Chegando em casa, as meninas contaram aos pais o compromisso firmado com Mrs. Philips, e não houve objeções. O resto do dia e o dia seguinte passaram-se sem grandes novidades. Mr. Locke continuava com seu elogio a Lady de Bourgh, mas Kate percebeu que as atenções que antes ele dedicava a Jane eram, agora, dirigidas a sua pessoa. Intimamente, perguntou-se o que poderia significar aquilo, mas não chegou a uma resposta que fosse satisfatória. Acabou por deixar o assunto de lado, ansiosa que estava por encontrar Mr. Wickham novamente.

Como o compromisso acabaria tarde, as irmãs e Mr. Locke utilizaram a carruagem. Mr. Bennet, que detestava este tipo de reunião em casa de sua cunhada, recusou-se a ir, e Mrs. Bennet, esperando que Mr. Locke e Kate se entendessem, também não foi, já que sua presença na carruagem forçaria Mr. Locke a viajar na boléia, junto com o cocheiro. Quando chegaram à casa de Mrs. Philips, vários convidados já estavam presentes, e logo todos estavam integrados as conversas.

Mrs. Philips apoderou-se de Mr. Locke, frustrando os planos deste de passar a noite ao lado de Kate. Mas a admiração que a senhora demonstrava por tudo que Mr. Locke relatava acerca de Rosings Park e Lady de Bourgh era tão grande, que compensou plenamente sua frustração.

Antes do jantar, Mr. Wickham tinha circulado pela casa, conversando agradavelmente com todas as pessoas. Seus modos eram agradáveis, gentis e destituídos de afetação. Todas as moças presentes só tinham olhos para ele, e conversavam entre si quem seria honrada com sua proximidade durante o jantar. Para surpresa de todos, a escolhida foi Kate Bennet.

Kate e James entabularam uma conversa agradável, começando pelo tempo e enveredando por diversos outros assuntos. Kate refletia como era estimulante uma conversa em que a outra pessoa se expressava com tanta graça e desenvoltura, tornando todos os assuntos interessantes. Mas, infelizmente para Kate, Wickham não tocava no assunto que mais lhe interessava no momento: a história de sua relação com Darcy.

Após o jantar, foram colocadas as mesas para o jogo. Kate ficou na mesma mesa da irmã mais nova, e teve medo de que Claire, com todo seu entusiasmo, absorvesse Mr. Wickham, que tinha vindo observar o jogo. Mas Claire adorava uíste, e logo os pontos chamavam mais a sua atenção que a presença de Wickham na mesa. Foi o rapaz quem iniciou a conversa:

- Faz muito tempo que Mr. Darcy mora em Netherfield Park?

- Há cerca de 1 mês. Ele é hóspede de Mr. Bingley.

- Não conheço Mr. Bingley. O mesmo não posso dizer de Mr. Darcy, infelizmente.

- Mr. Darcy não é benquisto no Hertfordshire. Sua arrogância e orgulho desagradaram a todos.

- Minha cara Miss Bennet, a senhorita diz isso por estar no seio de sua própria família, entre amigos. A senhorita não diria tal coisa em outro lugar.

- Acredite-me, Mr. Wickham, minha opinião seria a mesma em qualquer lugar, e eu a exprimiria nestes mesmos termos, independentemente das pessoas que me rodeiam.

- Pois sua opinião causaria espanto em muitos lugares. Mr. Darcy é reconhecido pelo seu bom caráter e conduta.

- Pois aqui só lhe reconhecemos má vontade, vaidade e esnobismo.

- Eu não posso julgar tal pessoa, já que meu julgamento seria imparcial, visto que o conheço profundamente.

- É mesmo? Kate perguntou, sua curiosidade aumentando cada vez mais, mas não ousou perguntar mais nada, concentrando-se no seu jogo.

Depois de um pequeno silêncio, Wickham percebeu que Kate não retomaria o assunto, e reiniciou:

- Eu e Darcy fomos criados juntos desde pequenos, praticamente como irmãos. Meu pai era o encarregado dos negócios do finado Mr. Darcy, inclusive de sua maior propriedade, Pemberley. Eu e Darcy estudamos, brincamos e crescemos juntos. Mas o pai dele sempre gostou mais de mim, o que fez Darcy sentir muito ciúme.

Kate apenas assentia com a cabeça. Não conseguia imaginar Mr. Darcy como criança. Wickham continuou:

- O finado Mr. Darcy sabia que minha maior vontade era ingressar na carreira religiosa, por isso me garantiu os estudos necessários e uma posição em uma de suas propriedades, assim que houvesse uma vaga. A morte de Mr. Darcy ocorreu poucos meses após a morte de meu próprio pai, e em seu leito de morte, ladeado por nós dois, ele reafirmou a promessa que havia feito a meu pai, de me presentear com a reitoria de uma de suas propriedades. Como pode ver, isso não aconteceu.

- Mr. Darcy não cumpriu ma promessa feita pelo pai antes de morrer? Isso é absurdo, ainda mais para ele, tão cioso de sua posição social.

- Foi o que aconteceu. Quando finalmente a vaga que me era destinada ficou livre, me apresentei para tomar posse dela, mas Darcy disse que nada havia por escrito, e negou-se a me ceder a posição. Desde então, tenho vagado pelo país, em busca de uma posição melhor, e agora me encontro como um humilde soldado de regimento.

- Como um homem que pratica um ato desses pode ser bem visto por tantas pessoas?

- Reconheço que entre as pessoas de seu próprio meio social, Darcy mostra seu melhor lado. É generoso, mas sua generosidade é apenas sintoma do orgulho que têm por sua posição. Como é este Mr. Bingley, que o hospeda?

- Mr. Bingley é o oposto completo de Mr. Darcy. É afável, nem um pouco orgulhoso, de boas maneiras. Tenho certeza que ele não deve conhecer este outro lado do amigo.

- Certamente que não. São os dois de mesma posição social e fortuna, e entre seus pares Mr. Darcy é um verdadeiro cavalheiro. A irmã de Darcy, Georgiana, também está em Netherfield?

- Não. Mas a irmã de Mr. Bingley fala constantemente na moça. Parece gostar bastante dela.

- Muitas horas de minha vida dediquei a entreter Georgiana Darcy, quando ela ainda era uma criança. Infelizmente, ela tornou-se tão orgulhosa e arrogante quanto o irmão. Mas é uma bela moça de dezoito anos, agora.

- Espero que suas relações com Mr. Darcy não comprometam seus planos de estadia em Meryton.

- De maneira alguma. Nada devo a este senhor, e minha consciência em relação à família Darcy está tranqüila, principalmente em memória de meu protetor. Se minha presença o incomodar, deve ser ele a mudar-se. De minha parte, nenhuma palavra será dita contra ele.

Em outra mesa, Mr. Locke era parceiro de jogo de Mrs. Philips, mas jogar não o impedia de elogiar constantemente Lady de Bourgh, dizendo que graças a ela poderia se dar ao luxo de perder alguns centavos no jogo, sem que isso afetasse suas finanças. Mr. Wickham voltou-se para Kate:

- Deve saber que Lady de Bourgh é tia de Mr. Darcy.

- Não tinha a mínima idéia.

- Lady de Bourgh e Lady Anne, mãe de Mr. Darcy, eram irmãs. Lady de Bourgh consegue ser ainda mais orgulhosa que Mr. Darcy.

- Meu primo, Mr. Locke, a elogia bastante, mas eu percebo que as atitudes de tal senhora não são tão dignas de elogios como meu primo faz pensar. Ele está deslumbrado com a posição social de Lady de Bourgh.

- Lady de Bourgh e Lady Anne prepararam o casamento de Mr. Darcy e Miss de Bourgh desde o berço. Eles estão destinados a reunir as propriedades das famílias.

Kate pensou em Miss Juliet, e em como seus esforços em atrair a atenção de Darcy eram em vão, se ele estava mesmo destinado a um casamento arranjado com a prima. Divertiu-se secretamente com a idéia de revelar o plano à moça, mas sabia que tal evento ficaria apenas em sua imaginação. Nunca seria capaz de fazer semelhante coisa.

Neste momento o jogo encerrou-se, as mesas foram retiradas e Mr. Wickham apressou-se em repartir suas atenções com os outros convidados. Kate não se ressentiu.Tinha muitas coisas em que pensar, e sua indignação contra Darcy crescia cada vez mais. Horrorizava-se com a atitude tomada contra a resolução expressa do pai, o que jogara o pobre Mr. Wickham em uma situação de constante penúria, vivendo agora com o parco soldo de integrante de um regimento de milícia. Após a ceia, apertaram-se na carruagem, onde cada um falava para todos e para ninguém, Mr. Locke e Claire competindo na exuberância de detalhes da reunião, dos jogos, do jantar, da ceia e dos convidados. Apenas Kate vinha calada.

Assim que entraram no quarto, Kate contou a Jane tudo que Mr. Wickham tinha lhe dito, terminando a história da seguinte maneira:

- E então, minha querida Jane, como você vê esta situação toda, você que sempre procura o melhor em todas as pessoas. Há justificativa para a atitude de Mr. Darcy, em relação à Mr. Wickham?

Jane ficou pensativa, e depois de alguns minutos respondeu:

- Reconheço que é uma situação embaraçosa, mas Kate, pode haver detalhes que não conhecemos, não escutamos a versão de Mr. Darcy. Pode ter havido um mal entendido sobre a propriedade destinada a Wickham, por exemplo.

- Jane, querida desta vez você não pode justificar a atitude um sem pensar mal do outro. E garanto que não houve mal entendido algum. Foi a personalidade egoísta de Mr. Darcy que o levou a isso.

- Kate, continuo a pensar que houve algum mal entendido. Mas posso perguntar a Mr. Bingley se ele sabe alguma coisa sobre o assunto. O baile está próximo.

- Sim, mas não deixe que este assunto estrague seu divertimento.

Deitaram-se, mas foi difícil para Kate conciliar o sono neste dia. Muito pensou, e a cada vez mais se convencia da inocência de Mr. Wickham e da vilania de Mr. Darcy. Adormeceu com um nome nos lábios: "James..."