conhecido minha mãe...
- Não sei se sinto tanto por isso - ele riu.
- Você sabe que ela vai querer te conhecer, né?
- Sim, eu sei. Mas vamos deixar para nos preocupar com isso depois...
No dia seguinte, Ryan se surpreendeu ao buscar Rachel e ver que ela tinha o rosto inchado e vermelho. Estava claro que ela tinha chorado a noite inteira.
- O que houve? - perguntou assim que ela entrou no carro.
- Nada... - mentiu ela, tentando esconder o que tinha acontecido.
- Finn de novo? - ele suspirou. Odiava ver a menina assim por um cara que ela não poderia ter. Ele tinha uma namorada, que estava grávida. Tudo era muito complicado para eles.
- Sim... Mas não foi culpa dele, foi minha.
- Nunca é culpa dele - disse o outro. - O cara fica te dando esperanças e sempre te deixa mal no final. Eu gosto do Finn, mas isso está me irritando. Vou falar com ele hoje e...
- Você não vai falar nada com ele - disse ela.
- Claro que vou. Não posso deixar ele continuar fazendo isso com você.
Ela começou a chorar de novo, fazendo o rapaz se sentir culpado.
- Não é culpa do Finn, a culpa é minha. Eu e essa minha fantasia de que um dia poderíamos ficar juntos. Ele está com Quinn e ela está grávida. Eu preciso parar, ele não está fazendo nada de errado, só está sendo meu amigo.
- Rachel... - ele disse, antes que a prima o abraçasse. - Vai ficar tudo bem...
- Você sempre diz isso... E nunca funciona...
