Capítulo 11 - A proposta

Charlie chegou cedo à Grimmauld Place no dia seguinte. Sua mãe tentara fazê-lo passar por uma inquisição sobre onde estava indo nos últimos dias, mas ele se esquivara bem. Já era adulto, a guerra já tinha acabado e ninguém tinha nada a ver com o que fazia.

Principalmente quando ele estava fazendo o que todo mundo desistira de fazer.

Entrou pela janela de novo, já que a porta permanecia vedada, e tomou o cuidado de deixá-la aberta, inclusive as cortinas, como uma garantia de que teria como sair caso algo desse errado.

O silêncio, a escuridão e a atmosfera pesada da casa eram perturbadores, e ele se perguntou vagamente se se adaptaria a isso ou conseguiria se livrar do demônio antes.

Foi direto para o quarto com a varinha em punho em passos já quase ensaiados, e encontrou Harry adormecido sobre a cama novamente.

Aquele era um momento delicado. Quando Harry acordara da última vez, seu pânico era quase latente, e Charlie entendia o medo do garoto, e sabia que sua presença era um catalisador desse medo. Mas, por outro lado, ela era também o que poderia manter Harry são e seguro.

Porém, não tinha como negar que ele mesmo sentia medo. Medo de que quando os olhos verdes se abrissem, ostentassem não a cor doce, mesmo que assustada, mas sim o brilho assassino e malicioso que já presenciara. Mas estava na hora de fazer o que ele viera fazer ali, e ele precisaria da confiança de Harry e, ao mesmo tempo, não queria que ele se sentisse obrigado a fazer aquilo como única opção.

Precisava dar-lhe liberdade, por mais perigoso que isso fosse.

E com esse pensamento, fez as cordas que prendiam o garoto à cama sumirem.

Se alertado por sua presença ou pela magia, Harry se moveu lentamente, começando a despertar. Levou alguns segundos tensos até que ele abrisse os olhos e focalizasse Charlie, sorrindo levemente. Viu-se solto e sentou-se na cama, se movendo devagar, tentando sentir cada parte do seu corpo. Quando estava confortável, encarou Charlie, que o olhava em espera.

- Você me soltou por quê?

- Porque para o que vamos fazer, eu teria que te soltar de qualquer forma, então é melhor conversarmos sobre isso e ver como você se sente.

Harry concordou com a cabeça, ainda sonolento.

- Dormiu bem? – Charlie perguntou, examinando o rosto do garoto, vendo que ele ainda parecia abatido, apesar de tudo. Não se surpreendeu quando ele negou com a cabeça.

Com um gesto de varinha, fez aparecer sobre a cama uma bandeja com um café da manhã farto.

- Cortesia de Molly Weasley. – disse em tom de brincadeira, empurrando a bandeja para mais perto de Harry, para que ele pudesse comer sozinho.

- Ela sabe que você tem vindo me ver? – o garoto perguntou, surpreso.

- Não. Na verdade, ninguém sabe. – Charlie deixou a implicação daquela frase solta no ar.

- Se soubessem, o que aconteceria?

- Eu não sei. – ele foi sincero – Acho melhor pensarmos nisso quando for necessário. Um problema de cada vez.

Harry concordou com a cabeça, começando a comer, e fez um gesto para Charlie indicando que poderia começar a falar, ele estava ouvindo.

- Como você sabe, eu trabalhava na Romênia, com dragões. E dragões são criaturas mágicas muito poderosas, e poder sempre atrai quem quer poder, Harry.

- Eu sei bem disso. – ele comentou, sorrindo fraco.

- Nós não tínhamos muita estrutura, ficávamos afastados das cidades, mesmo bruxas, e no acampamento era comum surgirem criaturas inusitadas ou mesmo acontecerem mortes ou doenças que ninguém conseguia explicar. Nós tínhamos três especialistas em Artes das Trevas acampando sempre conosco para evitar esse tipo de coisa, mas nem sempre eles conseguiam lidar com tudo.

Ele fez uma pausa, como que tentando se lembrar de algo, e então voltou a falar.

- Uns dois anos depois de Ron ir para o colégio, um cara que dormia na mesma barraca que eu teve uma febre sem motivo conhecido. Ele ficou muito mal, mas não conseguimos removê-lo para um hospital imediatamente. Todo mundo pensou que ele ia morrer, foram dois dias de tensão. E então ele melhorou. Ainda não estava completamente curado, mas já podia voltar aos alojamentos e esperar que voltássemos para a cidade para fazer exames e ver o que aconteceu. No dia seguinte, um dos seguranças foi encontrado na mata morto e estuprado. – Charlie sentiu Harry segurar a respiração, mas não se interrompeu – Foi emitido um alerta de perigo e voltaríamos para a cidade no dia seguinte, sem demora. Naquela noite, esse meu amigo que teve a febre tentou me atacar. Eu gritei e um outro segurança tirou ele de cima de mim antes que conseguisse fazer qualquer coisa mais efetiva, mesmo assim eu fiquei um dia em observação no hospital. Meu amigo morreu.

- Como morreu? – Harry perguntou, assustado, afastando a bandeja do café e se encolhendo na cama.

- Os medibruxos disseram que provavelmente foi um efeito da febre. Ele entrar em processo de alucinações, fazer os ataques e, como isso consumia energia e ele estava fraco devido à doença, ele veio a falecer. Mas eu conversei com um dos especialistas do grupo, e ele me falou da teoria do incubus. Eu me propus a ajudar a desenvolver uma forma de proteger o grupo de ataques futuros e acabei aprendendo um pouco sobre o assunto.

- Então você sabe o que está acontecendo comigo? – havia tanta esperança na voz de Harry que Charlie se questionou se seria correto fazer algo tão incerto com ele.

- Escute, Harry. O que eu estou te contando veio de alguns estudos que eu fiz e um pouco do que ouvi falar e muita dedução juntando os fatos. Eu não tenho certeza sobre o que está acontecendo com você ou mesmo se o que vamos tentar vai dar certo, mas...

- Mas é tudo o que eu tenho. – Harry disse com a voz baixa e Charlie concordou com a cabeça, olhando fundo nos olhos verdes, antes de continuar.

- Juntando tudo, enfim, eu acho que, quando você morreu no processo de destruir a horcrux, o demônio tomou seu corpo. É uma experiência de quase morte, e por isso você tem delírios com borboletas, elas marcam a passagem da alma, quando o demônio se manifesta de forma forte demais, você volta ao estado de quase morte em que ele te encontrou.

Harry engoliu em seco. Ele sentia aquilo, aquela fraqueza e aquela impotência e o bem estar de voltar após os ataques do demônio.

- O incubus – Charlie continuou suas explicações – se alimenta da energia vital das pessoas durante o sexo. Mas ele mesmo não tem sexo definido, e é nisso que está a nossa chance.

- Como assim? – Harry perguntou, confuso.

- Harry, você pode não se lembrar, mas em todas as vezes que o demônio atacou alguém com o seu corpo, ele foi o ativo da relação. Os incubus são originalmente criaturas femininas. Eles fazem sexo com homens, absorvendo o sêmen, e com isso conseguem mudar de forma e fazer sexo com mulheres. O demônio que está em você não mudou de forma porque nem recebeu sêmen, nem utilizou o que tem guardado para fecundar ninguém. Há a chance... Veja bem, eu não tenho certeza, mas pela lógica, se ele, ou você, no caso, for passivo em uma relação...

- Ele vai ser forçado a deixar meu corpo para mudar de forma. – Harry completou o raciocínio do homem e Charlie quase se sentiu aliviado por aquilo.

Ele pensou muito antes de ir ali com aquela proposta para Harry, não só pelo que ela significava, mas principalmente pelo que significava fazê-la a alguém que já devia estar tão fragilizado quanto àquele assunto quanto Harry. E, naquele momento, ouvindo a voz firme do garoto exprimir a possibilidade de ele fazer sexo com alguém somente para se libertar do demônio, o fazia pensar o quanto ele ainda poderia suportar entre tudo o que exigiram dele, a vida inteira.

- E você quer me ajudar com isso, Charlie?

Charlie o encarou por alguns minutos, pois aquele convite não sairia da boca de Harry, era mais provável que viesse do demônio e sua lógica de sedução. Mas os olhos estavam calmos de uma forma limpa e a voz não era fria, somente firme demais, e podia ser algo que Charlie não esperava que Harry sequer concordasse, quanto mais propusesse para ele, mas, afinal, era naquele ponto que ele mesmo queria chegar desde o início da conversa. Era o que eles, juntos, precisavam fazer.

- Sim, se você concordar. Harry, eu não quero te forçar a nada, nem que você pense que tem que fazer isso. Eu só acho que pode ser uma chance.

- Mesmo se você me forçasse, não seria injusto depois de tudo o que eu fiz. Você poderia até alegar que não forçou a mim, mas ao demônio, afinal, foi o que ele fez com seu irmão, não? – Harry disse sério, abraçando as pernas contra o peito, e Charlie se sentiu mal por ter sugerido aquilo.

- Olhe, esqueça, Harry, nós... deve haver outro jeito...

- Ou talvez não tenha. – Harry disse, seco, e Charlie acompanhou com apreensão o garoto descobrir o próprio corpo, jogando o lençol ao chão, e se deitando nu ao seu lado – Tente não deixar que ele te machuque, ok? – a voz de Harry tremia, mas havia resolução em seu rosto, seu gesto e, principalmente, nos olhos verdes.

Charlie o olhou apreensivo. Não esperava por aquilo. Não queria fazer aquilo daquela forma. Não esperava que não restasse a Harry mais... nada. Nenhum desespero, nenhuma apreensão, nenhum senso de auto preservação, nem sequer auto piedade. Ele era uma das vítimas naquela história, não merecia deitar naquela cama e ser tratado somente como um instrumento para um fim, como o demônio o vinha tratando.

Seus dedos correram pelos cabelos negros espalhados sobre o lençol ao seu lado e os olhos verdes se fecharam, esperando em silêncio que àquele toque se seguisse outro, outro e outro, e muitos mais que ele nem saberia contar, até que tudo houvesse, finalmente, terminado. E, se tivesse sorte, talvez fosse uma chance de voltar a viver.

Ou de começar.

- Você espera mesmo que eu haja assim, Harry? – a voz de Charlie era baixa, mas séria, e Harry abriu os olhos para olhar para ele – Você é quase um irmão para mim, eu te vi crescer.

- Você disse que é necessário, Charlie. E eu realmente não me importo...

- Mas eu quero que se importe. Senão, o que vai restar quando tudo terminar? – o homem perguntou com angústia – O que você vai ser? Um corpo vazio e usado, Harry?

Harry sentou-se na cama, se encolhendo, tentando se afastar do outro, mas os braços fortes do homem não permitiram, puxando seu corpo contra o dele e o abraçando. O beijo suave pousado em sua testa e um calor que ele não estava habituado a sentir com aquele contato.

- Você não precisa querer, Harry, mas eu preciso que você ao menos se acostume com a idéia de que eu vou te tocar. Talvez não precise ser algo violento. Talvez você possa se permitir até gostar. Eu estou preparado para lidar com o demônio e não vou me machucar, mas não quero que você se machuque também. Eu vim aqui para te ajudar. – a voz soava abafada contra seus cabelos e Harry percebeu que havia desespero nela também.

Ele fechou os olhos, se recostando ao peito de Charlie, e se permitiu ficar assim.

Talvez ele pudesse.

o0o

Charlie acariciava os cabelos negros jogados sobre seu peito devagar, com cuidado para não acordar Harry.

Fora um dia estranho.

Depois daquela conversa pela manhã, os dois ficaram um tempo abraçados em silêncio, e então Harry pediu para tomar banho. De verdade, com água, em um chuveiro. E Charlie providenciou aquele pedido tão simples para ele. Depois de ficar tanto tempo imobilizado na cama, Harry estava tendo um pouco de dificuldade para andar, pois, além disso, seus músculos ainda estavam debilitados pelo longo jejum, e o homem o auxiliava o tempo todo nas tarefas simples que acabavam demorando muito mais que o comum.

À tarde, ficaram na cozinha. Charlie preparou algo para comerem e depois ficaram sentados, conversando. Uma conversa vaga, sobre como estava Hogwarts e o que gostavam ou não de fazer, além de muito quadribol. O homem havia se sentado imediatamente ao lado do garoto e se preocupava em tocá-lo com a maior freqüência possível, mesmo que consciente do desconforto do outro, de não estar respeitando seu espaço. Mas Harry não pediu para ele se afastar em nenhum momento, entendendo o que ele estava fazendo.

Quando o garoto começou a bocejar, Charlie sugeriu que subissem, arrumando a cama para Harry descansar. Era fim de tarde e o sol entrava pelos vãos das cortinas em uma luz amarelada preguiçosa. Para sua surpresa, o garoto sentou na cama e o puxou pela mão, fazendo com que se sentasse também. Logo estavam acomodados naquela posição, ele encostado à cabeceira, com Harry deitado sobre seu peito, agora devidamente vestido, e Charlie começava a perceber que ele gostava de ficar daquela forma, simplesmente abraçado. E apreciava isso também.

Aquela segunda conversa havia sido mais densa. Harry lhe pedira para contar em detalhes o ataque do incubus a que sobrevivera, e voltaram a discutir o que iam fazer, se perdendo nas possibilidades de dar certo ou não, até que Harry ficara quieto e adormecera.

E agora, Charlie via a luz sumindo e o sol se pondo e sabia que precisava ir.

Mas não queria.

Estava confortável e não queria deixar Harry sozinho. Queria estar ali se ele tivesse delírios durante a noite e queria que ele soubesse que poderia confortá-lo. Que não era somente chegar ali e transar com ele, que ele estaria lá antes e depois disso, para o que Harry precisasse.

Com cuidado, o homem deslocou o corpo menor, se levantando sem jeito da cama, e o cobriu. Não o amarrou, queria demonstrar a Harry que confiava nele e na capacidade que ele tinha de governar o próprio corpo. Saiu do quarto, deixando a casa com um peso no peito.

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NA: So... it's happening.

Capítulo postadinho como o prometido, para variar, crianças ^^

Espero que gostem e bom fim de feriado o/

Beijos